Número de deputados revela deformação no parlamento

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

 

Na semana passada, o Tribunal Superior Eleitoral ratificou a Resolução n° 23.389/2013 redefinindo a distribuição do número de deputados federais por estado e, com isso, via de consequência, a composição das Assembleias Legislativas e da Câmara Distrital. Na prática, com a decisão do TSE, oito estados (AL, ES, PE, PR, RJ, RS, PB e PI) perderam representatividade na Câmara dos Deputados e cinco (AM, CE, MG, SC e PA) adquiriram. O Pará é o estado cuja bancada mais cresceria na próxima legislatura, com quatro cadeiras a mais (de 17 para 21). Ceará e Minas Gerais teriam mais duas vagas cada um (passando, respectivamente, de 22 para 24 e de 53 para 55 deputados). Amazonas e Santa Catarina aumentariam suas bancadas em um deputado federal cada um (o Amazonas passaria de 8 para 9 cadeiras e Santa Catarina de 16 para 17). Já a Paraíba e o Piauí sofreriam a maior redução, cada um perdendo dois deputados federais (passando de 12 para 10 e de 10 para 8, respectivamente). Pernambuco (25), Paraná (30), Rio de Janeiro (46), Espírito Santo (10), Alagoas (9) e Rio Grande do Sul (31) perderiam um deputado na próxima legislatura.

 

Esta divergência acerca do número de parlamentares teve início em abril de 2013, quando o TSE aprovou a resolução recalculando o tamanho das bancadas estaduais. Naquela oportunidade, o Tribunal levou em conta o censo do IBGE de 2010 para efetivar o recálculo a partir da população de cada estado. Porém, esta medida foi rechaçada pelos congressistas através da aprovação de um Decreto Legislativo tornando a decisão do TSE sem efeito.

 

Este é apenas um dos ângulos que a matéria comporta. A par do confronto estabelecido pelo TSE relativamente à Câmara dos Deputados – que através de sua Mesa Diretora reagiu ingressando com Ação Direta de Inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal – a desproporcionalidade que vigora nas representações regionais é uma anomalia histórica e tolerada sem qualquer esboço de reação, nem mesmo por aquelas mais prejudicadas.

 

Não obstante as tímidas tentativas de ajuste ou correção pela via legislativa, os 20 estados que formam as regiões Norte (7), Nordeste (9) e Centro-Oeste (4) do país, embora reunindo menos da metade da população brasileira (43%), seguem monopolizando expressivos 74% das 81 cadeiras do Senado Federal. Na Câmara dos Deputados a situação não é diversa quando estas mesmas bancadas controlam 50,1% das cadeiras (257), enquanto que os deputados oriundos dos 7 Estados que formam as regiões Sul (3) e Sudeste (4), sabidamente as mais industrializadas e populosas do país segundo o IBGE, preenchem 49,9% (256).

 

Sob o viés normativo, tanto a sobre-representação das primeiras quanto a sub-representação das demais foram introduzidas pelo Código Eleitoral de 1932 e incrementadas a partir da Constituição Federal de 1934. De lá para cá, a situação se consolidou. É indisfarçável que estes dois diplomas sacramentaram uma federação mutilada e parlamentarmente deformada, onde a representação de várias unidades federativas goza de um peso extra que se reflete sob a forma de desigualdades na formação de comissões, em votações, etc. No entanto, conforme recentemente lembrou Laurentino Gomes (2013, p. 106), tais distorções são enraizadas e tem suas origens ainda no Império, quando “os conservadores tinham representação mais forte nas províncias do Nordeste e, em geral, favoreciam a centralização do poder imperial, enquanto os liberais representavam as províncias do Sul e do Sudeste – especialmente São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – e defendiam uma maior descentralização em favor da economia regional”.

 

Esta afronta à representação parlamentar configura uma temática que pelo fato de distorcer a federação e a própria soberania popular, merece prioridade pelos congressistas a serem eleitos em 2014.

 


Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor dos livros “Prefeitos de Porto Alegre – Cotidiano e Administração da Capital Gaúcha entre 1889 e 2012” (Editora Verbo Jurídico), “Vereança e Câmaras Municipais – questões legais e constitucionais” (Editora Verbo Jurídico) e “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: Grêmio, até a volta!

 

Grêmio 0 x 0 Palmeiras
Brasileiro – Alfredo Jaconi/Caxias (RS)

 

 

Como você deve saber, caro e raro leitor deste Blog, esta nona rodada marca a interrupção do Campeonato Brasileiro para que todas as atenções se voltem à Copa do Mundo. Apesar do mau humor que se percebe em relação à competição que será sediada pelo Brasil, devido ao desperdício de dinheiro público e obras inacabadas, sabe-se que a medida que o Mundial se aproxima aumenta a expectativa dos torcedores da mesma forma que a programação de rádio e TV é tomada por programas especiais. Jornais e revistas também entram nesta onda, de olho no retorno publicitário que o evento pode trazer. Assistimos todos os dias à uma espécie de esquenta para o Mundial com documentários e reportagens destacando momentos marcantes, relembrando vitórias e derrotas, entrevistando jogadores do passado, técnicos que deixam saudades e torcedores que revelam suas loucuras em verde e amarelo. Não escapamos das tradicionais matérias com representantes das colônias dos países que disputarão a Copa por aqui, a maioria das quais o máximo que se aproveita é uma boa receita da culinária exótica. Como minhas habilidades na cozinha não vão além de um café no bule e do omelete pela manhã, me atento mais as histórias que destacam os valores humanos de personagens da bola. A série com os jogadores da seleção brasileira, que está no ar no Jornal Nacional, é especial. Tino Marcos tem contado curiosidades dos atletas que estão distante dos nossos olhos quando os vemos em campo, e que têm me oferecido cada vez mais subsídios para torcer pela equipe de Luis Felipe Scolari.

 

Hoje, no início da tarde, antes de a partida do Grêmio se iniciar, assisti na HBO Latin America ao documentário “Seleção Brasileira – Paixão De Um Povo”, que no episódio reproduzido neste domingo se dedicou a nossa derrota na final de 1998 para a França, após a polêmica sobre o mal-estar de Ronaldo. Em meio a depoimentos dos protagonistas daquele acontecimento, havia declarações de jornalistas, escritores e artistas sobre o Mundial no Brasil. Um dos produtores, o cineasta Luis Carlos Barreto, entrevistou o cantor Gilberto Gil que, a partir de uma retórica complexa, tentou mostrar os motivos de o Brasil ter aceitado receber a Copa do Mundo. Confesso que até entendi a lógica dele, mas não seria capaz de repeti-la nesse espaço, mesmo porque o que mais me interessou foi o trecho final de seu depoimento quando relacionou os times pelos quais torce no Brasil, lista da qual faz parte o nosso Grêmio. O curioso foi saber que o cantor baiano esteve no estádio Olímpico para assistir à final do Campeonato Gaúcho de 1977, quando encerramos uma série de sete anos sem conquistas. Ele lembrou que ao ser perguntado por jornalistas por que torcia para o Grêmio, olhou para o céu que ainda estava azul, viu a lua que já dava suas caras naquele início de noite e justificou: “o céu é azul, a luz é branca e eu sou preto, portanto sou tricolor do Grêmio”.

 

Neste domingo sem gols, no qual voltamos a desperdiçar as poucas oportunidades e os raros lances de criatividade, tivemos de agradecer ao árbitro por nos livrar de uma derrota, e encerramos esta etapa inicial fora da zona de classificação para a Libertadores, o prazer de ouvir Gilberto Gil descrevendo sua admiração pelo Grêmio foi, sem dúvida, o momento mais marcante para este gremista.

 

Grêmio, até a volta (e aproveite bem esta parada) !

Conte Sua História de SP: a seleção jogava e eu corria atrás do balão

 

Vagner Osmar Boneto
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Tudo acontecia na época de férias do Grupo Escolar. Eu nasci em Valinhos, interior, e até hoje estou por aqui. Porém durante as férias, e isso foi na década de 1960, eu passava férias da metade do ano na casa da minha tia Floripes, que morava no prédio “Treme Treme” ao lado do Mercadão, na rua Pagé e, também, na Paula Souza.

 

Minha tia tinha um filho, Álvaro, mas ele não gostava de andar a pé, e isso era o que eu mais fazia nas férias em São Paulo. Com idade entre oito e 12 anos cheguei a passar horas andando pelo Parque Dom Pedro sozinho e sem nenhuma preocupação. O transito para quem morava no interior era fantasticamente “pesado”. Eu andava muito pela cidade sem ao menos ter ideia onde estava, mas fazia isso sempre marcando pontos de referência para poder voltar. Me perdi várias vezes, mas bastava perguntar: onde fica o Mercadão? E já me davam todas as direções.

 

Me lembro em 1962, a seleção jogava naquele dia e eu estava pelo parque Dom Pedro seguido um balão verde e branco formato Santos Dumont que estava caindo. Me parecia logo ali e não havia ninguém por perto. Corri desesperado achando que iria pegar o balão, mas de repente o balão se escondeu por trás de um prédio e desapareceu. Hoje eu sei que a noção de distância dentro de uma cidade grande faz muita diferença.

 

Dentro do Mercadão eu passava um bom tempo, era conhecido por alguns vendedores, pois meu pai transportava figo de Valinhos direto para a Mercadão. O cheiro característico ainda está na minha memória e quando ainda hoje passo por lá, vem à tona toda uma doce lembrança.

 

Na rua Pagé, minha tia morava no décimo andar do edifício, se não me engano no número 106, e, às vezes, eu ficava só no apartamento e, claro, na janela observando todo o charme da cidade. Por vezes fazia avião de papel e jogava lá de cima. Um dia descobri uma coleção de gibis do
meu primo e comecei a fazer um avião atrás do outro e soltar para ver qual iria mais longe. Depois de algum tempo quando olhei lá embaixo a rua com muitos papéis me assustei, fechei as janelas e passei o resto da tarde com muito medo. Achava que alguém viria reclamar para minha
tia e ela não me deixaria passar mais as férias ali. Ainda bem que nada aconteceu de ruim.

 

Quando minha tia morava perto da gravadora RCA Victor, na Paula Souza, cheguei a ver os membros do conjunto The Fivers subindo a rua correndo. Nossa! Como fã da Jovem Guarda me senti super feliz. No interior ver um artista de perto nunca aconteceria. Foi um momento do qual eu fazia parte e muito gratificante. Boas lembranças sem dúvidas.

 


Vagner Osmar Boneto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Quem sabe você conta a sua história aqui na CBN. Escreva para milton@cbn.com.br. Pode, também, registrar tudo isso no Museu da Pessoa, em áudio e vídeo. Marque pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net e depois você ainda ganha um DVD com tudo gravado.

Mundo Corporativo: Luiz Gustavo Mariano fala de capacitação de executivos

 

 

No desenvolvimento de talentos, as empresas têm papel fundamental e devem criar ambientes que incentivem à formação de seus executivos com planos de capacitação e carreira. É o que defende Luiz Gustavo Mariano, sócio da Flow Executive Finder, consultoria de seleção de executivos, em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Mariano fala das estratégias que estão sendo usadas pelas corporações para melhorar a performance de seus profissionais.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas da manhã, ao vivo, no site da Rádio CBN (www.cbn.com.br), e você pode participar com perguntas no e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelos Twitters @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN). O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

O luxo de ser hóspede em seu próprio apartamento no Trump Soho

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

 

O hotel Trump SoHo, um dos mais luxuosos de Nova York, acaba de lançar oito novas suítes de cobertura, sendo agora o hotel com o maior número de coberturas com dois quartos em Manhattan. Vistas deslumbrantes da cidade, conforto e elegância, e localização privilegiada são apenas algumas das experiências inesquecíveis que se pode vivenciar da cidade, em especial no charmoso bairro do SoHo.

 

Por ser hotel-condomínio, o Trump SoHo oferece a oportunidade de atender a hóspedes como também a compradores de apartamentos em seu prédio de 46 andares, todo revestido em vidro prateado, localizado na Spring Street, no coração do sofisticado SoHo. Há opções de quartos (studios), suítes e coberturas incríveis. Essas últimas são, sem dúvida, sonho de consumo para os mais abastados. Variam de 74 a 216 metros quadrados. Nas coberturas do 43º andar, por exemplo, os clientes podem escolher vistas para o pôr do sol no rio Hudson, ou a paisagem urbana de Manhattan, ou ainda, aproveitar a vista do Empire State Building da banheira da suíte face norte.

 

 

Ter um apartamento ou uma cobertura no Trump SoHo pode representar experiências que vão muito além do luxo, conforto e sofisticação de um hotel prestigiado. Um apartamento ali costuma ser a segunda (terceira, quarta…) residência de muitos clientes, principalmente pelo fato de poderem usar o imóvel por até 120 dias por ano e assim sentirem-se vivendo em Nova York, de pertencerem à cidade, celebrarem ocasiões especiais, oferecerem jantares em família ou com amigos. É possível ainda usufruir da estrutura do hotel e experimentar coquetéis no The Library, refugiar-se no Bar d’Eau com seu deck de piscina ao ar livre, ou apreciar as criações da gastronomia japonesa no Restaurante Koi – uma forma de vivenciar experiências inesquecíveis, retrato do luxo contemporâneo. O investimento mais baixo para se ter um apartamento no Trump SoHo é de USD 1,2 milhões, enquanto o valor de se concretizar este sonho é inestimável.

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: uma conversa com Barcos ao pé do ouvido

 

Sport 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Receife (PE)

 

 

Permita-me, caro e raro leitor deste blog, começar com os fatos do início da semana, pois o que assisti no meio dela, mais especificamente, na noite de quarta-feira, não me entusiasmou tanto assim a ponto de dedicar toda esta Avalanche. Na segunda-feira pela manhã, logo após o Jornal da CBN, fui à ESPN Brasil, no bairro do Sumaré, em São Paulo, a convite da produção do programa Bola da Vez que teria como entrevistado o atacante Barcos. O programa vai ao ar terças-feiras à noite, mas como nosso jogador teria compromissos com o Grêmio no Recife, ficou combinado que gravaríamos um dia antes, enquanto a delegação ainda estivesse em São Paulo. Apesar da distância não ser muito grande, contei com a astúcia do motorista da emissora para sair da rádio, no centro, e seguir até a zona oeste, driblando os congestionamentos matinais, o que me permitiu chegar confortavelmente até a redação da ESPN Brasil. Muitos anos de São Paulo me deixaram com trauma em relação ao horário, por isso faço todo o esforço para estar com antecedência nos meus compromisso, assim evito estresse e consigo atender melhor as pessoas dentro de suas necessidades. Nesse caso, meu bônus foi ficar, em uma sala, a espera do início da gravação, conversando com Barcos, ambos desarmados da tradicional postura de entrevistado e entrevistador.

 

Foi entre um cafezinho e outro que me apresentei como jornalista e, também, torcedor gremista, mesmo porque este foi o motivo que levou o pessoal do Bola da Vez a me convidar. Deixei claro para Barcos que, apesar de torcedor, minha postura é bem diferente daqueles que, nos últimos tempos, têm atacado o jogador pela ausência de gols. Quem acompanha esta Avalanche já percebeu que sempre busco preservar nossos jogadores e técnico, mesmo diante de situações constrangedoras como as que ocorreram recentemente, você-sabe-quando. Além disso, todo profissional, independentemente da função que exerce, mesmo que não consiga fazer seu trabalho com precisão, tem de ser respeitado e se tivermos alguma queixa que a façamos de maneira civilizada. Infelizmente, nem todos pensam assim e Barcos foi alvo de agressões verbais tanto pessoalmente como nas redes sociais. Alguns não o perdoam por ter perdido o pênalti na decisão da vaga às quartas-de-final da Liberadores e outros por ser o capitão da equipe derrotada no Campeonato Gaúcho.

 

Barcos, apesar de não ter o ensino médio completo, é um jogador inteligente e experiente, deixou a Argentina cedo e passou por vários clubes aqui e fora do continente. Desde jovem dava sinais de que havia nascido para liderar e mesmo em times onde recém havia chegado não se continha em ouvir, gostava de opinar. Foi assim no Estrela Vermelha, da Sérvia, quando quiseram cortar o prêmio por uma conquista alcançada e, apesar de estar há apenas três dias no clube, reclamou no vestiário. A conversa com ele é interessante, pois a primeira impressão que se tem é que o atacante é tímido, mas logo se percebe que a fala é que é direta. Não precisa de muitas palavras para dizer o que pensa, e não esconde o que pensa. Sobre a falta de gols, e eu nem precisei fazer qualquer pergunta para entrarmos no assunto, ele considera injusto que se faça avaliações isoladas que não levem em consideração a forma como o time joga, de que maneira a bola chega até ele e a quantidade de chances que surgem (no caso, poucas). “E quando marco dois gols, vem um jornalista e me cobra por causa da comemoração”, se queixou – referência aos questionamentos por ter recebido cartão amarelo contra o Chapecoense após o segundo gol. Barcos sabe que parte da cobrança se dá por algo que ele não tem culpa particularmente: a falta de títulos. Os torcedores estão impacientes, e com razão; o problema é que esta impaciência, segundo ele, atrapalha o time e prejudica ainda mais o desempenho de alguns jogadores. Deve ter gostado mesmo é da informação que ouviu do assessor de comunicação do Grêmio que o acompanhava: Barcos está a três gols do maior goleador estrangeiro que já vestiu nossa camisa, Oberti, que fez 35 gols entre 1972 e 1974. Antes de a conversa se encerrar, aproveitei a oportunidade para deixar o desejo de que ele alcançasse logo esta marca, já no próximo jogo, o que, como já sabemos, não aconteceu.

 

As minhas Copas e a do Brasil

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sou um veterano em Copas do Mundo. Na de 50,confesso,minha ligação com o futebol resumia-se às peladas com os meus companheiros de zona. Já contei neste blog,mas não custa repetir, que assistia a um filme, no cinema Eldorado, quando esse foi interrompido para que um “speaker” informasse que o Brasil perdera a Copa para o Uruguai. Em 1954,ouvi pelo rádio a vitória da Alemanha sobre a Suíça. Trabalhava,então,no meu primeiro emprego:Rádio Clube Metrópole. Em 1958,já na Guaíba,festejamos a vitória brasileira na final,contra a Suécia.Escutei os jogos, narrados por Mendes Ribeiro. Depois,percorremos as congestionadas ruas do centro de Porto Alegre,rodando com o Oldsmobile do pai de Pedro Carneiro Pereira. Ele ainda trabalhava na Clube Metrópole. Como narrador da Guaíba fiz,na Alemanha, a minha primeira Copa do Mundo. Em 78,na Argentina,narrei apenas um jogo. Já,no México,em 1986,na condição de narrador titular da Guaíba,não tive o prazer de vibrar com uma vitória brasileira. Ganharam os nossos sempre rivais,os argentinos.

 

O Brasil recebe agora as seleções de boa parte do mundo em uma competição que,como ouvi de Parreira,se considera favorito. Há,entretanto,instituições de nosso país que não foram favorecidas com verbas governamentais. Hospitais,por exemplo. Bilhões foram despejados,porém, na construção de estádios capazes de agradar a exigente e poderosa FIFA. Aqui,em Porto Alegre,duvido que todas as obras destinadas a facilitar a mobilidade urbana possam ser entregues totalmente finalizadas.Morador que sou da Zona Sul,transito diariamente pelas proximidades do Beira-Rio.Está ali, esperando finalização,o Viaduto da Pinheiro Borda.

 

Os problemas provocados pela realização de uma competição como a que se iniciará em junho não ficam somente restritas a obras e quejandas. Para não me estender,vou citar duas. A nossa Brigada Militar,preocupadíssima com a segurança da população de Porto Alegre e dos turistas que vierem para ver suas seleções nos cinco jogos marcados para o Beira-Rio,decidiu trazer do Interior cerca de 2 mil PMs. Despe-se um santo para vestir outro,é o que dizem prefeitos de cidades interioranas que,sofrem com assaltos,principalmente,os que sofrem instituições bancárias. Quem comanda a BM garante que não faltarão patrulhas no interior. É preciso ver para crer.

 

Às obras que, não se sabe ao certo, se serão entregues aos munícipes,decreto da prefeitura de Porto Alegre,em vigor desde ontem,proíbe que os nossos taxistas vistam camisas xadrez,de bolinhas,com listras e,menos ainda,caso sejam de um time de futebol. Ah,claro,o taxista tem de estar bem vestido. Concordo.Isso é uma coisa,outra é a exigência de uniforme. Não sei (porque sempre escrevo às terças-feiras)se o Sinditáxi aceitará o que reza o decreto sem ameaçar com greve. Era só o que faltava às vésperas da Copa do Mundo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O Rei está nu, e foi o Réu quem denunciou

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Roberto Carlos ficará para a história definitivamente como cantor e censor. Como Rei, estará mais para o personagem da fábula de Christian Andersen: um monarca que desfilava com traje imaginário e era aplaudido pelos súditos, que, coniventes, não viam a sua nudez.

 

Este maio de 2014 também ficará para a história do Brasil. As dezenas de biografias censuradas e outras tantas a se fazer, deverão estar em breve liberadas. No início do mês a Câmara Federal aprovou emenda que autoriza a publicação de biografias sem a aprovação do biografado. Sistema democrático que responsabiliza o escritor, mas o libera na busca de todos os aspectos que possam compor a trajetória da personalidade estudada.

 

Na metade do mês, Roberto Carlos entrou no STF Supremo Tribunal Federal com um pedido para participar da discussão das biografias. Através do Instituto Amigos, criado por ele para poder entrar como parte interessada.

 

Na terceira semana de maio, o escritor e réu do Rei no processo cível e criminal que Roberto Carlos lhe dirigiu pelo livro “Roberto Carlos em detalhes”, surpreendeu a todos. Lançou a sua própria biografia na relação com o Rei. O Réu e o Rei, Paulo C. Araujo, Companhia das Letras, R$ 34,90, 528 páginas.O livro escancara os absurdos que fama e poder podem interferir unilateralmente nos comportamentos, procedimentos e julgamentos. O seu autor, o jornalista e biógrafo Paulo Cesar de Araujo, fã desde os 11 anos, poupa o autor e cantor, mas não esconde a agressividade que Roberto Carlos como censor lhe dedicou. Disse em entrevista ao Jornal da CBN que “Roberto Carlos será o último censor do Brasil”. E, aí assume a criança da fábula, que sem medo, grita cruelmente: “O Rei está nu”.

 

Este é o verdadeiro Roberto Carlos!

 

Vale aqui colocar a advertência da VEJA sobre o livro O Réu e o Rei: “os advogados de Roberto Carlos estão lendo o livro. Por via das dúvidas, é melhor correr para garantir o seu exemplar”.

 

Ouça aqui a entrevista de Paulo C. Araujo, ao Jornal da CBN:

 

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Entendendo a cabeça do ouvinte-internauta

 

 

Cheguei a rádio CBN em 1998 quando a emissora passava por uma transformação no relacionamento com o público, pois deixava de anunciar o telefone do ouvinte para informar o e-mail do âncora. A estratégia que alguns chamaram de elitista logo que foi adaota na realidade democratizou o acesso dos ouvintes à emissora. Em lugar de a linha telefônica que atendia apenas uma pessoa, abria-se a caixa de correio eletrônico para todos os interessados em enviar o seu recado. Enquanto muitas das mensagens que chegavam por telefone se perdiam nos bastidores, os e-mails passaram a ser encaminhados diretamente ao seu destino. Foi quando percebi que rádio e computador iniciavam um casamento perfeito. Naquela época ainda separados fisicamente, mas consumidos simultaneamente pelo público. O ouvinte que acompanhava a programação da CBN navegava na internet, o que me levou a batizá-lo de ouvinte-internauta. Foi também quando assumi o compromisso de responder a todas as mensagens enviadas para minha caixa de correio, independentemente do conteúdo. Puxão de orelha do ouvinte, críticas às vezes agressivas e algumas ameaças faziam parte deste diálogo virtual. Aprendi com o tempo que respostas equilibradas para mensagens ofensivas, costumavam mudar o tom da conversa. Porém, desde que a CBN colocou na capa do site o link “fale com o Mílton Jung” o número de mensagens multiplicou-se a ponto de não conseguir mais atender a todos os ouvintes como me propus inicialmente. E isso acaba provocando reclamações.

 

Para entender parte do comportamento do ouvinte e justificar minha dificuldade em cumprir com o compromisso que assumi comigo mesmo, em 1998, armazei, no decorrer de um mês, todas (ou quase todas) mensagens enviadas para os endereços milton@cbn.com.br e “fale com o Mílton Jung”. São e-mails que chegaram entre segunda e sexta-feira, dias em que estou ao vivo no ar no Jornal da CBN. Não inclui mensagens pelo Facebook, Twitter, meu blog e site da rádio, outros canais de comunicação importantes. Dispensados os releases de assessorias, spans e cia., além de mensagens com endereços internos da CBN, que tomam tempo no trabalho de administrar a caixa de correio, encontrei o nome de 1.154 ouvintes que se comunicaram uma ou mais vezes comigo nesse período, resultando em 1.711 mensagens, ou seja, média de 81 por dia, levando em consideração que o mês em análise teve 21 dias úteis. Desse total, 79% das mensagens foram assinadas por ouvintes que escreveram apenas uma vez no período, o que não significa que tenha sido a primeira vez que entraram em contato comigo pois é possível identificar alguns nomes conhecidos. Os 21% restantes mandaram dois ou mais recados, havendo casos de ouvintes que escreveram quase todos os dias sobre diferentes temas. A estatística mostra uma situação no mínimo curiosa: tem um ouvinte que enviou mais de 100 mensagens no mês, praticamente todas com críticas negativas ao meu trabalho e de meus colegas. Sou grato a ele e o respeito muito.

 

Mesmo que não consiga mais responder a todos os ouvintes, leio o que escrevem logo que as mensagens chegam, especialmente quando estou na apresentação do Jornal da CBN. Algumas pautam as entrevistas ou podem ser ponto inicial de reportagens, outras cito no ar quando o tempo e o conteúdo permitem e há as que nos fazem pensar. Confesso, também existem as que nos fazem odiar (a nós mesmos, algumas vezes), mas passa rápido. Mesmo porque o pior dos cenários seria não recebê-las jamais. Pude perceber alguns comportamentos interessantes os quais destaco aqui pois imagino que isto se reproduz em muitas outras situações, não apenas na relação virtual: os indignados sempre escrevem mais do que os satisfeitos, ou seja, as pessoas se sentem muito mais motivadas a reclamar do que incentivar. Isso pode gerar injustiças na avaliação, pois iniciativas positivas que atendem a uma centena de pessoas correm o risco de serem destruídas por críticas que mobilizaram algumas dezenas: quem gosta, aprova e cala; quem não gosta, grita. Diante disso e levando em consideração que esse comportamento se reproduz em diferentes áreas, sugiro que se você admira alguém ou aprovou alguma atitude, ajude a preservar estas qualidades incentivando-as com um e-mail de agradecimento ou uma palavra de apoio ao encontrar seu autor no trabalho, na escola ou na família. Já se você for o alvo da crítica, entenda que mudanças de hábito sempre geram protestos e novos padrões causam desconforto. Se estiver convicto da sua ação, jamais mude completamente por causa da rejeição inicial, mas, tanto quanto você não deve subestimar uma crítica, não superestime o elogio.

Conte Sua História de SP: o nosso apartamento da Cohab

 

Por Maria Claudia Oliveira Paiva
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Meus pais se conheceram em Minas Gerais. Se conheceram em um conservatório de música (sim, a arte os uniu), decidiram se amar e vieram tentar a vida em São Paulo. Morei primeiro em Higienópolis, por pouco tempo, era muito pequenininha, e em seguida fomos morar no bairro Alto da Mooca, zona leste. Tenho lembranças maravilhosas desse tempo. Apesar das dificuldades, da vida simples, naquela época eu e meu irmão brincávamos muito na rua, andávamos muito de bicicleta na pracinha que tinha próximo de casa. Meu pai era taxista e minha mãe, costureira.

 

Cresci ouvindo clássicos da música erudita por influência do meu pai. Foi por causa dele, também, que conheci o grande compositor e violonista Dilermando Reis, bem como o compositor e mestre do cavaquinho Waldir Azevedo.

 

Em um dia triste do mês de fevereiro, numa dessas fortes chuvas de verão, a parede da cozinha de nossa casa veio abaixo. Me lembro que estávamos todos juntos, minha mãe costurando, meu pai ouvindo música, eu e meu irmão brincando na mesa. Nos hospedamos de forma provisória na casa da dona do imóvel, que morava na frente, mas em pouco tempo nosso apartamento da Cohab foi liberado, e fomos morar em Itaquera, também na zona leste.

 

Lá vivi dos 7 aos 25 anos, no Conjunto Habitacional José Bonifácio. Foi a época mais marcante da minha vida, pois ali passei da infância para a adolescência, e desta para a idade adulta. Em nosso prédio aconteciam muitas festas para as crianças: dia das mães, dia dos pais, festa junina, Natal, ano novo. Um dos moradores tinha uma das paredes de seu apartamento tomada por caixas de som. Seu apelido era Deca. Nós ficávamos ansiosos esperando: “hoje o Deca vai descer o som!”. E a festa rolava até tarde. Os vizinhos não reclamavam, pois era um ambiente muito familiar.

 

Primeira surra (sim, apanhei em pleno ano novo por ter passado a noite inteira passeando pela Cohab com um namoradinho), primeiro namorado, primeiro emprego, faculdade. Minha formação aconteceu ali e até hoje guardo essas boas lembranças, inclusive das várias amizades que fiz.

 

Mas minha paixão mesmo é pelo centro de São Paulo. Quando comecei a trabalhar no Banco Real, primeiramente na Rua Benjamin Constant, do lado da Praça da Sé, e depois na Rua Boa Vista, eu fui apresentada a esse lugar delicioso. Me lembro que os happy hours de sexta-feira eram sagrados. Eu e minhas amigas explorávamos cada canto, cada bar, cada boteco, em busca de uma boa conversa, uma cerveja gelada e uma boa paquera.

 

Hoje, continuo explorando esse lugar, mas com um olhar diferente. Hoje eu observo mais as pessoas, seus estilos, a arquitetura dos edifícios e das casas, a arte e a manifestação cultural nas ruas….. Tanta coisa boa que muita gente deixa de conhecer, pois preferem ficar fechadas dentro de um shopping center.

 

Irei comemorar mais um aniversário de São Paulo, mas desta vez será especial. Conheci pela internet uma moça que mora em Governador Valadares/MG. Tenho parentes lá e me lembro de ter ido conhecê-los quando eu era muito pequenininha. Essa moça, chamada Dayse, me ajudou a encontrar meus parentes que havíamos perdido contato há mais de 3 anos. Ela virá conhecer São Paulo e ficará alguns dias hospedada na minha casa. Irei mostrar a ela um pouco da cultura, da beleza e das mazelas dessa nossa cidade, inclusive irei levá-la para conhecer um lugar que sempre me leva às lágrimas quando vou: a Sala São Paulo.

 


Maria Claudia Oliveira de Paiva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte a sua história aqui na CBN, escreva para milton@cbn.com.br. Melhor ainda, grave em áudio e vídeo lá no Museu da Pessoa. E só agendar pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net e já sai de lá com um DVD em mãos.