Conte Sua História de São Paulo: o que era um cinema?

 

Por Americo Hatto
Ouvinte da CBN

 

 

Fui apresentado ao mundo do cinema em 1996, aos oito anos. Hoje, posso dizer que foi uma apresentação de gala. Era o início de uma tarde de domingo, Logo depois do almoço, o meu pai disse-me que íamos sair, só nós dois, rumo ao centro de São Paulo. Morávamos em Santo Amaro e chegar ao centro era uma viagem. E um sofrimento para mim: o sacolejar do ônibus, misturado com o cheiro do diesel, invariavelmente, terminava com o meu estômago botando o almoço para fora. Aquele dia não foi exceção…

 

Bom, depois de mais de uma hora, o ônibus chegava ao ponto final, no Vale do Anhangabaú, em frente a Galeria Prestes Maia, onde havia um banheiro público, para o alívio da bexiga de um moleque.

 

Na mesma Galeria, subimos pelas escadas rolantes, naquela época ainda uma coisa rara em São Paulo, para sairmos na Praça do Patriarca e dai atravessarmos o Viaduto do Chá, passando pelo Mappin e pelo Teatro Municipal, para, em fim chegarmos a Avenida São João.

 

Até aquele momento o meu pai não havia me falado o que estávamos fazendo no centro…

 

Depois de uma caminhada pela São João, enxerguei várias pessoas numa fila que dobrava o quarteirão. O meu pai parou no fim da fila e só quando andamos um pouco mais vi o letreiro: “Comodoro Cinerama”. E o cartaz anunciava: “Nas Trilhas da Aventura”. Naquele momento soube que iriamos assistir a um filme no cinema.

 

Mas o que era um cinema?

 

Numa época em que não havia internet, celular ou qualquer outra facilidade, um moleque de oito anos, da periferia, jamais poderia imaginar o que era um cinema. A descoberta estava a caminho.

 

Compramos os ingressos na bilheteria e na antessala meu pai ainda me deu um drops Dulcora. Depois, sim, entramos na sala de cinema propriamente dita. Era enorme, vários assentos e uma imensa cortina vermelha diante de nós .
Alguns minutos depois, as luzes se apagaram e a cortina se abriu, revelando uma gigantesca tela em curva —- aquela era a maior tela de cinema de São Paulo.

 

As primeiras imagens apareceram, mas como os assentos estavam no mesmo nível, quase não dava para ver nada, só as cabeças das pessoas que estavam nos assentos à frente. Para piorar, o filme era legendado e aí não deu para entender quase nada da história.

 

Para um garoto de oito anos, porém, nada disso foi motivo de tristeza. Fiquei maravilhado, hipnotizado com as imagens que passavam na tela. Fui transportado para o velho oeste americano.

 

Lembro-me que o filme era longo e até teve um intervalo de uns 20 minutos no meio da sua projeção. Aí, foi uma correria ao banheiro e ao quiosque de guloseimas. Quando o filme terminou, a semente de cinéfilo havia sido transplantada em mim…

 

Assisti a vários filmes no Comodoro Cinerama junto com o meu pai e, mais tarde, por minha conta e risco. Descobri outras grandes salas no centro de São Paulo: República, Paissandu, Olido, Marabá, Art-Palácio e Metro. Tive o privilégio de ter vivenciado o final dos anos dourados dos cinemas de rua de São Paulo.

 


Americo Hatto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: fui ao cinema com meu pai

 

Por Americo Hatto
Ouvinte da CBN

 

 

Fui apresentado ao mundo do cinema em 1996, aos oito anos. Hoje, posso dizer que foi uma apresentação de gala. Era o início de uma tarde de domingo, Logo depois do almoço, o meu pai disse-me que íamos sair, só nós dois, rumo ao centro de São Paulo. Morávamos em Santo Amaro e chegar ao centro era uma viagem. E um sofrimento para mim: o sacolejar do ônibus, misturado com o cheiro do diesel, invariavelmente, terminava com o meu estômago botando o almoço para fora. Aquele dia não foi exceção…

 

Bom, depois de mais de uma hora, o ônibus chegava ao ponto final, no Vale do Anhangabaú, em frente a Galeria Prestes Maia, onde havia um banheiro público, para o alívio da bexiga de um moleque.

 

Na mesma Galeria, subimos pelas escadas rolantes, naquela época ainda uma coisa rara em São Paulo, para sairmos na Praça do Patriarca e dai atravessarmos o Viaduto do Chá, passando pelo Mappin e pelo Teatro Municipal, para, em fim chegarmos a Avenida São João.

 

Até aquele momento o meu pai não havia me falado o que estávamos fazendo no centro…

 

Depois de uma caminhada pela São João, enxerguei várias pessoas numa fila que dobrava o quarteirão. O meu pai parou no fim da fila e só quando andamos um pouco mais vi o letreiro: “Comodoro Cinerama”. E o cartaz anunciava: “Nas Trilhas da Aventura”. Naquele momento soube que iriamos assistir a um filme no cinema.

 

Mas o que era um cinema?

 

Numa época em que não havia internet, celular ou qualquer outra facilidade, um moleque de oito anos, da periferia, jamais poderia imaginar o que era um cinema. A descoberta estava a caminho.

 

Compramos os ingressos na bilheteria e na antessala meu pai ainda me deu um drops Dulcora. Depois, sim, entramos na sala de cinema propriamente dita. Era enorme, vários assentos e uma imensa cortina vermelha diante de nós .
Alguns minutos depois, as luzes se apagaram e a cortina se abriu, revelando uma gigantesca tela em curva —- aquela era a maior tela de cinema de São Paulo.

 

As primeiras imagens apareceram, mas como os assentos estavam no mesmo nível, quase não dava para ver nada, só as cabeças das pessoas que estavam nos assentos à frente. Para piorar, o filme era legendado e aí não deu para entender quase nada da história.

 

Para um garoto de oito anos, porém, nada disso foi motivo de tristeza. Fiquei maravilhado, hipnotizado com as imagens que passavam na tela. Fui transportado para o velho oeste americano.

 

Lembro-me que o filme era longo e até teve um intervalo de uns 20 minutos no meio da sua projeção. Aí, foi uma correria ao banheiro e ao quiosque de guloseimas. Quando o filme terminou, a semente de cinéfilo havia sido transplantada em mim…

 

Assisti a vários filmes no Comodoro Cinerama junto com o meu pai e, mais tarde, por minha conta e risco. Descobri outras grandes salas no centro de São Paulo: República, Paissandu, Olido, Marabá, Art-Palácio e Metro. Tive o privilégio de ter vivenciado o final dos anos dourados dos cinemas de rua de São Paulo.

 

Americo Hatto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: você surgiu no alto de uma colina

 

Por Maria de Lourdes Souza Gonçalves
Ouvinte da CBN

 

 

Num belo dia de janeiro de 1554, você surgiu no alto de uma colina, onde hoje está a Praça da Sé.

 

O Colégio de Piratininga abrigava os sonhos de homens intrépidos como o jesuíta José de Anchieta e muitos outros que enxergavam uma grande metrópole além das misteriosas e densas florestas que circundavam o casebre de “quatorze passos de comprimento e doze de largura”

 

Às margens do rio Tietê — antigo Anhembi — foi criado o primeiro núcleo que viria a ter o seu nome: São Paulo. Outros foram criados um pouco mais além, tais como Guarulhos, Itaquaquecetuba, São Miguel, Mogi das Cruzes, Freguesia do Ó, Santana de Paraíba e Porto Feliz.

 

O rio testemunhou “in loco”o surgimento de uma grande cidade; e suas águas compartilharam das descobertas dos corajosos desbravadores que navegaram em busca de seus sonhos. O surgimento do café, também foi testemunhado pelo riu que viu florescer às suas margens os primeiros cafezais, fonte da futura riqueza do País.

 

Em 1860, as ruas eram sinuosas, de terra batida, cheias de casas de pau-a-pique. Com uma população de pouco mais de 20 mil habitantes, você sequer sonhava que um dia pudesse acolher milhões de pessoas, não é mesmo?

 

Nesta época, a discrepância social já era bastante visível, pois os mais abastados viviam nas ruas do Rosário, Direita e São Bento. A distância também consistia num grande problema, e só era contornada no aluguel de carros de bois. Bairros como Brás, Penha e Santo Amaro eram muito longe.

 

O marco da cidade que se situa no centro da Praça da Sé, também assistiu a sua história. Sob o seu olhar, o meio de transporte, outrora precário, sofreu melhorias, tanto que em 1865, foi criado o primeiro sistema de transporte oficial. As ruas receberam um tratamento especial, pois, afinal, por elas passavam figuras ilustres, que colaboraram com o desenvolvimento e a cultura desta cidade.

 

Como uma mãe generosa, você recebeu, em 1899, The São Paulo Tranway, Light Power Co.Ltda. Seus dirigentes vaticinaram que você prosperaria. E eles estavam certos.

 

O começo do século despontou turbulento. Os saraus promovidos nas casas elegantes e ricas contratavam com a miséria na qual muitos viviam.

 

Nesta época já trafegavam pelas ruas os “românticos” bondes elétricos.

 

Quando os imigrantes aqui chegaram, trazendo em suas bagagens o sonho de uma vida melhor, a despeito dos percalços que muitos sofreram, você os abrigou, Mesmo trabalhando em condições precárias eles colaboraram na sua construção. E você, curiosa e culta, absorveu toda a sua cultura e tradição e as incorporou ao seu cotidiano.

 

A despeito dos pequenos movimentos trabalhistas que começavam a despontar lentamente, já em 1901, você abrigava em seu território, 108 indústrias, sendo 70 estrangeiras e 38 brasileiras.

 

Você viu surgirem os sindicatos e seus líderes, ansiosos por tomar um pouco mais dignas e humanas as relações trabalhistas.

 

A grande greve de 1917 paralisou a cidade. Cerca de 45 mil trabalhadores foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho, haja vista que o tratamento imputado à eles nas fábricas era extremamente desumano.

 

Você distribuiu aos desempregados a famosa “sopa de pães”, numa medida paliativa para conter as massas.

 

Por outro lado, enquanto os trabalhadores lutavam por seus direitos, a indústria prosperava, pois em 1920 você figurava como primeiro centro fabril do País, conforme censo realizado neste mesmo ano.

 

Você estendeu seu território além da Várzea do Carmos. Nos bairros do Brás, Pari, Barra Funda, Água Branca e Lapa, surgiram algumas indústrias.

 

Naquela época, você já compartilhava com o seu povo o drama das enchentes como as de 1906 e 1929/

 

Em 1930, inicia-se a Era Getúlio Vargas. Bem mais usa já é uma outra história.

 

Maria de Lourdes Souza Gonçalves é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: um bilhete de Natal

 

Por Alceu Sebastião Costa
Ouvinte da CBN

 

 

Após a noite bem dormida e o banho privilegiado, entrego-me à rotina costumeira das manhãs. Ingeridos os remédios do tratamento do Mal de Parkinson, abstenho-me do café com pão e manteiga, ao menos por ora. Hoje, não irei ao escritório. Portanto, oferecerei minha companhia a Elisabeth, durante o seu desjejum. Ela não é madrugadora como eu. Aliás, nem o sono nem o café são as minhas prioridades. Estas o são, sim, meu recolhimento solitário, compulsando meditativo algum escrito, vezes de minha própria lavra, bem como criando versos, como saudável terapia.

 

Neste momento, tenho nas mãos um pedaço de papel, que ontem, à noite, desenterrei literalmente do fundo do baú. Melhor, do fundo do “malão”. Aquele mesmo “malão”, uma bolsa de couro de porte avantajado, que eu usava nos meus idos acadêmicos como simulação de aluno aplicado, transportando pilhas de livros. Hoje, o velho “malão” companheiro tem serventia apenas para a guarda de documentos de uso esporádico ou emergencial. E foi daí que resgatei o tal pedaço de papel, metade da folha de agenda do dia 20 de dezembro de 1988.

 

Mas para que serve um simples pedaço de papel guardado por anos a fio? Certamente, para a faxineira, que acaba de chegar, mais um traste para o lixo. Analfabeta, mesmo que soubesse ler, jamais alcançaria a profundidade do texto nele manuscrito por mim, com a finalidade de levar um pouco de conforto a um grande amigo.

 

Antes de prosseguir, eis a transcrição:

 

“Se o lume é de boa têmpera, suporta a fúria da procela qual simples roçar da mais suave brisa e sua chama jamais se apaga.”

 

Afasto uma lágrima teimosa e prossigo nos meus devaneios. No rodapé, uma nota telegráfica:

 

“P/MP/cartão de Natal nesta data.”

 

Traduzindo: este texto foi a minha mensagem no cartão de Natal para Milton Pagliaro, em 20 de dezembro de 1988

 

Realmente, posto que não somos eternos, o meu amigo calabrês manteve a chama da esperança acesa por um longuíssimo período, desafiando a morte até o derradeiro instante, tomado pela metástase incontrolável.

 

Não fosse a sua vida pautada na retidão de conduta, principalmente no lado profissional, e na postura regrada nos princípios da disciplina, diria que os mais de dez anos de luta contra o câncer seriam o bastante para fazer dele uma pessoa admirável.

 

Com frequência, ouvia suas referências à inspiração de nossas palavras para a elevação do seu ânimo diante da briga tão desigual. Mais que a lisonja só a inspiração Divina que fez de nós o Seu instrumento.

 

Circunstancialmente, esse pedaço de papel retornou às minhas mãos, aflorando as boas lembranças do calabrês. Curioso é que, concomitantemente, encontrei também a cópia de uma crônica de minha autoria publicada no jornal “A Cidade”, de São Carlos, em 11 de abril de 1963, quando cursava o 2º ano Colegial do Seminário. Espantoso tratar-se de um escrito com o título “Lembra-te de mim quando chegares ao teu reino.” Noto que ambos os textos em referência focalizam a questão do sofrimento físico. Obviamente, sem comparativos, mas um e outro convergem para a simbologia do ritual de passagem desta para a outra vida, cuja expectativa por si só é o alimento para afugentar o desespero.

 

Sei que Deus nos dando bons guias aumenta muito a nossa carga de responsabilidades e de provações.

 

Que os agraciados com o Reino Celestial não nos faltem!

 

SAÚDE, AMADO AMIGO CALABRÊS!
(Obrigado, Sampa, pelas amizades, que só me fizeram crescer)

 


Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: estudei na faculdade em que vendi tapioca

 

Por Silas Nunes Souza
Ouvinte CBN

 

 

Nasci em 1990, na cidade de Itabuna, ao sul da Bahia. De lá, fomos para Formosa do Rio Preto, onde meus pais venderam roupas em barracas na feira da cidade. Pouco tempo depois, tivemos de mudar para um vilarejo, fomos morar de favor com minha avó. Meu pai sofria de depressão, as dificuldades financeiras se acumulavam e minha mãe decidiu buscar ajuda médica em São Paulo. Eu fiquei com algumas pendências para resolver na Bahia. Só pude me juntar a eles, em dezembro de 2005.

 

Foi uma alegria enorme reencontrar a família, que, neste momento, já havia alugado um cômodo no Capão Redondo. Com 15 anos, distribui currículos e consegui o primeiro trabalho com um morador do bairro. Eu ajudava nas vendas de tapioca em frente a uma universidade, na Chácara Santo Antônio. Ainda no ensino médio, eu falei para mim mesmo que um dia estudaria naquela Universidade.

 

Um ano depois, pela graça de Deus, comecei a trabalhar em meu primeiro emprego registrado – uma grande empresa de material para construção. Naquele momento nossa vida começou a mudar: alugamos uma casa maior; meu pai havia melhorado da depressão e trabalhava como vendedor ambulante; e minha mãe vendia as miudezas para clientela dela.

 

Nos deparamos com a oportunidade de comprar um terreno, com parcelas baixas que caberiam em nosso orçamento. Porém, devido a entrada que pagamos, tínhamos apenas um cartão de crédito com R$ 500,00 de limite. Fomos a uma loja de material de construção para comprar algumas coisas e iniciar um cômodo. Ao fim da compra, tudo custo R$ 1.500,00. Tínhamos mais fé do que dinheiro. Passamos o cartão assim mesmo, e por incrível que pareça, o valor foi aceito. Um grupo de pessoas que não nos conhecia se ofereceu para nos ajudar a erguer a casa, recebemos doações de amigos e familiares para compra de mais materiais e em incríveis 14 dias estávamos mudando para nossa casinha, ainda mal-acabada. Entramos orando, chorando e agradecendo a benção de Deus em nossas vidas.

 

De um emprego a outro, arrumei dinheiro para pagar minha faculdade. E me matriculei na mesma Universidade que um dia havia trabalhado na porta. Orei a Deus para que me ajudasse na mensalidade do curso, e Deus mais uma vez me respondeu: os dois últimos anos da faculdade e mais seis meses da minha pós-graduação foram pagos pela empresa na qual trabalhava.

 

Em 2015, conheci um projeto cristão de voluntariado no sul da Inglaterra, no qual não precisaria pagar pela hospedagem nem pela alimentação. Passei no processo seletivo e em março de 2016 embarquei, onde fui recepcionado por um grupo de sete brasileiros, todos falando inglês e se apresentando como se fossem de outros países. A única que não me enganou foi uma morena formosa que disse ser francesa. Mas pelo sotaque, logo descobri que era uma nordestina arretada. Com um pouco mais de conversa, descobrimos que tínhamos muito mais em comum: a idade, a profissão e, pasmem, ela também havia nascido em Itabuna. O resultado disso tudo, estamos noivos.

 

De volta para o Brasil, estou agora em uma empresa fantástica, o Grupo Gaia, que a cada dia me surpreende com seus valores. Muitas coisas aconteceram em minha vida, a maioria destas aqui em São Paulo. Nem sempre eu entendia ou sabia o porquê. Mas acredite existe um propósito para tudo nessa vida. No mais, eu sigo sonhando e crendo que tudo é possível. Sonhar é viver para ver!

 

Silas Nunes Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: morar aqui era minha vocação

 

Por José Freitas
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci no interior do estado de Goiás. Minha cidade tinha cerca de 50 mil habitantes. Vivi até os meus 19 anos neste lugar repleto de beleza natural e vida saudável. Principalmente, por conta do aconchego da família, dos muitos amigos e da vida em comunidade.

 

Trabalhei, e aprendi a trabalhar, desde pequeno com meu pai e treinador. Antes de finalizar meus estudos tive a honra de conhecer São Paulo. Aquele lugar misterioso e muito distante, que em meu imaginário construído pelos noticiários de televisão, era um mundo de assaltos, violência e muita correria.  

 

Depois de mais de 20 horas de viagem de ônibus chegamos a Campinas para a formatura do meu irmão mais velho. Ele, meu pai, e eu viemos até São Paulo de trem. Chegamos à famosa estação da Luz. Depois descemos de ônibus as curvas da Serra do Mar realizando o sonho de todo interiorano: conhecer o mar! Mas não era qualquer mar, era o mar e as praias do Guarujá. E, eu nem sonhava o quanto, de fato, era um lugar tão especial.  

 

No auge dos meus 16 anos, foi um primeiro contato que marcou minha vida. E, bem mais do que eu tinha consciência. Isso foi em Dezembro de 1981.

 

Quatro anos depois, em 1985, eu desembarquei sozinho no Terminal Rodoviário Tietê. Com certeza, impressionado e um tanto assustado com tanta gente num mesmo lugar. Morei por algum tempo em Atibaia, mas vinha a São Paulo regularmente sem imaginar que aqui um dia seria a minha casa.

 

Mas foi em 1988 que de fato tive que vir morar em São Paulo. E durante estes mais de 30 anos tenho aprendido a gostar e admirar o que chamo hoje de minha casa, pois afinal, eu já vivi mais tempo aqui do que em qualquer outro lugar.  

 

Aqui em São Paulo, especialmente na Zona Sul, eu fiz a minha formação universitária. Conheci minha esposa, uma paulista paulistana com quem me casei, e com quem nestes 24 anos construí uma família com nossas duas lindas filhas (hoje, duas universitárias com 18 e 20 anos). Também aqui em São Paulo Deus me deu a oportunidade de fazer minha uma carreira profissional/ministerial.  

 

Vim morar em São Paulo não exatamente por preferência, mas por vocação. Descobri ao longo dos anos que há sim assaltos e violência, especialmente, quando roubaram minha moto na porta de minha casa no Brooklin, e outra vez nosso carro, em frente a casa de um amigo no Campo Belo. Mas seguramente essas foram raras experiências nestes muitos abençoados anos que aqui vivi.  E mais, apesar de goiano, com fama de sossegado, sabe que até aprendi a gostar da correria!  

 

Hoje, de fato, eu amo São Paulo. Não sei se aprenderia viver em qualquer cidade do mundo. Meu trabalho permitiu que eu conhecesse belas e grandes cidades: Santiago, Buenos Aires, Madrid, Porto, Cleveland, Orlando, Dubai, São Petersburgo, Hong Kong, Tóquio. Mas sem medo de errar, nenhuma delas se compara a São Paulo! É minha opinião.

 

Hoje sou professor e pastor de uma pequena igreja perto do Aeroporto de Congonhas e moro no Jabaquara. Também posso dizer, sem sobras de dúvidas, amo servir minha cidade. Espero que a comunidade que eu lidero siga o meu exemplo orando e servindo as pessoas da nossa cidade. Com certeza, por tudo que ela nos proporcionou, e continua a nos oferecer, São Paulo não só precisa, ela merece o nosso amor e cuidado.

 

Parabéns São Paulo!  

 

José Freitas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva sua história da nossa cidade e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua Histórias de São Paulo: o esqueleto dos prédios da Berrini

 

Por Soraia Mergulhão
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci no interior. Acostumei a uma vida numa cidade que é muitas vezes extremamente provinciana. Para mim, São Paulo representa a abertura de horizonte. O inusitado, uma aventura! 

 

Parece que no dia a dia minha cabeça está sempre abaixada, olhando pro chão. Ao entrar na Metrópole, ergo os olhos e os sentidos se apuram. Um portal se abre, para me desafiar. Empurrar.

 

Criança ainda, fomos à Capital visitar os primos que moravam em Santana, um bairro residencial. No caminho, observava as casas bem juntinhas, grudadas umas as outras, pareciam meio sufocadas. A primeira impressão que tive da cidade é que não havia espaço ali.

 

Para nos impressionar, nossos primos nos levaram ao metrô. Um trem muito rápido e silencioso, segundo me explicaram. Na estação, andei na escada rolante pela primeira vez, com medo de tropeçar nos degraus que surgiam de repente. Venci meu primeiro obstáculo! 

 

Uma década se passaria e lá estava eu, descendo do ônibus, em frente ao Hospital da Aeronáutica, no fim dos anos 1980: fim da ditadura, início do curso de piloto.

 

Lembro da construção ampla e amarela com corredores limpos, cheios de pessoas sérias usando fardas. Nas vezes que lá estive para exames médicos, sentada aguardando minha vez, ouvia as histórias dos pilotos e comandantes de linhas aéreas comerciais comentando seus vôos, suas vidas. Eu era uma espiã coletando informações de um outro mundo.

 

Uma vez, conheci um comandante que fazia a ponte aérea Rio-São Paulo. Ele perguntou se eu gostaria de conhecer uma cabine de avião comercial 

 

– Óbvio que sim!! Que pergunta!

 

Fomos de táxi a Congonhas. Ele me conduziu a pé pela pista do aeroporto até entrarmos num Electra, um turbo-hélice que fazia o trajeto. Na cabine mostrou como tudo funcionava, enquanto ligava a aeronave. Foi uma grande emoção ouvir os motores acordando ao simples toque num botão! 

 

Poucos anos depois, eu namorava um rapaz que morava perto da Berrini. Início dos anos 1990. A região era um canteiro de obras. O estado embrionário do que iria se tornar aquela região. Novamente, descia eu do ônibus e percorria algumas quadras a pé observando os esqueletos dos prédios se erguendo e os grandes poços abertos para as fundações. Andávamos muito a pé. Íamos andar na Paulista, assistir a filmes no cine Belas Artes ou no Shopping Iguatemi. O namoro não durou muito, mas o hábito de andarilha ficou — o gosto de percorrer as ruas de casas velhas ou prédios modernos, enquanto me misturo aos transeuntes só para descobrir como eles vivem.

 

Nunca mais perdi o hábito de explorar em respeitoso silêncio os recantos, curvas e ângulos desta quase esquizofrênica senhora — sim, porque apesar do nome, São Paulo, eu acho que esta cidade é mulher. Só pode ser. Só uma mãe poderia acolher a tantos, tão diferentes e se permitir ser deformada, inchada, modificada e ainda esconder uma beleza inocente para ser descoberta por aqueles que conseguem ver além do óbvio.

 

Soraia Mergulhão é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o tijolo na fila do açúcar

 

Por Eliana Colagrande
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de Eliana Colagrande baseado na história contada pelo tio dela, Sr. Olivio Segatto:

 

Em 1946, minha família morava na rua Sete Barras, no bairro do Piqueri. Eu tinha 10 anos. A II Guerra Mundial havia terminado, mas as consequências pelo mundo afora ainda permaneciam. Na nossa cidade ainda tínhamos racionamentos de alimentos.

 

Por outro lado, meu pai havia conseguido comprar um rádio, um presente maravilhoso para nós! Aprendi a ouvir as muitas informações, especialmente pelo “Repórter Esso” – o primeiro a informar as últimas notícias. Ouvia radionovelas e, sem dúvida, as transmissões de futebol.

 

Quando chegou o Natal daquele ano, ganhei um patinete azul, um grande companheiro que me transportava para onde eu pretendesse ir. Além das brincadeiras com o meu pequeno veículo, tinha também obrigações a realizar: pequenas compras ou levar recados nas casas de parentes e vizinhos. Uma de minhas tarefas, dia sim, dia não, era comprar o “açúcar preto” em uma
padaria da região. Cada consumidor tinha direito a ½ quilo diário — era o substituto do adoçante branco que estava em falta.

 

Em um domingo, logo cedo, fui fazer a compra, pois a procura pelo produto era grande e, como sempre, havia muita espera na fila até ser aberta a panificadora. Em dado momento chega um amigo de brincadeiras e… conversa vai, conversa vem, elaboramos um plano genial. Como ainda teríamos um bom tempo de espera, fomos brincar numa rua próxima, mais apropriada ao patinete. Mas para não perder o lugar na fila, me ocorreu uma brilhante ideia. Peguei um tijolo que estava num mato e disse ao senhor que estava atrás de mim que iria brincar um pouco, e que aquele tijolo me asseguraria o lugar. O homem sorriu — até hoje fico imaginando o significado daquele sorriso…) Eu e meu amigo fomos brincar. E foi ótimo!

 

Quando me lembrei do açúcar, o sol já brilhava forte. Meu amigo foi comprar algo em uma quitanda próxima e eu, dirigindo o patinete, retornei à rua onde estava aquela fila enorme. Fiquei surpreso pois não havia mais ninguém, e chegando no balcão o produto tinha acabado. Voltei à rua, já temendo a sova que me aguardava ao chegar em casa.

 

Mas que fique bem claro. Todos da fila se foram, mas eu e o meu querido patinete azul testemunhamos uma lealdade. Lá estava ele de plantão onde eu o deixei: o tijolo.

 

Olivio Segatto é personagem do Conte Sua História de São Paulo em texto escrito pela sobrinha Eliana Colagrande. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: cruzei o Viaduto do Chá no meu fusquinha

 

Por Vadir Morelo
Ouvinte da CBN

 

 

 

Ainda hoje, nos meus mais de 60 anos, um dos meus programas prediletos é andar pelo centro. Apeio no metrô Vergueiro, dou uma olhada no Centro Cultural, desço a Av. da Liberdade, caindo para a lateral, passo por dentro do Bairro Japonês. Chego na Catedral, entro — um momento de paz, rezo um pouco. E vou para praça ver o que está rolando. Quando tenho sorte encontro um músico dos mil instrumentos simultâneos ou aquela gente que engole objetos e depois, credo, devolve. Presto atenção nos trombadinhas, dou algumas esmolas, e vou para o Pateo do Collegio rever um pouco da história da cidade.

 


Continuo pela zona bancária, relembro de alguns trabalhos de office-boy que fiz nos anos de 1960. Embora já grandinho, fazia questão de sair com a turminha de serviços de rua. Com 20 anos, recém-chegado da roça, bem caipira, bem mais que hoje, precisava aprender rapidamente a malandragem paulistana.

 


No Viaduto do Chá relembro que vivi uma das minhas maiores emoções e olha que já foram tantas as vividas por aqui. Foi quando consegui comprar meu primeiro carrinho, um Fusquinha 67. Aos poucos fui me aventurando até conseguir atingir o centro da cidade e atravessando pelo Viaduto do Chá, vendo aquela multidão caminhando ao meu lado e imaginar que eu que tanto tinha andado naquele trecho, desviando dos carros, estava ali agora, em situação inversa, dentro de um fusca todinho meu. Foi muita emoção. Uma sensação de vitória, mesmo sabendo que a luta havia apenas começado …

 


Sigo caminhando, agora pelo Teatro Municipal, Barão de Itapetininga — como era chique e linda aquela Barão. Praça da República, que saudades. Sabem que eu ja até dormi nos bancos daquela praça. Só tinha trem até 11 e meia da noite. E se perdesse esse trem só amanhã de manhã.

Dobro a Ipiranga, entro na São João e vou ao Bar Brahma. Tomo um chopp. Nos bons tempos, tomava três. Volto para a Vieira de Carvalho, Largo do Arouche outro que era lindo. Lembro das massas do Gato que Ri, das batidas na calçada no boteco Pingão. Sigo pela Rua Aurora entro numa loja de artigos antigos, vejo capas de LPs do Ray Coniff, Cely Campello e, às vezes compro, um gibi do Cavaleiro Negro ou do Roy Roger.

 


Vou até o Bar Léo na mesma rua, saio do regime e peço um bife a parmigiana, Sigo até a Estação Júlio Prestes pego o “nosso” trem e volto para a nossa Osasco — deixando para trás a saudade dos meus passeios no centro de São Paulo.

 

Vadir Morelo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o autógrafo do Adoniran Barbosa

 


Jairo Marra
Ouvinte da CBN

 

 

No dia 24 de julho de 1978, fui ao antigo prédio do Estadão, na Rua Major Quedinho, ali na República, onde funcionava a Rádio Eldorado, para retirar o disco de chorinho do Carlos Poyares, gravado pelo Estúdio Eldorado, que funcionava no mesmo endereço. O LP ou o “long play” não estava ainda sendo comercializado nas lojas e era vendido diretamente pelo Estúdio, onde deveria ser retirado.

 

Pois bem, nesse feliz dia, encontrei o Adoniran —- sim, o Adoniran Barbosa —- sentado em uma poltrona na sala de espera que havia no estúdio. Bem vestido, usava gravata borboleta e segurava o seu inseparável chapéu — se não me falha memória.

 

Quando me entregaram o LP dentro de um envelope grande, branco, não tive dúvida e pedi o autógrafo do autor de Samba do Arnesto que guardo até hoje, com os dizeres: “

 

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Jairo Marra foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.