Brumadinho: subestimamos nosso poder de destruição

 

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Foto: Rodney Costa/Eleven/Agência O Globo publicada no site CBN.com.br

 

Os que já enfrentaram o risco de afogamento no mar sabemos o desespero que bate quando percebemos que não há como puxar o ar para os pulmões. No início, prendemos a respiração como reação de sobrevivência e tentamos nos orientar em busca da superfície. As ondas passam por nossa cabeça e a impressão é de que o caminho para o alto está bem mais distante. Apesar de estarmos a apenas alguns segundos enfrentando aquele situação, parece a eternidade. Se você como eu já tomou um caldo na praia, daqueles que deixa seu “GPS” sem norte, sabe quão ruim é a sensação. Nunca — ainda bem —- fui além desses segundos. De uma maneira ou outra encontrei a superfície, talvez porque estivesse muito mais raso do que pudesse imaginar. Os que estudam nossas reações dizem que ir além desses instante pode ser fatal. Ao desespero junta-se a ansiedade. A água escapa pela boca, chega a laringe. Parte vai para o estômago, outra para o pulmão. A troca gasosa deixa de funcionar. O oxigênio não entra e o gás carbônico não sai. Os efeitos começam a ser sentidos no cérebro. No pulmão, os alvéolos não suportam a pressão. Os glóbulos vermelhos são destruídos. O potássio se espalha. O corpo se contrai. O coração para. Morte.

 

Tenho imaginado essa cena desde que na tarde de sexta-feira recebi a primeira informação sobre o rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais. A experiência que havíamos presenciado três anos antes em Mariana nos preparou para as imagens que assistiríamos em seguida. Uma onda de lama se formando e avançando sobre casas, lojas, hospedarias. Pessoas e famílias soterradas. Seres humanos que estavam vivenciando mais um dia de suas vidas, no trabalho, na prestação de serviços, nos afazeres domésticos, descansando, em um momento de lazer. O mar de rejeitos —- formado por restos de minério, sílica e derivados de amônia — provocou estrondos no caminho que percorria. Uns descreveram como um trem descarrilado; outros como se vários caminhões estivessem tombando — foi o que li na edição dominical de O Globo.

 

Na minha cabeça, a morte por afogamento se assemelhava a agonia enfrentada por aquelas mães e pais, filhos e filhas, avós e avôs, médicos e mineradores, caminhoneiros e cozinheiros — uma gente para quem só fomos apresentados agora através de reportagens que contam suas histórias de vida e logo serão números de uma estatística triste de descaso e irresponsabilidade. Nunca vai se saber ao certo o que cada um viu ou imaginou que estava ocorrendo. Se acreditaram que seriam capazes de sair do meio da lama, encontrar a superfície. É provável que a força e a velocidade da lama, em um movimento que se equivaleria ao tsunami, tenham causado impacto sobre as pessoas que estavam no seu caminho sem dar chance delas entenderem que a morte se aproximava. Sempre será uma incógnita como essas pessoas morreram — algumas  talvez jamais serão encontradas porque o corpo é sugado para debaixo da terra pela formação da lama.

 

O que sabemos é que morreram porque mais uma vez subestimamos nosso poder de destruição. O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, disse nesse domingo que todas as ações de segurança recomendadas por especialistas reconhecidos internacionalmente foram realizadas: “100% dentro de todas as normas e não houve solução”. Para em seguida afirmar que “vamos criar um colchão de segurança bastante superior ao que tem hoje para garantir que nunca mais aconteça um negócio desse”.

 

Garantir? 

 

Que garantia é essa? 

 

Talvez a mesma garantia que ouvimos quando a Vale e sua parceira BHP foram responsáveis pela maior tragédia ambiental já registrada no mundo, que matou 19 pessoas e contaminou o Rio Doce, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015. Ou a garantia que nos deram logo após registrarmos a morte de 242 pessoas no incêndio da Boate Kiss, em  Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que completou seis anos nesse sábado. Ou a garantia das autoridades de que a vistoria de prédios seria mais rigorosa no Rio de Janeiro, desde que 17 pessoas morreram na queda do edifício Liberdade — lembrada semana passada, em reportagem do Jornal da CBN, na data em que completou sete anos. 

 

Em Mariana e arredores, famílias ainda esperam suas casas serem reconstruídas, a indenização definitiva ainda não saiu e ninguém foi condenado pela tragédia. Em Santa Maria, familiares dos mortos e as vítimas que sobreviveram lamentam que não houve avanços por parte das autoridades responsáveis na luta por justiça e os réus ainda aguardam julgamento. No Rio, menos da metade dos 130 mil prédios que deveriam realizar a autovistoria predial a cada cinco anos estão em acordo com a lei. E as vítimas? Cada uma se vira como pode. Sem ajuda dos responsáveis pelo desabamento. Sem justiça.

 

Aliás, é a única garantia que realmente temos nesse país. De que independentemente da frequência com que as tragédias ocorram, de onde ocorram e por que ocorram, seremos vítimas de irresponsabilidade, de desrespeito e de injustiça.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a turminha do córrego do Sapateiro

 


Por João Batista de Paula
Ouvinte da CBN

 

 

No Itaim Bibi nos tempos da zagaia.
 

 

O tempo de todos nós, meninos e meninas do bairro do Itaim Bibi, dos anos 1940 a 1950. Era a nossa infância e parte de nossa juventude — saudades desse tempo que ainda não tínhamos saudades. Não sei nada, mas sei que quando o encanto é para ser, será; e não há quem possa separar.
 

 

Nos tempo das ruas de terra batida — quando chovia o barro com o sol virava  torrão, o torrão virava pó, o pó virava lama, com as águas, o córrego do Sapateiro se agigantava, a ponte balançava, as árvores tremiam e se batiam com os ventos fortes; a molecada corria e brincava de guerra de barro. As casas eram conhecidas, os portões abertos sem chaves e sem grades, os cães ladravam e vigiavam tudo,
 

 

As brincadeiras mudavam quando chovia e fazia frio: agora era de pega-pega, a vareta foi Boca de Forno; com o frio as meninas quase não apareciam na rua; os meninos tinham seus cavalos de cabo de vassoura, trotavam aos gritos em alta velocidade brandindo suas espadas contra inimigos imaginários. Quando o tempo melhorava as meninas brincavam de passa anel ou de barra manteiga e pular corda. Outras se imaginavam donas de casa, montavam suas casinhas nas calçadas de terra e ali sonhavam e formavam suas famílias. Os mais pequenos eram os filhos, o marido era sempre os mais calmos ou imaginário, o diálogo e os afazeres elas aprendiam com as mães.

 

As ruas não eram iluminadas nas noites mais escuras e os meninos tinham lanternas a lenha: era uma lata de óleo com uma abertura na parte baixa em forma de pirâmide e uma alça de arame de meio metro, pouco mais ou pouco menos. Colocávamos lenha e fogo e girávamos com a alça, era bacana quando cinco ou seis lanternas estavam em ação na rua escura, nas noites escuras.
 

 

Nossa turminha vivia em torno do córrego do Sapateiro. Entre a Rua Mário de Castro, hoje Fernandes de Abreu, rua 17, atual Ramos Batista, Rua Piqueta, Rua Heloísa — a mesma onde os caminhões que carregavam areia das descobertas subiam e encalhavam nos buracos, e derrapavam no tijuco preto, para a alegria da molecada que tinham um refrão, que era repetido sempre. Era assim: “galinha preta, galinha preta”ou “catiça-catiça-catiça” — isso repetido continuadamente era a fúria dos choferes e barqueiros que vinham em socorro dos caminhões encalhados. Hoje, ali é a famosa e fabulosa Av. Juscelino Kubistchek de Oliveira. 
 

 

Nesse pequeno apanhado, contei mentalmente mais de 40 meninos e meninas. Não sei por onde andam todos, fomos crescendo mudando de bairro, casando e nos distanciando um dos outros. Da minha parte posso afirmar que todos vocês estão em minha mente, no mesmo lugar de sempre, na rua brincando de tudo. Se notarem algum erro fica por conta dos meus 85 anos.

 

João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: “trabalhadores serão contratados pela inovação”, diz Adriano Lima

 

 

 

“O emprego será demitido pela automação mas trabalhadores serão contratados pela inovação, porém não os mesmos trabalhadores ou os trabalhadores com as mesmas competências” — Adriano Lima, gestão de pessoas

 

A chegada da tecnologia no seu ambiente de trabalho tem sido cada vez mais veloz e transformadora. E nós precisamos estar preparados para essas mudanças. Por isso, o Mundo Corporativo conversou com Adriano Lima, da LM+ e da PeopleTech e especialista em gestão de pessoas, que tem se dedicado a entender quais as competências que os novos empregos esperam de você:

 

Essas outras habilidades de relacionamento, de empatia, de criatividade, elas terão de ser mais trabalhadas e a gente sabe que isso não se ensina em curso, não se ensina em faculdade, é um processo de desenvolvimento nosso, da pessoa, do ser humano, através do seu autoconhecimento, do seu autodesenvolvimento que é o que a gente tem buscado investir cada vez mais nas empresas”

 

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10h30 da noite, em horário alternativo. O programa também está disponível na lista de podcast da CBN. Colaboraram com o programa o Guilherme Dogo, o Rafael Furugen, a Debora Gonçalves e a Natália Mota.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: o dia em que andei de ônibus com o criador da estátua de Borba Gato

 

Por Durval Pedroso da Silva Jr
Ouvinte da CBN

 

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A estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, em foto do site da ALESP

 

 

Nasci no Bairro do Bexiga, próximo da Avenida Paulista, em janeiro de 1951. Morei nela por quase 40 anos, o que por si só daria para contar  muitas histórias. Resolvi, porém, relatar uma que reputo interessante.

 

Estava eu em companhia de meu pai, no inicio de fevereiro de 1963 — eu com apenas 12 anos — abordo de um ônibus da Viação Bola Branca, que saiu do Largo de Pinheiros com destino a Santo Amaro, onde morava a maioria de nossos parentes.

 

Quando entramos pela Avenida Santo Amaro, perto da Vila Nova Conceição, subiu ao ônibus, que estava bem lotado, um velho amigo do meu pai: o escultor Julio Guerra. Meu pai apresentou o seu amigo a mim, com toda a pompa e circunstância, explicando suas habilidades como pintor e escultor. Em contra partida, o Julio falou maravilhas das habilidades esportivas de meu pai, mas como estas eu já conhecia sobejamente, tratei de fazer o maior número de perguntas, ao primeiro pintor e escultor que conheci na minha vida — ao ponto de meu pai me dar um beliscão bem dado, para eu parar de metralhar seu amigo com perguntas.

 

Quando estávamos passando no Alto da Boa Vista, demos de cara com a enorme estátua do Bandeirante Borba Gato, que tinha sido inaugurada há alguns dias. Eu maravilhado com aquela grandeza toda, ouvi bem baixinho no meu ouvido: — “esta é uma das minhas obras”, disse Julio. Mas a esta altura já tínhamos ouvido muitos comentários dos passageiros. Uns, inclusive, não muito elogiosos com relação à obra. Antes que eu abrisse a boca para falar em alto e bom som que estávamos com o autor daquele monumento dentro do nosso ônibus, meu pai que conhecia a tagarelice do filho, tampou levemente a minha boca. Mas o grande momento veio a seguir. O Julio vira-se para mim, num tom bem baixo, e diz: — “esta é a razão maior de uma obra de arte, provocar sensações e comentários”.

 

Mais um ensinamento que aprendi nesta nossa maravilhosa cidade.

 

Durval Pedroso da Silva Jr. é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: o fotógrafo que prefere falar da cidade através de suas imagens

 

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Os ângulos de São Paulo ficam ainda mais interessantes quando captados pelas lentes do fotógrafo e editor Luiz Cersosimo. Talvez porque ele seja paulistano — e o interesse em revelar a cidade em que nasceu torna seu trabalho ainda mais apaixonante –, mas, certamente, boa parte do resultado das imagens que registra tem a ver com seu olhar que é especial e sensível para as coisas o mundo (e das cidades).

 

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Às vésperas do aniversário de 465 anos da cidade, recebi dois dos livros publicados pelo fotógrafo, São Paulo:Centro e Urbanidade, que me permitiram entender melhor tudo que ele me falou um dia quando nos encontramos, por acaso, em um café de shopping da cidade. Ele referiu-se ao Conte Sua História de São Paulo — já que admirava o programa que tradicionalmente vai ao ar aos sábados e, nesta semana, está em edição especial no Jornal da CBN.

 

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Confesso que esperei receber um texto assinado por ele. Peço perdão por minha expectativa errada. Cersosimo conta a história de São Paulo em imagens, algumas das quais compartilhadas neste post.

 

Lá no site da Editora do Olhar, lançada pelo fotógrafo com a intenção de criar, produzir e distribuir conteúdo visual por meio de publicações impressas e digitais, encontre o texto abaixo, um flash do que ele pensa sobre seu trabalho fotográfico:

 

O olho abraça a beleza do mundo inteiro
O olhar desvela o que observa e constrói mundos e narrativas
A fotografia não é tão somente o espelhamento do real, mas a extensão poética do que nossos olhos enxergam
O que vemos na imagem são as causas e os efeitos dela própria em nosso olhar
O olhar é o mais espiritual de todos os sentidos
Ver é olhar para tomar conhecimento
A única coisa que existe é o que sentimos.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: muito frio, pouca roupa e uma tremenda vontade de ser alguém na vida

 


Por Edileide Koller
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho um orgulho danado de ser umbuzeirense. Nasci em uma casa bem grande, onde da metade para trás pertencia a Pernambuco e da metade para frente, a Paraíba. De Umbuzeiro, minha família e eu, com 4 anos, fomos morar em Orobó, cidade mais próxima e totalmente pernambucana, para que meus irmãos mais velhos pudessem estudar no ginásio. Quando eu tinha 9 anos, fomos morar em Recife — novamente por conta dos estudos dos meus irmãos que deveriam fazer faculdade para “ser alguém na vida”.

 

A partir daí, segue essa história que sempre me faz derramar um líquido salgado pelo rosto. Um típico exemplo de desigualdade no Brasil, pelo tanto de força e determinação que eu tinha para “vencer na vida”. Na época não entendia bem isso. Como é bom às vezes não entender bem o que se passa a nossa volta. Eu só tinha a certeza de que tudo dependia de mim, que se eu me esforçasse bastante, muito mesmo, eu conseguiria. Infelizmente, não é bem assim. Precisamos de oportunidade também. Faltou! Chorei agora. Literalmente chorei muito.

 

Pois bem, foi no Recife que comecei faculdade de Economia na UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco e, no 3º ano, decidi morar em São Paulo a convite do meu querido irmão Walmir, que lá morava. Cheguei em 1987, com 22 anos.

 

São Paulo do frio, da garoa, do consolo. Cidade grande, linda, cheia de cinemas, teatros e parques. Cada dia mais a cidade me encantava e me seduzia. São Paulo sempre foi palco de grandes movimentos, sede de multinacionais e renomadas universidades. Me empolguei.

 

Sabe aquela guerreira nordestina, que sabia o que queria? Vencer na vida! Consegui uma transferência da faculdade para a PUC, de manhã. Não tinha como pagar. Consegui uma transferência para a FMU, à noite.

 

Comecei a trabalhar na primeira chance de emprego. Recepção.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam estar…

 

Um dia, em plena Avenida Paulista, voltando da faculdade para casa, o termômetro marcava 10 graus. Muito frio, pouca roupa. Muita fome, pouco dinheiro. E eu me perguntei se não era melhor estar no calor da casinha da minha mãe, tomando sopa de feijão e com a barriga cheia, lá no Recife. Realmente um dilema, porque só vivendo isso para saber.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam…

 

Somente em São Paulo, percebi o quanto era limitada, o quanto não sabia das coisas, o quanto tinha que correr contra o tempo para conquistar meus objetivos. O quanto tinha que ler, estudar, acordar cedo, dormir tarde e me privar de fazer lanches no meio da manhã e no meio da tarde. Mas as oportunidades eram maiores. Mesmo relativizando porque os salários em São Paulo são maiores, mas o custo de vida também. Tem mais empregos, mas a demanda por emprego é maior.

 

E eis que, no meio disso tudo conheci Celso. 1989.

 

Ufa!!! Um namorado. Pelas nossas diferenças, não sei como ficamos juntos. Devo ter conquistado aquele coração alemão pelo tanto de amor que tinha para dar e faltava a quem. E enchi o homem de amor. Até hoje, quase 30 anos.

 

E em São Paulo posso dizer que vivi os melhores momentos da minha vida. Me formei, trabalhei, casei, construí uma família linda, ganhei minhas duas meninas, Beatriz e Letícia. Conquistei coisas importantes da vida.

 

Pois bem, essa é a resumidíssima história sobre minha chegada a São Paulo. O tempo muda nossas perspectivas, nossos pensamentos e hoje não somos o que éramos há um ano, quanto mais há 30 anos. Mas mantive um pensamento que tenho desde pequena, desde sempre. O conhecimento é a principal riqueza. Através dele você faz conquistas e as mantêm. Durante todo esse percurso que acabei de contar, tentei aprender o máximo que pude, dentro das minhas possibilidades. E aprendi que nunca é tarde para isso. Eu não paro.

 

Ah, São Paulo! Quantos queriam…

 

Edileide Koeller é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial de aniversário: envie seu texto agora par contesuahistoria@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: o torcedor é tratado como se fosse um mero detalhe

 

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Gaúcho – Cristo Rei/São Leopoldo-RS

 

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Juninho Capixaba comemora o 2º gol dele no Gaúcho, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Os campeonatos estaduais têm perdido prestígio ao longo dos últimos anos, apesar de algumas rivalidades permanecerem muito fortes, como é o caso do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, tirar as pessoas de casa para ocupar as arquibancadas é tarefa das mais complicadas.

 

No ano passado, a média de público pagante foi de 4.262 pessoas. O Grêmio, campeão de 2018, também liderou essa estatística: 16.233 pessoas por jogo — nada muito entusiasmante se levarmos em consideração que isso não chega a um terço da ocupação dos estádios em que disputou suas partidas.

 

Diante do fiasco de público, é de se esperar que as federações e os demais protagonistas do futebol adotem medidas que motivem os torcedores. De olho no noticiário, porém, percebe-se que essa não é a lógica que impera no futebol brasileiro.

 

Hoje à noite, pouco antes de se iniciar a segunda partida do Grêmio no Gaúcho, leio que a Brigada Militar estava impedindo a entrada de torcedores com a camisa do clube, no estádio Cristo Rei. Resultado de interpretação de punição imposta pelo STJD – Superior Tribunal de Justiça Desportiva à dupla Gre-Nal por briga de torcedores que aconteceu no ano passado durante um dos clássicos.

 

Ou seja, porque grupos de insanos resolveram se engalfinhar ano passado, a solução encontrada pelos tribunais foi impedir a participação do senhor, da senhora, do seu filho, do sobrinho, da dona de casa, do cidadão comum, de bem com a vida, que simplesmente curte ver a bola rolando e quer ter o prazer de vestir a camisa do seu clube de coração — talvez em uma rara oportunidade de assistir ao time jogando na cidade em que mora.

 

Para moralizar o futebol pune-se os que gostam de futebol. Afasta-se a família, tira-se o prazer do guri, corta-se o barato de nos sentirmos integrantes de um grupo, aborta-se o orgulho de usar o mesmo uniforme que nossos ídolos que estão em campo.

 

A medida adotada no Rio Grande do Sul soma-se a outros fatos desses últimos dias, como a ameaça de termos torcida única na final da Copa São Paulo de Futebol Júnior — que só não se concretizou graças a combinação de times que se classificaram para a decisão —- e o ingresso único de R$ 100,00 imposto pela diretora da claudicante Portuguesa, na segunda divisão do Campeonato Paulista.

 

Menos mal que quando a bola começou a rolar no estádio Cristo Rei, em São Leopoldo, nesta quarta-feira, pude perceber pelas imagens da televisão que havia nas arquibancadas torcedores gremistas com suas camisetas tricolores ou azuis. Não sei como entraram. Se os policias fizeram vistas grossas ou simplesmente eles esconderam suas camisetas até a partida se iniciar.

 

Independentemente do “drible” que deram na punição imposta pela Justiça, tanto no Rio Grande do Sul quanto em São Paulo, o que vemos é uma série de ações que dá a entender que o torcedor é um mero detalhe no futebol.

Depois da NRF 2019, saiba quais são os temas que vão transformar o varejo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Loja automatizada do reabastecimento à finalização da compra é apresentada na NRF 2019

 

Eugenio Foganholo, da MIXXER Desenvolvimento Empresarial, no seu 23º ano seguido de NRF, atendendo nossa solicitação, apresentou os pontos mais presentes e significativos do National Retail Federation Big Show 2019, maior evento mundial de varejo, realizado em Nova York:

 

– Omnichannel com destaque para o click&collect, compra on line e retirada na loja física;
– Big data e Inteligência artificial para identificar clientes e seu estilo& desejos.

Ao mesmo tempo, Foganholo identificou a irrelevância dos temas inerentes ao Governo. Nenhuma abordagem nele, o que o leva a concluir que não se perde tempo em temas nos quais não se possa influenciar.

 

Marcos Gouvêa de Souza da MS&Malls na sua 35ª NRF destacou:

 

– Os Estados Unido começam a perceber a disrupção que vem da China;
– A tecnologia para servir e diferenciar e até para controlar e processar;
– O PDV Ponto de Venda dá lugar ao PDX Ponto de Tudo;
– Inovação, Velocidade e Gente, sempre;
– Além da transformação do Varejo. Realidade Virtual, Realidade Aumentada, Reconhecimento Facial e Íris, Inteligência Artificial e a Voz reconfigurarão o Mercado;
– A visão macro do mercado. De exuberante à preocupante, na dose certa;
– A voz é o próximo movimento a falar mais alto;
– Causa e Propósito continuadamente redefinidos e valorizados.

 

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“Quando você coloca mulheres em qualquer equação, há um retorno sobre a igualdade”

 

 

Dentre a grande quantidade de notícias disponíveis na mídia sobre a NRF deste ano, destacamos também alguns pontos.

 

Pela primeira vez se abriu um espaço exclusivo para as mulheres, The Girl’s Lounge — sede de discussões sobre tópicos na intersecção de varejo, gênero e tecnologia.

 

A Forrester Research através de Sucharita Kodali apresentou o “Estado de Inovação do Varejo 2019” e expôs as áreas que deverão receber os maiores investimentos:

 

– Personalização da compra e a privacidade dos dados;
– Celular é ferramenta para aprimorar a experiência de compra;
– Não ignore a inovação omnichannel;

 

Jeremy King da Walmart, expôs os avanços daquela que é a terceira empresa do mundo em investimento na área de tecnologia e a primeira do varejo dentre as dez primeiras:

 

“O cliente pode receber em casa tudo o que compra no Walmart, retirar em qualquer loja as compras feitas online e, em um futuro próximo, será possível ter uma geladeira que avisa à rede quando um produto acabou e, com a sua autorização, um funcionário entra na casa e coloca o item na geladeira”.

 

O futuro chegará com releitura do passado.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a catarina que adora ser paulistana

 

Por Brigitte Ramos
Ouvinte da CBN

 

 

Taió, Santa Catarina, 29 de janeiro de 1957. Nasce a filha do padeiro da cidade, e recebe o nome de Brigitte, mesmo nome da filha do pastor recém-chegado da Alemanha. Naquela época muitos pais escolhiam esse nome devido à Brigitte Bardot. Essa pequena, típica alemãzinha, sempre de tranças, contra a vontade, lógico, desde que se conhece por gente adorava cidade grande, praças, igrejas, muitas ruas iluminadas e andar em ruas de paralelepípedo. A maior cidade que tinha acesso até os sete anos era Rio do Sul.

 

Alguns anos depois, mudamos para Blumenau, e de lá um dia na minha adolescência tive a oportunidade de vir para São Paulo, com minha mãe, de ônibus, para o casamento de um tio. Foi apaixonante conhecer a cidade. Disseram que era terra da garoa e era, não tivemos nenhum dia de sol. Me levaram ao Museu do Ipiranga. O casamento foi numa igreja na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, e a festa num grande buffet.

 

Até a sinalização das obras com luzes dentro de baldes vermelhos e a iluminação dos carros parados no trânsito eram belas. Pequenos detalhes me deixavam muito felizes, como andar de elevador e admirar a Avenida Paulista do oitavo andar de um prédio, próximo ao MASP. Lá morava uma tia e de lá eu podia ver pessoas trabalhando nos outros prédios e ficava imaginando, como seria bom trabalhar num lugar destes. Nessa viagem plantei uma semente de esperança para realizar meu sonho.

 

Quando tinha entre 18 e 19 anos, o sonho se realizou. No inicio morei com meus tios, aqueles para cujo casamento eu vim na adolescência. Era no Itaim. Mas eu  queria independência e fui morar numa casa em que se alugavam quartos, na Rua Conselheiro Ramalho. A dona da pensão sempre pedia para o filho me acompanhar de manhã quando saía para o trabalho e à noite quando eu voltava da escola de ônibus. Eram só três quarteirões da Brigadeiro Luis Antonio. Só mais tarde fiquei sabendo o quanto não era seguro morar ali, próximo a uma tal de Madame Satã.

 

Por pressão de meus parentes fui morar num apartamento com outras moças do interior de São Paulo e uma de Minas, um pouco mais próximo da Avenida Paulista, saindo assim da zona de perigo. Foi em uma discoteca na Faria Lima, a Papagaios, que conheci meu marido. Era a balada da época com luz negra e um decoração bem diferente dos bailinhos da minha cidade.

 

Conheci a cidade andando de ônibus e, às vezes, até de trem, atrás de um emprego, escolhido em algum anúncio de jornal ou por indicação de uma agência da Rua Barão de Itapetininga, próximo ao Mappin —- que era a loja de departamentos onde todo paulista fazia compras. Trabalhei em algumas empresas alemãs. Atualmente trabalho numa em São Bernardo do Campo.

 

Uma sensação gostosa é pousar em Congonhas, ver a cidade lá de cima  e saber que tem um cantinho lá em baixo que é meu. Outro prazer é fazer ginástica e caminhadas no Parque do Povo — sinto-me no Central Park de Nova York. No entorno do sossego do parque, aviões no céu de minuto em minuto, luzes na Marginal, bicicletas nas ciclovias, pessoas caminhando, trens passando ao lado do Rio Pinheiros e os arranha-céus antigos e novos, cercando o parque, iluminados. De vez em quando você pode até acompanhar o pouso de um helicóptero no topo de um deles.

 

Apesar de ser uma grande cidade estamos muito próximos uns dos outros graças aos avanços da tecnologia e da comunicação. Lá nos meus sonhos de criança e adolescência, nunca pensei que um dia estaria ao volante de um carro indo trabalhar e ouvindo uma amiga de colégio da minha filha narrando o trânsito da cidade de São Paulo do alto de um helicóptero.

 

Brigitte Ramos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Adote um Vereador: uma homenagem na faixa ou uma auto-homenagem com dinheiro público?

 

 

Fui testemunha de uma cena comovente, no domingo pela manhã, em uma das principais avenidas do bairro em que moro, na zona Oeste da capital. Havia um sol escaldante e termômetros de rua registrando mais de 30 graus. Coisa de louco. As ruas estavam quase vazias. Qualquer um de nós desejaríamos estar à sombra. Quem sabe na piscina do vizinho para refrescar. Eu — sem nenhum vizinho que me convidasse para o banho — só havia me arriscado sair de casa porque fui buscar um pote de sorvete na padaria mais próxima.

 

O desconforto e os riscos à saúde provocados por este verão de 2019 não foram suficientes para impedir que dois cidadãos paulistanos levantassem uma escada de alumínio, tão alta quanto o poste que eles almejavam alcançar, e deixassem registrada uma mensagem de gratidão a dois políticos da cidade de São Paulo. A homenagem estava em forma de faixa. Tinha o fundo amarelo para que as letras em azul, vermelho e roxo se destacassem — afinal, o que mais interessava naquele gesto cidadão era enaltecer o nome dos representantes do povo.

 

Como minha caminhada se estendeu por mais alguns quarteirões, logo percebi que o trabalho daqueles dois cidadãos era muito maior do que eu imaginava. Eles haviam repetido a cena em ao menos mais três pontos da avenida —- onde encontrei a faixa com o mesmo padrão pendurada entre postes.

 

Fiquei imaginando, o tamanho da gratidão deles. Deixaram suas famílias em um domingo pela manhã, quando poderiam muito bem estar brincando com as crianças ou quem sabe iniciando os preparativos para o churrasco servido com cerveja bem gelada. Não se fizeram de rogados diante dos riscos impostos pelo calor. Levantaram a escada não apenas uma, mas duas, três, quatro, oito vezes —- sim, porque para cada homenagem pública eram necessárias duas “trepadas” de escada.

 

Não faria isso nem que me pagassem, pensei comigo mesmo —- e fiquei um pouco constrangido com os meus pensamentos, que se pareceram mesquinhos diante daquela atitude voluntária dos dois cidadãos. Logo eu que me dedico a convencer as pessoas da importância de acompanhar o trabalho do homem público, fiscalizar a ação dos nossos representantes na Câmara Municipal e ficar atentos a forma como gastam o nosso dinheiro. Deveria ter parado diante deles, aplaudido em pé e parabenizado a dupla pela atitude adotada. Mas não. Apenas olhei e segui em frente. Minto, também registrei o feito em foto para quem sabe incentivar outros cidadãos.

 

Já sem o efeito do calor, mais relaxado em casa e pote de sorvete desbravado, fui rever as imagens que estavam em meu celular. Incrédulo que sou, cheguei a pensar na possibilidade de aqueles dois rapazes serem apenas funcionários de alguma empresa que confecciona faixas na cidade. Talvez eles tivessem sido pagos por alguém para fazer a homenagem. Um outro cidadão? Não sei.

 

Foi, então, que chafurdei no pior que tem de meus pensamentos. Teria sido um dos citados na faixa o autor da homenagem? E sendo um dos citados vereador, ele teria feito a auto-homenagem com a verba indenizatória que custeia os serviços contratados pelos legisladores?

 

Que vergonha, Mílton! Pensar uma coisa dessas.

 

Perdoe-me caro e raro leitor deste blog. Só pode ser efeito do forte calor. Vereador nenhum desse país usaria dinheiro público para fazer auto-homenagem e ter algum ganho político com obra que é obrigação do município — não é mesmo? Além disso, todos sabemos, graças a Camões, que elogio em boca própria é vitupério.

 

Apesar de considerar singela a atitude dos dois cidadãos que estenderam seus agradecimentos pelo recapeamento da avenida Guilherme Dumont Vilares, gostaria de alertar que é proibido pendurar faixas na cidade, sem autorização da prefeitura. O que, certamente, é de conhecimento do vereador Isac Felix do PR que já foi chefe de gabinete na subprefeitura do Campo Limpo e tem seu nome estampado na auto-homenagem. Ops, na homenagem cidadã!

 

PS: Além de desrespeitar a lei municipal, a faixa também comete erro de português. Agradecer é verbo transitivo indireto quando se refere a pessoa. Portanto a regência correta é “agradecer ao prefeito” —- como está escrito ao lado do nome de Bruno Covas — e não “agradecer o vereador” —- como está logo abaixo.