Conte Sua História de São Paulo: minha baioneta caiu da janela

 

Carlos Gati
Ouvinte da CBN

 

 

Em dezembro de 1968, quando o marechal presidente Costa e Silva, promulgou o Ato Institucional número 5, eu fazia cursinho da USP, trabalhava como redator do Jornal O Dia e morava na Rua Paim, na Bela Vista, com um irmão e um amigo.

 

Tive a infelicidade de usar uma baioneta, sim, uma baioneta comprada irregularmente quando fazia o Tiro de Guerra para segurar uma cortina que nos incomodava com o vai e vem do vento. Parece que irritado, o próprio vento fez abaioneta despencar pela janela do do 20º andar do prédio, caindo quando na cabeça de um soldado.

 

— Tem terrorista por aqui — esbravejava o soldado. A polícia foi chamada e cercou o local. Eu estava almoçando na casa de um amigo quando o telefone tocou: — Carlão, estamos liquidados. Venha urgente pra cá que estamos sendo presos.

 

Cheguei e deparei com meu irmão descendo as escadas com as mãos pra cima: – é terrorista, é terrorista – diziam os moradores. Meu amigo já estava na viatura me aguardando. Fomos todos para o DOPS, ou melhor, para a OBAN — Operação Bandeirante, em um quartel no Ibirapuera. Lembro das sirenes soando alto enquanto o rádio da viatura tocava Tim Maia.

 

No interrogatório, disse que a baioneta era minha e os dois não tinham nada a ver com o caso — por isso foram soltos horas mais tarde. O policial à paisana, jovem como os demais, vestidos quase todos de calças jeans, passava a baioneta pelo meu pescoço e repetia: — como você foi entrar nessa? Vai ser muito difícil você sair daqui!”

 

Além do jornal, onde eu escrevia sobre artes, trabalhava também na rádio Record como locutor e pedi para telefonar na emissora e avisar que eu não iria trabalhar…

 

O sujeito deu uma solene risada. Disse que a partir daquele momento eu estava incomunicável e me levou para cela. Tinha apenas um colchonete para dois presidiários. Tiramos no palitinho para ver quem esticaria o corpo naquele colchão. Eu ganhei!

 

No dia seguinte, café com leite e um pão seco, que nem consegui comer. Levaram-me para um local e me fizeram a barba com navalha. Ufa!!! Pensei que iam me raspar a cabeça. Ou cortá-la, quem sabe… Nada de almoço. Até que a porta se abre e um sujeito manda eu pegar as minhas coisas e, ironicamente, diz que a baioneta ficaria.

 

Minha saída é que foi uma efeméride. Sem brincadeira! Não havia ninguém por perto. Uma viva alma naquele pátio. Pensei comigo: será verdade isso? Acho que alguém vai me dar um tiro se eu olhar para trás. Fui andando, andando, sufocado, apressando o passo e correndo. Quando percebi, quase fui atropelado por um ônibus no Parque do Ibirapuera. Entrei no primeiro coletivo, buscando distância daquele lugar.

 

Finalmente, livre… Ou nem tanto. Ninguém saía da mira da polícia mesmo depois de liberado como eu. Noivo, naquela época virou rotina ser revistado por policiais onde quer que eu fosse. Nem sei quanto tempo isso durou, mas, apesar de ter pisado na bola, marquei um golaço em meu prontuário.

 

Carlos Gati é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o “Buracão” era o nosso parquinho

 

Lauro Vieira de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Minhas memórias começam na época em que morava no bairro do Jardim São Paulo, Zona Norte. A casa na avenida Cabuçu, hoje avenida Marechal Eurico Gaspar Dutra, com dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro, portão e quintal com poço, permanece a mesma daquela época, em 1960 — feliz e, corajosamente, não alteraram as suas características de fachada.

 

Nela moravam meus pais —- mãe baiana e pai alagoano, descendente dos índios caetés —-, meus quatro irmãos —- o mais velho dos homens trabalhava em uma fábrica de instrumentos de percussão, ali bem próximo —- avó, tio, o filho mais novo da avó materna e um primo. Comigo, éramos 11. Nos arredores está a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que minha avó era devota fervorosa. Hoje, sob a casa, passa a linha Azul do Metrô. A estação Ayrton Senna/Jardim São Paulo, também está por ali.

 

Tinha uns 5 anos com uma infância muito dinâmica. Brincava-se com tudo o que tínhamos direito; e sem direito também, como descer ladeira dentro de um pneu de caminhão.

 

Um vizinho criava cavalos. E a diversão era roubar um para dar umas voltas até ter levado um tombo e quebrado a cabeça.

 

Quando chovia, ou quando minha mãe lavava o quintal, ensaboávamos o peito e escorregávamos, no corredor do quintal, dos fundos para a frente da casa, uns 8 metros de pura adrenalina.

 

De quando em quando jogávamos bola no campo de futebol, ao lado do hoje Clube Escola do Jardim São Paulo, administrado pela prefeitura. Era de terra, a grama ainda não cresceu. Em parte do campo tinha poças d’água que não secavam nunca, quando você pisava afundava até o joelho. Dalí tínhamos uma perspectiva maravilhosa, avistávamos a passagem do Trem da Cantareira, com destino ao Jaçanã e Guarulhos.

 

Em um dos lados do campo, na rua Professor Fábio Fanucchi estava a escola Professor Antonio Lisboa, onde estudei o primeiro ano primário. Lembra-se da cartilha “Caminho Suave?“ Graças a ela, e, lógico, a minha professora que não lembro o nome, aprendia a juntar letrar e formar palavras. Incrível é que uns 35 anos depois minha mulher foi concluir o seu segundo grau nesta mesma escola! Coisas do destino.

 

Em frente a minha casa havia um espaço imenso, com uma grande depressão. Era o “Buracão”, com uns 200 a 300 metros de comprimento, partindo da rua Almirante Noronha, 10 metros de largura e sete de profundidade. Em uma ocasião, estávamos com uns trocados e fui com os amigos fazer um piquenique em um caverna —- um buraco encrostado em um dos lados do Buracão. Comemos muita coisa boa até que o Seu Antonio, um vizinho que costumava tomar umas cangibrinas começou a bater com os pés na parte superior da caverna. Foi um corre-corre só, todos descendo, escorregando para o fundo do Buracão.

 

Quando iniciaram o aterro do “Buracão“, houve muita tristeza da molecada, pois era um ambiente que, além de estarmos acostumados, fazia parte do nosso parque de diversão. Como vimos que não teria jeito, fomos assistir às máquinas e caminhões trabalharem. Naquela movimentação de terra, descobrimos umas raízes, que delícia, parecia cana-de-açúcar de tão doce que eram!

 

Depois dessa época, fomos morar no Parque Edu Chaves. Mas está é uma outra história.

 

Lauro Vieira de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: com uma mala de sonhos, cheguei à cidade

 


Por Italo Cassoli
Ouvinte da CBN

 

 

Imagine nos anos de 1970, eu, egresso de Pirassununga, com seus pouco mais de 20 mil moradores, aportava em São Paulo. Até então vivendo em uma cidade onde a paquera se dava ao redor do nosso jardim, com as moças caminhando em um sentido e os rapazes em outro, em torno de um jardim retangular. Para rever aquele broto que me interessava, demorava um bom tempo. Não bastava trocar um olhar na primeira vez, precisava torcer para que ela não fosse embora para sua casa, sempre ao lado de uma fiel escudeira ou de seu “temido” irmão, meu pretenso cunhado.

 

Eu, filho de alfaiate e costureira, sempre estava muito bem trajado… pois como dizia meu pai: ”um homem bem trajado tem meio caminho andado”.  Ele infelizmente nos deixou cedo e muita coisa mudou. Surgiu uma guerreira, visionária, minha mãe: uma mulher que ainda hoje com seus 98 anos nos mostra o caminho a ser seguido — e ainda tem forças para estrelar um comercial dos 100 anos do azeite Gallo.

 

Como visionária que sempre foi, queria apenas duas coisas na vida: comprar nossa casa própria e nos ver formados — eu e minha irmã.  Minha intenção, a única, era cursar uma faculdade pública, em São Paulo: educação física na USP. Sonhava todas as noites com isso. Em 1970, parti em busca de meu sonho. Faria o CESCEM — Centro de Seleção de Candidatos às Escolas Médicas e Biológicas, afinal Educação Física era e ainda é considerada carreira médica — existem controvérsias, infelizmente.

 

Desembarcar na antiga rodoviária, na Capital, foi um susto — um misto de medo e desafio.

 

Agora, encontrar a pensão na Rua Tutóia. Que ônibus tomar? Eu com essa mega mala em mãos, que tinha muito mais sonhos do que roupas —- apenas duas calças e algumas camisas.

 

Caetano já disse que “quando eu cheguei por aqui eu nada entendi”. Que eu nada entendia é verdade — mas essa até então desconhecida e temida cidade, me mostrou tudo. Como acolher um jovem sonhador, a xepa da feira; o comercial do Bar Praça XI, do Sr. Manoel, que como eu aportou nessa cidade —- ele vindo de Portugal deve ter sido mais difícil se adaptar.

 

Os anos se passaram, muitos aprendizados, vitórias, empates, algumas derrotas que só me fortaleceram. E ainda hoje com meus 70 anos, mesmo às vezes não entendendo minha ex-Terra da Garoa, respeito-a e muito, afinal, São Paulo tem mais pessoas a recepcionar, compartilhar seus conhecimentos, abraçar e mostrar que a diversidade deve ser propagada em prosa e verso.

 

Italo Cassoli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br 

Conte Sua História de São Paulo: refaço meus caminhos na cidade

Por Emília Gonçalves
Ouvinte da CBN

 

“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João […]

 

Foi com o poema do Caetano na cabeça que eu comecei a conhecer a minha São Paulo querida. Eu morava em Guarulhos e fazia estágio no Hospital das Clínicas, na década de 1980. E foi amor à primeira vista. Não só por seus arranha-céus, as grandes avenidas, o ir e vir das pessoas apressadas para o trabalho ou estudo. São Paulo sempre teve algo especial que contradiz a crença de que as pessoas são frias e só se importam com o trabalho.

 

Existe o trabalho que move a cidade, existe a correria, e existe a gentileza de quem desacelera o passo para lhe dar uma informação com um sorriso no rosto. Existe um músico na esquina, uma avó com sua neta, um beijo roubado e uma estudante, como eu, a espreitar a vida pulsante dessa linda cidade. São Paulo é o encontro do antigo, do moderno, do contemporâneo e, quiçá, do pós-contemporâneo. São Paulo é uma cidadã do mundo, uma cosmopolita que abraça todos, que acolhe…

 

Como toda grande cidade em que se espera tudo dela, São Paulo também tem suas mazelas que nos chocam e nos confundem, e também a solidariedade de quem oferece um pão, um abrigo, uma palavra.

 

Eu hoje vivo na Bahia, mas nunca perdi esse amor.

 

Agora vou a São Paulo todo ano e refaço meus caminhos. Faço novos trajetos, descubro a nova cidade. Vivo o presente que a cidade é, ponho o pé no passado e a cabeça no futuro.

 

” […] Aprende depressa a chamar-te de realidade/ Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso […]”.

 

A Profª Maria Emília dos S. Gonçalves é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a minha cidade maravilhosa

 

Sonia Couri
Ouvinte da CBN

 

 

Ao chegar em São Paulo, em 1969, aos 20 anos de idade, até então vividos com todo o glamour que o Rio de Janeiro me proporcionou, ainda com a visão magnífica da praia de Copacabana, do baile de debutantes no Copacabana Palace e das janelas do Colégio São Paulo, admirando diariamente as águas do Arpoador, o susto foi enorme.

 

Mesmo sendo casada recentemente com um industrial paulista, e com uma condição privilegiada de vida, aquela mudança radical de hábitos e costumes, me fez pensar em largar tudo e voltar correndo para minha terra.

 

Os anos se passaram, meus três filhos nasceram, cresceram, estudaram, se formaram, se casaram.

 

Fiquei viúva após trágico incidente que me fez sair da “boca do luxo” para um ramo, na época ,fechado às mulheres. Eu, que nunca havia trabalhado fora do meu ninho familiar, cuidando da casa e dos filhos, me atirei com unhas e garras no mercado de automóveis, deixado por meu marido. Com a ajuda de meu filho mais velho, na época com 17 anos, começamos com a cara e a coragem a virar noites para aprendermos o caminho da sobrevivência.

 

E é aí que entra a minha gratidão eterna por esta cidade de São Paulo, onde resolvi ficar, desprezando a chance de voltar ao Rio, e onde depositei minha crença de que aqui seria a salvação para a criação de meus filhos. Acertei em cheio, fiz os 13 pontos da loteria da vida. Formei todos os filhos, assisti à chegada de sete netos e, hoje, após 50 anos, agradeço a Deus por ter ficado nesta terra que não mais é da garoa e, sim, de um céu de brigadeiro, apaixonada por cada canto deste país que São Paulo se tornou. Uma terra que abriu suas portas para árabes e judeus, japoneses e chineses, espanhóis, portugueses e italianos, para toda gama de imigrantes, vindo de todos os cantos da terra, que ajudaram a construir a cidade, para mim a verdadeira cidade maravilhosa, que dá a quem procura, a dignidade de morar  e trabalhar, para sustento dos seus. Graças a Deus, estou paulista!

 

Sonia Couri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar também: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o sabor do cachorro quente e outros prazeres do estádio de beisebol da cidade

 

Por Jun Yano
Ouvinte da CBN

 

 

Passei grande parte dos meus domingos no estádio de beisebol Mie Nishi , no Bom Retiro. Foi inaugurado em comemoração ao cinquentenário da imigração japonesa, em 1958, com a presença da família imperial do Japão.

 

Comecei a praticar beisebol nesse estádio quando tinha sete anos. Pegava ônibus na Vila Mariana até a praça João Mendes, fazíamos baldeação e íamos para o bairro do Bom Retiro. Meus irmãos me levavam e eu como era pequeno passava por debaixo da catraca para sobrar dinheiro para o sorvete.

 

Gostava de assistir às partidas dos campeonatos de dentro do campo, como gandula e sonhava um dia jogar no estádio principal —- sonho alcançado anos depois. Os jogadores pareciam enormes e fortes como super-heróis. Imitávamos suas chuteiras de travas de metal amassando com nossos kichutes as latinhas de cerveja.

 

Nossos treinadores eram voluntários que amavam o beisebol Sou muito grato a paciência que tinham. Além de treinar, brincávamos nos intervalos jogando futebol, pula sela, polícia e ladrão,… Enfrentávamos o trote dos veteranos e até hoje perduram alguns apelidos de personagens cômicos com os quais fomos batizados.

 

Tinha também o cachorro quente da dona Maria: pão, salsicha, molho e purê de batata. O sanduíche mais gostoso que comi. E o sorveteiro que chamávamos de Sorvelino. Ele conhecia todos pelo nome.

 

O estádio foi palco do Panamericano de 1963; lá jogaram equipes de faculdades japonesas, times semi-profissionais do Japão e a seleção campeã olímpica de Cuba. Hoje, é o ponto de encontro de meus amigos em campeonatos de veteranos, momento em que lembramos com saudade as histórias que passamos juntos, no estádio municipal de beisebol Mie Nishi.

 

Jun Yano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças da nossa cidade e envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: as novidades musicais chegavam na Hi-Fi

 

Por Douglas de Paula e Silva
Ouvinte da CBN

 

 

 

Nasci na Lapa, em 1955, na Rua Faustolo. A casa existe até hoje. Meus pais, Antonia e Rubens, sempre foram muito musicais: cantando, dançando, tocando piano. Ele com sua voz de tenor, cantava árias de óperas sem nunca ter estudado música, tocava piano de ouvido e dançava muito bem. Papai era da Aeronáutica, tinha muito contato com pilotos americanos, que traziam discos de jazz, blues, música clássica. Mesmo criança já ouvia Glenn Miller, Dave Brubeck, Miles Davis. Adorava “Take Five” do Brubeck.

 

Quando nos mudamos para o Planalto Paulista, em 1960, um lugar bem isolado naquela época, minha mãe logo me colocou para aprender a tocar piano com a Dna. Maria Expedito, perto de casa. Fiz seis anos de piano meio que por obrigação. Gostava mesmo era de bateria. Minha mãe, disse que aquilo só fazia barulho.

 

Tudo mudou quando, com oito anos, em 1964, minha tia me levou para assistir ao “Os Reis do Ié Ié Ié”, o primeiro filme dos Beatles. Fomos no Cine Nacional, na Rua Clélia, um dos maiores cinemas do Brasil. Quando vi os Beatles tocando, aqueles jovens gritando, dançando no corredor do cinema, percebi que o rock era a minha música.

 

Rádios FM eram raras bem como os aparelhos para ouvi-las. Ouvia as músicas no AM. Por falta de dinheiro, comprava apenas os discos compactos. Os LPs eram caros e demoravam para chegar por aqui. Costumava pegar emprestado os LPs de amigos mais abonados da escola.

 

As novidades chegavam primeiro na loja da “HI-FI” da Rua Augusta, trazidas diretamente dos Estados Unidos pelo dono Hélcio Serrano. Na visita à loja, além das novidades, você encontrava Rita Lee, Raul Seixas, Caetano … Em uma época em que tudo era proibido, as embalagens da HI-FI eram bem ousadas. Lembro de uma delas onde o Serrano aparecia nu com uma capa de disco tapando o que não poderia ser mostrado.

 

Os shows de rock não vinham para o Brasil. O mais famoso a se aventurar por aqui foi Alice Cooper num show caótico no Anhembi, em 1974. Em 1977, veio o Genesis, com Phil Collins no vocal. Um show maravilhoso no ibirapuera. Épico foi o do Queen no Morumbi, com Freddie Mercury comandando mais de 100 mil pessoas no “Love of my life”…

 

No rádio, duas emissoras se destacavam tocando rock: a Difusora e a Excelsior. Vasculhando o dial, descobri na madrugada, o programa Kaleidoscópio, que tocava rock progressivo e discutia temas como drogas, liberdade, teatro … e tocava discos na íntegra.

 

Vieram os CDs, em 1985. E com eles novos grupos como The Police e Nirvana.

 

Tive oportunidade de assistir a muitos shows de grupos que gostava desde a juventude.

 

Há quatro anos fui ver o cover do Led Zeppelin e fiquei impressionado com o baterista, que lembrava em tudo John Bonham. Conversei com ele e desde então, eu e meu filho de 15 anos, Daniel, estamos tendo aulas de bateria. Até nos apresentamos juntos. Foi inesquecível.

 

Falei para minha mãe, agora com 94 anos. E ela, ao contrário do meu tempo de criança, gostou muito. Felizmente!

 

Douglas de Paula e Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o dono da doceria do Brás era a cara do Tenente Rip Masters

 

Por Celia Corbett
Ouvinte da CBN

 

caetano-pinto-1

A Rua Caetano Pinto na altura do Laboratório Fontoura, no Brás Foto: ouvinte CBN

 

 

Eu tinha quatro anos, em 1958, e morava com a família na Rua Caetano Pinto, uma travessa da Avenida Rangel Pestana, no coração do Brás. Meu pai Hélio, era escrevente de cartório; minha mãe Ottilia, dona de casa; e mais três filhos: Márcia, Carlos e eu… a Celinha.

 

Morávamos em um prédio, com quatro andares, que para a arquitetura que dominava as construções da região era muito moderno. Tinha um elevador que subia e descia ao meu bel prazer (e quando o Sr Quirino, o zelador, não via, né?).

 

Na Caetano Pinto, eu me lembro de que à esquerda era o Laboratório Fontoura, do famoso biotônico. A loja do Sr. Regis, que vendia porcelanas. E quase na frente do terraço do meu prédio uma doceria. O dono era a cara do Tenente Rip Masters, da série de TV Rim Tim Tim.

 

Meus irmãos me diziam que o Tenente fechava a doceria e corria para TV. Eu ficava na janela à espreita. Assim que o Tenente fechava a loja, eu ligava o aparelho de TV, que na época demorava a sintonizar —- tempo suficiente para Rip Masters aparecer no Forte Apache.

 

Santa inocência!

 

Seguindo, à direita eu tinha a IRFM – Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. E lá trabalhava o meu nonno, Francisco Ferrari, Chefe de Almoxarifado. Eu ouvia o sonoro apito da fábrica todos os dias, que norteava o horário de muitos moradores do bairro.

 

Como esquecer a Paróquia de Nossa Senhora de Casaluce, que os napolitanos fundaram. Até hoje só existem duas no mundo dedicadas a ela: a de Nápoles e a de São Paulo. A festa da paróquia era incrível e o que mais me fascinava, além da comilança, era o “pau de sebo”.

 

Nos domingos, atravessávamos a Avenida Rangel Pestana e lá estava a casa dos meus nonnos na Maria Domitila, ao lado do Parque Dom Pedro II, do Gasômetro e da Assembleia, no Palácio 9 de Julho, palco de grandes atividades políticas.

 

Um pouco mais adiante perto das Avenidas do Estado e Mercúrio tinha o Mercado Municipal de São Paulo, que segundo contava meu nonno, sua primeira função foi a de armazém de pólvora e munições. Acredita?

 

Lindo mesmo era o Parque Dom Pedro II cortado pelo Rio Tamanduateí que nas suas margens tinham os “chorões” com seus galhos caindo para o leito do rio. Lá, também, tinha o delicioso Parque Shangai, um dos parques de diversões mais movimentados no Brasil, durante muitos anos.

 

Foi no Parque Dom Pedro II que o nonno Francisco, me ensinou a andar de bicicleta —- aprendi, mas claro que no dia em que retiramos as rodinha de suporte, levei um tombo que rendeu muitas lágrimas.

 

Em 1960, nós mudamos para Vila Mariana, em uma casa própria, e colocamos na nossa mala de recordações as lembranças daquela comunidade italiana, o sonoro apito da fábrica dos Matarazzo, as festas de Casaluce e o domingo no Parque Dom Pedro II.

 

Célia Corbett é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade.

Conte Sua História de São Paulo: minha paixão começou na sala de cinema

 

Durval Pedroso da Silva Junior
Ouvinte da CBN

 

 

Nascer paulistano foi uma decisão de meus pais. Apaixonar-me por São Paulo, foi decisão minha quando tinha de seis para sete anos. Prestes a completar 70 anos, não lembro exatamente o momento que essa paixão aconteceu. Foi em um dia de julho, uma segunda-feira —- isso eu lembro. Peguei com meu pai, o bonde dos botinas amarelas, ao lado da igreja da Matriz de Santo Amaro e fomos até o fim na Praça Clóvis Beviláqua no centro.

 

Já fiquei deslumbrado quando pegamos a atual avenida Adolfo Pinheiro e a seguir passamos pelo Esporte Clube Banespa, na hoje Avenida Vereador José Diniz. Aquelas paisagens bucólicas não sairiam jamais da minha mente. Se não fosse pelas enérgicas mãos de meu pai, certamente eu teria passado o tempo todo de um lado para o outro do bonde para não perder nenhum detalhe

 

Da Praça Clóvis fomos em direção ao centro novo, onde eu assistiria à minha primeira sessão de cinema. Ao passar pela Catedral da Sé, foi um choque cultural ao ver a grandiosidade daquela obra. O pai não era católico fervoroso mas cedeu a minha insistência para entrar. Extasiado pelo momento, não esqueci de fazer três pedidos ao Bom Deus —- como minha mãe havia me ensinado.

 

Seguimos caminho. Havia uma multidão na rua Direita, gente bem vestida, de paletó e gravata. Apesar de meu pai me puxar pela mão para não atrasarmos, dei uma empacada no Viaduto do Chá, pela beleza da obra e pela visão do Vale do Anhangabaú.

 

Ainda iria me deslumbrar com o Teatro Municipal e o Cine Marrocos, peças de arquitetura nunca antes vista por mim —- na hora fiquei com desejo de ser engenheiro ou arquiteto. Papai não deixou eu me aproximar do Marrocos porque disse que lá só passava filmes de adulto —- seja lá o que isso pudesse significar.

 

Antes de entrar no Cine Art Palácio, na avenida São João, ainda fizemos um lanche, bem ali ao lado. E na minha primeira sessão de cinema assisti a ‘Marcelino Pão e Vinho’. Antes mesmo de o filme terminar, minha paixão por São Paulo já havia se iniciado.

 

Durval Pedroso da Silva Junior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o relógio-cuco que marcou as horas da minha vida

 

Por Luiz carlos Silva
Ouvinte da CBN

 

Existem alguns objetos da nossa casa que marcam profundamente nossa vida. Lembro-me quando papai ganhou um relógio cuco. Todo final de semana, ele e o Sr. Heitor jogavam baralho, um jogo chamado Presidente. O jogo era silencioso e para quebrar a monotonia começavam acirrada discussão sobre política.

 

Após o término de uma partida, o Sr .Heitor levantou-se da poltrona irritado, pois tinha perdido, caminhou até a cozinha e trouxe uma caixa de papelão que foi colocada sobre a mesa. Quando viu que era um relógio cuco, papai marejou os olhos e deu um forte abraço no Sr.Heitor.

 

O relógio era de madeira maciça, envernizado, tinha vários entalhes artísticos; o pêndulo, a corrente e o peso eram cromados; os números eram em algarismo romano com um pequeno cristal colocado sobre cada um deles; os ponteiros eram dourados e brilhantes. Tinha sido fabricado na Inglaterra. Fomos advertidos por papai que jamais deveríamos dar corda no relógio, pois ele ficaria encarregado desta tarefa —- precavendo-se das nossas mãozinhas destruidoras.

 

Após ouvir as orientações de papai, sentamos no chão, embaixo do relógio e ficamos aguardando pacientemente o passarinho aparecer. O tic-tac constante enchia toda a sala e a nossa ansiedade aumentava a cada movimento do ponteiro, o silêncio era total, até o instante em que se abriu uma portinha e saiu um lindo passarinho de madeira com penas multicoloridas cobrindo o corpo e se pôs a cantar. A portinha fechou-se e saudamos o mais novo amiguinho do nosso lar com palmas e gritos.

 

Era o cuco que avisava mamãe quando tinha que nos dar algumas colheradas de um fortificante chamado “Emulsão Scoth” —- nessa hora, eu odiava o relógio e cheguei mesmo a praguejar o inocente passarinho. O agradável aroma de café sendo coado coincidia com os seis cucos emitidos pelo passarinho —- era a hora que o papai levantava-se para ir ao trabalho.

 

Os cucos acompanharam-me desde as primeiras letras aprendidas na cartilha Caminho Suave, na  Admissão, no ginásio e parte do primeiro ano do colegial. Era o relógio que controlava meu tempo de estudos. Foi o cuco que me acordou no primeiro dia de trabalho como office-boy numa Cia. de Seguros da cidade, assinalou o horário para encontrar com a minha primeira namorada e denunciava-me quando chegava atrasado em casa.

 

Saí de casa aos 17 anos para estudar no interior, ao regressar meses depois não encontrei mais o relógio. Disseram-me que havia quebrado e tinham doado para um carroceiro que passava constantemente na rua onde morávamos, em São Paulo. Olhei para a parede e restava apenas a marca com seu formato. Abaixei a cabeça com tristeza e ouvi alguns tic-tacs na minha imaginação.

 

Luiz Carlos Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.