A arte de interpretar, do cinema ao divã

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

“É muito importante que os filmes façam as pessoas olharem para  o que elas esqueceram”

Spike Lee, diretor
Photo by Dmitry Demidov on Pexels.com

A história do cinema teve início em dezembro de 1895, quando os irmãos Lumière exibiram o primeiro filme de curta duração, em Paris. A capacidade de captar imagens dinâmicas da realidade foi possível graças ao desenvolvimento do cinetoscópio e, posteriormente, do cinematógrafo, aparelho que permitiu gravar e projetar as imagens em uma tela. Inicialmente sem som, o cinema se desenvolveu e permitiu diálogos e reflexões, sendo uma manifestação cultural e uma expressão de realidades percebidas e interpretadas ou, mesmo, de ilusões criadas por seus autores.

A história da psicologia, como disciplina científica,  também teve seu início no fim do século XIX, na Alemanha, com o estabelecimento do primeiro laboratório de psicofisiologia, fundado por Wilhelm Wundt, cuja finalidade era compreender os fenômenos mentais. Naquele momento,  esse interesse coincidia com os estudos de fisiologia vigentes que buscavam esclarecer como diversos estímulos eram captados e interpretados pelo sistema nervoso.

Se o desenvolvimento das ciências permitiu o avanço na compreensão das bases biológicas e sociais do comportamento humano, também foi responsável pelo progresso das tecnologias, conduzindo a novas formas de captar e transmitir as imagens, inclusive em tempo real.

Para além das semelhanças temporais, em que se aproximam o cinema e a psicologia? 

Através de combinações visuais e auditivas, o cinema desperta diferentes emoções, onde o acaso não tem vez. O controle preciso de luzes, sons, cores e imagens permite o enquadramento da cena, escolhido cuidadosamente pelo diretor. Apesar desse planejamento, o filme não irá repercutir igualmente para todas as pessoas. 

A maneira como uma pessoa interpreta, dá significado ou compreende uma situação está muito mais ligada a aspectos individuais, construídos ao longo da vida, que identificamos como esquemas, do que a situação propriamente dita; isso influenciará as suas respostas emocionais e, consequentemente, as suas ações. Podemos compreender esses esquemas como imagens que foram construídas sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre o mundo no qual vivemos, a  partir das nossas experiências. Em algumas circunstâncias, essas imagens podem ser um pouco distorcidas, como se estivessem fora de foco e não correspondessem à realidade, gerando muito sofrimento. 

Não é raro ouvir pessoas talentosas e competentes, que diante de um desafio profissional, por exemplo, acreditam que são incapazes de realizar um bom trabalho ou se julgam uma fraude, apesar de não haver nenhuma evidência real sobre isso. Ativam um modo mais exigente consigo, elevam as metas e se tornam extremamente autocríticas. Nesse caso, aumenta-se a chance de procrastinação, paralisia e mesmo desistência, o que gera frustrações e confirma a “profecia” de incapacidade.

Penso no psicólogo como aquele diretor de cinema que vai destacando cenas, melhorando a qualidade da luz, aproximando a câmera para uma visualização ainda desconhecida. Provoca reflexões, reconstrói imagens, pensa em desfechos, longe de um final — apesar de haver um desejo de feliz para sempre —,  a partir de soluções de problemas e do desenvolvimento de habilidades.

E não seria semelhante com o cinema, em sua incrível capacidade de surpreender, interrogar, possibilitar reflexões e até mesmo promover mudanças? 

Assim como um cineasta deve trabalhar cuidadosamente a captura de imagens, para que possamos enxergar o que ele quer nos transmitir, a psicoterapia contribui para que o paciente possa ver para além de suas ideias iniciais,  muitas vezes desfocadas ou com ruídos.

O cineasta nos permite enxergar aquilo que não veríamos se a câmera não delimitasse o foco. A terapia ainda provoca: como seria possível ver de maneira diferente a mesma situação? Isso muda compreensões.

Ajustar as nossas lentes permite enxergar o que ainda não tínhamos visto, que estava ali, como numa bela cena cinematográfica, bem  diante de nós.  

Assista ao programa Dez Por Cento Mais, todas às quartas-feiras, 20h, no YouTube

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicóloga, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu artigos a convite, no Blog do Mílton Jung. 

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