CBF

Por Suely Aparecida Schraner

Tem o céu como teto. Hotel das estrelas, ele diz. Vagueia sozinho com suas fortunas recolhidas das ruas. Tem a cabeça quase sempre coberta por um boné reciclado. A barba por fazer. É arisco e desconfiado. “Gato no pulo, cão raivoso no ataque”. Come pouco ou quase nada. Marquise é casa. Não mendiga. Afoga o medo e a fome na cachaça. Guardião dos córregos poluídos de esgoto. Se tem “dez conto”, bebe tudinho. Sem dentes, os olhos lacrimejantes. A cara queimada pelo frio, sol e chuva. Não tira o boné nem a calça de sempre. Tem um carrinho de madeira abarrotado de tudo que encontra por aí. Tá cansado das pessoas, das esguichadas d’água fria e dos palpites que lhe dão. Melhor andar sozinho. Ganha comida, às vezes. Senta e abre. Um cachorro aparece. Se reconhecem. Ambos surrados, pele e osso e muita sujeira. Dividem a comida e seguem juntos. Dividindo as sortes e os azares de sempre. Risadinha é o nome do cachorro. Dentes arreganhados ao menor pressentimento de que possam se aproximar pra aporrinhar. Ele e o amigo unha e carne, carne e unha.

Numa noite ruim, um carro funerário atropela . É como é conhecido, esse morador de rua. “Venda casada” falou o delegado, na ocorrência. No hospital, o doutor pergunta: “O senhor bebe?” – Bebo sim e não minto, ele respondeu. “Desse jeito o senhor vai morrer aos poucos”. – Então tá certo, ele disse. Não tenho pressa mesmo…

Tempos depois está de volta às ruas. Procura que procura pelo cachorro. Anda que anda e pergunta que pergunta. Atropelado, sugerem alguns. Continua chamando: “Risadinha, Risadinha! ”.

Ninguém no mundo está tão sozinho como esse velho de setenta anos, rouco de tanto gritar pelas ruas de Veleiros.

Marginal Pinheiros terá ciclovia até 2010

Usar a faixa que existe entre o rio Pinheiros e a marginal é a obsessão de milhares de ciclistas que deixam a zona sul de São Paulo em direção aos bairros mais centrais para trabalhar. A idéia deles foi aceita pelo Governo do Estado que iniciará projeto executivo da obra para a construção de uma ciclovia que irá ligar o autódromo de Interlagos com o Cebolão. O primeiro trecho da obra deverá estar entregue às pedaladas até 2010.

Ouça a entrevista com o secretário-adjunto de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, Ricardo Toledo:

Pobreza de alma



Por Carolina Fontes

A pior pobreza não é a material: é a pobreza de alma, a pobreza espiritual…

Se a pobreza espiritual não existisse, cada pessoa saberia dividir o seu pão com o próximo, acabando assim com todas as formas de pobreza! As pessoas dizem que querem ajudar, mas não sabem como começar. É só prestar atenção, pois oportunidades não faltam! No nosso caminho aparecem, o tempo todo, aqueles que precisam de nossa ajuda, comece a reparar: até dentro de casa, com nossos familiares, com aquele auxiliar doméstico, até com o seu bichinho de estimação.

Outra faceta desse tipo de pobreza é a cegueira espiritual, é aquele que vê com os olhos da carne mas não consegue enxergar com o olho do espírito – chamado de “terceiro olho” pelos orientais, e que fica no meio da testa entre os olhos. A localização mostra bem que a visão verdadeira não depende dos olhos, mas sim da sensibilidade. Você anda chorando muito? Sensível demais? Não pode ver uma pessoa no rua, um cão abandonado, uma propaganda triste? Então fique feliz, você está começando a enxergar com seu terceiro olho. E você está contribuindo para acabar com a pobreza. Todas elas.

Encontro

Por Dalva Soares Bolognini

Foi na quinta-feira. Véspera de feriado, final da tarde, sensação gostosa de trabalho realizado. Apanho um ônibus pertinho de casa para ir ao centro me reunir com amigos, comemorar o fim da semana e desejar felicidade pela Páscoa. Dentro do coletivo, mãe e três filhos ocupam dois bancos e a mulher se desloca para junto de duas crianças para que eu me sente junto a uma delas, a maiorzinha, que se encontra no assento junto da janela. Observo como é bonitinha, de feições delicadas, com cabelos divididos ao meio e amarrados no estilo maria chiquinha. Veste calça combinando com blusa curta e tênis com cara de bicho, tudo modinha evidentemente de pequeno preço. Várias caixas se encontram ao seu lado e sobre suas pernas.

Animada, inicio uma conversa:

– Quantos pacotes! Presentes de Páscoa? Bonitos, não?
– Este de cima é da minha irmãzinha – diz, levantando a caixa para que eu veja o conjunto de pratos, talheres e panelinhas verdes. – O meu é este de baixo, cor de rosa. E o outro é da minha mãe, e o jogo é do meu irmão.
– Muito legal, bacanas esses pratos e talheres. Dá para brincar muito. Eu também tive quando era pequena, mas não de plástico, que não existia.
– Nós fomos ganhar debaixo do viaduto.
– E ganharam também bolo, chocolate, ovo de Páscoa?
– Não, só isto.

Meu pensamento caminhou rápido pela aparência daquela jovem mulher negra de tipo miúdo viajando não sei de onde para aonde em São Paulo com três filhos pequenos e bonitos. Tentei adivinhar e voar até os baixos de um dos muitos viadutos da cidade onde presentes de Páscoa haviam sido distribuídos. Meu pensamento parou na seleção dos presentes: como, no século 21, ainda se estimula, com brinquedos, a definição dos papéis sociais de homens e mulheres? Meninos ganham jogos de piões ou xadrez e meninas ganham panelas, pratos e talheres? E como se organiza uma festa sem comida, especialmente na época do tradicional ovo de chocolate?

Ao mesmo tempo notei que a mãe estava curiosa para saber da minha conversa com a menina e querendo ser simpática com ela expliquei:

– Estou dizendo a ela que estes conjuntos de pratos e panelinhas são muito bonitos e que vai dar para brincarem bastante no fim da semana. Dá para fazer muitas “comidinhas” de Páscoa!
– É, dá, quando tem comida para pôr dentro…

Fiquei arrasada. Minha primeira reação foi calcular quanto oferecer àquela mulher para fazer um almoço de Páscoa para os filhos, sentindo-me culpada por estar indo a um happy hour no Café Girondino. Mas a família já se preparava para descer, por gentileza do motorista pela porta da frente e fora do ponto, o mais perto possível do outro ônibus que teriam de apanhar na Praça da Sé. Só deu tempo de ajudar a menina com os vários pacotes, a sair do banco onde estávamos e dar um chauzinho de despedida.

Seu nome é Ana Lívia e ela tem sete anos. Quantas existirão em São Paulo?

PF de boteco, uma tradição paulistana a ser reverenciada!

Com a palavra a nosso botequeira Ailin Aleixo, na “Época SP na CBN”:

São Pedro São Paulo

Os PFs surpreendem pela qualidade. O Picadinho com farofa, ovo frito ou pochê, arroz, banana frita e milho, R$ 34, vem no ponto, super bem temperado, com arroz soltinho, a banana sequinha e a farofa bem saborosa. O filé também estava perfeito: alhos perfeitamente dourados, filé cozido no ponto exato pedido pelo freguês e fritas sequinhas. Uma bela lembrança. Há uma fórmula com um prato principal por dia + saladinha + doce caseiro com queijo ou fruta da estação custando R$ 31. Nestes, os pratos também ganham uma sofisticação a mais, como pato ao molho de casis.

Rua Doutor Renato Paes de Barros, 127
Itaim Bibi – Zona Sul – 3079-4028

Bar Leblon

O bar na Bela Cintra é uma homenagem ao bairro do Leblon no Rio. Na parede há um mapa desenhado, com as ruas do bairro. É do tipo bar chique e no quesito pratos há somente um picadinho, mas que picadinho com farofa, tutu, ovo, arroz e couve verdinha! É bem servido e delicioso.

Rua Bela Cintra, 483
Consolação – Centro – (11) 3237-0151

Filial

O Prato de mãe (bife, arroz, feijão, ovo e fritas), R$ 21,50, vem montado no prato, com o feijão numa tijelinha à parte. Tem gostinho de comida de infância: arroz soltinho, ovo frito no ponto, feijão bem temperado…O clima descontraido do bar e a simpatia dos garçons arrematam o programa. Na categoria PRATO DE MÃE há ainda duas outras opções: arroz, feijão, filé ou frango à milanesa, tomate e cebola

Rua Fidalga, 254 – Vila Madalena – 3813-9226

Pobres maranhenses


Clique na imagem e veja o álbum de fotos do Blog Action Day

Essa imagem faz parte de um estudo fotográfico realizado por Durval de Lara Neto em São José dos Basílios, interior do Maranhão. Lá a renda das famílias é gerada pelas quebradeiras de coco babaçu. Durval este nas terras de Sarney para realizar trabalho voluntário de orientação para geração de renda sustentável

Ossos para o Natal

Por Marco Antonio Bin

Terminou de recolher os ossos, ao tempo em que um novo dia se espraiava. Viu os dois colegas pularem do caminhão carregado e da plataforma de carga, teve mais uma vez a idéia do quanto haviam dado duro para que o veículo pudesse sair na hora certa, a fedentina coberta de moscas se afastando progressivamente, sem que seus olfatos se dessem conta. Deixou os dois colegas e no caminho do banheiro, pôde confirmar intuitivamente que não haveria mais abates. O espaço reservado às reses estava vazio e o pessoal da matança se divertia num canto. Era uma situação muito rara essa de terminar o trabalho antes do almoço. Ele, como todos ali, trabalhou pesado, desde as três da manhã, mais de sessenta reses abatidas e carneadas, os ossos avermelhados escorrendo pela calha, até estalarem na plataforma de carga, no lugar que todos conheciam como o cu do frigorífico e de onde os caminhões encostavam, numa sucessão frenética, para serem carregados pelos três. Abriu o chuveiro, as gotas frias caindo, esparsas, por poucos minutos. Pelo espelho, enquanto enxugava-se, viu seus dois companheiros entrando para o banho. De si, guardou a imagem de traços fatigados, misturada a um sorriso que já fora de perseverança, enquanto penteava os cabelos ainda úmidos. Mais um Natal que surgia pegando-o desprevenido. Desejos de consumo que afloravam, presentes que se furtavam, seus filhos, promessas desfeitas, o emprego que não tinha como deixar. Despediu-se dos colegas e ao sair, não conseguiu sentir-se livre. Pensou em beber um trago no boteco, diante do ponto de ônibus, afinal ainda era cedo. Os amigos o convidaram para o bilhar. Bateu a mão no bolso, parte do dinheiro do vale estava ali, bem, por que não um joguinho? Tentou desabafar antes das tacadas, reclamando dos seus fracassos, que por serem também dos demais, caíram no vazio. Ninguém estava a fins de lembrar da vida, mas aproveitar o jogo e beber. Vieram à baila os prognósticos do campeonato italiano, comentários da prisão do Bola Sete, as mulheres do mundo imaginário e da vida real… e o tempo passou. Grogue, resolveu ir para casa, mais pela falta de dinheiro do que por vontade própria. A noite não tardou a pronunciar-se em sua languidez habitual.
Brincando na rua, o filho menor viu o pai se aproximar. Os demais filhos e a mulher o receberam, num silêncio ainda mais grave que de costume. O mesmo homem, bêbado, cansado, desgostoso. Ele tirou da mochila um belo osso com alguma carne em seus interstícios, pôs na mesa junto com a roupa suja e foi para o quarto, desabando na cama até o dia seguinte.

Maldade!

Por Ana Clara Lima Gaspar

Perigo, mendigo !

Daí que tinha um mendigo aqui na frente do meu trampo, dormindo na paz numa calçada à beira da Av. Brigadeiro Luiz Antônio, em Sampa. Como ele tava muito perto da guia, e os ônibus passam a milhão, colou a CET e fez isso. Não vamos nem entrar na discussão social… Mas tipo, a CET chegou ao limite! O mendigo é tratado literalmente como lixo. Vem cá: custa pegar o cara e levar prum albergue, sei lá?