Por Maria Lucia Solla

O cidadão que persegue cargo público eletivo se esfola, mas mente, faz tramoia, conchavo, aliança, promete arrancar as unhas dos pés da própria mãe e voa mais que urubu para cair nos braços de quem? Ora, do poder.
Altruísmo? Pendão para servir o povo, para fazer o trabalho com amor, encantamento, entrega?
Esse alvoroço todo é porque o dito cujo fica enredado nos preparativos da cerimônia de coroação de seu casamento com o amado poder. Não vê um palmo além do objetivo. Festa no céu.
Minha Nossa Senhora Aparecida! Arranjo, veste, corte de cabelo, estilista, maquiador, fonoaudiólogo para melhorar a dicção, botox, respiração, articulação, puxa daqui, repuxa dali… e neuromarketing no povo.
Respeito a ele? Dedicação? Entrega? Fidelidade?
Ora, os pares de honra são escolhidos pela convivência no preparo em universidades, pelo bom currículo ou pela conveniência partidária. Tanto faz o caminho. A meta é chegar lá. É tomar o poder. Os deste lado do rio contra os do outro lado do rio. Todos certos, no seu lado.
Pelo povo?
O povo vem no pacote, um obstáculo fácil de manipular se continuar quieto, na santa ignorância. O alvo é o poder. É o fazer cada um do seu jeito. ‘Vamos mudar tudo aqui. Era feito assim? Muda. Vamos fazer assado.’ Muito raramente o trabalho é pelo povo e para o povo. Se fosse assim, no poder ou fora dele, o bom político se entregaria à missão. Ao seu destino. Deveriam existir escolas para preparar bons politico-administradores-apartidários, mas isso é viagem minha. Nem vale a pena me ouvir.
Agora, voltando à festa, primeiro é preciso gastar fortunas – de quem quiser segurar ou soltar uma das rédeas do futuro Touro Sentado no Pode r-, para convencer o povo de que pre-ci-sa dele, de que nunca foi feliz antes dele e que nunca será feliz a não ser durante sua permanência no poder. Sabem que o povo, cada um de nós, tem carência no lado materno e paterno de lambuja.
Flores, toalhas, vestidos, ternos, tudo feito especialmente para a ocasião. Acepipes refinados para todos os ‘envolvidos’. Coisa fina. Regalam-se todos, menos o povo.
o povo fica tão embasbacado
pela pompa e cerimônia
que nem lhe passa
entender
inebriado pelo fuzuê
o que acontece no reino
do pau-brasil e do dendê
Sempre foi assim, certo? Ingenuidade minha. Mudam os títulos. Hoje o povo vê de longe do lado de fora em telões, só o que é permitido ver. Metade do casal fica do lado de fora. Não percebe a ameaça do ‘até que a morte nos separe’. A festa é pavê. Então, depois de suor, jatinho, champanhe, comida cara, o complemento do casal é convidado a pagar a conta do festim.
mesmo depois do presente
na urna
fica sem festa e sem presente
na rua
paga a passagem e a lua de mel com outro
o poder onipotente
Por outro lado, a parte que usufrui de vantagens, presentes, viagens e estadias, depois do fait accompli, precisa começar a recompensar quem ajudou a dar uma mãozinha, ou as duas e mais alguma coisa, para que o cidadão chegasse lá. No poder.
Daí para frente, a partir da cerimônia, o esperado é que administre o que quer que seja para o que foi escolhido, mas nem sempre, meu caro, ou ao menos quase nunca em período integral. A fidelidade fica comprometidamente dividida entre o dever e o poder. Na verdade atos de governar mostram-se em esporádicos momentos de flashes, e o eleito continua a ter aulas de sorrir aqui, de serrar os sobrolhos ali, e muitas vezes se atrapalha e faz o inverso. Vai desenvolvendo personagens e seguidamente se perde no meio deles e dos conchavos e promessas. Feito produção de novela meia-boca. Na verdade, geralmente, cada cargo atingido serve é de prancha de impulso para a próxima campanha para agarrar um outro, ou para tirar ainda mais daquele. Cada um a seu modo, sob as barbas do patrão.
Você permitiria que uma situação dessas se instalasse numa empresa sua?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
PS: Dedico este texto ao trabalho desenvolvido pela turma do Adote um Vereador.
Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung