Boicote aos vôos em Congonhas já começou


Imagem da campanha do Idec

Desde as primeiras horas do acidente com o avião da TAM, ouvintes-internautas têm enviado mensagens sugerindo boicote ao aeroporto de Congonhas. Por telefone, houve quem defendesse o fim das operações em sinal de respeito as cerca de 200 pessoas mortas, na terça-feira à noite.

Laiz Dietschi, por exemplo, entende que o boicote “seria o melhor recado da sociedade para que as autoridades pensem sobre a minimização dos riscos de uso do aeroporto”. Cátia Soares escreveu lembrando que “sem ação da sociedade o governo se manterá paralisado”, enquanto o ouvinte-internauta Christian BuenaVista propôs “um abraço da sociedade no aeroporto de Congonhas” para sinalizar o bloqueio as operações de vôo.

As reações já ocorrem publicamente em diferentes segmentos. Na edição da noite de ontem (quinta-feira), o Jornal da Record apresentou editorial, lido pelo apresentador Celso Freitas, em que anuncia o boicote oficial a Congonhas até que a situação de segurança seja modificada. Nenhum funcionário da empresa poderá voar em aviões que operem em Congonhas.

O Instituto de Defesa do Consumidor lançou oficialmente o boicote contra Congonhas. Quem pretende apoiar a iniciativa do Idec pode acessar a página http://www.idec.org.br onde está à disposição abaixo-assinado pedindo o fechamento do aeroporto. O documento será enviado ao presidente Luis Inácio Lula da silva.

O crime da ranhura: Infraero está em uma sinuca de bico

Oded Grajew, do Instituto Ethos e a frente do projeto Nossa São Paulo, lembra que a Infraero está em uma “sinuca de bico” com a liberação da pista principal do aeroporto de Congonhas sem a realização das ranhuras transversais, chamadas tecnicamente de grooving.

O empresário diz que se as ranhuras não são importantes, a Infraero vai cometer um crime ao gastar dinheiro público em obra desnecessária; se as ranhuras são fundamentais e a pista foi liberada sem a obra, a Infraero já cometeu o crime.

Na cama, moradora conta aviões irregulares

Vizinha do aeroporto de Congonhas desde 1954, Lygia Horta é uma das mulheres que lutam para reduzir os riscos a segurança e a saúde provocados pelo excesso de aviões. Ela fundou a Associação dos Moradores do Bairro de Moema em 1987 e uma das metas era limitar o horário dos vôos.

Filha de um servidor público que trabalhou na construção do aeroporto, Lygia falou ao CBN SP que, há cerca de duas semanas, a associação obteve liminar que proíbe as empresas aéreas de operarem das 11 da noite às 6 da manhã. No entanto, a norma segue sendo desrespeitada.

Lygia Horta contou que, atualmente, fica deitada na cama, enquanto tenta dormir, anotando o número de vôos que chegam ou partem de Congonhas fora do horário determinado pela justiça.

Ouça a entrevista na qual Lygia Horta conta como era a relação da cidade com o aeroporto de Congonhas na década de 50:

Arremeter, arremeter, arremeter

A rádio falou e a TV mostrou. O avião da TAM, este aí da foto, arremeteu hoje cedo no aeroporto de Congonhas. Os passageiros ouvidos pela repórter Vanessa Di Sevo, da CBN, disseram que a operação foi tranquila.

Arremeter poderia ter sido uma das tentativas do piloto do airbus da TAM que se acidentou, em Congonhas.

Mas, afinal, o que é arremeter ?

O especialista em segurança de vôo Roberto Peterka, perito aposentado do Departamento de Investigação e Prevenção de Acidentes do antigo Serac, explicou no CBN SP:

MORTE NO AVIÃO

Está no Ancelmo Gois, a reprodução de trechos do poema de Carlos Drummond de Andrade:

Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre
Saio para a rua. Vou morrer.
Não morrerei agora. Um dia

(…)

A morte dispôs poltronas para o conforto da espera.
Aqui se encontram os que vão morrer e não sabem.
Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido, pequenos serviços cercam de delicadeza nossos corpos amarrados.
Vamos morrer, já não é apenas meu fim particular e limitado, somos vinte a ser destruídos, morreremos vinte, vinte nos espatifaremos, é agora.

(…)

Ó brancura, serenidade sob a violência da morte sem aviso prévio, cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico golpe vibrado no ar, lâmina de vento no pescoço, raio choque estrondo fulguração rolamos pulverizados caio verticalmente e me transformo em notícia.

Apertem os cintos: ninguém sabe quem manda

A manchete acima está em O Globo, desta quinta-feira. Na reportagem de Cristiane Jungblut e Geraldo Doca, o jornal afirma:

“Sobram autoridades e siglas, mas faltam comando e gestão na aviação, dizem especialistas e parlamentares … A crise aérea agravada com o segundo grande acidente aéreo em dez meses reacendeu a polêmica sobre a falta de comando no setor da aviação civil. Parlamentares e especialistas afirmam que há uma crise de gestão e apontam o Ministério da Defesa como o elo mais fraco neste momento”

No CBN SP desta quarta-feira, a diretora do Emurb Regina Monteiro, que atua desde a década de 90 com o objetivo de reduzir as operações de vôo em Congonhas, afirmou que uma das dificuldades nas conversas com autoridades era saber quem manda no que e quem manda em quem. O mal é antigo.