Ipatinga 0 x 1 Grêmio
Copa do Brasil – Ipatinga (MG)
Em partida na qual desde o técnico até o último jogador a entrar em campo – refiro-me a Marquinhos – salvou-se mesmo o destemido Fernando, fiquei boa parte do tempo pensando se aqueles atletas tinham ideia do que representava a tarja preta na manga da camisa. Se alguém havia se dado ao trabalho de conhecer a verdadeira história de quem homenageavam. E como nada do que acontecesse em campo, nem mesmo a vitória que eliminaria a partida de volta, poderia ser mais importante do que Airton Ferreira da Silva, nosso Imortal Zagueiro Tricolor, aproveito esta Avalanche para reproduzir texto oferecido pelo próprio autor, Airton Gontow, assim batizado em homenagem ao nosso ídolo das décadas de 50/60. E quanto a este jornalista e gremista que, assim como eu, mora em São Paulo, não tenha dúvida, sabe muito bem o que significou Airton.
Para ilustrar, este texto a imagem feita por outro gremista: Francisco Carlos, desenhista de primeira.

Alto, forte e extremamente clássico, o jovem Airton despertou o interesse dos dirigentes gremistas. Jogava pelo pequeno Força e Luz, time porto-alegrense, que tinha gramado, mas não possuía um estádio. O Grêmio fez uma boa proposta. Acima das suas possibilidades. Mas o Força e Luz quis mais, bem mais. Foi aí que aconteceu a mais surpreendente das ofertas: 50 mil cruzeiros e mais o Pavilhão Social do estádio da Baixada.
Era o ano de 1954 e Airton foi para o Grêmio. Ou melhor, agora o tricolor gaúcho tinha o “Airton Pavilhão”, o homem que foi trocado por um estádio de futebol.
O ato aparentemente insano da diretoria – de trocar um patrimônio por uma simples promessa, de 19 anos, que poderia nem mesmo vingar ou até sofrer alguma contusão em um período em que a medicina esportiva era tão insipiente – se mostrou o maior negócio da história gremista.
Airton valia mais que um estádio!
Em 12 temporadas, ganhou cerca de 17 títulos, entre eles de pentacampeão gaúcho de 56 a 60 e o hexacampeonato estadual de 62 a 67. Tinha a companhia de craques, mas era o grande nome da equipe. Durante os anos em que atuou no tricolor dos pampas, aconteceram 52 grenais. Com ele, foram 42 jo..gos, com 22 vitórias, oito empates e 12 derrotas. Sem ele, nenhuma vitória tricolor. Foram dez jogos, sete ganhos pelo Inter e três empatados.
Ficou famoso também por uma jogada que só ele era capaz de fazer: em muitos jogos, levava a bola em direção à bandeirinha de escanteio, levando com ele alguns jogadores adversários. Aí virava o corpo e, colocando uma perna por trás da outra, recuava, de letra, a bola para as mãos do goleiro e, claro, para o delírio dos torcedores.
Nunca errou, mas alguns consideram que esta aparente irresponsabilidade foi responsável por sua não permanência na Seleção Brasileira, apesar de ter até conquistado o título de campeão Pan-Americano, em 56.
Segundo o conceituado comentarista gaúcho Ruy Carlos Ostermann, que viu atuarem pelas equipes gaúchas zagueiros como Calvet, Figueroa, De Leon, Anchieta e Gamarra e que acompanhou inúmeras Copas do Mundo, Airton Pavilhão foi o melhor defensor que assistiu em campo: “Não conheci zagueiro melhor do que ele…marcava sem pontapé, sem esforço físico, marcava naturalmente”, diz Ostermann. Para o jornalista e escritor Paulo Sant’Ana, conhecido por seus belos textos e também pelo seu fanatismo pelo tricolor gaúcho, Airton Pavilhão foi o maior craque da história gremista, acima de jogadores como Ronaldinho Gaúcho, Eurico Lara e Renato Portaluppi.
Ídolo da torcida, foi admirado até pelos grandes rivais. No ano passado, estive no Beira-Rio e entrevistei Claudiomiro, ex-centroavante do Internacional. “Qual é o melhor zagueiro que enfrentaste?”, indaguei. Ele foi taxativo: “Airton, Pavilhão!” e explicou: “Além de ser quase impossível passar por ele, nunca dava um pontapé, era incapaz de fazer uma falta”.
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