Para onde vamos?

 

Por Julio Tannus

 

Monteiro Lobato fez parte de minha infância e de toda uma geração de crianças. Em nenhum momento fui impelido a qualquer tipo de preconceito. A revista Época, em novembro de 2011, publicou um texto de Celso Masson, Humberto Maia Junior e Rodrigo Turrer: “Como qualquer fábula, as de Monteiro Lobato (1882-1948) apresentam seres encantados, bichos falantes e situações inverossímeis. Foram escritas para despertar na criança o gosto pela leitura e fecundar a imaginação. Desde a década de 1920, as histórias do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo têm sido adotadas nas escolas públicas de todo o país. Agora, o Conselho Nacional de Educação acolheu uma acusação de racismo contra uma dessas fábulas e pode bani-la das salas de aula por, de acordo com essa acusação, não “se coadunar com as políticas públicas para uma educação antirracista”. Ficar sem Monteiro Lobato é evidentemente ruim para as crianças – mas proibi-lo é pior ainda para o Brasil”.

 

Friedrich Nietzsche foi considerado, pela Alemanha nazista, um autor nazista por suas considerações sobre o ser humano. Isto não quer dizer que o autor tenha sido nazista. Ao contrário, o professor Osvaldo Giacóia-Júnior, um dos autores brasileiros com excelente capacidade de interpretação da obra de Nietzsche, apresenta algumas considerações sobre Nietzsche e o Nazismo: “Nem mesmo entre os críticos da obra de Nietzsche, em sentido acadêmico, utilizam o falso argumento de que o filósofo sustenta o Nazismo. Há sim, evidentemente, as apropriações que o Nazismo fez da obra de Nietzsche, o que de nada representa ao filósofo”.

 

Cotas raciais nas universidades brasileiras. Por que ao invés do investimento público para estabelecimento de cotas, não investir na educação pública básica propiciando um nível adequado de educação as camadas pobres da população? Para a antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Yvonne Maggie, tais projetos não promoverão a inclusão nem resolverão as desigualdades que existem no país: “Sabemos que a sociedade é dividida em classes e é aí que reside a fonte de toda a desigualdade. O Brasil optou por um sistema econômico altamente concentrador de renda. Sem lutar contra isso, sem lutar pela igualdade de direitos e pelos direitos universais não há como construir uma sociedade mais igualitária e justa”. A professora explica que é contra a proposta de cotas raciais nas universidades porque ela produz divisões perigosas: “Essa política exige que o cidadão se defina perante o Estado segundo sua ‘raça’ ou sua origem. Sabemos que toda vez que o Estado se imiscuiu nos assuntos de identidade dos indivíduos, obrigando-os a se definirem, o resultado foi a produção da violência.”

 

Manifesto “Todos têm direitos iguais na República”, assinado por 114 intelectuais e artistas contrários à aprovação da Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial: “Políticas dirigidas a grupos ‘raciais’ estanques em nome da justiça social não eliminam o racismo e podem até mesmo produzir o efeito contrário, dando respaldo legal ao conceito de raça e possibilitando o acirramento do conflito e da intolerância. O principal caminho para o combate à exclusão social é a construção de serviços públicos universais de qualidade nos setores de educação, saúde e Previdência, em especial a criação de empregos”.

 

Thomas Mann, escritor alemão cuja mãe, Julia Mann, nasceu em Paraty no final do século 19, onde seu pai (avô de Thomas Mann) era fazendeiro, nasceu na Alemanha porque seu avô, desgostoso por estar sendo pressionado por alguns fazendeiros da região que eram contra a abolição da escravatura, voltou para sua terra natal. Isto não quer dizer que os fazendeiros do século 20 sejam escravocatras.

 

E Hannah Arendt nos diz: “a cultura se encontra ameaçada quando todos os objetos do mundo produzidos atualmente ou no passado são tratados unicamente como funções dos processos sociais vitais – como se não tivessem outra razão a não ser a satisfação de alguma necessidade – e não importa se as necessidades em questão são refinadas ou básicas”.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve às terças-feiras no Blog do Mílton Jung

Por que falar é viver

 


Por Nei Alberto Pies
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

“A quem mais amamos, menos sabemos falar” (Provérbio inglês)

 

Todo tipo e forma de discriminação, além de ser um problema pessoal de quem os sofre, é também um problema social. A gagueira, como outros tantos limites humanos, deixa marcas e imprime jeitos de resistir para sobreviver socialmente. Como eu, pelo menos 1.700.000 pessoas em todo o nosso país apresenta algum grau de gagueira na sua comunicação, conforme dados do Instituto Brasileiro de Fluência. A gagueira ganhou também um dia internacional: dia 22 de outubro.

 

A fala é o meio mais eficaz e mais utilizado para a nossa comunicação e interação social, porém não a única. Esta é a maior descoberta para alcançarmos reconhecimento social, através da comunicação. Se não falamos fluentemente ou temos algum grau de timidez, arranjamos jeitos de ser reconhecidos e valorizados socialmente por alguma outra habilidade ou virtude. Se não somos “experts” na fala, podemos ser bons na escrita, no canto, na representação, no estudo, na convivência ou nas relações. A qualidade da nossa comunicação depende da interação de todos, inclusive do apoio e compreensão que temos de dar àqueles que sofrem para se comunicar.

 

O ser humano é especialista na arte de compensar. Sem compensar não sobreviveria, porque se não é possível ser bom em tudo, é necessário ser bom e útil em alguma coisa. Por isso a gente se faz “agarrando-se” ao que tem de bom, àquilo que tem facilidade e àquilo que nos renda reconhecimento dos outros. A gente inventa e re-inventa jeitos e trejeitos para ser querido, amado e promovido pelos outros. O reconhecimento social é uma das maiores necessidades humanas, pois ninguém sobrevive se não comprovar para si mesmo o quanto é útil, importante, querido e estimado pelos outros.

 

O resgate da auto-estima e a auto-aceitação são preponderantes para a cura ou convivência com a gagueira. A gagueira é influenciada por fatores neurobiológicos ou emocionais. Conhecer-se, estudar o seu problema, procurar auxílio e terapias, aumenta as possibilidades de conviver socialmente, sem maiores traumas. É fundamental, ainda, assumir publicamente os limites da fala e da comunicação sempre que se puder. Assumir os limites da fala propicia discernimento e tranqüilidade interior para lidar com os desafios de se comunicar melhor. Quem fala se liberta!

 

Falar é a forma mais concreta de nos apresentar ao mundo. Por isso mesmo, falar pressupõe primeiro aceitar-se como se é para depois buscar o reconhecimento junto aos outros. A felicidade de “seres humanos falantes” alicerça-se tanto nos fracassos e limites como nos êxitos e nas conquistas, pessoais e coletivos. Uma boa convivência social pressupõe a aceitação de todos os limites humanos e a superação de todas as formas de discriminação.

Conte Sua História de SP: Os passeios no cinema

 

No Conte Sua História de São Paulo, Arnaldo Leff, nascido na capital paulista em 1940. Filho de poloneses foi criado no bairro do Bom Retiro, no centro de São Paulo. Seu Arnaldo lembra que o cinema era o único meio de diversão na São Paulo dos anos 1950:

 

Ouça o depoimento de Arnaldo Leff sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Este depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa

Os números e as oportunidades, faça bom proveito

 

Por Abigail Costa

 

Nos últimos dias, por conta de alguns estudos, tenho me debruçado sobre números. O objetivo a ser atingido? Traçar expectativas para os próximos  anos no cenário econômico mundial. Pelo que diz meu professor e doutor no assunto Tharcisio  Bierrenbach nosso Brasil terá céu de brigadeiro … tudo azul … visão panorâmica de 180 graus. Sem falar nos outros com o vento soprando a favor como Rússia, China e Índia. Mas, aqui, não vou cruzar o oceano.  Vou ficar no nosso “mundinho”. Só ele dá pano pra manga! São números expressivos, que, sério, se dissessem isto lá atrás eu duvidaria. Agora, não tem como não acreditar. Estamos vivendo este momento.

 

Pesquisa de consultorias nacionais e internacionais apontam que até 2020 os brasileiros vão gastar R$ 1,3 trilhão  (sempre que escrevo um número assim fico imaginando a quantidade de zeros ou qualquer coisa que me desse a dimensão exata,  assim de forma enfileirada). Este cenário vai elevar o país para a condição de quinto maior do mundo. Imagine nós consumindo mais macarrão do que os italianos? Deixaremos os alemães de copos vazios, pois o consumo de cerveja por aqui será três vezes maior do que lá. Vamos comer, beber mais e melhor. E, também, vamos nos irritar muito mais no trânsito. Seremos o terceiro maior mercado de carros do mundo (quantos deles estarão assim de forma enfileirada, como os zeros do trilhão, no meu caminho, é melhor nem pensar). Outro setor que tem motivos para escancarar um sorriso é o mercado de cosméticos. O valor das vendas dos produtos para os cabelos só na cidade de São Paulo vai crescer o dobro do que na França. E os números seguem soprando a nosso favor de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Principalmente no Nordeste.

 

Então, é sentar e esperar pelo próximos anos? Não, não é bem assim. Quem quiser fazer parte dessa turma, vai precisar arregaçar as mangas, ter criatividade e ser diferente para se destacar no mercado. Ouvi semana passada frase da diretora de Recursos Humanos de multinacional do setor químico que me chamou a atenção: “a empresa não escolhe mais seus funcionários, hoje eles escolhem a empresa”. Mesmo assim, me contou ela, na companhia em que trabalha, há meses, 350 vagas estão a espera de candidatos. Falta é mão de obra especializada.

 

Como os números acima falam de previsão para daqui cinco, oito, dez anos, sinal de que ainda dá tempo de fazer parte desse time.

 

Aproveite a oportunidade!

 

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung aos domingos.

De mudança de vento

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Grande parte do tempo percebo pelo menos dois estratos de realidade. O que parece nascer de dentro e o que eu poderia jurar que vem de fora. Pulso em todas as latitudes e longitudes, é verdade, mas não alcanço tantas nuances. Sinto no escuro. Entrego à minha essência boa porção do meu ego, mergulho no roteiro e acredito na trama. Ou não. Sinto-me carimbada por eventos que se originam num ponto onde moram presente, passado e futuro. Pulso na herança genética e na dosagem de cada ingrediente da minha receita. Minha pele se expressa, e meus olhos confessam.

 

meu sangue corre
e tropeça em obstáculo
feito de tudo que comi
pensei
falei
bebi
senti
ouvi
vivi
vi

 

É viciante, contorcer-se para se adaptar ao reino do Senhor do Tempo, onde regem em triunvirato presente, passado e futuro.

 

será desviver
?
prova perdida
no aceno de largada

 

resistir ao conviver
?

 

É possível ficar menos e ao mesmo tempo mais resistente, se me entende. Menos espaço, mais gente; mais violência, menos compaixão. Acreditei que vivia um tempo de cada vez. Hoje posso adaptar o colorido do passado ao formato e disposição do destino desenhado. Escolho quem retoca o som, a cor e a imagem da tela do meu tempo, e vou em frente.

 

Sou cara e sou coroa, sou verso e reverso, côncavo e convexo. Lady e vagabundo, bela a fera. Ser e não-ser.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: Desculpa, Zé !

 

Grêmio 0 x 0 Coritiba
Brasileiro – Olímpico Monumental

20OCT12_GremioxCoritiba_013

 

Lembro quando o Grêmio trouxe Paulo César Lima para formar o time que seria campeão gaúcho em 1979. Famoso por seu comportamento polêmico tanto quanto pelo futebol elegante que jogava, chegou ao Rio Grande do Sul sob a desconfiança daqueles que não viam nele capacidade de oferecer ao torcedor gremista o esforço que sempre esperamos daqueles que vestem nossa camisa. Diziam que não teria força nem vontade para disputar o ríspido Campeonato Gaúcho e logo tiraria o pé das divididas e seu time de campo. Eu era adolescente e recordo do orgulho de saber que o Grêmio estava contratando um craque que havia brilhado na seleção brasileira e nos campos da Europa, onde jogou pelo Olympique de Marseille. Naquela época não era normal trazermos jogadores com este perfil, nossos principais craques com carimbo no passaporte haviam passado pela Argentina e Uruguai. Caju, apelido que ganhou pela cor que pintava a cabeleira, provou ser maior do que os críticos, participou da histórica partida contra o Esportivo, em Bento Gonçalves, única disputada no Brasil abaixo de neve, driblou quem tentou intimidá-lo pela força e conquistou o título de campeão gaúcho daquele ano. Voltou ao Grêmio, em 1983, para conquistar o Campeonato Mundial.

 

Paulo César Caju surgiu nas minhas lembranças neste início de noite de sábado, quando, aliás, assistimos a um jogo nem um pouco memorável – bem distante disto. A imagem daquele craque apareceu graças a Zé Roberto e sua performance impressionante, um jogador que consegue ser talentoso mesmo quando a mediocridade o cerca. Na estatística apresentada ao fim do primeiro tempo, nosso camisa 10 havia feito 20 passes e acertado todos, não sei quantos desses de calcanhar, desnorteando seu marcador e deixando seus companheiros em situação de ataque. A facilidade com toca na bola e como se movimenta para driblar os adversários, além da inteligência e visão de jogo, fazem dele um jogador muito diferente dos demais. Lamento apenas que não é retribuído da mesma forma por parcela de seus companheiros que deveriam pedir desculpas por não serem capazes de acompanhar o raciocínio do nosso craque.

Parque Villa Lobos será cenário do SPFW

 

Por Dora Estevam

 

 

A temporada de inverno 2013 será apresentada em apenas quatro dias, de 29 de outubro a 1º de novembro, no mirante do Parque Villa Lobos, zona oeste de São Paulo, em um cenário inspirado em estufas de plantas, idealizado pelo artista plástico Felipe Morozini. As mudanças do calendário e do tempo de desfiles fazem parte do momento de transição do SPFW.

 

Algumas grifes que tradicionalmente integram o line-up do evento vão apresentar as coleções de maneira pouco diferente das que estamos acostumados, através de vídeos ou exposições de fotografias. Neon, Fernanda Yamamoto e Paula Raia aderiram ao novo estilo de apresentação.

 

Como sempre tem muitas novidades em torno das marcas, a começar com o retorno da Maria Garcia, na programação dos desfiles, após um tempo de três anos, desde 2010. Segundo a diretora criativa, Clô Orozco, a marca está mais madura e mais comercial, a coleção está completa e pronta para alcançar muitas clientes, vender muito.

 

Vamos matar a curiosidade logo e ver quem desfila e quando:

 

Segunda-feira, 29 de outubro

 

12h Osklen
15h Têca por Helô Rocha
16h Ronaldo Fraga
17h30 FH por Fause Haten
19h Tufi Duek (foto)
20h Triton
21h Ellus

 

Terça-feira, 30 de outubro

 

16h João Pimenta
17h30 Uma Raquel Davidowicz
19h Samuel Cirnansck
20h30 Lino Villaventura
21h30 Colcci

 

Quarta-feira, 31 de outubro

 

11h30 Gloria Coelho
16h Alexandre Herchcovitch
17h30 Maria Garcia
19h R. Rosner
20h15 Vitorino Campos
21h30 Forum

 

Quinta-feira, 1º de novembro

 

11h Reinaldo Lourenço

 

Lembrando que o evento é destinado à mídia que cobre moda e a convidadas especiais. Não é aberto ao público.

 

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda no Blog do Mílton Jung, aos sábados.

Mundo Corporativo: os empresários no divã

 

Empresários e donos de negócios vivem um cenário de pressão e cobrança por decisões e podem pagar muito caro por isso, desde problemas nas relações familiares até a falência da empresa. O terapeuta Luiz Fernando Garcia, entrevistado no Mundo Corporativo da rádio CBN, aponta alguns dos problemas mais comuns no atendimento a executivos: impulsividade por aquisições, dificuldade em lidar com dinheiro e alto nível de ansiedade. Especialista em psicodinâmica em gestão e negócio, Luiz Fernando lançou o livro “Empresários no Divã – como Freud, Jung e Lacan podem ajudar sua empresa a deslanchar”, pela editora Gente. Na entrevista, o terapeuta sugere como soluções para parte dos dramas vividos no comando dos negócios melhorar o nível de comunicação com os demais profissionais, ser amigo do dinheiro, pois há uma tendência de se negar problemas financeiros, e, finalmente, entender que “descanso é descanso”. Para saber mais, assista ao vídeo com a entrevista completa de Luiz Fernando Garcia.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo Twitter @jornaldacbn e pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Vida na cidade: devagar com o andor porque o santo é de barro

 

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Plataforma no metro Barra Funda

 

Há uma semana, véspera de feriado de Nossa Senhora Aparecida, quando milhares de pessoas voltavam para casa um homem sacou arma em um túnel da Estação da Luz do metrô, no centro de São Paulo, e causou confusão generalizada. Em pleno horário de pico, passageiros correram nos corredores superlotados, caíram nas escadas, abandonaram bolsas, sapatos e celulares. Na confusão, grades que servem para organizar o fluxo de passageiros caíram no chão e provocavam estampidos que lembravam tiros. O som ecoava na estação e passava a ideia de que ocorria um tiroteio no local o que aumentou o pânico. Passageiros caíram nos trilhos, o que obrigou o metrô a parar as operações por mais de meia hora. Programas de televisão assim que receberam os primeiros relatos de dentro da estação passaram a noticiar o suposto tiroteio, o que gerou outra onda de boatos, pois usuários que estavam na estação e não sabiam o que acontece recebiam ligação telefônica de parentes que assistiam às emissoras. E o terror aumentava.

 

Apenas depois da intervenção policial e dos ânimos se acalmarem pode-se ter ideia do que havia acontecido dentro da estação mais movimentada do sistema de transporte de trilhos de São Paulo. Um homem esbarrou em uma mulher, em meio a pressa de um sem-número de passageiros que buscavam seu destino ao fim de mais de um dia de trabalho. A cena deve se repetir a todo momento, pois é praticamente impossível caminhar nos túneis da Estação ou quando se aguarda a chegada dos trens nas plataformas. Conforme relato de um policial, publicado no jornal O Estado de São Paulo, “um homem tentou defender a mulher e deu um soco no rapaz que começou a briga. Uma quarta pessoa sacou uma arma. Aí, todo mundo tentou correr no túnel lotado”.

 

Nenhum tiro chegou a ser disparado, mas a desavença foi suficiente para que os boatos e o desespero se disseminassem. O acontecimento me chocou, mesmo que mortes não tenham ocorrido, pois expôs o risco que estamos expostos por vivermos em bandos na cidade. Cenas do cotidiano, como um esbarrão em outra pessoa, uma freada mais brusca no ônibus ou a buzinada de alerta do carro podem provocar o que a cultura popular chama de efeito borboleta, no qual o bater de asas de uma frágil borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e provocar um tufão do outro lado do mundo. Um movimento brusco na estação de metrô causou pânico e por pouco não se transformou em tragédia devido a nossa intolerância, impaciência e pressa que nos impede de agir com consciência.

 

Numa hora como essa lembro de minha mãe tentando falar mais alto do que eu e meus irmãos envolvidos em uma algazarra qualquer: “devagar com o andor porque o santo é de barro”.

O carro

 

Sérgio Mendes é companheiro de Adote um Vereador, apóia o Movimento Voto Consciente, dá aula de inglês e passa sempre a impressão de que está de bem com os amigos. Não bastassem todas estes predicados, ainda escreve contos sobre sua vida e os deixa guardados no computador, máquina que ele também sabe mexer como poucos. Resolvi provocá-lo e ele aceitou a ideia de ceder alguns textos para o blog. O primeiro, publico hoje. Os demais, vamos ter de pedir para ele.

 

Bom proveito !

 

Causa de problema muito comum aos metais nas cidades do litoral, a maresia não perdoa. E um carro velho sempre tem aqueles grilos escondidos que ainda que bem escondidos, revelam-se qual orquestra de pífanos depois que o carro velho imprime algum movimento. Um grilinho até a gente deixa passar se o assunto é o sonho dourado de possuir um carro. Mesmo velho e com grilos falantes, a gente perdoa. Só que carros que envelhecem em cidades do litoral, não tem assim digamos, grilos. São uns besouros aqueles nhec, nhec….!

 

Estava se formando o cenário da nossa odisséia cruzando o Brasil. E nhec, nhec seria a trilha sonora. O diacho do carro não tinha um toca-fitas sequer.Mas também, não tínhamos fitas.

 

Fazia algumas semanas que estávamos em Picos outra vez. Eram as férias. De fato fim delas e precisávamos voltar. Minha mãe até já tinha planejado algumas vezes comprar um carro pra nós, ha anos nunca mais tivemos um. O problema é que eram daqueles planos que a gente faz sem pensar na parte prática da coisa. Os tempos eram outros, carro era coisa cara de se compra e ela tinha três filhos. A prioridade certamente não seria aquela. Pra completar o quadro, na cidade pra onde nos mudamos, todo mundo usava bicicleta e conosco em casa não era diferente.

 

‘Vejamos como vai ser’ era o que ela devia pensar.

 

Nós os meninos não tínhamos acesso a discussões muito sérias e carro era a típica conversa de adultos. Não podíamos, mas também nenhum de nós estava tão interessado assim.

 

O comando,‘menino sai pra lá’, também já tinha selado que não participaríamos daquele tema e por isso minha aguçada memória não registrou nada do que antecedeu aquela compra. O que eu sei e que creio que era o que acontecia então, é o que uma amiga pontuou numa situação semelhante:

 

‘Carro é sempre assim, a classe média pira!

 

Mas voltando pra onde parei, ele chegou!
E vinha de uma cidade do litoral, Fortaleza.
Era um belo Corcel II cor…, acho que era amarelo mas também puxava pra um bege. Ta bom vai, a cor era a mesminha da de um burro pálido fugido!

 

Acordei bem cedo como de costume e como de costume ninguém mais estava com os olhos nesse mundo a aquelas horas. Fui logo na cozinha beber água pra refrescar e procurar alguma coisa que pudesse matar a fome antes que ela me matasse.

 

Mal entrei e na mesa encontrei aquele chaveiro e sua chave encantada!
WoW!!! Ele chegou! Nosso carro chegou!
Corri pra fora e lá estava.
Eu não o tinha visto chegar, só sei que naquela manhã ele estava ali na minha frente. Lindo e cor de burro fugido, parado na frente de casa. E como se ele também tivesse acordado naquele instante, me chamava para um passeio matinal!

 

Esqueci da fome mas me lembro exatamente daquela sensação incrível de ser o todo poderoso dono de um carro e poder dar-lhe ordens de me levar para onde eu quisesse ir!

 

De tão confiante, voltei pra casa e peguei as chaves sobre a mesa. Até parecia que eu sabia ou podia dirigir.
Meus pais como todos, ainda estavam dormindo. Na noite anterior o meu pai tinha saído para uma volta pela cidade. Foi encontrar com os amigos e voltou, também como era de costume muito tarde ainda que ele soubesse, no dia seguinte viajaríamos rumo a nossa aventura inesquecível.

 

Paciência! A vida é assim mesmo.

 

Peguei as chaves como disse e fui dar uma olhada naquela belezura. Tentei abrir a porta do lado certo, o do motorista. Eu estava disposto inclusive a fazer o motor roncar! Recordei perfeitamente da lição em que um tio me ensinou que com a marcha em ponto morto o carro não pula na partida. Pronto, era tudo que eu precisava para guiar aquele corcel de vários cavalos. Aquilo sim era um super cavalo, era um Corcel II! Cor de burro, mas burro puro sangue eu cria!

 

Infelizmente ou felizmente não foi possível abrir o bicho por aquele lado. No lapso de tempo de tentar abrir, a sensatez que nunca havia sido o meu forte, me sussurrou que dar a partida não seria uma boa idéia.
De pronto refreei o impulso de piloto e dei a volta para abrir a porta do outro lado, aquele que segundo a sensatez, minha amiga pouco presente, seria o mais apropriado pra mim. Enfiei a chave e girei descuidado esperando que a porta abrisse. Senti um click e ela abriu.

 

Oba, pensei.

 

Ato contínuo fiz menção de retirar a chave como seria natural e como também natural em carros velhos de cidades litorâneas, a ferrugem tinha feito a sua parte. A chave trouxe junto com ela a fechadura. Não me lembro se me espantei. Era como se meu inconsciente estivesse disposto a não registrar nada daquilo para não quebrar o encantamento de estar do lado daquele possante só meu. Mas não teve jeito. O fato era concreto demais! Dei uma boa olhada naquele buraco e percebi que ele cheirava a menta. Duas fungadas desconfiadas e identifiquei que o cheiro era menta, mas não da folha que eu conhecia do jardim de vovó. Aquele cheiro era de goma de mascar. Sim senhor! Chiclete-bola Plóc!!! Esse sujeito eu também conhecia e realmente era ele quem estava ali. A fechadura estava grudada com goma de mascar mastigada. O autor daquela façanha mastigatória eu não fazia a menor idéia mas também nem estava interessado. Mesmo um tanto desgostoso com aquele primeiro contato, e sem querer entender que aquilo era prenúncio de coisa alguma, com muito cuidado, tratei de recolocar tudo no lugar e meio de soslaio puxei a porta e entrei. Primeiro no banco do passageiro na frente.
Um susto!!! Apreensivo e arrepiado me sentei e bem devagar me estiquei como que tomando posse daquele espaço.
Olhei tudo do piso ao teto. Olhei bem nos detalhes onde pudessem se esconder mais daquele fenômeno inimigo dos dentes saudáveis e mesmo entendendo que já não encontraria mais do engodo, continuei olhando. E olhei, olhei e olhei muitas vezes.

 

Estava aparentemente tudo lá, com exceção do toca-fitas. Algumas vezes forcei com cuidado as maçanetas internas que se moveram aparentemente bem.

 

Carros não eram novidade pra mim, claro que não. Na verdade a alguns anos meu pai já tinha comprado um outro Corcel II daquele mesmíssimo modelo na cor azul. Ele tinha até a buzina na manopla do limpador do para-brisa igualzinho ao primeiro. Só que diferente deste em que eu estava me acostumando era novo. Um carro zero quilômetro que depois de nós passou por muitas mãos na família. Primeiro ele tinha sido nosso depois foi para as mãos da minha tia Cecília e dela para o meu avô, pai de minha mãe. Com ele permaneceu muito tempo graças a ajuda dos conhecimentos de mecânica de carros velhos dos meus tios.

 

Carros não eram surpresa pra nenhum de nós, da mesma maneira que o Corcéu também não. Mas aquele era o primeiro que na sua constituição corpórea tinha chiclet, e tanto o chiclete como o fato daquele carro ser tão misterioso, teriam que se transformar numa viagem de mais de 2000km Brasil a dentro e levar no seu interior, seis pessoas.

 

Entre tantos pensamentos, olhei bem o painel, os pedais, cambio, bancos, inclusive forçando um pouco o encosto do de onde eu estava. Bem com cuidado é certo.

 

Pronto! Dei por completa a minha inspeção. A fome voltou com toda força e o possante lindo e cor de burro pródigo agora parecia assustador. Perdi a graça até de tentar ligar o muar.
Só queria pensar que correria tudo bem!

 

Saí dele, fechei a porta sem passar a fechadura e tornei a entrar em casa para depositar as chaves exatamente onde elas estavam.

 

Todos ainda dormiam.

 

Silenciosamente, saí outra vez e depois de fechar o portão de tábuas num tropeço das idéias, tomei a calçada que margeava o jardins de vovó seguindo o comando do estômago vazio. Eu estava determinado a me esquecer daquela fechadura suspeita como que para acreditar que ela não tivesse feito o que fez. Pensei num pensamento danado com toda a glicose que já escasseava mas apesar do esforço, a fechadura não queria deixar os meus neurônios em paz.

 

Rumei trançando as pernas e pálido feito uma vela, fui para a o reino encantado de vó Remédios, a cozinha.