Minhas viagens de Kombi

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Christian, meu filho caçula, é apaixonado por fusca. Lançou, faz já algum tempo, um blog ao qual deu o nome de MacFuca. O seu primeiro carro, por sinal, foi um Volkswagen, presente do avô dele, meu pai. Esse, por sua vez, depois de dirigir um Citroën por cerca de 20 anos, aceitou sugestão minha – comprar aquele que foi o primeiro de uma série de Fuscas. O último – um 79 – acabou nas mãos do Christian, que o vendeu quando se tornou dispendioso. Sua paixão, porém, levou-o a adquirir um 1976, carro que parece ter saído hoje de uma concessionária, tamanho são os cuidados que lhe são dedicados por seu dono.

 

Fiz esse introito porque, na semana passada, o meu caçula, no seu blog, escreveu um texto em que lembrou a Kombi e a ameaça que pesa sobre ela de ser retirada do mercado, embora a fábrica venha protelando tal decisão. Ao lê-lo, lembrei-me, com saudade, dos meus primeiros anos de Rádio Guaíba e da minha ligação com a Kombi, cujo nome vem do alemão Kombinationsfahrzeug, isto é, veículo combinado. Nas primeiras vezes em que fui ao interior do Rio Grande do Sul para narrar jogos do campeonato gaúcho, a equipe esportiva da Emissora viajava de jipe. Em um certo domingo, porém, um desses veículos da frota da Caldas Jr., em viagem para Pelotas, por força de o asfalto da estrada estar molhado por uma garoa, capotou. Vários de seus ocupantes ficaram feridos, mas apenas um – Jaime Eduardo Machado – precisou ser hospitalizado. Os jipes deixaram, então, de transportar os narradores, comentaristas e repórteres. Em troca, passou-se a viajar de Kombi, a multiúso da VW, no mercado alemão desde 1950 e que chegou ao Brasil em 1953, montada aqui pela Brasmotor. A partir de 1957 foi produzida em São Bernardo.

 

As Kombi da Empresa Jornalística Caldas Jr., proprietária da Rádio e, mais tarde, da TV Guaíba, eram entregues aos integrantes da equipe esportiva. Na direção de uma delas, cansei de viajar por estradas de chão batido. Bagé, sede do Guarani e do Grêmio Bagé, era uma desse tipo. Quando chovia, se tornava, para minha alegria, escorregadia. Em 1966, dois técnicos de áudio, um repórter e “este narrador que vos fala”, saíram de Porto Alegre, de Kombi, para acompanhar a seleção brasileira em seus jogos-treinos por estâncias hidrominerais – Lambari, Caxambu – e em Teresópolis, depois em Macaé e Niterói. Ante disso, quando Jorge Alberto Mendes Ribeiro era diretor de broadcasting e do esporte, fomos de Kombi até Águas de Lindóia.

 

Na cobertura da seleção, que se preparava para a Copa do Mundo de 66, permanecemos 45 dias, mudando a todo instante de cidade. Em cada uma, os técnicos de áudio precisavam providenciar a aquisição de dois postes de madeira para que pudessem estender um cabo de uma a outra ponta e, no meio dele, outro fio que se ligava ao transmissor de SSB – Single Side Band. Este, em nossos deslocamentos, ocupava o espaço normalmente destinado ao segundo banco da Kombi. Era muito pesado e exigia que outro técnicos, em Porto Alegre, manuseasse carinhosamente o botão de sintonia do receptor, única maneira de o som da Guaíba chegasse limpo aos ouvintes. Em todas as viagens de Kombi os integrantes da equipe, possuidores de habilitação para tal, assumiam a pilotagem, em revezamente,de 100 em 100 quilômetros. Confesso que eu esperava ansioso por esse momento. Como tudo é tão diferente quando se é jovem.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: a reafirmação de um título

 

Fluminense 2 x 2 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

 

 

Você que me privilegia, rodada após rodada, com a leitura desta Avalanche não vai se surpreender com o que direi a seguir. Talvez você que esteja somente de passagem, pouco acostumado as minhas declarações apaixonadas, se espante e imagine que estou aqui ocupando espaço com subterfúgios para justificar um resultado que para a maioria dos torcedores brasileiros se aproximaria do infortúnio, pois nos deixa distante do título, mais uma vez. No entanto, eu e, com certeza, boa parte dos gremistas jamais nos pautaremos pelo comportamento da maioria. Temos uma olhar singular em relação ao futebol jogado e as exigências quanto à disposição do nosso time. Entendemos cada partida como uma disputa única, um momento de prazer próprio.

 

E, convenhamos, que prazer foi ver o Grêmio lutar bravamente dentro de campo, nesta noite de quarta-feira. Jogar equilibrando talento e raça, o que para muitos pode ser incompatível. As cobranças de falta de Elano, com categoria, que nos levou ao primeiro gol e de Léo Gago, com força, que deu origem ao segundo, resumem bem este meu pensamento. Também soubemos tocar a bola com esmero e roubar a bola com valentia, apesar da desvantagem numérica, exatamente no momento em que mais precisaríamos estar completos.

 

Não me cabe agora julgar o que levou Marcelo Moreno a tomar aquela atitude antes mesmo de completar o primeiro minuto em campo, logo após substituir Leandro. Quero crer que tenha sido uma reação provocada pelo excesso de paixão, de alguém que não suportou ver o adversário injustamente virar o placar quando o empate parecia ser o resultado mais apropriado até aquele momento. O certo é que a saída do atacante boliviano nos deu oportunidade de reafirmar que somos merecedores do título que mais orgulha nossa torcida. E foi pela reconquista deste título que comemorei ao apito final. O título de Imortal Tricolor.

A moda que não incomoda

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

O comércio eletrônico de moda deveria incomodar o varejo “real”. Deveria, mas não incomoda. A venda de roupa pela internet no Brasil pulou de 2% para mais de 7% de participação no volume total de faturamento do setor. E a venda pela web cresceu 50%, com a marca de 3% ante 2% anteriores. Com a tendência de atingir em breve os 5% verificados em outros países. Os pequenos percentuais aliados à visão conservadora de que a compra de roupas e acessórios de moda precisam ser tocadas e provadas, além da miopia sobre a sinergia dos multicanais de venda, tem levado importantes “players” da área de moda a desconsiderar o comércio virtual. Embora em números absolutos os 3% do valor do varejo virtual, previsto para 2012, representem 25 bilhões de reais. Dados mais conservadores já colocam a moda comercializada na web em quinto lugar e os mais otimistas preveem o terceiro lugar para breve, baseados em seu ritmo de aumento.

 

Da área tecnológica e do setor financeiro surgiram as primeiras experiências da venda pela internet, ocupando até hoje o espaço deixado pelos varejistas e pela moda. Aquele pessoal, em contínua evolução, embora ainda com problemas de entrega e de confidencialidade, tem apresentado inovações abrindo espaço para a customização e para o lúdico. Ao mesmo tempo em que criam condições para eliminar questões como modelagem e tamanhos.

 

Este contexto leva ao ponto central do tema objeto desta análise, que é o momento em que o varejo “real” corre risco se mantiver a desatenção sobre a internet. Não para participar, mas para diferenciar e afinar seus recursos e características. Precisa se valorizar neste novo mercado. E, para isto a arquitetura da loja é o meio inicial.

 

Para chegar à otimização do atendimento através do encantamento do consumidor, é preciso antes ter uma arquitetura de loja que comunique plenamente a marca. É preciso expor um ambiente conceitual pertinente às características e ao posicionamento da marca, ao mesmo tempo em que venha a oferecer a rara oportunidade da experiência de compra. Tão apreciada e tão diferenciada do mundo virtual.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

.

Onde estão nossas crianças?

 

Por Julio Tannus

 

Família de rua

 

Após passar por várias mães com crianças sentadas na calçada, desde bebês quase recém-nascidos até meninas e meninos de várias idades, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, não resisti. Resolvi fazer uma pesquisa:

 

Perg: O que a sra. quer?
Resp: Uma ajudazinha

 

Perg. Para que a sra. quer uma ajudazinha?

 

Resp: Para dar de comer para meu/minha filho(a)
Resp: Para ter dinheiro para ir embora daqui
Resp: Para comprar um sapato para meu filho
Resp: Para comprar uma roupa para meu neném

 

Perg: Posso tirar uma foto?

 

Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não

 

Até que finalmente consegui uma autorização, com a seguinte ressalva: “só pode tirar se não for sair na televisão”.

 

Perg: Onde a sra. mora?

 

Resp: Debaixo da ponte

 

Carlos Drummond de Andrade

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.

 

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne.

 

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.

 

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte.
Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

 

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.

 

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Foto-ouvinte: coreto dos moradores de rua

 


Por Devanir Amâncio

 

Sem-teto da República

 

O coreto todo quebrado da Praça da República – a praça dos mais de três milhões de reais em reforma no Centro – abriga 12 mendigos de todas as idades. Perguntados quem são os candidatos a prefeito da cidade, responderam: “Lula e Fernando Henrique.” Para alguns, mendigo é coisa de Deus, do destino; para outros, da vadiagem, do sistema ou da administração municipal ruim que não cuida de nada -, ou ainda fruto da corrupção. Para alegrar o coreto os mendigos da República vão ganhar um churrasco de abacaxi.

Apenas 3 vereadores se elegeram por conta própria, em SP

 

A maior parte dos vereadores costuma comportar-se na Câmara como representante de apenas uma parcela da cidade. Fazem projetos de lei e brigam para garantir dinheiro no Orçamento que beneficie seu reduto eleitoral. Sabem que isto vai garantir a eles um bom bocado de votos daquele distrito ou do segmento profissional que ajudaram. Deveriam prestar mais atenção nos números desta última eleição e perceber que ao assumir o cargo de vereador têm o dever de agir como representante de todos os paulistanos. Dos 55 que estarão no legislativo municipal, a partir do ano que vem, apenas três conseguiram votos suficientes para se eleger sozinhos. Todos os demais precisaram dos votos que foram dados para os outros vereadores da coligação ou para a legenda.

 

Para entender melhor: a eleição para vereador é proporcional e o número de cadeiras que cada partido ou coligação conquista depende do quociente eleitoral que é o número de votos válidos dividido pelo número de vereadores eleitos. Com 5.711.166 votos válidos para vereador na capital, o quociente eleitoral ficou em 103.843 votos. Ou seja, para ter uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo era preciso no mínimo 103.843 votos. Somente os vereadores Tripoli (PV), Andrea Matarazzo (PSDB) e Goulart (PSD) superaram esta marca. Os demais 52 tiveram que contar com os votos de eleitores de outros vereadores, partidos ou coligação.

 

Um exemplo: Milton Leite (DEM), quarto mais bem votado na cidade, que investe todo seu cacife em bairros da zona sul de São Paulo e se dedica a conseguir dinheiro público para colocar grama sintética em campo de várzea na região, precisou pegar emprestado pouco mais de 2 mil votos de colegas de partido ou coligação, caso contrário ficaria de fora da Câmara.

 

Os números que uso são apenas para ilustrar um cenário que deveria ser respeitado pelos vereadore independentemente do quociente eleitoral. Pois, no momento em que assume o cargo na Câmara Municipal de São Paulo deixa de ser o vereador de seus eleitores, passa a ser o vereador da cidade.

 

De marcas e identidades políticas

 

Nei Alberto Pies
professor e ativista de direitos humanos.

 

“A política é a arte do possível. Toda a vida é política”. (Cesare Pavese)

 

Depois das eleições, é comum que diferentes pontos de vista sejam empenhados para justificar os resultados e o suposto recado da população através das urnas. Para além destes elementos, é importante destacar como os políticos, agora eleitos, foram conquistando para si a confiança dos outros e como foram capazes de mobilizar mentes e corações que os acompanharam durante o período eleitoral. Nas eleições municipais, a proximidade, o conhecimento e reconhecimento dos candidatos somam-se para a definição e tem certo peso na definição das escolhas.

 

Cada um de nós compõe a sua história social. Somos o que somos e o que representamos. Em torno da gente, construímos um ideário que se compõe a partir das nossas ideias e atitudes, das nossas relações pessoais e interpessoais e dos nossos posicionamentos em relação à vida, à sociedade e o mundo. Todos somos seres políticos e “toda a vida é política” porque viver em sociedade exige posicionamentos, opções e virtudes, permanentemente. Quem se dispõe à vida pública deve saber que todos estes elementos serão avaliados e confrontados com aquilo que propõe como soluções coletivas. Daí que não é possível separar a pessoa da função ou do cargo e vice-versa.

 

A política, para além da busca do bem-comum, é uma grande paixão que alimenta horizontes utópicos pessoais e coletivos. Cada candidato, ao longo de sua vida, foi construindo um capital social que, nas eleições, colabora para criar uma identidade com o seu eleitor. Este capital é social porque construído na relação com a comunidade, com o partido e com seus pares (apoiadores). Muitos chamam este capital de carisma, de marca, de imagem, de identidade própria, de peculiaridade.

 

Quando o marketing e a propaganda política traduzem e afirmam a identidade dos candidatos, cumprem papel preponderante para subsidiar a escolha dos eleitores (ao ler esta reflexão você pode estar avaliando o quanto foi influenciado pela propaganda e mídia na decisão de seu voto). Do contrário, a propaganda soa falsa, não cola na imagem do candidato e passa ao eleitor uma ideia de falsidade ou inverdade.

 

Contexto político e econômico favorável, apoio político, fala boa e bem articulada, boa comunicação, marketing e argumentos bem construídos nem sempre são suficientes para ganhar uma eleição. Ao analisar boa parte dos prefeitos eleitos em nosso país, inclusive os muito bem votados, podemos constatar que, em grande medida, a maioria elegeu-se também por conta de sua marca e identidade pessoal na vida pública. Daí a imaginar que, se não preponderante, a marca e a identidade pessoal são um grande “plus” para quem deseja ganhar uma eleição.

 

Avalanche Tricolor: desanimar, jamais !

 

Grêmio 1 x 1 Botafogo
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

Dá uma baita tristeza! A cara dos torcedores, destacada pelas câmeras na transmissão da TV, deixava isto muito claro. Um gol naquela altura do campeonato – literalmente – é de desanimar qualquer um. Assim como desanima ver que os lances a nosso favor são anulados, como o gol de Zé Roberto no primeiro tempo, enquanto os principais adversários são beneficiados, às vezes duplamente, na mesma partida.

 

O desânimo sobre o qual escrevo no parágrafo acima, no meu caso em particular, não dura mais do que algumas linhas, pois antes mesmo de começar a escrever esta Avalanche penso em tudo que já passamos na arquibancada, nas dificuldades encaradas com coragem, mesmo quando estávamos cientes da nossa incapacidade, nas derrotas sofridas e classificações que sabíamos impossíveis.

 

Logo percebo que vivemos outro momento, mesmo com resultados adversos como o desta noite de domingo. Mesmo entendendo que não conseguimos manter a bola no pé durante todo o segundo tempo. Sabendo que abdicamos de chutar a gol e nos faltaram substitutos a altura dos titulares.

 

Temos um time que desde a décima rodada está na zona da Libertadores. Tem o respeito dos adversários. Disputa ponto a ponto a vice-liderança. E ainda vive a esperança de conquistar o título, mesmo precisando driblar suas carências, erros de arbitragem e o talento dos concorrentes diretos.

 

Por tudo isso, não temos de desanimar, apenas lamentar. E no meio da semana nos recompor e encarar a partida como final de campeonato, pois não jogamos por um título. Jogamos porque gostamos. Porque queremos vencer sempre.

De confissão

 

Por Maria Lucia Solla

 

Rosa

 

sabe a ladainha de
vou levando a vida
como se fosse um fardo
do bonzinho injustiçado
?
quanto mais rezo
mais assombração aparece
?

 

Canoa furada
!

 

Mas quem não entoa ou não entoou o mantra sinistro. Viés para vitimismo, aiai-de-mim, me-ajuda-Pai, quando ninguém se voluntaria para ajudar a remar o barco, porque está todo mundo remando o seu; pelejando para não fazer água, também.

 

Pai faz assim olha
e dá-Lhe receita

 

Afasta esse encosto da minha vida, traz o afastado e encosta ele em mim, que não dou conta da ausência que leva a luz da permanência. Acende a luz no meu viver, reforma o presente que Você me deu. Recebe ele de volta, desembrulha e faz funcionar. Brinca, Você, com ele. Abre meu caminho para dinheiro, amor, amizade, alegria, saúde. Não necessariamente sempre na mesma ordem, mas basicamente é esse, o terço. Ou não é? Me emagrece, me enriquece, me satisfaz, me livra do que não quero e me dá e-xa-ta-men-te o que eu insisto em ter. Me entupo de porcaria, fumo, bebo, caio na gandaia mais do que o meu corpo aguenta, me boicoto, boicotando o mundo à minha volta. Não li o manual que acompanha o pacote da compaixão, e desconheço para que serve, mas me dá isso tudo, mesmo assim. De mão beijada, ou em troca de oração, contrição, contribuição.

 

Que parte é do “Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu” que a gente não entendeu?

 

Ação reação
com mínima previsão
página em branco

 

Minha cabeça e meu corpo redemoinham. Desfoco o pensar de caso pensado. Me agarro no sentir com a mente, e no pensar com o coração. Consciente da postura de todos os corpos. Menos harmonia que postura. Nada filosófico. Pão-pão-queijo-queijo da carona do Ser. E respiro. Ah! como preciso me lembrar de respirar. O tempo todo.

 

Nesse caminho chego à conclusão – que dura cada vez menos e se afasta cada vez mais do definitivo – de que meu ritual religioso favorito é viver; estar o mais acordada possível para não perder nem mesmo o sabor do maior dissabor. O mais acordada possível para não abrir frestas no tic-tac que não tem pause, por onde o tempero da vida possa escoar, incentivado por fantasmas da suposição e do medo.

 

Escrever me fortalece, me abre portas para mais e mais incertezas, me faz perceber melhor a vida. Não sei, talvez nenhuma das sensações acima, mas o certo é que me faz sentir bem. Recompõe minhas energias, tipo o sono. Sinto e escrevo. Cara e coroa, tic-tac, coroa e cara. Dou o primeiro passo, colho um ramo de ânimo-do-campo para o segundo e, se não consigo o combustível suficiente para o segundo passo, aceito a limitação e me entrego à não-ação, no inspirar e expirar que é expressão de vida, e não impeço “que o ciclo evolutivo do planeta cumpra o seu dever”. Lavo louça, cozinho, preparo aulas, dou aulas, estudo, leio, crio, lavo o terraço, cuido da casa e de seus viventes, sonho, divago, mas me trago de volta ao reino do divino, o tempo todo, sempre que o ego tenta se meter de pato a ganso. E agradeço. Milhões de vezes por dia.

 

Fico sem gasolina na rua, a testa enruga, viciada, e eu aliso a danadinha, faço o que precisa ser feito e anoto na lista de não-deixar-que-aconteça-de novo, que já ignorei mais de uma vez. Vivo passo a passo, no um-dois-três, acreditando no que sempre disse minha mãe – que esteve hospitalizada no mês passado e já está melhor – Isso é vida!

 

Tenho Deus no coração, nos rins, no bulbo capilar, na solla dos pés e na crista da onda. Sou religiosa. Como não ser? Mas sinto que somos Sua criação, Sua expressão, e não Seus filhos. Essa coisa de Filho é muito esquisita e me arrepia porque humaniza o divino e formata o informatável. Estratifica, faz esquecer que o ser-humano não é Sua única expressão. Será que o Deus que louvamos é o Deus que nos criou, ou aquele que criamos nós, à nossa excelsa imagem e semelhança?

 

Escrever me permite perceber quantas respostas existem para cada pergunta e também me leva a encontrar e a reparar sempre mais um furo no casco da minha canoa. O que sou e tenho é o que sou e tenho, E agradeço. Agradeço por tudo. Não ajoelhada, não paramentada, não rotulada, mas a qualquer hora do dia e da noite e em todo lugar.

 

agradeço à Vida
com a boca de tudo que é
da falta
da fartura
do sonho
do medonho
do Pai João
do Cramunhão

 

agridoce
pura magia
Vida com sabor de alquimia

 

obrigada Criador
!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Organizada e sem pijama

 

Por Abigail Costa

 

Quando não tem ninguém para mandar em você, dizer “faça isso”, “seu prazo de entrega é até às quatro da tarde”… Se por perto não tem um chato desses (às vezes necessário) é bom começar a se movimentar e organizar seu tempo.

 

A questão aqui não é deixar as gavetas arrumadas, cada peça no seu lugar, cabides alinhados seguindo das cores fortes para as neutras. O começo da organização é pelo tempo, principalmente se para chegar no seu local de trabalho  você não precisa mais de carro, se livrou do trânsito e do chefe! Alguns podem dizer:

 

– Maravilha!
– Agora sou dono do próprio nariz!
– Faço as minhas tarefas a hora que quiser…

 

Esse “a hora que quiser” tanto pode ser um luxo quanto um perigo!!!

 

Li artigo que me chamou atenção e acendeu a luz da consciência!

 

Flexibilidade de horários e liberdade para escolher onde e como trabalhar… Uma pesquisa da American Community Survey apontou que entre os anos de 2005 e 2009, nos Estados Unidos, cresceu 61% o número de pessoas que trabalham fora do escritório – em casa, ou onde quiserem, usando a internet. E mais, em 2016, um em cada cinco americanos estará trabalhando fora de uma empresa.

 

Quando terminei de ler o trabalho da jornalista e estudiosa do comportamento feminino Cynthia de Almeida pensei: será que ela me viu trabalhando em casa? Alguém contou que fico de pijama muito além do que deveria? Que por não receber ordens entrego meus trabalhos quando quero? E que depois vem uma insegurança pelo tempo mal administrado?

 

Pra começar, já escolhi meu canto de trabalho. É preciso dar o primeiro passo. Agora, é perder uma mania deliciosa. O pijama, a camisola, tudo é muito gostoso mas na hora de dormir. Para ficar em casa, eu não preciso de salto alto. Mas de pijama, também não!

 

Comecei hoje.

 

Abigail Costa é jornalista, faz MBA de Gestão de Luxo na FAAP e escreveu para o Blog do Mílton Jung, neste domingo, ainda de pijama