Sua Marca: 1922 o ano que não aconteceu no branding

Cartaz da Semana de Arte Moderna de 1922. Foto: Reprodução/ SMC de SP

“As repercussões dos ares de 1922 praticamente nunca chegaram à nossa vida em marketing e branding”  

Jaime Troiano

Havia um tom de lamento. De exaltação, também. Havia uma mistura de sentimentos quando Jaime Troiano e Cecília Russo propuseram uma conversa, no último programa de fevereiro, sobre o impacto da Semana de Arte Moderna de 1922 no marketing e no branding. O estrangeirismo que permanece a identificar essas duas matérias diz muito sobre as influências que realmente foram significativas na prática, aqui no Brasil. 

“Somos herdeiros diretos na mentalidade americana e europeia de como fazer branding. Os livros, os cursos, os treinamentos, os exemplos vêm sempre de lá”.

Cecília Russo

Mário de Andrade, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, e Villa Lobos, dentre outros, causaram espanto na sociedade e se surpreenderam com a dimensão que tomou esse movimento realizado em três dias oficiais de atividades, em São Paulo No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime exaltou  a influência da Semana que completou 100 anos e as raízes deste movimento que penetraram profundamente em manifestações culturais, mesmo muitos anos depois.

Lembrou o tropicalismo de Gil, Caetano e Gal, que chegou 45 anos depois também com a intenção de redescobrir o Brasil, a partir de um olhar próprio, sem vergonha de trazer referências internacionais. Jaime identificou ainda a ruptura da Bossa Nova, comparada com a época dos sambas-canção e músicas de dor de cotovelo, como herdeira na busca de algo que fosse autenticamente brasileiro.

E o branding? A gestão de marcas? 

“Tudo, ou quase tudo que se faz em Branding, é fruto de uma inspiração técnica, metodológica, conceitual do que aprendemos e do que vimos os americanos, em primeiro lugar, fazer. Em segundo lugar, com alguns países da Europa, talvez Inglaterra mais do que os demais. E em áreas como design há algumas, não muitas pistas, que vieram de países asiáticos”.

Cecília Russo

Uma crítica? Não, uma constatação, a partir de uma realidade que pode ser vista pela ótica de Eduardo Giannetti. O economista, professor e autor do livro “Tropicos Utópicos” discute o quanto nosso destino como nação oscila entre o modelo Mimético e o Profético. 

O Mimético é o que tem inspirado até hoje a nossa história, na busca pelo desenvolvimento, reproduzindo o caminho que aprendemos com países ocidentais avançados. O Profético é aquilo que é criado pelas nossas próprias tradições, pelo estilo próprio de nossa cultura sincrética de tantas origens que se mesclaram em nosso país. 

“O Profético depende de um olhar corajoso para si mesmo, para nós mesmos, como fizeram os protagonistas da Semana de 1922 nas artes. Creio que o Giannetti está sugerindo em seu livro, não é abrir mão de uma das duas visões, simplesmente. Mas a verdade é que o peso da visão Mimética tem sido absolutamente predominante, no branding”. 

Jaime Troiano

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo; e sonorização de Paschoal Júnior

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h50 da manhã.

Mundo Corporativo: Ricardo Guerra, CIO do Itau, diz que a transformação digital começa na mudança de cultura da empresa

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“Aprender o que a tecnologia de hoje significa, como é que ela é utilizada, como é que ela faz parte do business, propriamente dito: esta é, sem dúvida nenhuma, o grande desafio para as empresas”

Ricardo Guerra, Itau

Sabe o cara da TI? Mudou de cara! Antes era o jovem que você chamava para dar um jeito no computador da empresa que estava lento, ajudar a baixar um programa e, quantas vezes, resolver uma questão crucial para começar o trabalho: “esqueci minha senha”.  Não que esse cara não esteja lá para dar aquela força, mas a tecnologia da informação, há muito tempo, mudou seu perfil: de área de suporte para a de estratégia.  Falei do assunto com Ricardo Guerra, CIO do Itau, instituição que atua no setor bancário um dos que sofreram maior impacto com a transformação tecnológica.

“Se voltarmos uns 20 anos, até menos, a tecnologia era vista pelas empresas como uma área de apoio. As empresas terceirizavam a tecnologia. Era uma grande fábrica de projetos. Eu tenho uma ideia e a tecnologia me entrega para que esta se torne realidade”

Das mudanças que surgiram, Ricardo pontuou o fato de as empresas terem passado a usar a tecnologia como vantagem competitiva, especialmente aproximando-a do cliente:

“ … para que a tecnologia entendesse qual o problema do cliente, onde estão as oportunidades e como é que ela trabalha para agregar valor pra organização no fim do dia”.

Toda esse progresso exige muito mais dos profissionais de tecnologia de informação. Um aprofundamento em temas que pareciam distantes da área como a antropologia, porque no momento em que se pensa em soluções para as pessoas é preciso entender o comportamento delas. O Ricardo, nosso entrevistado, assistiu a essa evolução dentro do próprio Itau, onde trabalha desde 1993. Para ter ideia, o grande passo tecnológico naqueles anos iniciais foi a implantação do primeiro site do banco na internet brasileira:

“Foi em 1995. Foi uma experiência incrível, porque foi uma inovação tecnológica gigantesca para gente. Não tínhamos o conhecimento para isso. Muitos de nós, tiveram que parar para estudar que tipo de tecnologia a gente estava falando. Era desconhecido! Tivemos que parar para profissionalizar o uso da internet para que a gente pudesse levar isso até o cliente. Foi um momento de carreira muito interessante de muito aprendizado”.

A complexidade da transformação tecnológica — termo usado pelo Ricardo na nossa conversa —- impõe desafios aos líderes que estão à frente das equipes de trabalho, como é o caso dele que assumiu o cargo mais alto na área da tecnologia do banco, o de Chief Information Officer. Na entrevista, o CIO do Itau identificou três ações importantes que os líderes devem realizar. O primeiro movimento foi uma mudança de metodologia de trabalho mais ágil, mais integrado, mais colaborativo e mais próximo do cliente e do negócio. Apenas com essa mudança cultural foi possível dar o segundo que foi um processo mais agressivo de mudança tecnológica. E o terceiro passo foi a integração da tecnologia com as diversas áreas do negócio.

“E tudo isso embasado por uma grande mudança cultural de empoderamento, de menos hierarquia, de mais leveza no trabalho. Aqui tem uma série de elementos de mudança de ambiente de trabalho, de mudança de como os líderes falam e incentivam as pessoas, inspiram as pessoas”.

No começo da nossa conversa, Ricardo não aceitou o título de o “cara da tecnologia”, disse que o setor depende de dezenas de outras pessoas, do trabalho em equipe e da colaboração. Agora, com certeza, ele tem a cara dos novos profissionais de tecnologia, porque apesar de ter iniciado sua carreira há 29 anos, soube mudar sua forma de atuar, pensar e liderar equipes.

Assista à entrevista completa com Ricardo Guerra, CIO do Itau, no Mundo Corporativo, que está completando 20 anos: 

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos. 

 “Navio de guerra russo, vai se f….”

O palco da batalha foi um pequeno pedaço de terra, insosso, rochoso e isolado no meio do Mar Negro. Durou pouco tempo. O navio russo passava por ali e tinha coisa mais importante para fazer: estava a caminho do porto de Odessa, alvo principal da frota que iniciava a invasão da Ucrania. Deparou com 13 guardas de fronteiras que prestavam serviço no local. E sem muita disposição para negociar, um dos tripulantes anunciou:

“Sou um navio de guerra russo!”

Na sequência, deixou evidente suas inteções:

“Baixem as armas, se rendam e evitem que se derrame sangue e morram pessoas desnecessariamente. Caso contrário serão bombardeados”

A resposta veio de forma inusitada por um dos soldados que estavam em vigília:

“Navio de guerra russo, vai se fuder!””

Os 13 guardas foram fuzilados sem dó.

A história que se passou na Ilha da Serpente foi gravada pelo sistema de segurança, divulgada no portal de notícias Ukrayinska Pravda, e confirmada por um funcionário ucraniano ao The Washington Post. Está nas redes sociais. É destaque no TikTok com uma cena na qual parece ser um guarda de capacete e balaclava praguejando, depois de ter sido atingido pelo fogo. Seria um jovem de 23 anos que morava no porto de Odessa, que viria a ser atacado depois pelos russos.

O presidente Volodimir Zelenskii anunciou que os 13 guardas receberão o título de “Heróis da Ucrânia”, a maior honra que um lider ucraniano pode conceder.

(com informações do jornal português Público)

Conte Sua História de São Paulo: meu time de amigos da rua Tupi

De Hélio Roberto Deliberador

Ouvinte da CBN

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Cheguei em São Paulo, em 1961, vindo da cidade de Londrina, norte do Paraná, onde nasci. Era vizinho da família do Prof. Mário Sergio Cortella, de quem me tornei amigo, quando nos encontramos na PUCSP. Nessa universidade, estudei e me tornei docente. Até hoje, tenho o privilégio de frequentar o bonito prédio, que a cidade conserva, nas terras altas de Perdizes.

Quando chegamos em São Paulo, eu, então um garoto de 6 anos, e minha família fomos morar em um pequeno prédio na Rua Tupi, no bairro do Pacaembu. Havia sido construído por um senhor imigrante, que sonhava com uma cidade de prédios baixos, valorizando a paisagem urbana. Esse prédio tem uma arquitetura que lembra construções de velhas cidades da Europa e, entre seus moradores, ainda vive umas das filhas (quase centenária), desse construtor, guardando a memória de outros tempos dessa cidade. No prédio foram gravadas cenas da série da TV, Segunda Chamada.

Assim, recém-chegado, passei a viver naquele espaço de São Paulo, uma cidade que crescia, e ainda era amistosa para as crianças. Fiz amigos na rua, que eram vizinhos. Ali, fui crescendo e aprendendo as brincadeiras compartilhadas pelas crianças da época. Para dizer da amabilidade paulistana daqueles tempos, contarei a vocês nossas experiências de infância como jogadores de futebol da rua. Treinávamos na Tupi e o gol era delimitado pelo poste da esquina com a Rua Dr Veiga Filho, uma íngreme ladeira, onde, no alto, fica o Hospital Samaritano, também prédio ainda preservado na cidade e bastante bonito de se ver. 

O meu time mandava seus jogos nos jardins de frente do Estádio Municipal do Pacaembu, na Praça Charles Miller.

Eram tempos dos jogos do Santos de Pelé e Cia. E, nós, garotos, ingenuamente, sonhávamos um dia também sermos jogadores profissionais. Às vezes, assistíamos aos jogos no estádio, para o que pedíamos a torcedores pagantes que nos acompanhassem para entrarmos de graça. Na época, o Pacaembu exibia a Concha Acústica, onde depois foi construído o Tobogã, recentemente demolido. 

O time era composto por mim – zagueiro central, pelos filhos do dono da mercearia de secos e molhados, que ficava na esquina da Tupi com Veiga Filho, Ninão e Neto. Ninão era craque e nosso capitão. Tinha ainda  o Júlio, o Dinei, o Marcelo… Nomes de que ainda lembro, passados mais de  50 anos. Tínhamos um admirador: um homem morador de rua, que apelidamos de Zóinho. Mais tarde, vim saber que era um advogado que se desiludiu com a esposa, se entregou ao álcool e à vida naquela rua Tupi. Nossas famílias doavam roupa e alimento ao Zóinho, colaborando para sua sobrevivência, em uma espécie de agradecimento por seu apoio ao time dos garotos.

Na mercearia dos pais de Ninão, comprávamos pão e leite, pagos, ao fim do mês, conforme o registro manuscrito na caderneta. O leite vinha em garrafas de vidro. Eram retornáveis e devolvidas em engradados de arame para o caminhão que toda madrugada, trazia o leite de cada dia para o nosso cafés da manhã.

No fundo do hospital Samaritano, havia um grande terreno de árvores frutíferas, onde brincávamos de mocinho e bandido. Por vezes, o zelador ralhava com a molecada e de posse de uma espingarda de pressão, dava tiros de sal, que ardiam nas ágeis pernas, com que fugíamos do inimigo. Brincávamos ainda de empinar pipa, jogar bolinha de gude, bater figurinhas, jogar queimada, carrinho de rolimã e taco. Enfim, muitas brincadeiras e histórias desse tempo que vai longe… Tempo de São Paulo,  da cidade amiga das crianças.

Hélio Roberto Deliberador é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a Belina, o branding, o mocinho e o vilão

 

Anúncio de revista da Belina Ford 1987

“Será que somos nós os culpados de criar desejos antes ainda inexistentes, e contribuir para o consumo pouco consciente?”

Jaime Troiano

Quem já teve carro a álcool  — álcool raiz, não esse etanol moderno que temos hoje — sabe o drama que era ligar o motor nas manhãs de inverno. Precisava injetar gasolina, tentar uma ou duas vezes, torcer para não forçar a bateria e, às vezes, deixar o motor ligado por algum tempo para não sair titubeando pelo caminho. 

O Jaime, nosso colega do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, teve um Passat – Passat raiz, não este alemão e chique que roda hoje em dia. Era a álcool e câmbio mecânico. Dureza! Um dia, um amigo deu-lhe  carona em uma Belina à gasolina e automática. “Ainda vou ter uma dessas”, pensou Jaime, que assim que chegou ao trabalho esqueceu da promessa que fez a si mesmo. Algumas semanas depois, abriu a revista Quatro Rodas e deparou com o anúncio da Belina a espera dele. Mas sabe como é …. projeto pra entregar, família pra cuidar. Deixa o desejo da troca de carro para outro dia. Duas semanas depois, ele passou diante da concessionária Ford e voltou a ver a Belina dos sonhos. Entrou, negociou, barganhou e levou. 

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso e descubra qual foi o destino da Belina do Jaime Troiano

O que o fez comprar: a necessidade de um carro mais moderno, a experiência que teve com o amigo, o anúncio na revista ou a fachada da loja no caminho de casa?  Ele próprio responde: a mistura de desejo e necessidade. É assim que costuma funcionar nossa jornada de compra, do carro (nem álcool nem gasolina, eu sonho com um elétrico) à camisa; do computador ao sapato. Quem faz a gestão de marcas sabe como isso funciona, tem estratégias para conquistar o cliente mas precisa ter consciência de que não pode criar armadilhas. 

A história e a reflexão que se seguiu surgiram no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso depois que perguntei ao Jaime Troiano — o dono da Belina — e a Cecília Russo — que não sei se algum dia pegou carona no carrão dele — se o branding é mocinho ou vilão do consumidor. 

“É uma questão que invade o território ético. Será que somos nós os culpados de criar desejos antes ainda inexistentes, e contribuir para o consumo pouco consciente? Já refletimos muito sobre isso, e nossa conclusão é que essa dualidade, mocinho e bandido, não faz muito sentido.”

Cecília Russo

Quando profissionais de branding fazem seu trabalho a partir de marcas sérias e comprometidas com suas entregas, produtos e serviços, estão atuando dentro de limites éticos e atendendo a necessidades das pessoas, explicam Jaime e Cecilia. Um exemplo, para ir além da Belina, é quando sentimos sede. Não é  a marca quem provoca essa sede. A sede nos leva a marca. E aí sim entra o trabalho do branding: direcionar a pessoa que sente sede para um determinado produto. 

“Seres humanos somos uma fábrica de desejos. Eu já os tenho dentro de mim e são esses desejos que me levam ao consumo. As marcas fazem parte daquela equação que já falamos no programa: o que eu sou mais alguma coisa que me falta, é uma soma, digamos assim, que me conduz ao que eu quero ser, ao meu eu ideal”. 

Cecília Russo

Leia aqui mais sobre a equação citada por Cecília Russo

Estar comprometido com a transparência e desenvolver o projeto de branding baseado na verdade da marca e em um profundo conhecimento das pessoas a quem elas se destinam é uma responsabilidade que os profissionais da área têm de assumir.  

“Branding não é uma máquina de vendas. É um caminho para criar significados autênticos para as marcas satisfazerem necessidade e desejos igualmente autênticos nos consumidores”

Jaime Troiano

Avalanche Tricolor: que bonito é!

Grêmio 4×0 São Luiz

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Que bonito é … 

ver a bola rodando no meio de campo e jogadores se movimentando com rapidez pelos lados do gramado, mesmo que o que vimos tenha sido apenas um esboço do projeto que Roger desenha para o Grêmio. .

Que bonito é … 

ver Janderson se deslocando com a bola no pé e tabelando com Diego Souza, deixando-o no caminho do gol.

Que bonito é …

ver Diego Souza tocar por baixo da bola com a sutileza do craque, elevá-la o suficiente para fugir do alcance do goleiro e do zagueiro, e assistí-la descer alisando a rede pelo lado de dentro.

Que bonito é …

ver Rildo encarar os marcadores dentro da área, de cabeça erguida e bola colada no pé. Driblá-los com a tranquilidade de quem sabe o rumo a seguir e concluir em gol.

Que bonito é …

ver o menino Gabriel Silva desarmando seus adversários, escapando com o corpo franzino dos pontapés que cruzam seu caminho, deixando todos para trás e oferecendo a Nicolas a oportunidade de mais um gol. 

Que bonito é …

ver Elias explodindo em músculos a caminho do ataque, encarar seus marcadores e, em contradição ao corpo que nos lembra um brutamonte, trocar a força por um toque preciso que coloca o companheiro em condições de gol. Pênalti. Mais um pênalti marcado com confiança, desta vez, na cobrança de Janderson.

Independentemente do que venha a acontecer no nosso destino — e a incerteza é a sua marca — , e da facilidade com que me iludo e me apaixono pelo tricolor, quero dizer a você, caro e raro leitor desta Avalanche, que bonito é torcer para o Grêmio treinado por Roger Machado.

Mundo Corporativo: Flávia Ávila, da InBehaviorLab, fala do frete grátis e do comportamento do consumidor

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“Quanto mais você entende você, mais você consegue fazer coisas efetivas para o outro”

Flávia Ávila, InBehaviorLab

Foi nosso colega de CBN, Thassius Veloso que, brincando com seus seguidores no Twitter, escreveu dia desses que duas expressões que ele adora ouvir é “eu te amo” e “frete grátis”. Thassius sabe do que fala. Entende muito do cenário digital e acompanha o crescimento do comércio eletrônico no mundo, tanto como profissional quanto como consumidor. Para as reações diante da primeira expressão, recomendo a leitura do livro “Por que amamos”, do filósofo Renato Noguera. Para nosso comportamento frente a entrega de graça, sugiro a entrevista com Flávia Ávila, da InBehaviorLab, no programa Mundo Corporativo. 

Flávia é mestre em Economia Comportamental, pela Universidade de Nottingham, na Inglaterra; organizou o primeiro Guia de Economia Comportamental e Experimental, do Brasil; e criou a InBehavior Lab — consultoria em que aplica o conhecimento e a experiência desenvolvidos ao longo de seus estudos e carreira. Aliás, a tese de doutorado dela foi sobre o frete grátis, inspirada na observação de que, na época em que estudava em Londres, livrarias já vendiam livros na loja ou na internet pelo mesmo preço, não cobravam o valor da entrega:

“A teoria racional diria que poderíamos cobrar um valor pequeno para a entrega, que o consumidor nem sentiria. Depois de ter estudado o assunto, aprendi que quando o consumidor já planejou a compra e vê aquele frete, por menor que seja, pensa: será que não tem outro mais barato?”

A Economia Comportamental ensina que nós sempre comparamos as coisas e quanto menos comparações nós tivermos, mais rapidamente vamos agir. No caso, fechar a compra. Ensinamentos que surgem a partir de uma série de experimentos e instrumentos de medição de comportamento que ajudam na elaboração de estratégias do comércio – e não apenas o eletrônico. 

Flávia destaca uma das ferramentas que usa na consultoria que é o experimento de campo, aplicado, por exemplo, em uma ação da Heineken para reduzir o número de motoristas que consomem álcool. Os pesquisadores promoveram nos bares pequenas intervenções que levavam o motorista a parar e pensar no hábito de misturar bebida e direção. Uma das medidas foi convidá-los a assinar o “juramento do motorista” e em troca ganhavam uma porção de batatas fritas. Mesmo que informal, ao colocar o nome no papel, o motorista assumia com ele próprio o compromisso de não beber. Resultado: nos locais em que houve a intervenção reduziu-se em 25% o número de motoristas que bebiam.

Os estudos sobre o comportamento do ser humano também servem para que o consumidor tenha mais consciência das atitudes que adota, evitando alguns padrões que podem ser prejudiciais e oferecendo a possibilidade de escolhas melhores:

“A gente observa que, quando tem uma coisa muito incerta como agora, tendemos a exacerbar, amplificar, o que chamamos de vieses: essa tomada de decisão mais impulsiva, instintiva, emocional. Por quê? Porque a gente está sobrecarregado mentalmente e algumas decisões tomamos de forma corriqueira e sem consideramos (seus efeitos)”.

Por falar em vieses. Flávia alertou para a influência que os vieses de confirmação e o de ancoragem geram nas nossas decisões. O primeiro se caracteriza diante da busca de certificações que apoiem a nossa ideia. Porém, como estamos crentes na escolha que fizemos, a mente é incapaz de absorver qualquer mensagem que vá na contramão da nossa hipótese. O segundo, se dá a partir da autoridade que construímos diante de nossas equipes de trabalho ou grupos de convivência, que, em algum casos, confiam tanto na decisão que, mesmo desconfiando de seu resultado, são incapazes de se contrapor. É preciso ter consciência desses padrões de comportamento para permitir que novas ideias — contrárias, especialmente — surjam no cenário. 

Na conversa com Flávia, aproveitei o conhecimento dela para tratar do consumo de um produto que tem se disseminado na sociedade contemporânea —- quando deveria ser banido: a desinformação, batizada de fake news. E ela não tem uma notícia boa, não! Estudos mostram que a notícia verdadeira nem sempre é captada pelo nosso cérebro, porque ela é normal, não é absurda. Diante de uma notícia falsa, escandalosa, inédita — por exemplo, 90% das pessoas não se vacinaram — o cérebro entra em modo de atenção e capta a informação. Mesmo que reconheça ser falsa,  já está na mente e pode influenciar os processos decisórios, inconscientemente.

“Um dos pontos é fazer uma ‘dieta cerebral’. Ter noção de que mesmo quando é mentira, captamos a informação. E evitar de pegar (informação) de fontes que não são confiáveis, que vão afetar nossa decisão de agora e a nossa decisão futura”.

Assista a entrevista completa com Flávia Ávila, CEO e fundadora da InBehaviorLab, no Mundo Corporativo: o frete é grátis.

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: roupa alinhada e sapato engraxado para passear na cidade

Aristeu de Campos Filho

Ouvinte da CBN

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Nos tempos de garoto sempre que se necessitava ir ao Centro dizia-se: “vou à cidade”. Especulo que devia ser por causa da paisagem diferente da região central, já povoada de prédios, grandes lojas e trânsito intenso, que se contrapunha ao aspecto bucólico dos bairros onde eu vivi na Zona Norte. Ali era uma paisagem quase rural: galinhas, cabras, cavalos, alguns bois; havia casas simples e térreas, vez por outra dividindo espaço com pequenos comércios; ruas de terra onde a criançada podia brincar tranquilamente; os veículos praticamente inexistiam,.

Vai daí que nossas idas à região central da Capital eram  eventos, por alterarem substancialmente nossa pacata rotina.  Ariovaldo e eu vestíamos cada qual a melhor roupa e calçávamos o melhor par de sapatos, devidamente engraxado e lustrado pelo Seu Aristeu.

Meu pai era bancário e o antigo IAPB – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários tinha um corpo médico excelente, que atendia na sede da Conselheiro Crispiniano, quase na esquina com a Sete de Abril.  Minha saúde era problemática – devido à bronquite que me afligia praticamente desde a saída da maternidade, felizmente curada aos dez anos – e frequentemente a Dona Cida, minha mãe, me levava até lá para consultas. 

Para chegar havia duas alternativas. Algumas vezes descíamos do 56-Vila Gustavo/Anhangabaú (linha de ônibus operada pela Empresa Auto Ônibus Parada Inglesa) nas proximidades da Ponte Grande – como então era chamada a Ponte das Bandeiras – na Praça dos Esportes, ao lado da Associação Atlética São Paulo e defronte ao Clube de Regatas Tietê, dois dos muitos clubes que margeavam as águas limpas e navegáveis do Rio Tietê. Embarcávamos no ônibus Norte-Sul, da finada CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos e descíamos nas proximidades do Teatro Municipal, perto do consultório. Quando o dinheiro estava ainda mais curto, usávamos o 56 até o Anhangabaú, nas proximidades da Senador Queirós  e caminhávamos bastante na ida e na volta do consultório.

Nessas ocasiões o infalível pastel era degustado na Rua Capitão Salomão, entre o Largo do Paiçandu e a Praça do Correio.

Meu pai trabalhava no Banco de Crédito Pessoal, na Galeria Califórnia, e, por vezes, aproveitava o horário de almoço para acompanhar-nos na consulta. Sempre que seu apertado orçamento permitia substituíamos o pastel por um bauru, feito no pão Pullman bem torrado,  acompanhado por um Guaraná Brahma, servido na lanchonete, em frente ao consultório.

O trajeto e o ritual eram repetidos quando necessitávamos tirar uma foto para documento ou para alguma ocasião especial, como formatura do primário ou primeira comunhão.  As fotos eram tiradas na Rua São Caetano, perto da Igreja de São Cristóvão. Depois da sessão de fotos, o pastel era o da Pastelaria Chinesa, na mesma calçada do estúdio fotográfico.

Para comprar roupas visitávamos o comércio popular da Rua José Paulino e adjacências, no Bom Retiro. Descíamos do 56 em frente à Pinacoteca do Estado, na Avenida Tiradentes e dali fazíamos o percurso caminhando. 

Alguns anos depois, quando já morávamos na Vila Ede, a Dona Cida passou a frequentar o Brás, na região da Rua Maria Marcolina. Vez por outra, se aventurava nas ruas Direita e São Bento, mas saía sempre de mãos vazias, pois os preços eram muito altos para o nosso padrão de vida. As vitrines das lojas tinham para nós o mesmo efeito que uma máquina de assar frangos tem para os cães: somente podíamos olhar e babar.

Muito tempo se passou e felizmente eu progredi na vida, respaldado na luta de meus avós, meus pais, minha amada companheira Teresa e sem falsa modéstia no meu próprio esforço. 

Tenho 70 anos e sinto saudades. Não da vida dura de outros tempos, mas da delícia que era “ir à cidade”.

Aristeu de Campos Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: Roger voltou; que saudade!

União Frederiquense 3×1 Grêmio

Gaúcho – Frederico Westphalen, RS

Elias comemora gol de pênalti, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Ele era a esperança de que estávamos diante de um outro olhar sobre o futebol. Fez-me acreditar que seríamos capazes de implantar um modelo inteligente de atuar. Cheguei a imaginar que a política interna do clube seria insuficiente para influenciar o trabalho dele. Que conseguiríamos desenvolver um planejamento de longo prazo, como fazem as grandes equipes do futebol mundial. Que formaríamos um time de dar orgulho pela maneira de jogar e, claro, em breve, nos desse também os títulos que tanto almejamos”

Por favor, sem julgamento prévio, caro e raro leitor desta Avalanche. O parágrafo acima nada tem a ver com o momento atual do Grêmio e Vagner Mancini, demitido na segunda-feira, um dia após empatar contra o penúltimo colocado do Campeonato Gaúcho. Mancini tem seus méritos próprios, seus limites e dificuldades. Pegou o time em situação complicada no ano passado, com moral baixo e futebol idem. Pouco conseguiu tirar dos jogadores e elenco que tinha à disposição, todos contaminados pela sequência ruim de resultados e em meio a um desorganizar injustificável. Trouxe para 2022 o ranço do torcedor incomodado com o rebaixamento do ano anterior. E pagou com o emprego no primeiro resultado capenga na competição. Sem convicção, a diretoria que bancou sua presença na virada do ano, não resistiu ao grito da arquibancada. Negou sua própria aposta, e depois de ter feito os investimentos que o técnico pediu, entregou a cabeça dele aos torcedores. Não estou aqui a defender a qualidade do treinador que saiu, mas a ressaltar a incoerência dos dirigentes que permanecem. 

Dito isso, voltemos ao primeiro parágrafo desta Avalanche. Nele reproduzi parte do texto publicado com o título “Avalanche Tricolor: é uma pena, Roger não volta mais”, em 15 de setembro de 2016, por coincidência aniversário do Grêmio. Na noite anterior, havíamos sido derrotados por 3 a 0 pela Ponte Preta, em Campinas, em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro. Sim, lamentava a demissão de Roger que era pressionado pelos resultados que não chegavam na competição nacional, apesar de ter vencido a primeira partida das oitavas-de-final da Copa do Brasil, fora de casa, contra o Athletico Paranaense.

Em tempo: Copa do Brasil de 2016 que o Grêmio haveria de conquistar, depois de perder o segundo jogo contra os paranaenses, na Arena, e garantir a vaga na decisão de pênaltis. Já sem Roger.

Se lastimava a saída de Roger, o fazia por entender que o treinador havia levado ao Grêmio o que tínhamos de mais moderno na forma de olhar e jogar o futebol naquele momento. Mesmo ainda um novato no comando técnico, precisando amadurecer, soube montar o time e deixar um legado que foi muito bem aproveitado por Renato Portaluppi na sequência de títulos que conquistamos, até chegarmos a Libertadores, em 2017. 

Nunca escondi, em uma só linha desta Avalanche, o quanto admirei as ideias de Roger e a maneira como montou nosso time, promovendo a aproximação de seus jogadores, a precisão do toque de bola e o deslocamento rápido no gramado. Dava gosto de ver o jogo jogado pelo Grêmio. Mesmo com as derrotas que ocorriam, havia a esperança de dias melhores e de um futebol disposto a nos conquistar.

Ao contrário do que escrevi naquela Avalanche de setembro de 2016, em meio a tristeza de sua demissão, Roger haveria de voltar um dia. E voltou!

Que com ele volte o futebol bem jogado. Estou morrendo de saudade!

A arte de interpretar, do cinema ao divã

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

“É muito importante que os filmes façam as pessoas olharem para  o que elas esqueceram”

Spike Lee, diretor
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A história do cinema teve início em dezembro de 1895, quando os irmãos Lumière exibiram o primeiro filme de curta duração, em Paris. A capacidade de captar imagens dinâmicas da realidade foi possível graças ao desenvolvimento do cinetoscópio e, posteriormente, do cinematógrafo, aparelho que permitiu gravar e projetar as imagens em uma tela. Inicialmente sem som, o cinema se desenvolveu e permitiu diálogos e reflexões, sendo uma manifestação cultural e uma expressão de realidades percebidas e interpretadas ou, mesmo, de ilusões criadas por seus autores.

A história da psicologia, como disciplina científica,  também teve seu início no fim do século XIX, na Alemanha, com o estabelecimento do primeiro laboratório de psicofisiologia, fundado por Wilhelm Wundt, cuja finalidade era compreender os fenômenos mentais. Naquele momento,  esse interesse coincidia com os estudos de fisiologia vigentes que buscavam esclarecer como diversos estímulos eram captados e interpretados pelo sistema nervoso.

Se o desenvolvimento das ciências permitiu o avanço na compreensão das bases biológicas e sociais do comportamento humano, também foi responsável pelo progresso das tecnologias, conduzindo a novas formas de captar e transmitir as imagens, inclusive em tempo real.

Para além das semelhanças temporais, em que se aproximam o cinema e a psicologia? 

Através de combinações visuais e auditivas, o cinema desperta diferentes emoções, onde o acaso não tem vez. O controle preciso de luzes, sons, cores e imagens permite o enquadramento da cena, escolhido cuidadosamente pelo diretor. Apesar desse planejamento, o filme não irá repercutir igualmente para todas as pessoas. 

A maneira como uma pessoa interpreta, dá significado ou compreende uma situação está muito mais ligada a aspectos individuais, construídos ao longo da vida, que identificamos como esquemas, do que a situação propriamente dita; isso influenciará as suas respostas emocionais e, consequentemente, as suas ações. Podemos compreender esses esquemas como imagens que foram construídas sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre o mundo no qual vivemos, a  partir das nossas experiências. Em algumas circunstâncias, essas imagens podem ser um pouco distorcidas, como se estivessem fora de foco e não correspondessem à realidade, gerando muito sofrimento. 

Não é raro ouvir pessoas talentosas e competentes, que diante de um desafio profissional, por exemplo, acreditam que são incapazes de realizar um bom trabalho ou se julgam uma fraude, apesar de não haver nenhuma evidência real sobre isso. Ativam um modo mais exigente consigo, elevam as metas e se tornam extremamente autocríticas. Nesse caso, aumenta-se a chance de procrastinação, paralisia e mesmo desistência, o que gera frustrações e confirma a “profecia” de incapacidade.

Penso no psicólogo como aquele diretor de cinema que vai destacando cenas, melhorando a qualidade da luz, aproximando a câmera para uma visualização ainda desconhecida. Provoca reflexões, reconstrói imagens, pensa em desfechos, longe de um final — apesar de haver um desejo de feliz para sempre —,  a partir de soluções de problemas e do desenvolvimento de habilidades.

E não seria semelhante com o cinema, em sua incrível capacidade de surpreender, interrogar, possibilitar reflexões e até mesmo promover mudanças? 

Assim como um cineasta deve trabalhar cuidadosamente a captura de imagens, para que possamos enxergar o que ele quer nos transmitir, a psicoterapia contribui para que o paciente possa ver para além de suas ideias iniciais,  muitas vezes desfocadas ou com ruídos.

O cineasta nos permite enxergar aquilo que não veríamos se a câmera não delimitasse o foco. A terapia ainda provoca: como seria possível ver de maneira diferente a mesma situação? Isso muda compreensões.

Ajustar as nossas lentes permite enxergar o que ainda não tínhamos visto, que estava ali, como numa bela cena cinematográfica, bem  diante de nós.  

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Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicóloga, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu artigos a convite, no Blog do Mílton Jung.