Nasci num centro interplanetário chamado Mooca. Fica em São Paulo, a uns tantos metros do marco de fundação desta minha cidade. Dentre muitas outras, uma recordação da minha infância é a velha porteira da Mooca — aquele ponto onde a rua da Mooca cruzava a linha de trem da antiga São Paulo Railway. A porteira era um grande portão deslizante que um funcionário empurrava para fechar o trânsito e dar passagem aos trens. Era também o nome do cruzamento: a internacional porteira da Mooca!
Havia nesse ponto uma passarela de aço para os pedestres: alta, escadaria abundante, com vista para todos os lados da cidade. Sentados nos degraus mais acima, crianças, eu e meus primos, jogávamos adivinhações sobre os próximos trens que passariam pela porteira: locomotivas vermelhas da rede, composição metálica do suburbano, vagões de carga de toda geometria e todo formato, numerados ao acaso.
Era um brinquedo parecido com o que já foi do gosto dos meninos ingleses: o trainspotting, em que se adivinhava ou memorizava o número do trem que passaria na estação. Brincadeira que nos unia em semelhanças – mooquenses e londrinos – por uma coincidência inconsciente e coletiva infantil. Era genial!
Hoje, a porteira da Mooca foi substituída por um viaduto, professor Alberto Mesquita de Camargo — ícone do bairro, fundador da escola São Judas, uma grife da Mooca, e professor de Português e Latim de minha mãe Marina Stella, no tempo em que ela fez ginásio numa pequena escola na rua Clark: berço da Universidade São Judas. Marina Stella ( ou Stella Maris, como lembrava sempre o latinista Mesquita) era paulistana da gema e viveu com meu pai, Giancarlo, no tempo jovem guarda da Mooca – lambretas, saias rodadas, cinemas dominicais (o Patriarca, o Ouro Verde, o Roma), bailes no Juventus…
Ah, Juventus. Grandioso! Status de corporação, da Mooca para o mundo, um jeito de ser em branco e grená. Uma espécie de exército do bem, de uma espécie de república universal: a República da Mooca!
Renato Spandri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar deste quadro, registre aqui as suas lembranças da cidade. Escreva e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidades, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Elias comemora o gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O drible de Rildo com a bola migrando de um pé para o outro e deixando os marcadores para trás foi de uma felicidade que só vendo. Tanto quanto o passe que encontrou Elias na cara do gol para fazer aquilo para o qual nasceu. Foram eles os protagonistas do lance que ofereceu ao torcedor gremista nossa primeira alegria do ano.
O mesmo Elias foi responsável por arrancar nosso segundo sorriso na noite de estreia do Campeonato Gaúcho. Com força e talento, cavou e converteu o pênalti que garantiu a primeira vitória na competição, conquistada com uma equipe totalmente formada de guris bons de bola.
Na comemoração de cada um dos gols, o entusiasmo da garotada foi contagiante.
Começo por uma cena que me marcou ainda no primeiro gol. Guilherme Guedes – o lateral esquerdo para o qual se tem depositado confiança há algum tempo, mesmo que ainda jovem, com apenas 22 anos – foi flagrado pela câmera, de joelhos, com os olhos fechados, punhos cerrados, socando o gramado, em uma explosão de alegria; revelando a satisfação de ver seu time mais uma vez no caminho da vitória.
No segundo, Elias, após estufar a rede, correu em direção a linha de fundo, socou o ar e foi encoberto por todos os jogadores do elenco. A turma do banco não se conteve. Correu serelepe em direção ao atacante expressando o contentamento que o futebol é capaz de nos oferecer. Um amontoado de guris se divertindo com o ‘trabalho’ que se propuseram fazer: dar alegria ao torcedor.
Será uma temporada difícil essa que se inicia. O desafio é conhecido por todos nós. Os riscos são enormes. A cobrança maior ainda. Sabe-se lá o que vai acontecer na próxima rodada, ao fim dessa competição ou nos demais campeonatos que farão parte desta jornada. Seja o que for, serão coisas do futebol, este esporte que escolhi para sofrer e sorrir.
Nesta quarta-feira, quando o futebol voltou, a mim foi reservado o direito de sorrir.
De um tempo para cá as empresas começaram a dar valor ao Valor. Por muito tempo confundiram Valor com preço. Grandes perdas resultaram dessa confusão. O preço eu posso definir mas o valor que tenho só posso pressupor. O único autorizado a dizer do meu Valor é o cliente. A mim só cabe fazer o certo, o verdadeiro e o belo.
Perceber e sentir o Valor é de responsabilidade do meu cliente, daquele que me coloquei a servir. Quando me deparo com gestores treinando seus vendedores a vender valor fico imaginando o enrosco que criam para as suas equipes comerciais.
Valor é uma percepção individual que alimenta e conduz a pessoa a materializar suas expectativas esperançosas. Só gente é capaz de perceber Valor.
Quando algo tem Valor, o preço daquilo perde importância, passa a ser menos determinante. Construir Valor é confiar que tudo que for feito, no foco do cliente, da maneira certa, correta em termos de ciência, verdadeira e ética em relação ao bem comum e esteticamente impecável, lindo mesmo, como a natureza se mostra, tocará a alma de um ser humano saudável em qualquer cultura.
Essa tríade – certo, verdadeiro e belo – comanda todas as iniciativas das Empresas Válidas, aquelas que sabem que o lucro é a justa paga que lhe conferem em reconhecimento ao bem que propiciam para o todo da Sociedade.
Um país se transforma em Nação através de empreendimentos válidos. Líderes desses empreendimentos ficam conhecidos como executivos estadistas e ganham o mundo como verdadeiros testemunhos de Valor.
“Os líderes que representam a empresa e a marca, os Brand Leaders, cristalizam a percepção e os sentimentos que ela projeta”
Jaime Troiano
Sempre que você ouvir a frase que dá título a este texto, é bem provável que você esteja diante de alguém que trabalhe com um ‘brand leader’ – um profissional que se destaca de tal forma dentro da empresa que personifica a marca. Pode ser o dono, o fundador, o CEO, e pode ser outro executivo que por seu trabalho se projeta na mente do público consumidor de tal forma que, além de influenciar e engajar os colaboradores da empresa, tem significado relevante no imaginário do público
“Nós sempre dizemos que branding é aquilo que constrói as histórias das marcas; os Brand Leaders ajudam a tornar essas historias verdadeiras”
Cecília Russo
Ao falar desses líderes de marcas, Jaime Troiano retomou tema que havíamos tratado no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: os embaixadores da marca. São aqueles profissionais que pela forma como se comportam levam a imagem da marca para os diversos públicos com que atuam. Que estão identificados com os propósitos e valores da marca e entendem sua importância na sociedade. Jaime diz que esses formam o exército de apoiadores e colaboradores. São necessários e importantes. Nem todos, porém, são iguais e têm o mais papel na tropa. Há aqueles que estão à frente do grupo: são os Brand Leaders.
“Quem já viu Henrique V, o filme baseado na peça do Shakespeare, lembra do discurso do rei que é capaz de mudar o resultado da guerra pela energia que ele inocula na sua tropa. Pois bem, em Branding é igualzinho”
Jaime Troiano
Rolim Amaro, o Comandante Rolim, com sua personalidade e hábito de se fazer presente no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde recebia passageiros que estavam embarcando nos aviões da TAM, diante de um tapete vermelho, é um ótimo exemplo de líder de marca. Talvez dos mais relevantes no Brasil.
Antônio Ermírio de Moraes, que comandou o Grupo Votorantim, por 40 anos, e administrou o Hospital da Beneficência Portuguesa por três décadas é outra referência. Era o típico empresário que tinha trabalhadores que gostavam de dizer: “eu trabalho com o Dr. Ermírio”.
Atualmente, temos a figura de Luiza Trajano, do Magazine Luiza; Rony Meisler, do Grupo Reserva; e Eduardo Lima, da Gerando Falcões. Todos nomes que têm essa simbiose com as marcas que representam.
“Não há um curso ou um livro para ser um Brand Leader, é uma missão que ele ou ela agarra como sendo sua suprema vocação”
Cecília Russo
Você já trabalhou com alguém com quem se orgulhasse de dizer aos amigos? Alguém para completar a frase: “eu trabalhei com ….”?
Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com Jaime Troiano e Cecília Russo.
O Sua Marca vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.
Pina, de joelhos a esqueda da foto, no palco do teatro em foto divulgação
Vim do interior de Rondônia. Sonhava em estudar, trabalhar, ganhar um bom ordenado, ajudar a minha família e ser artista. Fiz uma amiga no Orkut, que me convidou para sonhar com ela, em São Paulo. Depois de três dias, desembarquei no Terminal do Tietê. A amiga que deveria estar me esperando, nunca apareceu. Eu, não tinha o que fazer, onde morar …
Passei a perambular pelas ruas. Atordoado pelo desespero e solidão, busquei ajuda na rodoviária. Encontrei um bom homem: Kemps, segurança do terminal. Me apontou direções, me ofereceu comida, me acolheu com generosidade. Encontrei uma boa mulher: Dona Cíntia, que fazia a limpeza dos banheiros. Me deixou tomar um banho: um reconforto para a alma, que estava 14 dias sem higiene corporal.
Comi jornal velho pra enganar a fome. Me fiz palhaço contando anedotas, me humilhei para sobreviver. Do jeito que dava, fui parar na favela. Fiz o próprio barraco. Fomos desapropriados e me juntei aos sem-teto para garantir o meu … Barracos, calçadas, cortiços, pensões, no chão. Dormi onde conseguia. Em cada canto, novos amigos.
A rua me apresentou a realidade nua e crua, a educação pela pedra me transformou dono do meu destino. Criei resistência, fortaleci o espírito e me tornei solidário — aprendi com os amigos que me acolheram. Vivi quatro longos anos intensamente.
Trabalhei em trem. Vendi água, chiclete, chocolate, amendoim. Sempre fugindo dos guardas. Fui pego cinco vezes. Na última, quis desistir. Chorei no meio da plataforma. Outro amigo nasceu: Carlos Ferreira quis saber o motivo do meu choro. Disse que havia perdido tudo e não teria dinheiro para fazer o curso de teatro. Ele me emprestou um carrinho de pipoca. E novos amigos apareceram.
Como pipoqueiro, conheci Juliana Teixeira, atriz e produtora, que ao saber do meu desejo, apostou no meu talento e financiou o primeiro curso de teatro.
Subi ao palco realizando meu sonho. No dia da estreia, soube da morte de meu pai pouco antes das cortinas se abrirem. Trôpego, sem o domínio do meu corpo, segui guiado por uma força invisível. No aplauso da plateia, ouvi a gargalhada de meu pai.
Sou artista, tenho um canal no Youtube, milhares de seguidores. Milhares de amigos. O coração de cada um deles é o melhor canto de São Paulo.
José Pina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Nós estamos a espera da sua história na cidade. Escreva agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Todos os sábados, você ouve mais um capítulo da nossa cidade. Tem também no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Mais de 120 milhões de pessoas utilizam o WhatsApp no Brasil. Em função disso, é absolutamente corriqueiro, até mesmo previsível, que grupos de usuários sejam formados para debater política, eleições e pré-candidatos. Quando isso acontece, surge uma indagação: pedir votos em grupo de WhatsApp durante a pré-campanha eleitoral configura propaganda eleitoral antecipada? Vai haver multa para quem pediu? E para o candidato?
Não, não vai haver multa.
Primeiro, porque as redes sociais são distintas entre si. Segundo, porque o ambiente da postagem do Whats é privado, não sendo aberto ao público a exemplo de redes sociais como o Facebook e o Instagram. Terceiro, que em razão das duas peculiaridades anteriores, a conversa não objetivou o público em geral, mas ficou confinada aos membros do grupo. Portanto, tal comunicação é de natureza estritamente privada, restrita aos interlocutores, sem cunho de conhecimento geral das manifestações nele divulgadas. Isso justifica a prevalência da liberdade de expressão.
Quando o fato concreto reúne tais características, geralmente a postagem não ostenta potencialidade lesiva ou aptidão a ponto de comprometer o princípio da igualdade entre os candidatos concorrentes. Neste sentido, levando em conta que a “atuação da Justiça Eleitoral em relação a conteúdos divulgados na internet deve ser realizada com a menor interferência possível no debate democrático”, o Tribunal Superior Eleitoral, apreciando hipótese desta natureza, decidiu:
“…dada a sua relevância para a democracia e o pluralismo político, a liberdade de expressão assume uma espécie de posição preferencial quando da resolução de conflitos com outros princípios constitucionais e direitos fundamentais”.
Resumindo: a intransponível restrição que caracteriza esta plataforma de rede social, limitada que é aos usuários que possuem vínculos entre si e que inclusive obtiveram a aprovação do administrador para ingressar no grupo, são fatores que impedem o reconhecimento da propaganda eleitoral antecipada. Dizendo isso com outras palavras: não se trata de um meio apto ao conhecimento público do conteúdo propagado.
Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e escritor. Autor de “Campanha Eleitoral – Teoria e Prática” (Verbo Jurídico).
Durante a minha infância, frequentava o Center 3 com minha mãe. Não havia outro shopping perto de casa. Eu adorava essas visitas. Não para fazer compras. Para brincar. Havia uma rampa de acesso aos andares do shopping em espiral. Muito alta e com um corrimão feito de triângulos de vidro. Eram todos enfileirados desde baixo até o alto. Que era tão alto que se perdia na escuridão do espiral.
O prédio do Center 3, onde havia duas torres ocupadas pela Cesp – a Companhia Energética de São Paulo, foi projetado pelo arquiteto Jorge Wilheim, em 1969. Imagino que tenha sido dele a ideia daquela rampa, que poderia ter sido apenas um local de passagem de um andar para o outro, mas que era instrumento para despertar tantos sentimentos.
O espiral era incrível! Eu podia correr para cima e para baixo, quando o shopping estava vazio. No percurso, por si só uma diversão; me hipnotizava, olhando a espiral e a sequência de triângulos. Aqueles triângulos que eram ao mesmo tempo fascinantes e ameaçadores.
— Cuidado com o vidro, repetia minha mãe, enquanto eu me divertia.
Muitos anos depois, já adulta, presenciei o incêndio daquele prédio, em 1987. Meu ponto de ônibus ficava bem em frente e assisti, melancólica e triste, ao fim daquele canto de São Paulo que acompanhou a minha infância.
A implosão precisa e competente de parte do prédio, após o incêndio, foi a despedida mais paulistana que aquela obra de arte poderia ter.
Nem sempre queremos algo novo, mas, frequentemente, nesta cidade, esse algo se impõe.
Faz parte dos aprendizados dos que moram aqui
Gladys Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Aproveite e envie a sua história da cidade. Mande seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“O 5g para o ecossistema de saúde, quando a gente pensa em monitoramento remoto, seja de paciente, vai ser totalmente transformador”.
Fernando Paiva
Uma central de comando que monitora à distância a saúde dos moradores da cidade; que usa as câmeras em áreas públicas não apenas para alertar para riscos na segurança, mas que sejam capazes de identificar, através do reconhecimento facial, que os dados captados de uma pessoa demonstram desvios de padrão e enviem a ela a mensagem de que deve procurar atendimento médico. Ficção científica? No nosso imaginário, com certeza. No campo da tecnologia, nem tanto. Hoje, já existe inteligência suficiente para implantar um sistema semelhante a esse que foi descrito por Fernando Paiva, no programa Mundo Corporativo.
Como a tecnologia influenciará o atendimento aos pacientes e contribuirá com a qualidade de vida dos brasileiros foi o tema escolhido pelo Mundo Corporativo para a estreia desta temporada que marca os 20 anos do programa.
Fernando não é médico por formação. É engenheiro, estudou economia, e administração de empresas; é apaixonado pela tecnologia de informação — talvez resultado das aulas de programação que teve quando ainda estava com apenas 13 anos. Hoje, faz mestrado em internet das coisas na área médica (IoMT), na Faculdade de Medicina da USP:
“Cheguei a um momento da vida que eu gostaria de gerar mais impacto social, que traria realmente algum resultado na vida das pessoas. E a área da saúde é apaixonante porque você sabe que no final do dia, quando você vai dormir, aquele trabalho que você realizou, de maneira direta ou indireta, está salvando uma vida, contribuindo com a longevidade”.
Entusiasmado com a chegada da tecnologia 5G ao país, Fernando identifica uma série de oportunidades que devem surgir nesse mercado; e chama atenção dos empreendedores para a necessidade de se enxergar o ecossistema de saúde no Brasil para entender melhor a jornada do paciente, que se inicia muito antes dele passar por laboratórios, clínicas e hospitais:
“Essa jornada se inicia dentro e fora do ambiente da clínica hospitalar. Quando você está fazendo um tratamento preditivo ou um acompanhamento preventivo, você já está inserido no ecossistema de ‘health care’’.
Se a cidade que monitora a segurança da saúde das pessoas é realidade ainda distante dos nossos olhos, no Brasil – o que ainda exigirá um debate técnico e ético – , existem outras mudanças que logo poderão ser percebidas com a oferta do 5G. A começar pela velocidade e constância na transmissão de dados e informações que pode agilizar o atendimento do paciente ou otimizar a telemedicina, experiência que passou a fazer parte da vida dos pacientes durante a pandemia. O ‘home care’ – que permite tratamento fora de uma unidade de saúde especializada e oferece ao paciente o conforto de estar em sua própria casa e ao lado da família – será um dos sistemas mais beneficiados. O paciente poderá ser monitorado em tempo real e intervenções poderão ser feitas muito mais rapidamente.
“O 5G será uma disrupção”
Para que empreendedores e investidores entendam melhor como a internet das coisas médicas pode se transformar em oportunidade, além de conhecer o ecossistema da saúde e a jornada do paciente, Fernando Paiva deixa as seguintes sugestões;
Faça um mergulho profundo em tecnologia, porque elas são muito dinâmicas e transformadoras. É preciso conhecer o hardware, o software e a infraestutura tecnológica; isso é fundamental para o empreendedor.
Se você tem uma base muito forte em tecnologia, busque um consultoria especializada em saúde, converse com médicos e profissionais de saúde; dialogue com o meio para ter um ‘banho de loja’;
O ecossistema de saúde brasileiro tem suas peculiaridades e é extremamente conservador; não basta ter bilhões de dólares na conta para convencer que a sua solução é a melhor: é preciso falar a linguagem do setor.
Assista à entrevista completa com Fernando Paiva no Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feira, às 11 horas da manhã, na canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site http://www.cbn.com.br. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h15, no Jornal da CBN. E tem a colaboração de Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos.
E lá se vão mais de 40 anos. Cheguei em São Paulo num frio domingo de março de 1978, ao lado do meu pai, Moacir Assunção, do mano Marcondes e da mana Eva. Éramos todos adolescentes e eu conhecia a capital paulista dos postais que mostravam uma cidade com muitos prédios, uma linda praça, a República, e a Avenida Paulista, com seus enormes arranha-céus futuristas, além de cenas gerais que mostravam a selva de pedra que era essa cidade. Ao descer do ônibus, em Cumbica, bairro de Guarulhos, então com ruas de terra e grandes muros, típicos de uma região industrial, me decepcionei profundamente: “como São Paulo é feia”. Somente meses depois passaria a conhecer, de fato, a cidade, como office-boy de uma agência de turismo, na Praça da República, ao lado da qual moro atualmente. Me apaixonei perdidamente, como era de se esperar.
Enfrentei, de cara, o enorme preconceito que havia contra nordestinos – todos genericamente baianos para os paulistanos. Esses eram sinônimo de burrice, ignorância e brutalidade. Uma vez, na agência em que trabalhava, tive uma discussão com um argentino que criticava os “baianos”, citados por ele com um curioso sotaque portenho que soava assim: “baiános”. Para ele, ignorante como era, baianos eram pouco inteligentes e não eram brasileiros. Tive que esclarecer à curiosa figura que ele é que não era brasileiro e o Brasil havia começado pela Bahia. Respondi assim à acusação de burrice: “os baianos são burros mesmo, lá nasceram uns tais de Ruy Barbosa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Amado e Raul Seixas, todos muito burros”. O sujeito se calou e não falou mais comigo, o que me deu muito prazer. Descobri, depois, que os baianos foram os primeiros nordestinos a chegar, de forma organizada, na cidade, a convite do fundador da Nitroquímica, o empresário pernambucano José Ermírio de Morais, na década de 1930.
Curiosamente, nunca mais ouvi falar desse preconceito. Ninguém mais me chamou de baiano ou ouvi essa expressão de forma depreciativa. Atribuo isso ao maior conhecimento do Nordeste por parte dos paulistas e paulistanos e ao grande número de nordestinos, muito deles bem-sucedidos em vários aspectos, que há na cidade, a maior capital “nordestina” do Brasil.
Logo, comecei a andar pela cidade, pelo Centro, que nem de longe conhecia, embora tivesse dito que conhecia tudo, para conquistar o emprego que me garantiria meio salário mínimo por mês. Salário muito importante para uma família recém-chegada que vivia na periferia e precisava se firmar na cidade grande. Até então meu conhecimento da capital acabava na Penha, zona leste.
Ao andar pela cidade com minha pastinha de boy cheia de documentos, me espantava com a altura dos prédios. Vim de uma cidade pequena do interior, Trindade, em Pernambuco, onde não havia prédios. Nessas andanças, fui parar na extinta TV Tupi, no Sumaré, berço da TV brasileira, para entregar uma passagem e conheci dois grandes atores: Lima Duarte e Paulo Goulart. Ambos muito simpáticos, conversaram comigo e até pagaram a coxinha que comi na padaria ao lado.
Tempos depois, subindo a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio em direção à Paulista — eu pegava o dinheiro pra condução, mas só andava a pé, porque os trocados eram gastos em churrasco grego, cinema e fliperama — vi uma multidão acompanhando a entrada em um prédio, que sabia ser do Exército (era a Segunda Auditoria Militar) de um homem barbudo, algemado e escoltado por dois soldados. Era Lula, conforme dizia, com muito cuidado, alguém na multidão. Tempos depois, já jornalista, o entrevistei como deputado e presidente.
Posteriormente, fui trabalhar na Livraria Saraiva da rua José Bonifácio, no coração do Centro, onde se consolidou o meu gosto pela leitura. Era responsável pelas estantes de História e de Sociologia – nem de longe imaginaria que eram duas das áreas que estudaria mais à frente. Trabalhava no fundo da livraria e reconhecia o meu público. Quando via um jovem com óculos redondos, bolsa de couro e ar desleixado, tinha certeza que ia procurar livros destas áreas. E sempre acertava.
Fui, aos poucos, apesar dos problemas, me apaixonando por esta enorme cidade. Aqui, estudei, me tornei jornalista e professor e tive a oportunidade de, um dia, retribuir um pouquinho do que ela me ofereceu: mantive durante dois anos a coluna “Conheça seu Bairro” no extinto (e saudoso) jornal Diário Popular, na qual contei a história de mais de 120 bairros de São Paulo, o que me fez gostar mais ainda da maior e mais cosmopolita metrópole brasileira. Enfim, isso tudo é pra dizer que amo São Paulo, para mim a melhor cidade do Brasil, insuperável em todos os aspectos, na qual pretendo viver até o fim dos meus dias e fico feliz em saber que, depois de 42 anos morando aqui, adquiri a “cidadania paulistana”. Abraços a todos os conterrâneos.
Moacir Assunção é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Era adolescente nos anos 1960 e gostava de folhear o Guia de Ruas da Cidade de São Paulo. Se não me engano se chamava “Guia Levi”, e era vendido em bancas de jornal. Me detinha nos pontos para visita ou turísticos. Certa vez, folheando o guia, dois desses pontos me chamaram a atenção: Praia Azul e Praia do Sol.
Como assim? São Paulo não tinha praia! Na minha cabeça, praia era algo grandioso. A praia que conhecíamos de verdade ficava longe, embora já existisse a rodovia Anchieta juntamente a Estrada Velha de Santos. Era viagem de pelo menos duas horas e meia.
Não lembro como consegui a informação, se foi no próprio guia, que as praias Azul e do Sol ficavam em Guarapiranga, pra lá de Santo Amaro. Eu morava na Vila Prudente. Santo Amaro era como se fosse outra cidade, de tão longe.
Num domingo resolvi encarar a aventura. Peguei ônibus para o largo Sete de Setembro; em seguida, embarquei no bonde na avenida Liberdade. O trajeto era interessante: passava pela Vila Mariana, São Judas, Moema, Aeroporto de Congonhas, Campo Belo, numa linha reta, no meio da via, e demorava bastante, embora não houvesse trânsito. Em Santo Amaro, no Largo Treze, peguei outra condução para Guarapiranga. E depois outra, em direção à represa, onde estavam eu e mais um senhor acompanhado de dois meninos, pareciam ser seus netos.
Perguntei a ele sobre a represa e a resposta foi de que eles estavam exatamente indo pra lá. Para a praia. Ele até levava varas de pesca. Quando descemos do ônibus, do outro lado da avenida o senhor me disse: “aqui é o autódromo de Interlagos”, que era bem rudimentar na época.
Descendo pela rua de frente, que mais parecia uma trilha, havia muitas casas noturnas. Uma delas chamava-se Chez Nous, que o senhor traduziu do francês: Para nós. Não era pra mim, não! Aliás, aquele senhor explicava cada detalhe; era como se fosse um guia de turismo.
Juntos chegamos. Havia crianças brincando, pessoas pescando, alguns barcos ao fundo. Caminhei pela beira para conhecer a orla. E ainda fui convidado para o lanche em família. Nos divertimos bastante. Conheci as Praias Azul e do Sol, apesar de não ter nenhuma placa indicando seus nomes. Mas eram praias. Fluviais. Mas praias paulistanas.
Quanto ao senhor e aos meninos nos despedimos, nem ao menos o nome deles fiquei sabendo, mas me marcaram muito até hoje.
Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.