Conte Sua História de São Paulo: lembranças de Natal!

 

Por Miguel Chammas
Ouvinte da CBN

 

 

Estamos às vésperas do Natal. A festa em homenagem ao menino Jesus congrega corações, abraça almas fraternas, umedece faces com gotas de lágrimas que por elas rolam, alarga sorrisos de uma perene ou efêmera alegria. Eu, sorumbático no meu quase ostracismo, vejo as horas passarem e busco na lembrança, um tanto ou quanto esmaecida pelo passar dos anos, flashes de Natais anteriores.

 

Primeira lembrança que me vem à mente, eu evito permitir que ela se instale. Fecho os olhos na tentativa de esquecê-la e parece que meu intento tem êxito. Balanço a cabeça para reordenar os pensamentos e nova lembrança me ocorre, procuro não me distrair e a imagem se aproxima, vejo a velha casa da Rua Augusta, 291, em São Paulo, vejo nós, as crianças da casa (eu, meu irmão, meu primo e minha prima), eufóricos, ajudando minha mãe na ornamentação de um enorme pinheiro que meu pai havia trazido dias antes e replantado numa velha lata de óleo de 18 litros. Lógico que junto com a algazarra algumas broncas estão sendo proferidas por dona Thereza:

 

– Miguelzinho, para de cutucar a Sonia pra não derrubar a árvore;

 

– Carlinhos, olha o que você fez. Quebrou algumas das bolas mais bonitas. Acho que vou te colocar de castigo!

 

– Sonia, não liga para o Miguel e me ajuda com esta estrela;

 

– Robertinho, não vá pisar nos caquinhos e se machucar!

 

No meio de todo esse repertório de “pitos” vai surgindo, no canto da enorme sala, uma das mais bonitas árvores de Natal que eu tive o prazer de admirar.

 

Todos os dias era uma beleza poder acender as lampadinhas em forma de velinhas e admirar a obra prima.

 

Depois, então, na véspera do Natal, rezávamos e à meia noite, minha mãe e minhas tias serviam a ceia que esfomeados comíamos na companhia de um refrigerante para, depois, irmos dormir e esperar a manhã seguinte para descobrirmos nossos presentes e completarmos nossa felicidade.

 

Opa, a lembrança vai se desbotando em minha mente até sumir, ou melhor, dar lugar a outra memória natalina.

 

Agora eu estou mais velho, já tenho 18 anos, a casa é a mesma na Rua Augusta, reunidos na sala com minha mãe e minha tia Neide, estamos eu, o Nasca e meus amigos, Toninho, o Leite, Francisco “21”, Toninho Tssu, Sílvio, o Xiribi, Aluisio, o Tchê, e Benedito, o Baixinho. Estamos nos despedindo para, como dizíamos na época, fazer a Via Sacra, visitando a casa de cada um de nós e de alguns outros parentes e amigos, comendo alguma coisa e, lógico, bebendo boas talagadas do que nos fosse oferecido.

 

Despedimos-nos prometendo voltar um pouco antes da meia noite. Era o primeiro ano que faríamos a Via Sacra motorizados. O seu Modesto (pai do Leite) havia comprado um carro — Vanguard — e o Toninho já tinha tirado a carta de motorista. Saímos, visitamos a todos os programados, deixando por última visita a casa da Eurides, que morava na Rua da Consolação um pouco acima da Rua Dona Antonia de Queiroz, e consequentemente, bem próximo da minha casa que seria a última desse roteiro, onde cearíamos e depois jogaríamos a tômbola até o romper do sol.

 

Saímos da casa da Eurides, entramos no carro, dobramos a direita na Rua Dona Antonia de Queiroz e nos dirigimos à minha casa. Quando, depois de aguardar o semáforo mudar para o verde, entramos à esquerda na Rua Augusta, o insólito aconteceu. Um Volvo preto, dirigido por um motorista bastante embriagado nos abalroou na lateral e nos arremessou para cima da calçada. Depois de nos recompormos, verificando não haver nenhuma vítima, apenas danos materiais, partimos para cima do bebum e lhe desferimos alguns tapas e safanões.

 

Resumo da história, ficamos aguardando o sol nascer sem ceia e abraços da família e, só nos safamos, por que eu morava bem próximo a 4ª. Delegacia de Polícia e conhecia alguns policiais do plantão.

 

Noite de Natal inesquecível!

 

Epa! A primeira lembrança voltou a incomodar. Tento evitá-la novamente, em vão, ela toma conta dos meus pensamentos. Dia 25 de Dezembro de 1997, estou na casa da Roseli minha prima. Com toda a família, na sala estávamos comemorando desde a véspera. Eu tinha saído de casa, na Praia Grande, no dia 24 ,deixando por lá, minha mãe, meu irmão e meu sobrinho. Antes de sair, ao me despedir dela ouvi seu resmungado: “acho que eu não vou te ver de novo…”. Embora o comentário calar profundamente, para não demonstrar tristeza, me fiz bravo com ela e disse que não adiantava tentar chantagem emocional, eu iria voltar no dia 25 à noite e encontrá-la no mesmo lugar, me perturbando como sempre.

 

Já tínhamos almoçado e estávamos nos divertindo jogando partidas emocionantes de Caxetão. Ouço, então, o telefone tocar na sala. Não me importo. Minutos depois, olho para a porta da cozinha — estávamos jogando na mesa do quintal — e vejo a Cida minha esposa, meio escondida atrás da porta, tentando fazer sinais para o meu primo Durval. Senti uma inesperada inquietação e disse: Cida, não precisa se ocultar, foi minha mãe não foi? Ela, emocionada balançou a cabeça e confirmou: — o Carlinhos acabou de ligar dizendo que ela faleceu.

 

Levantei-me de imediato e me preparei para descer a serra. O Durval, vendo minha imediata decisão, se prontificou a levar-me, e assim, fui ao encontro do inevitável. Esta, que eu me lembre, foi a única vez que não cumpri o que havia prometido a Dona Thereza. Não voltei para encontrá-la viva para me perturbar.

 

Esta lembrança, que eu não queria descrever, eu revivo a cada dia 25 de Dezembro até a hora do futuro reencontro.

 

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: resta agradecer por tantos que acolheu

 

Por Marcia Lourenço
Ouvinte da CBN

 

 

Minha Cidade

 

Parabéns minha cidade,
Cidade em que nasci,
Que abriga tanta gente,
Perto..longe..logo ali. 

 

Da garoa és chamada
Uns, selva de pedra até, 
Mas cabe dizer também, 
Que és trabalho, amor e fé.

 

Terra que gera riquezas
Do trabalho aliada.
És constante em prosseguir 
Numa infinita jornada.

 

O progresso tem seu preço,
Muita coisa se perdeu, 
Resta agradecer ó terra,
Por tantos que acolheu. 

 

Do norte, nordeste ao sul,
Do grande chão brasileiro,
Abriu as portas enfim ,  
A povos do mundo inteiro.

 

Deixo aqui o meu carinho,
Em forma de oração:
Deus abençoe São Paulo 
Do fundo do coração.❤

 

Marcia Ap. Lourenço da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série especial de aniversário da cidade: escreva seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o cavalo do sorveteiro da Pompeia

 

Por Marcello Pizo
Ouvinte da CBN

 

 

Falta meia dúzia de anos para meio século. Isso não me faz tão velho assim, porém sou chamado diariamente de tio e, às vezes, me lembro de umas coisas que me fazem sentir o peso de ser de outro milênio. O sorvete é uma dessas lembranças da minha antiguidade.

 

Quando garoto, costumava tomar um sorvete que era vendido nas feiras livres e também de porta em porta, nas ruas da Pompéia. O vendedor era um senhor que andava numa carroça pintada de vermelho e branco, puxada por um cavalo marrom. Ele vendia sorvete de dois sabores somente: limão e morango. Geralmente ficava numa das extremidades da feira durante todo tempo que as barracas estavam montadas. Nos outros dias e horários, ele saía com a charretinha e tocava uma buzina prateada, que brilhava muito e anunciava a aproximação daquela guloseima tão especial.

 

— “Mãe, é o sorveteiro do cavalo, corre.”

 

Minha mãe sempre cedia aos meus pedidos, exceto quando as amígdalas me impediam de tomar gelado – aliás, até hoje não entendo o por que daquele lenço velho empapado de álcool no meu pescoço, quando a garganta atacava. Ela também era fascinada por aquele som de buzina e contava sempre que quando garota, o meu avô comprava para ela o sorvete vendido pelo pai do mesmo sorveteiro nas ruas de Higienópolis.

 

Será que o cavalo também era filho do cavalo antecessor?

 

A cada comprador ele descia da charrete, se dirigia para a parte posterior onde ficavam os apetrechos e perguntava se era morango, limão ou misto. Pegava a casquinha e com uma habilidade inimaginável para aquelas mãos tão rústicas, manuseava uma faca de mesa que preenchia a casquinha de biscoito com o sabor escolhido. Só vi algo parecido com o seu método de servir muitos anos depois, quando a Parmalat se instalou na esquina da Sumaré com a Aimberê, nos tempos que os palmeirenses eram felizes. As atendentes usavam umas pás para servir o sorvete, igualzinho ele fazia com aquela faquinha herdada do pai.

 

Quando ele parava próximo às feiras, ficava de plantão atrás da boléia esperando os fregueses. Nessas situações, o cavalo ficava sempre em três patas – não que ele fosse portador de necessidades especiais, mas preste atenção: todo cavalo quando “estacionado” alterna uma das patas para ficar suspensa. O mais incrível é que esses eqüinos têm um temporizador melhor que qualquer cronômetro de Fórmula 1, trocando a pata suspensa por outra mais cansada, com uma precisão cavalar. Andei ruminando uma explicação e acho que a contagem deles é feita pela mastigação…

 

Ainda falando do cavalo ( ou seria uma égua?) era comum ver o carroceiro dando as casquinhas de sorvete defeituosas para o equino como guloseimas carinhosas. Hoje em dia choveriam denúncias nas redes sociais contra a alimentação inadequada para o bicho, dos perigos da poluição para os pulmões do quadrúpede, além de algum vereador desocupado fazer uma lei para a coleta do estrume em sacos recicláveis. O mundo politicamente incorreto era menos estressante.

 

Marcello Pizo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o relógio perdido no Parque do Ibirapuera

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Minhas mais remotas memórias confundem-se com dois marcos de São Paulo: o Parque Ibirapuera e a Avenida Paulista.

 

O Parque e eu: ambos nascemos em 1954. Ele em agosto, eu em maio. Eu no interior, ele no coração da capital paulista. Nos encontramos em nossa primeira primavera. Eu, bebê de colo, não ousava ainda os primeiros passos; ele, verdinho em folha, ostentava já as primeiras flores.

 

À época, conta-se que as senhoras vestiam suas melhores roupas para circular no recém-inaugurado espaço paulistano, onde Niemeyer se apresentava em todo seu esplendor em cada linha, em cada curva do trajeto… e no qual o lago completava o ar bucólico.

 

O relógio marca o tempo que passa. Um relógio nos une.

 

Cresci ouvindo a história do passeio com minha mãe numa manhã de dezembro de 1954. Ela — quem sabe atenta comigo, quem sabe distraída com a beleza do parque — perde seu relógio de pulso, ganho dias antes. Uma das muitas histórias ao longo desses 63 anos.

 

Anualmente, minha família vinha à capital e o passeio pelo Parque era obrigatório. Obrigatória também era a visita ao nosso tio e patriarca da família. Tio reverenciado por ter vencido os desafios da imigração — da leva de imigrantes do início do século 20 — e “feito a América”, literalmente. Tio Nicolau trabalhou na estrada de ferro Noroeste; vendeu jornal; comercializou café e algodão. Acabou se tornando um dos mais respeitados e influentes homens da República e conhecido como ”Rei do Café”, nas décadas de 1930/1940, conquistando o direito de privar da amizade e da vizinhança de outro imigrante célebre: Francisco Matarazzo.

 

Pois bem, lá íamos nós, vestidos com nossas melhores roupas, percorrer a elegante Avenida Paulista, com seus casarões dos livros de histórias da nossa infância. Programa repetido por uma década.

 

Nos anos de 1960, mudamo-nos para a capital e o anual virou habitual. Passamos a frequentar o parque e a avenida.

 

Parque e eu em fase de adolescência. Barquinhos deslizavam no lago, pessoas remavam em divertidos passeios, num cenário que se transformava ao cair da tarde… carros ao redor do lago, casais apaixonados e… polícia rondando.

 

A Avenida Paulista, adulta imponente vinda lá do século 19, já aprendia, àquela altura, a ser mais democrática. A São Silvestre, a Fundação Casper Líbero, o MASP são testemunhas de tal transformação.

 

Avancemos o relógio do tempo: década de 1970/80 /90.

 

No Parque, carros circulam livremente, disputando espaço com as bicicletas — a maioria alugada do Maisena. A sede da prefeitura é transferida para o Palácio do Comércio, dando mais espaço aos frequentadores, entre eles meus filhos, que cresceram nesse agradável quintal, próximo de casa. O lago vai, pouco a pouco, perdendo a alegria. Somem os peixes. Desaparecem os barquinhos. O perfume da grama e das flores começa a se misturar com um odor desagradável.

 

Na Avenida-símbolo, brotam os conhecidos “espigões da Paulista”, que se alastram regados pela fúria do progresso e passam a compor o “high line” da cidade.

 

Avançando… virada do novo século. Virada de fase.

 

O povo ocupa o espaço, outrora privilégio da minoria aristocrática. A Paulista ganha metrô, vira palco das grandes festas, comemorações, manifestações políticas, paradas Gay… acolhendo a diversidade de povos e pessoas, de causas e ideais. É a centenária e aristocrática avenida abraçando, definitivamente, a democracia. E assim se une ao meu contemporâneo e sempre democrático Ibirapuera, que se faz, hoje, ponto de encontro para as muitas caminhadas cívicas até a Paulista.

 

O Ibirapuera continua seu destino de espaço aberto a atletas e personal trainers, bebês e babás, famílias e pets, idosos e seus cuidadores. Idosos com suas lembranças recentes se desvanecendo… as memórias remotas vivas, vivíssimas… assim como as de minha mãe que até o fim insistia em encontrar o relógio ali perdido.

 

O relógio e seu tiquetaquear incessante.

 

Marca do tempo que passa, marca de lembranças que não passam, marca do progresso que transforma nossas vidas e a cidade.

 

Marina Zarvos Ramos de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias de São Paulo, viste agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a porta secreta da fábrica de chocolate

 

Eder Ziliotto
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo, 11 de março de 1959
Nasci! 
Rua Jackson de Figueiredo, 49
Bairro da Aclimação, Sampa

 

Sobradão delicioso de morar naquela rua gostosa. Escada de madeira e estuque no piso superior. A casa, à noite, gemia. A rua parecia mais uma vila mas com casas grandes e onde jogava-se bola descalço no paralelepípedo com a molecada do bairro, que ali eu trazia. Minha sorte é que eu tinha oito vizinhas garotas, duas em cada uma das quatro casas mais próximas. Até hoje não sei porque não me formei médico pois com elas brincava deliciosamente nessa prática ingênua sempre que me cansava das brincadeiras com os moleques. Não sei por que eu era tanto invejado por eles. Mas só eu tinha essa manha com as quatro mães das meninas.

 

Comprar na venda do Seu Izidro com caderneta era status. Tínhamos um arsenal de brincadeiras de rua que me deixava louco: peão, bola de gude, mãe da lata, fabricar maranhão, bilboquê, bafo, chiniquero livre 123, carrinho de rolimã, que a gente construía pra descer a Batista do Carmo … Ler gibi, também. A minha rua era um parque de diversões. Às vezes conseguíamos um exemplar usado de revistas de adultos com o homem da carroça trocando por algo que ele precisava, daí íamos dar risada nos fundos da sapataria do seu João, na minha rua mesmo.

 

Tínhamos uma redondeza de dar inveja. O quarteirão da caixa dágua com uma quadra de futebol; a quadra da Igreja Nossa Senhora Margarida Maria, na Lins de Vasconcelos; os espaços públicos do Parque da Aclimação a 800 metros dali; o cemitério da Lacerda Franco; a fábrica de chocolates da Basílio da Cunha; e até o Museu do Ipiranga, bastando descer de bicicleta insanamente a ladeira Coronel Diogo. Como ninguém morreu lá? Até hoje me pergunto. Éramos um pequeno bando de uns sete garotos entre sete e 10 anos de idade. Uma ganguezinha.

 

Tínhamos códigos para todas as atividades a qualquer momento do dia.

 

Entre aos 4h30 e 5h da manhã um dos integrantes da turma assobiava da janela do quarto — um fofiufofiu agudo — organizando a aventura. Saíamos sem nossos pais perceberem a essa hora e voltávamos geralmente antes das 6h30 direto pra baixo das cobertas, antes do dia começar.

 

Entre as “aprontações” tínhamos visitas à fábrica de chocolate por portas secretas; subíamos no topo da caixa d’agua sem permissão, eram mais de 30 metros de altura; entrávamos e saíamos do cemitério por acessos escondidos, só pra curtir o pavor e ouvir gemidos do além; no parque, a diversão era a pescaria proibida e, às vezes, entrar na água ou pegar um dos barquinhos de madeira que ainda existiam, só pela provocação; e, logicamente, na igreja, pra tentar fuçar no que não podia na sacristia e jogar bola quando o padre deixava ou não via. 

 

Do “Colégio 7 de Setembro”, na Lins de Vasconcelos, guardo lembranças preciosas de desfilar vários anos por aquela avenida, nas datas comemorativas tocando repique na fanfarra. Fui bicampeão com o colégio nessa modalidade pela mãos do maestro, o senhor Virgílio. Uma ocasião enganei meu pai na nota de uma prova e proibido de ir aos ensaios me arrisquei. Voltei pela orelha, do pátio do colégio até minha casa. Não teve surra, mas o vexame foi o suficiente.

 

Noutro dia numa mega festa do colégio, eu presenciei uma cena arrebatadora. Aguardávamos os ídolos da jovem guarda e eis que vejo com aqueles meus pequeninos olhos, de oito ou nove anos, na porta do colégio, saltarem de um  Cadillac conversível nada mais nada menos do que Roberto Carlos, Wanderleia e Erasmo Carlos. Eu lembro de ter tocado neles. Eles estavam se tornando estrelas na época.

 

Com 12 anos, ajudava meu pai no escritório, na rua São Francisco, no centro. Ia de ônibus elétrico CMTC, sozinho, da Margarida Maria até a Líbero Badaró ou a Praça da Sé — uma aventura, pelo menos duas vezes por semana. Conheci cada palmo  do centro de São Paulo e tinha um amigo que, desde pequeno, já era maestro e sua mãe nos levava na temporada lírica do Municipal. Eram duas atrações mágicas: as óperas e as visitas ao Mappin, naqueles elevadores estilo Bloomingdales.

 

E o bonde para Santo Amaro? Inesquecível! Visitávamos sempre tia Mariquinha a irmã rica e mais velha de meu pai que morava num palácio, na frente do Borba Gato, num quarteirão só dela, com meu tio, o amigão do Juscelino Kubitschek. 

 

Mas o que quero contar mesmo é que eu nunca tive medo de andar sozinho desde pequeno na cidade de São Paulo. Ela sempre foi minha amiga. Eu nunca presenciei ou sofri até hoje nenhuma violência nesta cidade que é uma das mais violentas do mundo. Eu só quero agradecer essa mãe  querida de quase 500 anos por me respeitar como cidadão; e desejo, e apenas quero, retribuir esse carinho.

 

Parabéns Sampa querida.

 

Eder Spencer Quinto Ziliotto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o paulistano que nasceu em Santos

 

Por Silvio Henrique Martins
Ouvinte da CBN

 

 

Eu nasci em 1962, na cidade de Santos, litoral do estado de São Paulo, distante cerca de 90 Km da capital São Paulo. Quando criança e pré-adolescente, toda vez que meu pai falava sobre “ir para São Paulo” era um forte momento de angústia, pois, tanto a Estrada Velha de Santos, quanto a Rodovia Anchieta, eram, para mim, sinônimos de perigo e muito medo. A cada curva, uma oração. Se a viagem ocorria na noite, então eram cinco orações por curva; se com neblina e chuva, as orações eram incontáveis.

 

Nesses tempos, dos anos 1970, não tinha noção da importância e imensidão de São Paulo. Apenas sabia que era a capital e que sua rodoviária era belíssima aos meus olhos. Aqueles losangos coloridos em estruturas tubulares eram para mim o máximo em arquitetura futurista, daquelas de filmes de ficção científica, minha preferência no gênero até hoje.

 

Eu me recordo de um chafariz gigante em formato semelhante ao um troféu, no interior da rodoviária. Havia flores e muitas cores. Essa visão compensava o sofrimento das curvas que separavam nossas cidades.

 

Aliás, antes de chegar na rodoviária, um percurso de glamour pelas avenidas centrais, com direito a contemplar as edificações modernas à época, como o edifício Louvre, o Itália e o Copan. Sem contar o lindo relógio no alto do edifício ao final da Consolação, na Major Quedinho, onde as minhas lembranças me levam a imagem da marca do jornal Diário Popular, um que meu pai lia, tanto quanto A Tribuna, de Santos. Eu achava o máximo saber que estava passando em frente à sede do Diário Popular. O que era aquela avenida São Luis? E as avenidas Rio Branco, Ipiranga e São João? Meus olhos sempre brilhavam desde a entrada em São Paulo até a chegada na sua rodoviária, nesses momentos o encantamento tomava o espaço da inquietude da estrada.

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Conte Sua História de São Paulo: a matraca do homem que vendia biju

 

Por Esperança Maria Domingos
Ouvinte da CBN

 

 

Cheguei a São Paulo no ano de 1949 vinda de Belo Horizonte, cidade em que nasci. Fui trazida pela minha mãe, que havia chegado à capital paulista alguns anos antes para trabalhar. A viagem de Belo Horizonte para São Paulo foi longa. Naquele tempo, o trajeto era feito de trem, e havia várias baldeações ao longo da viagem. O trem saía de Belo Horizonte com destino ao Rio de Janeiro, por isso era necessário descer e tomar outro trem com destino a São Paulo.

 

Desembarquei no dia 20 de fevereiro e três dias depois completaria onze anos. A cidade encantava, tudo me parecia lindo, uma “aparente” organização, “aparente” limpeza; digo aparente, pois com o tempo e à medida que eu crescia fui percebendo que a cidade já tinha seus problemas, que mais tarde se tornariam muito complexos, mas naquele tempo, eu ainda muito
jovem, a imagem primeira da cidade me deixou maravilhada.

 

O bonde era uma viagem gostosa, o clima era mais agradável e não nos deparávamos tanto com os problemas de enchentes e bairros inundados, bom pelo menos essas não eram as notícias que mais circulavam na imprensa como ocorre hoje em dia; outra coisa me deixou estupefata, “boquiaberta” foi o túnel Nove de Julho, a imensidão, o movimento dos carros.

 

Em seguida, aos poucos, fui descobrindo as matinês no Cine Metro, para assistir aos desenhos da Disney, como a Branca de Neve.

 

Fui estudar no Grupo Escolar do bairro do Brooklin Paulista, com professores, que se dedicavam com empenho ao seu trabalho de educadores … não há como não sentir alguma nostalgia do meu tempo, no que diz respeito à questão do sistema educacional.

 

Era uma vida mais tranqüila, mesmo com pouco dinheiro podíamos viver com alguma dignidade, andávamos sem medo e com alguma liberdade. Creio ter conhecido o lado melhor da cidade de São Paulo, uma metrópole que inspirava sonhos.

 

Os passeios em São Paulo eram divertidos e guardo muitas recordações e lembranças afetivas. Eu ainda consigo ver e ouvir o homem que tocava matraca anunciando o biju.

 

Aqui em São Paulo casei, morei em vários bairros da zona sul à zona norte, e três dos meus cinco filhos nasceram paulistanos.

 


Esperança Maria Domingos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a turma do Dunga agitava os bailes na Vila Mariana

 

 

 

Por Roseli Nabarrete
Ouvinte da CBN

 

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A turma do Dunga reunida para comemorar mais um ano juntos

 

 

O ano era 1967, a revolução cultural es­tava no seu auge. “The Beatles” coman­dando a massa de jovens no mundo, Chi­co Buarque aparecendo nos festivais da TV Record, Roberto Carlos invadindo os domingos — tudo em plena Ditadura Mili­tar no país e nós, vizinhos na Vila Maria­na, não éramos diferentes dos jovens do resto do mundo. Queríamos paz, amor, respeito, dignidade e transformar nossos sonhos em realidade.

 

Certa vez, nosso amigo e vizinho Mo­acir decidiu que deveríamos formar uma turma, batizada de Equipe Dunga. Juntos frequentávamos todos os bailes para os quais éramos convidados. E quando não havia nenhum, a gente inventava um. Era sempre aos sábados e a maior na garagem da casa do Kalu e da Celinha. Se não, na casa de qualquer colega da turma. A condição era de que no domingo os rapazes teriam que ajudar na arrumação da casa. Cuba Libre era a be­bida da moda, claro com mais Coca-Cola do que rum, mas era “ser moderninho” e a gente se sentia adulto — porém sempre sob os olhares atentos dos donos da casa, sede do baile.

 

Nos fins de semana, jogávamos vô­lei na Rua Trabiju, ouvíamos a vitrola ma­nual na casa do Roberto ou ou ainda nadávamos e jogávamos vôlei no CEI, onde todos éramos sócios.

 

No fim do ano, seguíamos de mãos dadas, de casa em casa, para dese­jar feliz Ano Novo. E era muito bom, aquele bando de jovens chegando depois da ceia para cumprimentar os vizinhos.

 

Íamos aos bailes de ônibus, pois nin­guém tinha carro. Só nossa amiga Nidia é que, depois dos 18 anos, ganhou um fus­ca, chamado de “Herby”, é claro.

 

Muitas ve­zes ficávamos sentados no muro das casas conversando; e o Marcos tocando violão. Tudo era motivo para rirmos sem parar.
Em época de provas no colégio e depois nos vestibulares, era comum nos verem sentados no chão com livros na mão, estudando.

 

Aos domingos, logo depois do almo­ço, era sagrado ver um filme no cinema Sabará ou no Jamour. Quando a turma chegava, ocupávamos fileiras inteiras para nos acomodar.

 

Amores existiram, mas não passaram de amores da juventu­de, como uma chuva no verão, que vem e rapidamente se esvai.

 

Quando nos tornamos adultos, nos separamos e cada um seguiu seu rumo, mas, felizmente, depois de 30 anos, con­seguimos nos reunir novamente graças a Internet. E como é emocionante lembrar como a vida era boa naquele tempo e de quanto foi boa nossa convi­vência.

 

Ainda moro na Vila Mariana tanto quanto ainda amo os Beatles e os Rolling Stones.

 


Roseli Nabarrete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: meu apartamento novo na rua Aurora

 

Por Adalberto Pessoa Junior
Ouvinte da CBN

 

 

No início da década de 1970 meus únicos dois primos que conviviam comigo em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, se mudaram para São Paulo. Desde então, comecei a vir para esta cidade sempre que podia, sobretudo no período de férias ou quando estava de passagem fazendo outras viagens. Eles moravam na Alameda Barão de Limeira, próximos de uma outra tia querida que morava na Rua do Arouche.

 

Os períodos nos quais passei em São Paulo deixaram as melhores lembranças. Meus primos sempre reservavam novos passeios que sabiam que eu iria gostar. Além dos típicos passeios ao zoológico, simba-safari, museu do Ipiranga, começamos a acompanhar também a chegada dos novos shoppings. Fiquei de boca aberta ao ver pela primeira vez o Shopping Eldorado logo após ser inaugurado, em 1981. Me levavam a restaurantes típicos, como um que servia comida típica goiana… naquela época nem tinha noção da existência de tantos restaurantes típicos!
 

 

E assim foi ao longo de minha infância e adolescência. Mas, de tudo, o que eu mais gostava era passear pelo centro de São Paulo, a pé, junto com eles. Passar pela Rua Direita, nem que fosse rapidamente, era obrigatório. Na época, a região já tinha fama de apresentar um “certo perigo”, pois havia trombadinhas e prostitutas. Porém, isto nunca foi um problema, pelo contrário, tudo era novidade e me divertia.
 

 

Ao completar 18 anos fui estudar em Minas Gerais, mas as paradas em São Paulo continuavam durante os feriados e férias, pois eles moravam ao lado da antiga rodoviária, aquela com cobertura colorida no bairro da Luz, que  hoje é vizinha da Sala São Paulo e da Cracolândia. Caminhando, chegava em 10 minutos até a casa deles.
 

 

O tempo passou, me formei, fui trabalhar em diferentes cidades do interior de São Paulo, mas as paradas nesta cidade eram obrigatórias e continuaram até que ambos se casaram e foram morar longe do centro, na zona sul e estão lá até hoje. Porém, eu gostava mesmo era de permanecer no centro e foi quando passei a frequentar a casa de um tio que era ator e morava no bairro do Bixiga. A paixão pela cidade aumentou. Ia muito ao teatro, shows e frequentava regularmente os mesmos ambientes dos atores.
 

 

O tempo passou, me casei e não perdi a primeira oportunidade de mudar para São Paulo. Desde 1998, moro no Alto da Lapa. Cinco anos atrás em um dos constantes passeios pelo centro, a caminho de um delicioso restaurante peruano, não resisti e comprei um apartamento na planta, na Rua Aurora, próximo a Praça da República, no meio da muvuca. Quase ninguém da família ou dos amigos conseguiu entender essa nova aquisição… apenas o meu tio, o ator!! O espanto sempre vinha acompanhado da seguinte “pergunta-afirmação”: mas você não vai morar lá, vai?! Minha resposta sempre é a mesma: por que não?
 

 

Recentemente o prédio ficou pronto e o apartamento está em fase final de conclusão. Meu filho e eu ainda estamos decidindo quem vai morar lá, pois ele também quer! Cada vez que vou ao apartamento acompanhar a obra de conclusão, fico com mais vontade de viver ali, pois é onde encontro o mundo todo vivendo na vizinhança, e posso ir caminhando a teatros, cinemas, exposições, shows e excelentes restaurantes.

 

Como sempre dizíamos 45 anos atrás: o centro é passado, presente e futuro.
 

 

Adalberto Pessoa Junior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe e envie seu texto para milton@cbn.com.br