Quando você fica um certo tempo longe de sua terra, as imagens, os aromas, as visões e as lembranças se tornam ainda mais fortes. Por isso, é que, às vezes, me lembro do vilarejo onde passei minha infância, com especial intensidade.
Perus, norte da Grande São Paulo, não era, como agora, um aglomerado de casas e comércio. Ao contrário, era então, uma paisagem quase bucólica. A estrada de ferro, antes chamada de Santos—Jundiaí, ainda corta o local bem no meio e tem, como acompanhante, um rio que vai serpenteando ao seu lado e, no caminho, divide a praça principal.
O rio e a ferrovia formam, assim, uma espécie de vale cercado de elevações — ou morros, como dizíamos. Na minha infância ainda era tudo muito espalhado, não havia tantas casas e estavam como que semeadas pelas elevações; enquanto o comércio, os bancos, o cinema e tudo mais, estavam no centro do bairro, em volta da praça.
De um dos lados saía uma rua, na verdade uma rampa íngreme, que chamávamos de Morro do Cartório, e que levava a algumas habitações mais para cima, inclusive a casa onde eu morava. O cartório – o Tabelionato Farias – ficava no meio desta rua, que subia, subia e continuava subindo.
Lá embaixo, no começo, estava a igreja católica, cuja padroeira era a Santa Rosa de Lima.
E antes de continuar a andar pela “cidade”, quero parar um pouco por aí. Era uma igreja como outra qualquer, branca, com uma torre, sino. Sei que mudou, desde então. Toda tarde, às seis horas, algo muito especial acontecia.
Nessa época, a essa altura do dia, as pessoas estavam encerrando as atividades, fechando o comércio, voltando para casa. Então, com uma pompa e força inusitadas para todos, soava o “Concerto no. 1 para Piano e Orquestra de Tchaikovsky”.
O som saía das torres da pequena igreja e ecoava pelas montanhas, pelas ruas, entrava nas casas, ia, ia, para além das fronteiras do nosso bairro. Era vibrante, imponente, poderoso, sensacional. Enchia os ouvidos, o ar e a alma.
Depois de algum tempo, o som baixava, sem desaparecer. Entrava então a voz de um locutor, altivo e pomposo:
“Ao som deste prefixo musical, vai ao ar o Serviço de Alto-Falantes da Paróquia da Santa Rosa de Lima de Perus”.
Não podia haver nada mais solene do que isso. Naquele momento, Perus e sua paróquia eram mais importantes que o Vaticano, que Roma, que Aparecida do Norte, Brasília ou Rio de Janeiro. Éramos insuperáveis. Tudo parava por alguns segundos, pelo menos na minha imaginação. Nem sei o que o locutor falava depois. Talvez banalidades, anúncios locais… Não importa. Naquela hora era Tchaikovsky. E Tchaikovsky era o papa. Ele nos aproximava de Deus, mais do que qualquer sermão, livro, exortação. Era um momento simplesmente lindo, majestoso…
O locutor era meu irmão, o Bonifácio. Ele faleceu há alguns anos e entre as inúmeras coisas boas e bonitas de que me recordo a seu respeito, essa foi a mais apropriada que achei para homenageá-lo.
Como dizem meus filhos, “era a sua cara”… Tchaikovsky em Perus, São Paulo.
Flávio Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Vivi grande parte de minha infância, dos seis aos 13 anos, na rua Oscar Freire. Não na Oscar Freire das butiques cheias de glamour e da gente elegante. Na Oscar Freire da gente simples e das casinhas singelas. Elegantes — que eu me lembre, e que me marcaram — só havia mesmo dois lugares: o antigo ateliê de Clodovil Hernandes e o restaurante Frevinho — este ainda lá, embora não exatamente no mesmo local. Passava por eles sempre que ia à Rua Augusta. Essa sim, famosa e imortalizada pela música de Ronnie Cord, da Jovem Guarda. Era repleta de lojas, e com bondes subindo e descendo. Visitava com frequência uma loja de armarinho, onde tínhamos o costume de comprar lã; e, também, sempre passávamos em frente à loja Zogbi.
Cursei os dois primeiros anos do primário em uma escola de freiras, a Madre Maria Eugênia. Ia a pé com minhas irmãs, sempre tomando cuidado para atravessar a perigosa Avenida 9 de Julho. A escola tinha um amplo bosque e, nesse bosque, uma pequena gruta com a estátua da Virgem. Toda segunda-feira havia missa e nós, alunos, atravessávamos o bosque para chegar à igreja ao lado do colégio Assunção. O colégio, particular, ainda existe, já a minha antiga escola foi vendida em meados de 1970 para ser demolida e, com outros prédios, dar lugar ao supermercado Eldorado, depois Carrefour e atualmente Shopping Pamplona. Na época, os pais reclamaram do absurdo de uma escola dar lugar para um supermercado. Coisas do progresso? Pelo menos a estátua da Virgem foi conservada quando o supermercado foi construído. Hoije, já não sei o que foi feito dela.
Naquela tempo, andava-se muito. Não raramente tínhamos que subir ladeira acima até a Paulista para chegar na agência de Correios.
Quem já viu a ladeira da Rua Ministro Rocha Azevedo deve saber da dificuldade de se subir até o espigão a pé! Mas, felizmente, havia a ladeira da Rua Padre João Manuel, um pouquinho menos íngreme, ainda assim, árdua! Coitado do meu irmão que estudava no Dante Alighieri e tinha que escalar o morro todos os dias! Haja pernas e fôlego! Sorte que para ir ao supermercado não se precisava andar muito. Ficava logo na esquina. Hoje, o supermercado Hispania deu lugar ao Pão de Açúcar.
Quanto à casa em que eu morava, era geminada, tipo “linguiça”, muito estreita, com cerca de quatro metros de largura e 40 de profundidade. Fuçando os documentos — sim, na época eu já gostava de fuçar! —, descobri que a casa tinha história: fora construída por um imigrante, doceiro, de nome David Kopenhagen! Quem diria! Pena, a casa não existe mais. Como muitas outras foi vendida para empreendimento imobiliário e, em 1976, mudei-me para o Brooklin. Mas aí já é outra historia.
Yip Cho Paul é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Conversando com minha afilhada Bia, contamos histórias sobre a convivência em Sampa nos anos 60, 70, 80 — época da minha infância à juventude. Ao relatar a diversidade de nacionalidades que havia na quadra da rua onde crescemos, ela falou:
“Vocês viviam cercados de Embaixadas!”.
Como sabemos a cidade de São Paulo, no século XX foi se transformando em uma grande metrópole, a população explodindo, movimento intenso. São Paulo da garoa, São Paulo que não pode parar, São Paulo desvairada, São Paulo a locomotiva que move o país. A Sampa, de Caetano Veloso, uma cidade a ser traduzida, uma mistura de arranha céus, deselegância discreta.
A cidade sempre acolheu muitos imigrantes estrangeiros, que chegaram ao Brasil em diferentes momentos e motivos. Muitos brasileiros migraram também para cidade de São Paulo, em busca de melhores condições de vida. Meus pais, no fim dos anos 50, um casal com seis filhos, desejavam estar em uma cidade que proporcionasse estudo, saúde e oportunidade de trabalho. Eles só não sonhavam que teriam mais dois filhos, meu irmão Octavio e eu.
Uma característica de São Paulo é ter bairros com a cara do povo que ali habita. Bairro operário, bairros de italianos, de japoneses, de nordestinos, etc.
A Vila Romana, na Lapa, era um bairro bem arborizado, com ruas de paralelepípedos, cheio de casas. Ao entrar no bairro, procurando a casa anunciada para aluguel, minha mãe não teve dúvidas que ali era o lugar onde deveria morar. O bairro próximo ao comercio grande, tinha indústrias, fabricas, oficinas. Ao mesmo tempo era muito acolhedor, com muitas escolas, igrejas, parques, transporte farto, segurança, padaria, armazém, mercados, feiras livres, cinemas e festas populares. Enfim, uma comunidade que favorecia criar uma família, vinda ela de qualquer lugar do mundo.
Ali, fomos descobrindo famílias de várias nacionalidades e famílias de diversas regiões do Brasil. Partilhamos experiências culturais e habilidades diferentes. A amizade permitiu nos aproximar de cada uma delas, sem interferência na intimidade ou discriminações de credo ou raça, vejam:
A família de portugueses, “uma casa portuguesa com certeza”, arrumada na simplicidade e decorada com muito crochê feito pela matriarca. Educados, estudiosos e religiosos. Na época de natal havia uma mesa com rabanadas e vinho do Porto.
A família de alemães, o casal era bem discreto, 05 filhos, as regras da casa eram bem definidas e obedecidas pelas crianças (nem sempre, afinal criança apronta em qualquer nacionalidade). As crianças, além de estudar, também tinham que participar de alguma atividade física extra: ginastica, atletismo ou ballet. Faziam bolos de aniversários imperdíveis, para os convidados.
Os descendentes de italianos, onde minha família está incluída, sempre foi uma turma mais barulhenta. Tendo sempre uma nona ou um nono para cuidar, mas também para mandar na gente. Muito almoço partilhado com quem chegasse e muita bebida para brindar.
Os sírios com seus olhos marcantes, pessoas bem-humoradas e afetivas, uma família mais patriarcal. Com uma mama que cozinhava muito bem. Uma culinária que parecia festa: esfiha, Kibe, doces. Pessoas que podemos chegar e bater um papo bom até hoje.
Os mineiros com suas alegrias e também lutas, muita cumplicidade e amizade com todos.
Os alagoanos, família toda trabalhava, a criançada aproveitava para brincar na casa sem adultos.
Os pernambucanos, uma distração a parte, era divertido ver a arruaça que a mãe deles fazia. Não importava a idade da filha ou filho, o que estava fazendo e com quem, ia na janela da casa gritava o nome, dava uma bronca, soltava um palavrão e mandava entrar.
Aliás, naquela época a gente não esperava os pais mandarem entrar, pois você teria um problema. Todos sabiam o seu limite de rua e tratassem de obedecer. Ficar na rua brincando até tarde era igual a ficar no celular ou joguinhos hoje.
Também, conhecíamos os vizinhos pela profissão ou pelo jeitão:
D. Bem, “tudo bem? ”, essa era sua expressão. Uma criatura muito gentil para com todos os vizinhos. A Tereza costureira; D. Graça, espanhola, que vendia os sonhos mais gostosos do mundo. D. Lúcia, portuguesa, dona da mercearia, que se solidarizava com todos que precisavam de sua ajuda para concluir o almoço. O Aguiar do bar da esquina, que gentilmente cedia o seu telefone para recados da vizinhança. Seu Alípio, o barbeiro, um baiano com sorriso de orelha a orelha. O japonês da tinturaria, a lavadeira nordestina, eles foram os primeiros Delivery que conhecemos, ambos retiravam as roupas em casa e as devolviam limpas e passadas. O dono da fabriquinha, a mulher do tricô, o mecânico, o advogado, o Del Nero do depósito de bebidas, dona Nenê, professora de datilografia.
Parte da nossa integração acontecia aos domingos, era um dia bem distinto. Logo de madrugada armava-se a feira livre. Na parte da manhã, tinha a vida religiosa, missa, cultos, etc., depois as compras na feira, o preparo do almoço e a tarde brincar na rua. Como era domingo apareciam mais criança, pois vinham visitar os parentes e assim conhecíamos os primos, sobrinhos e netos. As mães também tinham seu momento de convivência. Era uma relação sem combinar, espontânea, acontecia na porta de casa ou na varanda.
As crianças aprendiam a lidar com as situações ou emoções que brotavam naquela convivência, uma pequena ofensa, um machucado causado por um empurrão. A intromissão dos pais só acontecia se essas coisas ultrapassassem os limites de uma boa convivência entre os vizinhos, um desrespeito grave, ou se quebrássemos algo dos amigos ou da vizinhança.
Posso dizer que sempre me senti muito grata por ter vivido num espaço tão diverso em cultura, recheado do propósito de trabalho, educação, cheio de brincadeiras e aventuras de juventude. Isso criou laços de amizades que duram até hoje. Foi uma grande oportunidade como “Ser Humano”.
Realmente, vivíamos na simplicidade, mas como diplomatas de embaixadas.
Maria Aparecida Baricca Ferreira de Sousa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Quando era criança, pensava que tinha sorte por ter nascido em São Paulo. Não me lembro o que me levou a pensar assim. Acho que foi quando comecei a ter aulas de Geografia, quando aprendi sobre as migrações e o que motivava tanta gente de outras regiões do país a migrarem para lá, onde eu morava.
Já na adolescência, comecei a ter mais motivos para reforçar esse pensamento.
Nunca fui de sair muito. Minha diversão era estudar e aprender. Comecei nessa fase da vida a perceber o quanto a cidade tinha para me oferecer. Tinha como ter um ensino de qualidade, porque dispunha de ótimas escolas, públicas e particulares. Tinha acesso a uma biblioteca, que ficava perto de minha casa, além de ter o Museu do Ipiranga como um quintal.
Cresci e a cidade cresceu para mim. Quando saí do ginásio e fui para o colegial, mudei de escola e diariamente embarcava no ônibus Pinheiros para o Paraíso. Levava de 20 minutos a meia hora para chegar à escola.
Conheci o Centro Cultural São Paulo! As rampas de acesso que se cruzavam em planos diferentes me mostravam outras pessoas como eu, com interesses semelhantes. Foi nesta época que também conheci a Liberdade e a feirinha montada aos fins de semana. Até novos sabores me foram apresentados! Foi quando tomei, pela primeira vez, um Mumy de maçã, que hoje é o Mupy.
O fluxo de crescimento me levou a sonhar com a USP. Queria fazer uma boa faculdade, mesmo sem saber, ainda, qual seria a profissão que abraçaria. Todo meu foco estava em estudar para alcançar meu objetivo. Foi assim que meu mundo cresceu mais um pouco, me levando a conhecer o Campus da Cidade Universitária, no Butantã. Entrei pela primeira vez lá no dia em que fui me matricular no curso de Farmácia-Bioquímica. Precisei de uma “guia” para chegar até a faculdade.
Trabalhei na Freguesia do Ó. Passava pela Av. Rio Branco, Av. Rudge, pelo Largo do Arouche ou pelo alto de Pinheiros.
Meu filho nasceu também paulistano. A cidade dele foi diferente, andando de metrô lotado desde cedo, na linha verde, para ir à creche da Faculdade de Saúde Pública — foi onde fiz meu mestrado e doutorado. Tentei oferecer a ele a melhor versão de São Paulo.
Essa a cidade em que vivi por 44 anos e que fez de mim muito do que sou. Que me emociona por ser tão generosa.
Cidade que continua a receber gente. Os refugiados da Síria, o povo vindo da Bolívia para trabalhar no Bom Retiro. São Paulo também exporta gente. É o meu caso. Nos últimos anos que vivi na capital, a vida foi difícil. Desemprego! Nunca tinha pensado que sairia da cidade onde tive a sorte de nascer. As circunstâncias me fizeram olhar para fora e consegui uma oportunidade de trabalho em Portugal.
Porque ela me deu tanto, a cidade, faço o mesmo por ela. Sou, aqui, uma paulistana. Generosa, como São Paulo, ensino e provo ao mundo que ela tem muito mais do que quantidade. Ela tem qualidade!
Janessa de Fátima Morgado de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Quer ouvir outras histórias, viste o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Sou paulistana, nascida há quase 70 anos nesta cidade. Tenho dois filhos e quatro lindos netos. A minha história com São Paulo é muito especial. Na verdade, ela passa pelos olhos e pelo querer dos meus netos.
Desde que o Marcello, o neto mais velho, era pequeno, nosso passeio preferido sempre foi a visita ao Instituto Butantan. Morávamos lá perto e éramos frequentadores assíduos.
O Museu Biológico, em prédio de 1920; o de MIcrobiologia, idealizado pelo professor Isaías Raw; assim como o Macacário, o Serpentário e os parques encantavam o Marcello.
Esse encanto virou legado. Passou para a irmã mais nova. E para as primas pequenas.
Hoje em dia basta perguntar:
– Gente, o que vocês querem fazer no fim-de-semana?
A resposta é em uníssono:
– Ir ao Butantan, vó!
O mais interessante é que o Marcello tornou-se o monitor das menores. Ele explica para elas tudo que viu e aprendeu durante esse anos.
Uma das lembranças mais bonitas que tenho é a foto dos meus netos que tirei, há dois anos: os quatro sentados na escadaria de entrada do Instituto. Hoje, ela em um enorme significado: o encanto dos netos, o nosso agradecimento e o orgulho de termos um Butantan, em São Paulo.
Maria Cristina Pereira de Queiroz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Conte você também a sua história da cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Minha história com São Paulo começou quando, ainda bem criancinha, morava com a família em Belo Horizonte, onde vivo até hoje. Meu pai, um cidadão da pequena cidade de Santa Maria de Itabira, no interior de Minas, foi trabalhar em São Paulo com alguns irmãos, levado pela mesma motivação que até hoje muitos brasileiros o fazem: ganhar dinheiro para melhorar a vida. Ingressou na construção civil, na região de Santo Amaro. As preocupações com a família e a saudade falaram mais alto e ele voltou — decepcionado com a cidade, pois a única irmã havia morrido atropelada nas comemorações do aniversário da grande metrópole. Ele nos trouxe presentes que até hoje ainda temos.
Muitos anos depois, eu já uma jovem, quando retornava de um dia cheio de trabalho, sinto meu coração bater diferente e mais forte ao me encontrar por acaso, se é que ele existe, com um jovem rapaz, portador de um ar interessante que também esperava o ônibus. Conversa vai, conversa vem e adivinhem onde o rapaz nasceu? “Sou de São Paulo, nasci em Santo André”. A família dele havia se mudado para Belo Horizonte.
Como a política do café com leite funcionou durante muito tempo aqui estamos hoje com 32 anos de casados. E São Paulo, desta forma, entra definitivamente na minha vida.
Em uma das viagens à cidade, nosso filho caçula, naquela época na fase do desfralde, nos fez parar na Avenida Paulista em busca de um banheiro para que ele pudesse se “aliviar”. Eu não tinha a menor noção do que essa avenida representava para os paulistanos e a sua grande importância na cena cultural e na economia de nosso país.
O tempo passou, os filhos cresceram. Meu primogênito, então, escreveu mais um capítulo da nossa história com a cidade. Engrossou a fileira dos milhares de profissionais que fazem com que São Paulo se consolide como uma grande metrópole, com todos os problemas inerentes a elas, mas que também parece nos dizer: “venham… venham.. venham crescer e se desenvolver; aqui sempre cabe mais um, que queira trabalhar e superar as dificuldades de viver no coração econômico da América do Sul” .
Hoje, ele está casado com uma mineira. Meus dias são mente e coração divididos entre Belo Horizonte e São Paulo. A melhor estratégia para equilibrar tudo isso é ouvir a CBN, em São Paulo, para saber como estão as coisas no bairro onde trabalham e moram meu filho e minha nora.
As notícias sempre nos rendem alguns assuntos em família. Para mim, ouvir a rádio dá a sensação de que em alguma medida estou mais próxima deles e até compartilho do seu dia a dia: já sei como está o tempo, o trânsito, a política e o cotidiano. Isso ameniza a minha saudade e nos aproxima. Mesmo com todos os recursos tecnológicos disponíveis tenho a sensação que a rádio segue sendo um elo importante para quebrar a barreira de cada um viver em um lugar tão diferente e distante do outro.
Lucimar S. F. E. Santo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras lembranças, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Cheguei em São Paulo, em 1961, vindo da cidade de Londrina, norte do Paraná, onde nasci. Era vizinho da família do Prof. Mário Sergio Cortella, de quem me tornei amigo, quando nos encontramos na PUCSP. Nessa universidade, estudei e me tornei docente. Até hoje, tenho o privilégio de frequentar o bonito prédio, que a cidade conserva, nas terras altas de Perdizes.
Quando chegamos em São Paulo, eu, então um garoto de 6 anos, e minha família fomos morar em um pequeno prédio na Rua Tupi, no bairro do Pacaembu. Havia sido construído por um senhor imigrante, que sonhava com uma cidade de prédios baixos, valorizando a paisagem urbana. Esse prédio tem uma arquitetura que lembra construções de velhas cidades da Europa e, entre seus moradores, ainda vive umas das filhas (quase centenária), desse construtor, guardando a memória de outros tempos dessa cidade. No prédio foram gravadas cenas da série da TV, Segunda Chamada.
Assim, recém-chegado, passei a viver naquele espaço de São Paulo, uma cidade que crescia, e ainda era amistosa para as crianças. Fiz amigos na rua, que eram vizinhos. Ali, fui crescendo e aprendendo as brincadeiras compartilhadas pelas crianças da época. Para dizer da amabilidade paulistana daqueles tempos, contarei a vocês nossas experiências de infância como jogadores de futebol da rua. Treinávamos na Tupi e o gol era delimitado pelo poste da esquina com a Rua Dr Veiga Filho, uma íngreme ladeira, onde, no alto, fica o Hospital Samaritano, também prédio ainda preservado na cidade e bastante bonito de se ver.
O meu time mandava seus jogos nos jardins de frente do Estádio Municipal do Pacaembu, na Praça Charles Miller.
Eram tempos dos jogos do Santos de Pelé e Cia. E, nós, garotos, ingenuamente, sonhávamos um dia também sermos jogadores profissionais. Às vezes, assistíamos aos jogos no estádio, para o que pedíamos a torcedores pagantes que nos acompanhassem para entrarmos de graça. Na época, o Pacaembu exibia a Concha Acústica, onde depois foi construído o Tobogã, recentemente demolido.
O time era composto por mim – zagueiro central, pelos filhos do dono da mercearia de secos e molhados, que ficava na esquina da Tupi com Veiga Filho, Ninão e Neto. Ninão era craque e nosso capitão. Tinha ainda o Júlio, o Dinei, o Marcelo… Nomes de que ainda lembro, passados mais de 50 anos. Tínhamos um admirador: um homem morador de rua, que apelidamos de Zóinho. Mais tarde, vim saber que era um advogado que se desiludiu com a esposa, se entregou ao álcool e à vida naquela rua Tupi. Nossas famílias doavam roupa e alimento ao Zóinho, colaborando para sua sobrevivência, em uma espécie de agradecimento por seu apoio ao time dos garotos.
Na mercearia dos pais de Ninão, comprávamos pão e leite, pagos, ao fim do mês, conforme o registro manuscrito na caderneta. O leite vinha em garrafas de vidro. Eram retornáveis e devolvidas em engradados de arame para o caminhão que toda madrugada, trazia o leite de cada dia para o nosso cafés da manhã.
No fundo do hospital Samaritano, havia um grande terreno de árvores frutíferas, onde brincávamos de mocinho e bandido. Por vezes, o zelador ralhava com a molecada e de posse de uma espingarda de pressão, dava tiros de sal, que ardiam nas ágeis pernas, com que fugíamos do inimigo. Brincávamos ainda de empinar pipa, jogar bolinha de gude, bater figurinhas, jogar queimada, carrinho de rolimã e taco. Enfim, muitas brincadeiras e histórias desse tempo que vai longe… Tempo de São Paulo, da cidade amiga das crianças.
Hélio Roberto Deliberador é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Nos tempos de garoto sempre que se necessitava ir ao Centro dizia-se: “vou à cidade”. Especulo que devia ser por causa da paisagem diferente da região central, já povoada de prédios, grandes lojas e trânsito intenso, que se contrapunha ao aspecto bucólico dos bairros onde eu vivi na Zona Norte. Ali era uma paisagem quase rural: galinhas, cabras, cavalos, alguns bois; havia casas simples e térreas, vez por outra dividindo espaço com pequenos comércios; ruas de terra onde a criançada podia brincar tranquilamente; os veículos praticamente inexistiam,.
Vai daí que nossas idas à região central da Capital eram eventos, por alterarem substancialmente nossa pacata rotina. Ariovaldo e eu vestíamos cada qual a melhor roupa e calçávamos o melhor par de sapatos, devidamente engraxado e lustrado pelo Seu Aristeu.
Meu pai era bancário e o antigo IAPB – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários tinha um corpo médico excelente, que atendia na sede da Conselheiro Crispiniano, quase na esquina com a Sete de Abril. Minha saúde era problemática – devido à bronquite que me afligia praticamente desde a saída da maternidade, felizmente curada aos dez anos – e frequentemente a Dona Cida, minha mãe, me levava até lá para consultas.
Para chegar havia duas alternativas. Algumas vezes descíamos do 56-Vila Gustavo/Anhangabaú (linha de ônibus operada pela Empresa Auto Ônibus Parada Inglesa) nas proximidades da Ponte Grande – como então era chamada a Ponte das Bandeiras – na Praça dos Esportes, ao lado da Associação Atlética São Paulo e defronte ao Clube de Regatas Tietê, dois dos muitos clubes que margeavam as águas limpas e navegáveis do Rio Tietê. Embarcávamos no ônibus Norte-Sul, da finada CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos e descíamos nas proximidades do Teatro Municipal, perto do consultório. Quando o dinheiro estava ainda mais curto, usávamos o 56 até o Anhangabaú, nas proximidades da Senador Queirós e caminhávamos bastante na ida e na volta do consultório.
Nessas ocasiões o infalível pastel era degustado na Rua Capitão Salomão, entre o Largo do Paiçandu e a Praça do Correio.
Meu pai trabalhava no Banco de Crédito Pessoal, na Galeria Califórnia, e, por vezes, aproveitava o horário de almoço para acompanhar-nos na consulta. Sempre que seu apertado orçamento permitia substituíamos o pastel por um bauru, feito no pão Pullman bem torrado, acompanhado por um Guaraná Brahma, servido na lanchonete, em frente ao consultório.
O trajeto e o ritual eram repetidos quando necessitávamos tirar uma foto para documento ou para alguma ocasião especial, como formatura do primário ou primeira comunhão. As fotos eram tiradas na Rua São Caetano, perto da Igreja de São Cristóvão. Depois da sessão de fotos, o pastel era o da Pastelaria Chinesa, na mesma calçada do estúdio fotográfico.
Para comprar roupas visitávamos o comércio popular da Rua José Paulino e adjacências, no Bom Retiro. Descíamos do 56 em frente à Pinacoteca do Estado, na Avenida Tiradentes e dali fazíamos o percurso caminhando.
Alguns anos depois, quando já morávamos na Vila Ede, a Dona Cida passou a frequentar o Brás, na região da Rua Maria Marcolina. Vez por outra, se aventurava nas ruas Direita e São Bento, mas saía sempre de mãos vazias, pois os preços eram muito altos para o nosso padrão de vida. As vitrines das lojas tinham para nós o mesmo efeito que uma máquina de assar frangos tem para os cães: somente podíamos olhar e babar.
Muito tempo se passou e felizmente eu progredi na vida, respaldado na luta de meus avós, meus pais, minha amada companheira Teresa e sem falsa modéstia no meu próprio esforço.
Tenho 70 anos e sinto saudades. Não da vida dura de outros tempos, mas da delícia que era “ir à cidade”.
Aristeu de Campos Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Fotógrafo Aurélio Becherini, Acervo da Casa da Image de São Paulo
Das montanhas de Minas para as “montanhas de luzes” de São Paulo, entrei de ônibus na Pauliceia, numa noite de janeiro de 1970. Deixava o curso de direito na federal, em Belo Horizonte, para fazer teatro. Só desafios. Tudo novo. Sem limites.
A primeira noite, sono agitado num hotelzinho perto da antiga rodoviária. Depois, a pensão de uma prima. Quarto com dois beliches e uma cama de campanha. Cinco primos cheios de sonhos. E muita agitação.
O dinheiro curto. No domingo, só almoço. E bananas e mais bananas para todos até o dia seguinte.
O primeiro emprego, na revisão de O Estado de São Paulo. Das dez da noite às seis da manhã.
Só descobertas! Tumultos. E muito barulho. No jornal, no quarto, na casa, nas ruas. Como dormir? Quando dormir? Me pegava dormindo no ônibus, de pé, segurando o pegador que pendia do teto. O joelho falhava, eu quase caia. No elevador do Estadão, um vaivém do andar da revisão ao andar do restaurante. E eu dormindo, ainda em pé, pra baixo e pra cima, no intervalo da jornada.
Certa tarde, em desespero, com a dor aguda de semanas sem dormir, passei diante do Cine Bijou, na Praça Roosevelt. Filmes de arte, para driblar a ditadura. Que descoberta!
Sessões do meio-dia até a madrugada. “Gaviões e passarinhos”, de Pasolini. Nem pensei. Entrei. E mal joguei o corpo na poltrona vermelha, já estava de olhos fechados. Acordei no fim da primeira sessão. No meio da outra, com o personagem Totó caminhando por uma estrada sem fim, com uma gralha falante e um garoto. E de novo só despertei – dormido e descansado – antes da sessão das dez. Pronto para o trabalho.
Dias e noites, a penumbra encantada do Cine Bijou embalava meu sono e meus sonhos, até a hora de trabalhar. Não sem antes saborear o imortal sanduíche de pernil acebolado no bar de frente do jornal.
Outros filmes vieram, para salvar-me da tortura dos barulhos da pensão. E do mundo. Continuei fiel ao berço do Bijou. Até que Carlitos recebeu-me com as luzes encantadas do seu “Circo”. A angústia de Totó dá lugar ao lirismo de Carlitos, dançando na sala de espelhos, perseguido por um policial.
Durmo, sonho. E acordo ainda sonhando com aquela magia. Dias e noites. Noites e dias. Até hoje.
Agora que o cinema foi reinaugurado, reacendeu suas luzes, espero reencontrar Totó e Carlitos nas telas do Bijou ou caminhando pelas calçada da Praça Rosevelt. Porque eu continuo a sonhar. Agora com o sono (e os sonhos) em dia.
Ailton Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer texto, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Maurília é uma das “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, inspirado nas narrativas de Marco Polo a Kublai Khan. Roberto Pompeu de Toledo, em “A Capital da Vertigem – Uma História de São Paulo de 1900 a 1954”, reporta-se a Calvino:
“O viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões postais ilustrados que mostram como esta havia sido”.
Cidades diferentes, a do presente e a da memória. São Paulo em minha memória extrapola em várias, desde que para ela vim de Ribeirão Preto, no início dos anos sessenta.
Eram carros e bondes nas ruas centrais, indo até bairros, como para lá de Santo Amaro, passando por campos aflorestados. Ônibus fumacentos na São João, Paissandu, Largo de São Francisco, Praça das Bandeiras com o Teatro de Lata, de chanchadas e variedades.
A Avenida Paulista era enfileirada de majestosos palacetes de rico estilo, bondes nos dois sentidos, belas calçadas largas e naturalmente arborizadas sem o a artificialidade de floreiras! Parque Trianon sem o MASP e Ibirapuera de mais verde e raro asfalto.
No centro, Confeitaria Viena, Leiteria Americana, Restaurantes Itamarati, Ponto Chic, Churrasqueto, Gato que Ri, Giovanni, Almanara, e, muito caros, após combinar com a casa para comemorar o XI de Agosto, La Casserone, Hotel Terminus, Rubayatt. Perto da Casa do Estudante, pela manhã uma “média”, café com leite, no copo, com pão e manteiga, e no almoço o saboroso prato do dia naquele bar muito honesto cujo nome não sei até hoje. Na Alameda Santos, a Pizzaria Urca! E, é claro, os ”bandejões” do XI de Agosto na Rua do Riachuelo e da Faculdade de Economia, na Rua Dr. Vila Nova!
Livrarias Francesa, Livro Italiano, Revisal alemã, Brasiliense, Teixeira, Francisco Alves, Mestre Jou, Kosmos, Forense, Revista dos Tribunais, Saraiva, perto da Faculdade, que vendia em prestações para estudantes que pagavam quando podiam e colecionava em arquivos implacáveis pendências de famosos a quem não cobrava nunca. E a Livraria e Editora Bushatsky, para a qual fiz a revisão de manuais jurídicos
O Mappin, com o chá e o restaurante muito chiques e uma escada rolante única nos prédios da cidade. Lojas Sears Roebuck, Casa Cosmos, Exposição Clipper, Mesbla, Casas José Silva, Old England , Picadilly, Los Angeles.
Na Rua Sete de Abril ficava a Companhia Telefônica, com uma fileira de cabinas de telefones públicos. Comprava-se uma linha telefônica em prestações, esperava-se muito, custava caro, e as linhas eram declaradas ao Imposto de Renda.
Deslumbrante o Museu de Arte de São Paulo, ainda nos altos dos Diários Associados na Rua Sete de Abril. O Estado de São Paulo na Rua São Luís, antecipando manchetes luminosas em letreiros correntes. A Folha de São Paulo na Barão de Limeira, cuja redação frequentava, ajudando amigos na revisão de textos.
A abertura da Galeria Metrópole das rodas de violão e do Chá Mun. Rua Direita, Rua São Bento apinhadas de gente apressada, de paletó e gravata, em cerrado fluxo de passantes em mão e contramão invencíveis.
Vila Buarque, Leiteria Little perto da FAU e da Faculdade de Economia. João Sebastião Bar com Leny Eversong e Claudete Soares frequentes e os grandes da Bossa Nova incidentais mas sempre havia algum. Praça Roosevelt linda na simplicidade da nenhuma construção no meio, com o Cine Bijou, de arte, levando Godard, Truffaut, Resnais, Glauber, Wells. Ali perto a Boate Zum-Zum, com Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes apresentando a Suíte dos Pescadores. Na frente, atravessando o largo asfaltado, o Colégio Porto Seguro, que antes era o Colégio Alemão. Um pouco para lá da Avenida Consolação o Teatro de Arena.
Para outro lado, ali perto a TV Excelsior Canal 9, depois Teatro Cultura Artística e só um pouco mais distante, os Teatros – TBC, Oficina, Cacilda Becker, Maria Della Costa, Nidia Licia, com direito a ver em cena as próprias e tantos outros – para os quais não há como deixar de chamar de “monstros sagrados” — daquele tempo e para sempre! Para o outro lado, o Teatro Paramount, dos Festivais de Música da TV Record Canal 7, no Bom Retiro o Teatro TAIB!
Cinemas enormes e cheios, com filas para comprar ingressos: Metro, Olido, Art Palácio, Cinerama, Ipiranga, Arouche, Regina, Paissandu, Marrocos. Como conseguiam construir e manter salas imensas com filmes em rolos que podiam romper e pegar fogo?
Na praça da Sé, os Restaurantes Gouveia e Papai. Da Praça do Patriarca ao Anhangabaú sem túneis, só, majestosos, os Viadutos do Chá e Santa Ifigênia, ia-se pela belíssima Galeria Prestes Maia, de paredes de mármore, pela Escada Rolante. Não havia a Avenida 23 de Maio, só um riozinho modesto, o Itororó com margens de mato a sumir no já canalizado Anhangabaú, ex-Saracura. Casa Bevilaqua na Rua Direita com pianos e partituras.
O Theatro Municipal, da solenidade de minha formatura na Faculdade de Direito. Peruadas no centro, trote acadêmico com calouros obrigados a ir em “corrida de burros” pelo Viaduto do Chá até nadar na fonte da Praça Ramos de Azevedo. Aulas na Faculdade de paletó e gravata, também trajes para os cinemas e teatros.
Também nas “peruadas” e “pinduras”, assim mesmo, com a letra “i”, nos restaurantes, e de dois tipos: as “diplomáticas”, com dia e hora gentilmente marcados, ou “primitivas”, com todo mundo correndo, muitas vezes presos e liberados após “sermões” de Delegados e Investigadores, que nos tempos de faculdade também haviam dado “pinduras”!
Estudante, trabalhei já no segundo ano de faculdade em Escritório de Advocacia, na Praça do Patriarca; lecionei de noite português, no Curso Roosevelt, na mesma praça; e estagiei no Escritório do grande Mestre, Professor Oscar Barreto Filho, ainda na Rua Maria Paula, logo mudando para prédio novo na Rua Santo Amaro.
Por concurso, entrei a trabalhar no então existente 2º Ofício da Fazenda Municipal, no 11º andar do Fórum João Mendes Jr, que que terminava no 12º andar. Daí para cima só tinha alguns tapumes a indicar que um dia chegaria às duas dezenas de andares de hoje. Trabalhava-se em dois períodos, de manhã e de tarde e, ao início, em meio período aos sábados.
Almoços no restaurante do 6º andar ou nas proximidades – muita lembrança do restaurante API – Associação Paulista de Imprensa, logo ali perto! Na pausa para o almoço rápido, uma vez por semana, o concerto de órgão na Catedral da Sé, ainda ouço a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach, fazendo tremer os pilares de granito!
No Largo de São Francisco, a Faculdade de Direito de São Paulo, começada em 1964, e terminada em 1968. Política estudantil carregando o sentimento de mudar o país e o mundo para uma sociedade mais justa. Aquelas assembleias acirradas e intermináveis, na Sala do Estudante, na Rua Maria Antonia, no CRUSP e na PUC, e passeatas e protestos. Dias e noites, noites geladas de julho, em Faculdades na posse dos estudantes. Valentia e medo, em tempos de violência, sumiço e morte de verdade.
Havia ainda o Estádio do Pacaembu e do Parque Antárctica, torcendo alviverde, as competições nos clubes Tietê, Floresta e Pinheiros!
O Centro Acadêmico XI de Agosto, na Rua do Riachuelo, Diretoria Cultural e de Apostilas e presidência do Diretório Acadêmico, com as aflições na representação na Congregação da Faculdade ocupada, às vésperas do Ato Institucional nº 5.
Andava-se a pé por qualquer lugar, a qualquer hora, sem medo e sem perigo. A noite era bela na São Paulo ainda frequentada pela garoa.
Um dia tiraram os bondes, cobriram de asfalto as ruas e os trilhos, inventaram calçadões, que expulsaram veículos e fecharam ou degradaram lojas, ruas, bares e livrarias. Demoliram-se edifícios monumentais para passar carros, caminhões e ônibus sob o fascínio dos novos veículos. As estações do Metrô somaram-se insensíveis na destruição – sobrando, por milagre de heróica resistência dos ex-alunos, o Colégio Caetano de Campos!. Felizmente foi poupada a Estação Júlio Prestes, que virou a magnífica Sala São Paulo!
Aniquilaram-se cinemas e teatros e o centro tornou-se região marcada por gerações de abandonados sem trabalho, sem destino e sem porvir. Saiu a Estação Rodoviária da Praça Princesa Isabel. Surgiu a tristeza da “Cracolândia”.
Passou um monstro “Minhocão” de cimento por sobre a Amaral Gurgel e a Avenida São João, que vi ir se estendendo defronte à Casa do Estudante sem acreditar no que via. Sumiram as árvores e os casarões da Avenida Paulista, em que iam e vinham bondes fazendo o quadrado pela Angélica, República, Barão de Itapetininga, Líbero Badaró, Largo de São Francisco, Praça da Sé e subindo a Liberdade ou a Brigadeiro até a Paulista de novo! Aqueles ônibus que para o tempo iam longe, com gente lendo livros e jornais. Penha-Lapa, Fábrica-Pompéia, Pacaembu. Os ônibus elétricos Machado de Assis-Cardoso de Almeida, incrivelmente ainda sobrevivendo.
Foi demolida a Maternidade São Paulo, de que saímos felizes a pé, levando a primeira filha, com um pacotinho de gente embrulhado em mantinha, e em que nasceram nossos outros dois filhos. Temos fotos, cartas, até um “Livro-Caixa” que controlava gastos de uma feliz vida modesta. Tudo era para sempre. Ainda uso, vestindo saudade, aquele colete de lã com cores que não fenecem jamais, comprado na extinta “Casa José Silva”, na Rua São Bento.
São Paulo agora? Isso todos sabem. Basta ter olhos. A São Paulo atual de cada um será, no futuro, a sua Maurília de agora.
Sidnei Beneti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a intepretação de Mílton Jung. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br