Avalanche Tricolor: saudade de você!

LDU 0x1 Grêmio

Sul-Americana — Quito, Equador

Léo Pereira em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Vitória!

Que saudade de você, minha querida! 

Há quanto tempo a gente não se encontrava por aqui. 

A última que lembro foi há mais de um mês.

Gol? Não comemorava há quase 20 dias.

Que seca!

Abstinência total.

 

Fomos buscá-la da maneira mais sofrida possível.

Lá na altitude. Nos 2.850 metros de Quito.

Com o jeito Scolari de ser.

Fechado em uma linha de seis jogadores próximos da área.

Com os pontas recuados. Os meias recolhidos. 

E os atacantes voltando na intermediária.

Com uma ou outra escapada ao ataque.

 

Abrimos mão do toque de bola preciso por uma marcação precisa na bola. Trocamos a aproximação pelo chutão. Ocupamos os espaços. Reduzimos riscos. Restringimos os perigos de gol. Contamos com Chapecó, um goleiro bem aventurado. Usamos de velocidade e apostamos no talento do passe de Jean Pyerre —- jogador que demonstrou um ânimo irreconhecível.

 

Consagramos Léo Pereira. O garoto de Bauru, que surgiu em Itu, ameaçou ser moleque de Itaquera e agora se transformou em mais um guri do Humaitá. Com apenas 21 anos e 1,72 de altura, correu, marcou e se meteu em meios aos grandalhões da zaga adversária para marcar de cabeça o único e definitivo gol da partida.

Uma vitória sofrida, sem dúvida.

Mas antes sofrer com apenas 23% de posse bola, na retranca e com uma vitória, do que inanição com a bola no pé. 

Tava com saudade de você.

 Vê se não me deixa, Vitória!

Avalanche Tricolor:  Scolari e Chapecó garantem invencibilidade gremista em Gre-Nais, na Arena

Grêmio 0X0 Inter

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Felipão voltou! Felipão voltou!

Ouviríamos este grito da torcida se torcida houvesse na Arena, nessa tarde de sábado. E a volta não era apenas física, era comportamental. O time cabisbaixo das últimas rodadas, não teve vergonha de dar bico para fora quando necessário nem de trocar o domínio da bola sem sentido por um chutão para o ataque, se preciso fosse. Perder divididas seria crime de lesa pátria, e cada um, ao seu jeito, assumiu esse compromisso do início ao fim da partida.

Scolari, como prefiro chamar nosso treinador, se fez notar na forma do Grêmio se comportar, mesmo que os analistas insistissem em dizer que com apenas um treino nada teria a fazer de diferente. Fez, sim. No vestiário. Na conversa. No incentivo. No sotaque marcado e no conhecimento de quem foi campeão do mundo.

Se é verdade o que diz o ditado que “o diabo está nos detalhes” foi neles que percebi Scolari atuar: nos palavrões repetidos à beira do gramado em toda bola de ataque desperdiçada; na conversa de pai para filho encerrada com um tapa de carinho na cabeça de Ferreirinha; e na ordem para que Geromel voltasse para a defesa a qualquer custo, quando nosso capitão se lançou ao ataque para receber o cruzamento de um falta a ser cobrada a dois minutos do fim da partida. 

Scolari não estava apenas no vestiário ou dando ordens ao lado do campo. Estava redivivo na postura de Kannemann que fez, sem dúvida, sua melhor partida de todos os últimos tempos.

A força mística de nosso técnico e a influência que ele, aos 72 anos, é capaz de impor a seus comandados foram fundamentais para que o Grêmio mantivesse a escrita de não perder um Gre-Nal há 17 partidas em sua casa — é a maior invencibilidade já escrita na história desse confronto que chegou ao número de 433. Pra que ninguém esqueça, também: nos últimos 15 clássicos perdemos apenas um e, se sua memória é boa, você deve lembrar como o VAR e o árbitro nos impuseram aquele único revés.

Em um jogo de pouco brilho e muito esforço, de lado a lado, Gabriel Chapecó merece também os méritos pela invencibilidade mantida. Foi dele os lances mais incríveis, no primeiro e segundo tempos do clássico. Com 21 anos e 1,92 de altura, Gabriel Hamester Grando foi gigante ao defender com os pés a primeira estocada perigosa do adversário. Já havia desviado para escanteio um chute que se encaminhava para o gol. Mais à frente, voltou a salvar nossa cidadela. Uma delas com a mão trocada em um chute forte e com endereço certo —- que considerou ser a mais bonita do jogo, em declaração marcada por um largo sorriso, ao fim da partida, enquanto segurava nas mãos o troféu de melhor jogador do clássico.

vamos para mais de sete anos sem derrota em clássico Gre-Nal na Arena. E a dupla Geromel e Kannemann jogando junta até hoje não sabe o que é perder para o arquirrival. 

Sei que nada disso elimina o sufoco de estarmos onde estamos no campeonato, mas nos dá a esperança de que o futebol aguerrido e a alma tricolor que forjou nossa história serão redescobertos com a volta de Luiz Felipe Scolari. 

Felipão voltou! Felipão voltou!

Avalanche Tricolor: a volta de Scolari e um Gre-Nal para retomar a história

Palmeiras 2×0 Grêmio

Brasileiro – Allianz Parque, São Paulo/SP

arte divulgação Grêmio FBPA

Gremista nenhum em sã consciência imaginaria algo diferente do que assistimos nesta noite, em São Paulo. Nem o alinhamento dos astros seria capaz de mudar nosso destino. Era um jogo para cumprir tabela. Uma partida de transição, de um time desnorteado e desalmado, à espera de alguém capaz de resgatar a alma perdida em algum lugar qualquer do vestiário. E de apontar o norte do caminho das vitórias.

Poucos viventes desta terra —- ao menos entre aqueles que estão ao nosso alcance —- seriam tão capazes quanto Luis Felipe Scolari de assumir esse compromisso. A despeito do tempo, do que é moderno, das estratégias revolucionárias ou da fala castelhana e estranha de técnicos que tem feito sucesso nestas bandas, Scolari é a solução possível, com habilidade para trazer para dentro do clube marcas que forjaram nossa história. Ele é parte desta história.

Por curiosidade: quando sentei para escrever esta Avalanche, estava meio sem rumo e sem palavras, talvez impactado pela falta de criatividade do time em campo. Fui, então, vasculhar o que já havia escrito de Scolari em passagens anteriores e deparei com a Avalanche publicada em julho de 2014, quando se iniciava mais um ciclo do técnico no clube de seu coração:

“Logo que soube do convite feito a Felipão lembrei-me de uma camisa antiga que tinha do Grêmio, surrada pelo tempo, com o tricolor desbotado pelas inúmeras vezes que passou na máquina de lavar. Salvei-a duas ou três vezes do saco de roupas velhas que seriam dispensadas pela minha mulher até que foi definitivamente levada embora por ladrões que entraram na minha casa. De todas as camisas, medalhas e outros quetais do Grêmio roubados, há dois anos, é dela que mais senti falta. Seu valor não estava na qualidade do tecido, no quanto estava preservada ou não, mas nas lembranças impregnadas em sua malha. Nos momentos de alegria e sofrimento que havíamos passado juntos. Felipão é um pouco aquele camisa, desgastado pela vida, marcado pelas críticas, com brilho precisando de um lustre, mas sempre capaz de reavivar nossa memória pelas graças alcançadas”

Menos de um ano depois, ele deixaria o clube, após uma campanha apenas razoável e um resultado marcante: a maior goleada (4×1) que o Grêmio já havia aplicado em um clássico Gre-nal, em campeonatos brasileiros. No texto de despedida, escrevi:

“Felipão não se irá jamais do Grêmio. Ele eternizou seu nome, deixou suas marcas e troféus. Será para sempre lembrado pela forma como forjou times vencedores, mesmo quando os títulos não foram conquistados. Transformou elencos muitas vezes mal-falados pela crítica em grupos de batalhadores, talentosos e vitoriosos jogadores. Ajudou a construir o mito da imortalidade’

Como imaginei na época. Não era um adeus, era apenas um até logo. Por coincidência, Scolari volta ao Grêmio às vésperas de outro clássico, com quase nenhum tempo para ajustar as peças, mas, como sempre, com o desejo de devolver ao time o prazer da vitória.

Avalanche Tricolor: que melhor sorte nos seja reservada nesta segunda-feira

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Domingo começou cedo, como cedo começam todos os meus dias. Ainda bem. Assim pude estender os momentos de calmaria dominical, com o céu ainda clareando, o frio rachando e os passarinhos se esbaldando nas frutas e árvores que restam aqui na minha rua. Gosto de ficar sentado na porta de casa, apenas observando o amanhecer. Não chega a ser a cadeira na calçada, como nos bairros de origem italiana aqui em São Paulo, mas é suficientemente agradável para o ritmo de vida que imprimimos ao vivermos na capital.

O sábado havia sido dedicado a uma série sul-coreana que fala do respeito aos mortos (Move to Heaven), tema que nos torna mais reflexivos, especialmente diante de tantos conhecidos que nos deixaram nesse último ano. Reservei, então, o domingo para o esporte na televisão —- já que sair de casa não me motiva diante de tudo que estamos vivendo. E fiquei atento a dois jogos em especial.

O primeiro, o do basquete masculino do Brasil, que disputava a última chance de se classificar para os Jogos Olímpicos. Os caros e raros leitores deste blog já devem ter lido por aqui do meu passado no esporte —- até porque só eu mesmo falo dele: por 13 anos vesti a camisa do Grêmio, anos de muita luta e suor, e pouca inspiração. Apesar de convocado duas vezes para seleções gaúchas, confesso, sem titubear, era um jogador mediano (medíocre — palavra que deixo de lado, apesar de ser sinônimo, porque carrega fardo muito pesado em seu sentido). Jogador mediano e torcedor pé frio, como percebi neste domingo.

Depois de uma sequência de jogos bem jogados no pré-Olímpico disputado na Croácia, quando venceu na fase preliminar inclusive o time da casa, com placares elásticos e revelando uma superioridade surpreendente, a seleção brasileira perdeu para a Alemanha e desperdiçou sua última chance de chegar a Tóquio. Ouvi Hortênsia comentar que é comum que em meio a tantos jogos de qualidade se tenha uma apresentação ruim e ela torcia para que esta não fosse no jogo final Foi! E enquanto os comentaristas buscavam uma explicação, além do sobrenatural, saí da frente da televisão convicto de que o azarão sou eu que não havia assistido a nenhum dos jogos anteriores do Brasil.

À noite, no segundo compromisso esportivo, a sensação era outra. Nem a camisa tricolor que o filho mais velho estende na cadeira ao nosso lado nem as duas meias que calcei seriam suficientes para mudar a sorte gremista em partida que fechou a rodada do Campeonato Brasileiro. O time entrou derrotado com a forma como a crise atual foi gerenciada pela diretoria do Grêmio —- talvez desacostumada nos últimos anos em ter de administrar tamanhas dificuldades técnicas, táticas e emocionais. Jogadas marcadas pela falta de confiança se repetiram durante toda a partida, com bolas mal chutadas, passes sem destino e marcação distante. Antes de a inanição do futebol tricolor me absorver, pensei no que havia dito Hortênsia e cheguei a acreditar na lógica invertida: depois de tantos jogos ruins ao menos uma partida boa haveria de ocorrer e poderia ser essa. Não foi!

Que melhor sorte nos seja reservada, nesta segunda-feira, quando será escolhido o substituto de Tiago Nunes.

Avalanche Tricolor: no Brasileiro e com a cara do Brasil

Juventude 2×0 Grêmio

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Domingo passado fiquei distante desta Avalanche — fato raro desde que iniciei a coluna, em 2008 (se não me falha a memória). A morte de um amigo querido, nosso Artur Xexéo, me afastou das coisas do futebol. E apesar de ter assistido ao empate gremista, não tinha ânimo para escrever uma linha sequer sobre qualquer assunto que fosse. Diante da vida ou da perda dela, tudo se torna muito pequeno e sem importância.

Que a dor  pela ausência do amigo não me deixaria tão cedo, não tinha dúvida. Mas imaginava que, ao menos no futebol, ao retomar esta Avalanche, nesta quarta-feira, as coisas estariam mais bem organizadas no nosso time, nisso que estão chamando, lá em Humaitá, de fase de transição —- só esqueceram de me explicar para onde estamos transitando?

Ledo engano. 

Pela sexta vez no campeonato, vimos um futebol muito aquém do esperado. Parecíamos um amontoado de gente que se reúne horas antes de a bola começar a rolar, decide quem jogará em cada posição e, no apito do árbitro, faz o sinal da cruz a espera de que a ajuda divina transcenda o espaço e nos traga a graça de uma vitória.

Chego a me surpreender com a paciência de comentaristas da televisão que seguem crendo em mudanças, tentam enxergar melhorias mesmo diante da performance obscura do time e relevam as substituições aleatórias feitas ao longo do jogo. 

Por mais que o tempo de trabalho seja curto, que a Covid-19 nos tenha pegado de jeito e que mudanças eram necessárias —- quem ainda tem paciência de me ler nesta Avalanche sabe que eu sempre entendi que não eram, precisávamos apenas de ajustes e reforços —-, não é possível considerar normal, em qualquer que sejam as circunstâncias, um início de competição como este. 

Está tudo está fora do lugar. Arrisco-me a dizer que o Grêmio, hoje, é uma metáfora do Brasil. 

Avalanche Tricolor: vai passar!

Grêmio 2×2 Santos

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre RS

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O gol de calcanhar há 50 anos, já contei.

O título que narrei há 20 anos, contei também.

Quem sabe o dia que assisti a Pelé jogar? 

Não, já falei.

Deixe-me pensar mais um pouquinho … 

Já sei, aquele jogo que chorei pela derrota acachapante.

Melhor não falar em derrota, né! 

É, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, está difícil de encontrar boas histórias para contar em lugar de me despedaçar em lamentos pelos maus resultados no Campeonato Brasileiro —- não que tenha sido um  jogo mal jogado, especialmente diante das últimas fracas apresentações, mas, novamente, fomos incapazes de vencer uma partida.

O ponto ganho foi ponto amargo. Só o ‘conquistamos’ porque perdemos os outros dois que a vitória nos oferecia, mas que entregamos em duas oportunidades — uma em uma bola mal dividida no meio de campo e outra em uma bola em que sequer tentou-se dividir. Resultado que nos mantém mais uma rodada naquela-posição-que-você-sabe-qual-é (melhor não citar aqui para não dar mais azar).

Um amigo de redação para me consolar, logo cedo, comentou: calma, Milton, é só o começo do campeonato. É exatamente isso que me preocupa. Ainda temos todo um Brasileiro pela frente.

Mais amargo do que isso só acordar de madrugada para trabalhar e descobrir que a máquina de café estava quebrada. Mas esta é outra história e hoje não estou com disposição de contar histórias nesta Avalanche. 

Vai passar!

Avalanche Tricolor: salvo pelo sonho de criança que realizei há 20 anos, em São Paulo

Sport 1×0 Grêmio

Brasileiro – Ilha do Retiro, Recife PE

A conversa corria solta e animada com os estudantes de Jornalismo e da Administração, da UNISATC, de Criciúma, quando a partida desta noite já havia se iniciado. O papo virtual tinha jornalismo e comunicação como temas predominantes. Às boas perguntas que ouvi, me esforcei para dar respostas que atendessem o interesse da turma. Estrategicamente, deixei uma tela extra, ao lado do computador, com a bola rolando na Ilha do Retiro. 

Foi de revesgueio que assisti àquela cobrança de falta que resultaria no único gol da partida — e deles, não nosso. Porque nós, até onde consegui ver, só forjamos jogadas mas não soubemos concluí-las com o mínimo de precisão. Diante das dificuldades para fazer a bola chegar ao alvo, já começava a imaginar onde encontraria inspiração para esta Avalanche que teimo escrever mesmo quando o time não faz por merecer.

Salvo pelo gongo. Ops, salvo por uma pergunta. Se não me falha a memória foi o Marcelo, um dos estudantes. Ou teria sido o Heitor? Perdão, guris. Sei que fui provocado a falar da minha passagem pelo futebol, como repórter, apresentador e narrador de TV.

Isso moveu com minha memória afetiva e me fez lembrar que, há exatos 20 anos, eu havia realizado o maior sonho, ou um dos maiores, que um torcedor pode sonhar com seu time: narrei o título de campeão da Copa do Brasil, de 2001, do Grêmio. O tetracampeonato!

Trabalhava na RedeTV, que havia recebido da TV Globo o direito de transmitir as partidas da Copa do Brasil daquele ano. A convite de Juca Kfouri fui testar o que considerávamos ser um novo formato na narração esportiva da televisão — até então contaminada pelo modelo das transmissões de rádio. Era para ser uma locução mais pausada, focada em informar o nome dos jogadores e alguma outra circunstância que se desenvolvia em campo ou fora dele. Sem gritaria, sem animação de torcida e valorizando o silêncio, sempre que possível. Acreditávamos que a riqueza das imagens e do som ambiente seriam suficientes para acompanhar o telespectador. Acho que já falei com você, caro e  cada vez mais raro leitor deste blog, desta experiência.

Naquele ano, o Grêmio, sob o comando de Tite, fez uma campanha incrível na competição e se candidatou à final contra o Corinthians,  de Vanderlei Luxemburgo, considerado pela crônica esportiva o favorito. No primeiro jogo, os paulistas saíram com dois gols de vantagem, em pleno estádio Olímpico. Mas o Grêmio encontrou forças para empatar e chegar vivo à decisão em São Paulo.

Fui privilegiado e escalado a transmitir a final, tendo Juca Kfouri, Jorge Kajuru e Oswaldo de Oliveira ao meu lado como comentaristas. As cabines de transmissão, no Morumbi, sacudiam com a animação do torcedor corintiano que tomou conta de praticamente todo o estádio. Apenas uma pequena parcela das arquibancadas foi reservada aos gremistas. 

Antes de os jogadores subirem as escadas que davam acesso ao gramado, Tite reuniu o elenco e fez apenas um pedido: “vão lá e divirtam-se!”. Algo sobrenatural deve ter acontecido, porque mesmo estando distante deles, foi como se eu tivesse recebido aquela mesma mensagem e decidido que me divertiria com o microfone em mãos. Vencemos por 3 a 1 e, por mais que o profissionalismo exigisse equilíbrio, vibrei a cada gol do meu Grêmio, revivendo os tempos em que narrava futebol entorno da mesa de botão quando meu time sempre vencia. 

Lembrar daquela tarde de domingo, no Morumbi, e assistir às imagens dos gols que marcamos foi estimulante nesta noite e uma ótima desculpa para eu não perder tempo com o mal e desorganizado futebol que estamos jogando.

Avalanche Tricolor:  de calcanhar, para driblar a melancolia

Grêmio 0x1 Athletico Paranaense

Brasileiro — Arena Grêmio

Foi no começo da semana que se completaram 50 anos de um dos gols mais bonitos marcados com a camisa do Grêmio. Quem refrescou minha memória, carcomida pelo tempo e excesso de preocupação, foi Ricardo Wortman. E o fez de forma especial: enviou-me o post publicado em seu blog Corneta do RW e o arquivo de áudio do grito de gol narrado por Milton Ferretti Jung, na rádio Guaíba, naquele 7 de junho de 1971. 

A partida era contra o Inter de Santa Maria e o autor do feito, o argentino Chamaco. Era um tempo em que as disputas dos campeonatos regionais é o que tínhamos para sonhar. Tempo, também, em que o pai ainda não havia criado sua marca registrada —- o grito de “gol-gol-goooool”. Mas já desfilava seu talento no gogó e no teclado das máquinas de datilografia. 

Caro e cada vez mais raro leitor deste blog, com o devido pedido de licença para não tomar seu tempo com palavras ao vento sobre a melancólica apresentação gremista nesta tarde de domingo, na Arena, reproduzo a crônica do gol que o pai escreveu na revista do Grêmio, publicação oficial do time que registrava os grandes feitos do tricolor. 

O gol foi fantástico. O texto, primoroso:

O calcanhar tinha olhos

‘Baixada Melancólica” é como chamam, lá em Santa Maria, o estádio do Internacional. E, olhem, com aquela chuvinha miúda que caía, no domingo em que o dono do local tinha que jogar com o Grêmio, até que o apelido ficava bem. Mas, mesmo assim, com a chuva e com o frio, os torcedores foram chegando e apertando-se nos degraus molhados das arquibancadas. E havia muitos com bandeiras do Grêmio, todos com um mesmo desejo: ver Chamaco e Scotta, o bigodudo com jeito de líder, e o sardento atacante, de poucas falas e muita habilidade. A partida começou e o primeiro tempo foi um quase nada de jogo, uma tristeza, afinando em tudo com o tempo ruim. Mas, no segundo período, Otto Glória mexeu no time. Fêz de Caio um companheiro para Scotta e a apatia do jôgo quebrou-se em dois gols do argentino. Depois disso, já ninguém esperava grande coisa. Os colorados consolavam-se com o gol que Maneco havia feito, empatando a partida numa alegria que durara pouco. Scotta logo marcou o segundo. De repente, um lance como que explodiu dentro do campo. Inesperado, como tôdas as explosões. Inédito no seu contexto. Scotta , que tinha chegado à linha de fundo, levantou a bola para a área do Internacional. Chamaco vinha se intrometendo pelo meio, o gramado meio que lhe escapando debaixo das chuteiras, cujas travas não se agarravam à grama molhada. E aquela bola caindo na área. Só que Chamaco tinha mais pressa do que ela. Uma pressão que não era dêle, mas do chão mentiroso. Estava saindo do lance, tal e qual um ator ao qual coubesse, na peça, uma única fala e que passasse pelo palco sem conseguir dizê-la. Valdir, o goleiro, nem ficou com mêdo. A defesa parecia tão fácil, o lance tão seu. Chamaco tão por fora. Chamaco patinava. Onde terminaria naquele impulso todo? A bola sempre mais para trás. Êle cada vez mais à frente. Quem estava lá, aquém do corpo que deslizava. O corpo foi. A perna, não. Para trás! Distendeu-se. Procurou, quase que tateando a bola fugidia. O peito do pé tem olhos quando chuta. O calcanhar, aquela protuberância cega, criou-os. E encontrou a bola, Transformou-se em espoleta, gatilho, catapulta. Sei lá. No choque com o calcanhar, o couro ergueu-se num volteio interminável, num arco inatingível para Valdir. E caiu novamente, raspando o travessão, escorrendo pela rêde. GOL! Pelo amor de Deus, GOL! Incrível, como seu dono, Don Carlos Chamaco Rodrigues.  

Ouça o gol narrado por Milton Ferretti Jung e com a participação do repórter João Carlos Belmonte. A voz que abre a gravação é do zagueiro Souza, do Inter de Santa Maria:

Avalanche Tricolor: melhor prevenir do que remediar. E use máscara!

Brasiliense 0 (0)x(2) 0 Grêmio

Copa do Brasil – Serejão, Taguatinga DF

Ferreirinha arrisca o chute em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Em uma semana na qual supostos candidatos a títulos se despediram precocemente da Copa do Brasil, cautela era a melhor estratégia. Pouco exagerada, verdade, dada a escalação de dois volantes mais fixos atrás — até porque tínhamos Geromel e Kannemann em campo, o que por si só é uma garantia de redução de riscos. O Grêmio havia saído do jogo de estreia, na Arena, com a impressão de que desperdiçara a oportunidade de decidir a classificação antecipadamente, mesmo que a vantagem de dois gols desse a impressão de que a vaga seria sua nas oitavas-de-final. Mas vai que …

Nunca é bom apostar com o azar. 

Um chute desviado daqui, um pênalti mal ajeitado logo ali e tudo se complicaria no Serejão, também conhecido por Boca do Jacaré — um estádio acanhado para dizer o mínimo. O gramado, então, um desrespeito ao futebol profissional. Em péssimo estado e com buracos no meio do caminho. 

A primeira vítima foi o goleiro adversário que teve o pé preso na grama e uma torção logo no início que o prejudicou no restante da partida. Depois, o talento e o toque de bola. Perdoe-me quem pensa o contrário: piso ruim atrapalha muito quem sabe jogar mais, porque reduz a velocidade da bola, distorce a direção do passe e costuma chegar na canela do companheiro, quando deveria ser tocada de pé em pé. Vimos isso durante o jogo.

Seja como for, desde o primeiro movimento, ficou claro que o Grêmio não queria jogar. Ao menos não queria se expor no jogo. O primeiro passe foi para trás e o segundo mais para trás ainda. A bola circulou entre os zagueiros muito mais do que pelos jogadores de meio de campo. Para um lado, para o outro. O marcador não vinha. Para um lado, para o outro. O marcador arriscava e voltada. Para um lado e para o outro. Às vezes, um avanço. Nada convincente.

No segundo tempo, com Diego Souza e Ferreirinha o nível da partida subiu.

Não que precisasse muito esforço para isso. A bola ficou mais no campo de ataque. A proximidade do gol não foi suficiente para colocá-la lá dentro. Além de um chute no travessão do nosso atrevido ponteiro esquerdo, pouco coisa se viu na partida desta quinta-feira à tarde.

O zero a zero ilustrou bem a qualidade do jogo, do gramado e do estádio. E o Grêmio cumpriu seu papel nesta etapa da Copa do Brasil, o que diante do desastre de gente graúda, convenhamos, está de bom tamanho. 

Tiago Nunes, nosso técnico, invicto até aqui, ao lado do campo —- na única derrota, ele estava em casa se recuperando da Covid-19 —, gaúcho como eu, deve ter ouvido muito sua avó recomendar: melhor prevenir do que remediar. Cumpriu a risca o ensinamento.

A propósito: se é melhor prevenir do que remediar no futebol, quando o que está em jogo é a vida, o ditado é ainda mais pertinente. Portanto, a despeito do que este lunático que comanda o Brasil tenha dito hoje, cuide-se, previna-se, mantenha distância, evite aglomeração e use máscara. Tenha tomado vacina ou sido contaminado pela Covid-19, use máscara, pelo amor de Deus!

Avalanche Tricolor: É campeão! É campeão!

Grêmio 3×0 Santa Cruz

Recopa Gaúcha – Arena Grêmio

A Recopa é nossa, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O almoço dominical em família ainda não estava servido e o Grêmio já havia levantado mais um troféu. Na transmissão da TV, rolou vinheta com o título de campeão e sobe som do hino. Em campo, montaram palanque, teve entrega de medalha e fumaça colorida para erguer o troféu. O segundo no ano. 

Sei que o título não é daqueles que vira DVD, filme no cinema ou será lembrado para sempre nas conversas com os filhos. Mas ganhar é sempre bom, mesmo que o adversários seja o humilde e honesto Santa Cruz —- time que vem de uma terra famosa pelas plantações de fumo e, pessoalmente, pelos tradicionais e, às vezes, violentos embates que meu time de basquete encarava sempre que enfrentávamos a equipe da cidade,  que leva o nome de Corinthians.

O Grêmio teria compromisso importante pelo Campeonato Brasileiro, mas o destino nos permitiu o adiamento da rodada e o agendamento da decisão regional. Providencial adiamento. Estamos com 11 integrantes do elenco contaminados por Covid-19: de goleiro a atacante, de lateral a técnico — sem contar os dois convocados para a seleção olímpica. Tantos desfalques seriam fatais. Não para essa final, quando pudemos selecionar apenas os mais jovens ou os menos aproveitados do grupo.

Dos que entraram em campo, Fernando Henrique, o volante pifador, foi talvez a melhor das notícias na manhã deste domingo.

Com uma personalidade rara para a idade, distribuiu jogo de um lado e do outro com talento e precisão no passe. Ainda arriscou-se a chutar de fora e quase marcou o que seria o terceiro gol gremista. Não por acaso, ganhou lugar de destaque na foto do título, sentado atrás do troféu e tendo Geromel — nosso líder —- como guarda-costa.

Havia uma expectativa grande quanto ao desempenho do lateral esquerdo Guilherme Guedes, jovem da base que está voltando à ativa depois de uma série de problemas físicos. Cumpriu bem o seu papel e deu demonstrações de que sabe bater bem na bola, na única falta em que teve oportunidade de cobrar.

Os jovens atacantes Guilherme Azevedo, Léo Pereira e Jhonata Robert —- esse tendo entrado apenas no segundo tempo —- deixaram suas marcas, com tentativas de dribles, sendo agressivos no ataque e marcando cada um o seu gol.

Ninguém ficará para a história devido ao Bi da Recopa Gaúcha, mas é provável de que alguns dos que vestiram a camisa gremista nesta manhã de domingo estejam começando a escrever sua passagem pelo tricolor —- e que bom que comecem essa história de maneira vitoriosa.