De finanças e financiadores

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Nunca fomos íntimos, mas reconhecemos a existência uns dos outros – eu mais respeitosamente do que eles – em minha opinião, é claro. Só nos confrontamos mesmo, quando inevitável. De qualquer modo fico sempre desconfiada e, nos nossos encontros, faço o possível para não baixar a guarda. Não importa quantos números estejam presentes.

Quando terminei o primeiro grau, no século passado, encontrei um segundo grau bifurcado. Era possível optar entre Clássico e Científico. Os nomes são claros, e eu, viciada em letrinhas, dava pulos de alegria pela possibilidade de ficar o mais longe possível deles, e o mais perto possível delas. Alguns amigos abominavam a divisão. Pois era isso mesmo; para eles, era uma questão de divisão, enquanto para mim subtraía da minha vida, como um toque de varinha de condão – com as quais me relaciono bem – uma parcela enorme de problemas. Eu lucrava.

Olhe o poder dos números! Divisão e subtração. Só pode ter sido inspiração deles que, percebendo que eu falava do nosso relacionamento, vieram controlar meu relato e com certeza, me inspiraram com essa história da divisão e subtração, me desviando das queixas que eu ia fazer.

Eu admiro, de verdade, aqueles que se dão bem com eles. Conheço pessoas que não poderiam viver sem eles, e me parecem felizes. Mas eu, querendo ou não, evitando ou não, tenho encontros diários, e obrigatórios, com eles. Não dá para escolher o Clássico, hoje. Pensando bem, talvez meus amigos tivessem alguma razão. Os números estão em tudo, na nossa vida. Estão nas contas que recebo mensalmente, abro, observo com olhos inquisidores e procuro me concentrar. Felizmente, o instinto de sobrevivência é forte. Percebendo perigo no contato, e para não deixar que o cérebro vá a falência, me distrai. Já encontrei, e já me desculpei por isso, contas de anos anteriores, dentro de livros que eu estava lendo na ocasião.

A partir de mais esta confissão, é fácil entender porque jamais me ofereceria para cuidar das finanças de ninguém. Palpites na área, então, fariam rir o mais sisudo cidadão.

Agora, passeando por esse raciocínio, pensei – e onde estarão todos aqueles que preferiram o Científico e os números? Onde é que se escondem, e por quê? Na minha vida, faço o que sei fazer. Para os números, contratei um contador capaz e que me inspira confiança. Não tenho do que me queixar. Agora, no país, no estado, na cidade de São Paulo, com tantos cérebros privilegiados, não tem ninguém que possa ajudar a cuidar do nosso dinheiro? A sensação de impotência, frente às próximas eleições, me dá vontade de chorar. Como é que você se sente, na sua vida e na sua cidade?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça este texto na voz da autora:

Maria Lucia Solla é professora de língua estrangeira e terapeuta. Autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, tem encontro marcado com a gente todo o domingo aqui no blog.

Estudantes contam histórias do trânsito

Aprender com a cidade é a proposta dos professores Elisabet Gomes do Nascimento e Lázaro Mariano de Souza que desafiaram os alunos do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos do Butantã a escreverem crônicas sobre o trânsito de São Paulo. Após a leitura de jornais, deram início a produção.

O CIEJA reuniu 80 alunos de 20 a 45 anos nesta atividade

Reproduzo um dos textos que surgiram deste trabalho que deveria motivar escolas públicas e particulares a seguir no mesmo caminho:

TRÂNSITO: AUTOR DE HISTÓRIAS

“O Trânsito está um horror, meu Deus,” fala Joaqim, estressado dentro de seu carro e preocupado com a hora de sua reunião.Ele pecisa assinar um novo contrato para a compra de outra padaria.”Ai, Jesus, Ai Maria, Ai, meu Deus, esse trânsito vai acabar prejudicando meus negócios.”
“Põe o pé no freio, grita outro motorista, o seu José, muito estressado também, porque está com uma consulta marcada no dentista, já fazia dois meses e não queria perder a hora. Mas do jeito que a coisa ia, seu dente que não doía, começou a doer.
“Vamos aí, gente”, grita uma senhora nervosa, preocupada com a hora de pegar sua filha na escola.
“Lugar de mulher é na cozinha”, buzina e reclama outro motorista parado.
Já nervosa, ela xinga:
“Vai você e a sua lata velha e desatola o trânsito”.
No meio dos carros, os vendedores ambulantes vendem de tudo: pilhas, laranjas, água mineral, flores.
Nisso, o seu Benedito quase atropela um, porque estava com sua esposa a caminho da maternidade. Como o trânsito não andava, o bebê acabou nascendo no meio do engarrafamento. Uma viatura ia passando e socorreu dona Sebastiana, que emocionada pegou seu bebê no colo e agradeceu a Deus por tudo ter dado certo.
É assim o trânsito de São Paulo. Até quando?

Alunos:
Marilene da Costa Lopes
Maria Afonso
Carmem Lúcia Ferreira da Silva

Leia mais histórias no site do Movimento Nossa São Paulo

Meu ninho é São Paulo

Pássaros na Paulista
Clique na imagem e conheça o álbum de fotos do Blog do Milton Jung

O movimento da Avenida Paulista não é suficiente para espantar os pássaros que encontraram na esquina da Itapeva um lugar onde há fartura de comida e bem-estar. Com uma gaiola aberta, criada para agradar – e não agarrar – passarinhos, eles aparecem durante todo o dia por lá. O ouvinte-internauta e colaborador do blog Marcos Paulo Dias diz que enquanto esteve observando o movimento no alto da agência do Banco Real identificou pombinhas, um periquito e um azulão (“com certeza não é gremista”, acrescenta). São funcionários do banco que abastecem o local com comida.

Birds & bananas2

Nossa colunista dominical Maria Lucia Solla também foi surpreendida pelo local inusitado que um pássaro buscou para se abrigar: o apartamento dela. No rádio, eu falava sobre o Ninho de Pássaro, sucesso nos Jogos Olímpicos de Pequim, no instante em que ela flagrou o visitante. “Como ele não tinha idéia de onde fosse Pequim, foi à estante de livros, mas não encontrou nada em passarinhês. Decepcionado, fez cocô em diversos pontos da minha oficina de trabalho e acabou se decidindo pela banana que dá numa primavera, em São Paulo mesmo. Ela era certa. Comeu, tomou um banho de chuva e se foi”.

Quem financia? Da cara feia ao respeito com o eleitor

Quem financia? Da cara feia ao respeito com o eleitor

Foi há um mês, em debate do CBN São Paulo, que surgiu a proposta para que o eleitor pergunte ao candidato quem financia a campanha dele. O nome do doador e a quantia repassada são informações que ajudam a traçar o perfil do candidato, segundo especialistas ouvidos pelo programa. Nesta semana, decidimos fazer a pergunta às coligações que ocupam os seis primeiros lugares na disputa paulistana, de acordo com as pesquisas Ibope e Datafolha. Apenas Ivan Valente do PSOL aceitou divulgar estes dados. Um avanço se lembrarmos que ninguém havia fornecido a informação ao jornal Valor Econômico que, na quarta-feira, fez reportagem mostrando que a medida está sendo praticada por todos os candidatos à prefeitura do Rio de Janeiro, apesar de não estar prevista na lei eleitoral.

Lei que foi usada para justificar a ausência dos dados pelos candidatos Marta Suplicy (PT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM). As respostas estão publicadas mais abaixo. A assessoria de Paulo Maluf (PP) informou que o pedido foi encaminhado à direção do partido e ainda não enviou nenhuma resposta. A assessoria de Sônia Francine (PPS) “ ficou de ver” e também não respondeu.

Na busca da informação, a produtora Fernanda Campagnucci ouviu muxoxos e reclamações de alguns assessores. Como é possível ler nas respostas, Marta jogou com a burocracia – cumprimos a lei; Alckmin “tucanou” – recebemos do comitê financeiro (e quem financia o comitê financeiro, candidato ?); e Kassab “telegrafou” – é isso e nada mais tenho a dizer.

Fica a satisfação de saber que pelo menos um dos candidatos procurados aceitou o convite e, em respeito ao eleitor, apresentou a prestação de contas parcial com o nome dos doadores e o valor doado por cada um deles. Todos pessoas físicas e alguns da própria família Valente, diga-se de passagem.

Aos demais, fica aqui o espaço para a publicação da lista completa a qualquer momento. De preferência antes da eleição marcada para o dia 5 de outubro. Quem sabe os candidatos paulistanos decidam se espelhar nos do Rio de Janeiro.

Sim, o Rio, neste momento, dá exemplo ao Brasil. Pelo menos em relação a prestação de contas dos candidatos.

Transparência nas eleições amadurece, diz advogado

“A prestação de contas dos candidatos já foi uma peça de ficção”. Com esta afirmação, o advogado Renato Ventura quer mostrar que houve avanços na lei eleitoral e no comportamento dos partidos e candidatos, no Brasil. Ele foi um dos colaboradores do projeto 9.504/97 que se transformou em lei e determina como deve ser feita a prestação de contas nas eleições.

Ele entende que o processo de transparência amadurece no País e um dos avanços que devem ocorrer é em relação a declaração do nome dos doadores e a quantia doada antes da eleição. Atualmente, este dado somente precisa ser publicado após o pleito.

Ouça a entrevista dp advogado Renato Ventura, autor do livro “A lei eleitoral comentada”:

Geraldo Alckmin não declara nome dos doadores da campanha

Resposta enviada pela campanha de Geraldo Alckmin ao CBN SP:

“O senhor é favorável à divulgação dos nomes dos doadores da campanha – pessoas físicas e jurídicas – antes das eleições?

GA – Nossa candidatura foi a primeira a divulgar, voluntariamente, a quantia arrecadada na fase inicial desta campanha. A arrecadação dos outros partidos só foi conhecida após a divulgação oficial do Tribunal Regional Eleitoral. Isso demonstra que somos pela transparência no financiamento de campanhas.

2) Quem financia sua campanha?

GA – A verba destinada às nossas atividades de campanha vem dos diretórios Nacional, Estadual e Municipais do PSDB, que a transferem ao nosso comitê financeiro.”

Ivan Valente declara doadores de campanha

Mensagem enviada pelo candidato Ivan Valente, do PSOL

– O sr. é favorável à divulgação dos nomes dos doadores da campanha – pessoas físicas e jurídicas – antes das eleições?

Sim. Acreditamos que é preciso transparência em relação aos financiadores das campanhas eleitorais. O eleitor precisa saber quem está financiando seu candidato para poder avaliar que tipo de conseqüências políticas isso pode ter para o mandato ou para administração pública.

– Quem financia sua campanha?

Defendemos o financiamento público exclusivo de campanha. Como isso ainda depende de uma ampla reforma política a nossa campanha assumiu o compromisso de receber apenas doações de pessoas físicas. São militantes do partido, apoiadores, professores universitários, intelectuais, parentes e amigos. Além disso, fizemos um desafio aos outros candidatos no início do processo eleitoral, que era de estabelecer um limite no teto de gastos de R$ 500 mil, o que não foi aceito.
O total de doações à campanha, presentes na segunda parcial entregue à Justiça Eleitoral, foi de R$ 90.370,00, sendo R$ 81.720,00 em espécie (cheques, transferência, depósitos identificados) e R$ 8.650,00 em doações estimadas, como, por exemplo, trabalho voluntário e cessão de uso de automóveis. Segue a relação dos doadores da nossa campanha:

VALOR NOME DOADOR
R$ 25.000,00 MAURICIO SEGALL
R$ 14.000,00 CELSO ANTONIO BANDEIRA DE MELLO
R$ 10.000,00 IVAN VALENTE
R$ 7.420,00 MARIA THERESA COLSON
R$ 5.000,00 NEY VALENTE
R$ 5.000,00 ORSINE VALENTE
R$ 2.000,00 FERNANDO VESPASIANO GAMEIRO
R$ 2.000,00 FRANCISCO MIRAGLIA NETO
R$ 2.000,00 VERA MARIA MASAGAO RIBEIRO
R$ 1.000,00 AMERICO ADLAI FRANCO SANSIGOLO KERR
R$ 1.000,00 BEATRIZ COSTA BARBOSA
R$ 1.000,00 ELIZABETH COLSON SCORZA
R$ 1.000,00 LUIS ANTONIO ALBIAC TERREMOTO
R$ 1.000,00 MARIA JOSE DO AMARAL FERREIRA
R$ 1.000,00 MICHELLE PRAZERES CUNHA
R$ 1.000,00 SORAYA SOUBHI SMAILI
R$ 700,00 MICHEL PINKUS RABINOVITCH
R$ 500,00 ANAI ARANTES RODRIGUES
R$ 200,00 ELIZABETH EIKO WATANABE MINTO
R$ 200,00 JOÃO ZANETIC
R$ 200,00 MARA MERCEDES DE ANDREA
R$ 200,00 MARCOS NASCIMENTO MAGALHÃES
R$ 200,00 MASSAO TOMITA
R$ 100,00 LUIZ CARLOS LUCHINI

R$ 81.720,00