Seu dia de sorte

 

Por Suely Aparecida Schraner
Ouvinte-internauta do CBN SP

Tarde quente. Ar abafado anunciando o temporal de sempre. Mais um verão escaldante. Céu azul celeste. O derradeiro dia de trabalho, enfim, as esperadas férias concentradas. Fim de ano. Desci do ônibus, no ponto final. Andei duas quadras. Ele atravessou a rua e veio na minha direção. De soslaio, notei que usava um chapéu como os de safári, enterrado na cabeça, até os olhos. Prognata. Bermuda larga, vermelha estampada e surrada. Camiseta grande , azul clara. Chinelo tipo havaianas, verde. Nas mãos uma sacola de supermercado, cheia. Foi chegando e perguntando:

– Por favor, você sabe onde fica o supermercado três amigos?

– Estou indo nesta direção. Vamos que eu te mostro.

– Você é corajosa.

– Você está me achando corajosa porque você pediu uma informação e eu respondi?

– É. Sabe que hoje em dia tem muita desgraceira por aí. É pai matando filho, filho matando pai, uns roubando e outros estuprando… Muita de maldade. Na moral, só tô falando, não quero te assustar. Eu mesmo fugi da cadeia, tá me entendendo? Tenho um carro logo ali, quer uma carona?

-Você está me dizendo que fugiu da cadeia….

– É. Do Carandiru. Peguei 27 anos. Sabe como é, cabeça quente, barbarizei. Mas você é corajosa, fala com estranhos, hein? Acha que eu ia ficar lá? Só quem já ficou é que sabe. Faz uma semana que estou de boa. De dia eu durmo, de noite fico andando. Pra não rodar. Bobeou, jacaré vira bolsa. Tomo banho na represa. Comida me dão nas lanchonetes por aqui. Sabe do que mais? Tô cansado de saber onde fica o supermercado três amigos. Você não está com medo?

Agora, chegando quase em frente de casa, pensei: “deve ser mais um louco na cidade tentando me assustar. Fazer confidências, a troco de quê?”

A rua morta. Nem mosquito à vista. Pensei em tocar na vizinha para despistar. Faltou vocação pra “amigo da onça”. Então, tentando aparentar a maior calma, e me fazendo de desentendida:

– É só seguir em frente, o supermercado fica depois da avenida.

– Só mais um favor. (Abrindo a sacola e exibindo o conteúdo.) -Ganhei esses pedaços de pizza e preciso comprar um refrigerante.Tá tão calor. Você tem uns trocados pra me dar?

Até tinha, só que nesta altura não ia abrir a bolsa pra ele, ali no meio da rua.

-Vou ficar devendo, ando só com passes para a condução.

– Não tem não? Quem mora em casa tá pior do que quem mora na rua… Quer saber?

Enfiou a mão no bolso da bermuda e tirou um “bolo de notas” de R$10,00 e R$ 50,00, vi apavorada que a história da fuga era pra valer.

– Tó, pode pegar, presente pra você, ele insistia.

-Não muito obrigada, não precisa. Ao que retrucou aos gritos:

– O quê, vai recusar? Você falou comigo na boa. Foi simpática… Não posso te fazer um presente não? Pega aí!

– Claro que pode, e eu agradeço de coração, mas você está na rua e espero que aproveite bem seus dias de liberdade.

-Você mora aí?

Fui abrindo o portão de entrada da casa, coração aos pulos. Ele seguiu andando devagar, olhando pra trás. Mostrou o cabo do revolver enfiado sob a camiseta, no cós da bermuda e gritou.

– Tchau! Feliz Ano Novo! Olha, joga na loteria que hoje é seu dia de sorte!

Conte Sua História de São Paulo: Em transformação

 

Márcio Chicca nasceu em 1947 em São Paulo e é um apaixonado pela cidade. Nas décadas de 1950 e 1960, entre a infância e a juventude, participou de momentos marcantes da história da cidade, como a inauguração do parque do Ibirapuera e de alguns dos tradicionais cinemas da cidade. Histórias que ele narrou ao Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Márcio Chicca sonorizado por Cláudio Antônio

Tenho muitas recordações desta cidade, que eu aprendi a gostar desde pequeno, pois meu pai me propiciava informações, assuntos e passeios que se tornaram inesquecíveis, alguns dos quais ainda recordo com muita emoção.

Aos domingos, meu pai me levava passear no centro da cidade, na rua Boa Vista, onde ficava o Restaurante Guanabara e onde eu me deliciava com os enormes e variados sanduíches. Enquanto eu comia e tomava uma “Caçulinha” da Antártica, um sucesso na época, ele saboreava um chopp escuro.

Em outros domingos, invertia o roteiro e íamos para a rua Vieira de Carvalho, onde o restaurante Fasano funcionava em um prédio bonito que hoje é o hotel Bourbon São Paulo. Lá, meu pedido era uma ou duas coxinhas especiais, que eram deliciosas. Logo depois, meu pai comprava alguns doces em uma doceria ao lado, que eu acho que já era a Dulca, para a sobremesa do domingo.

Um passeio que marcou minha memória foi um dia inteiro de domingo de 1954, quando da inauguração do Parque do Ibirapuera. Tudo novinho, gramado lindo, lagos, pavilhões de alguns países, exposições diversas, alguns teco-tecos sobrevoando o parque e jogando flâmulas de papel prateado com textos em comemoração à inauguração do parque e ao IV Centenário da cidade.

Cada casa de São Paulo colocava em lugar de destaque uma placa comemorativa dos 400 anos da cidade: o brasão de São Paulo em alumínio polido ou colorido, salientando a idade da cidade. Quase todas as casas tinham um ou dois.

A maior diversão da cidade, e mais barata, era o cinema! Havia cinemas belíssimos como o Cine Metro da MGM dos EUA; o Bandeirantes (depois Ouro); o Marrocos, único em que as cadeiras deslizavam ao se sentar, o maior da cidade; o República, primeiro a exibir filmes em terceira dimensão; o Ipiranga e o Marabá, de grandes exibições como “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. de Mille, grande diretor de filmes épicos maravilhosos da época.

Nestes cinemas só se entrava com terno e gravata e foi para ir a um deles que usei a minha primeira. Nos intervalos, uma orquestra surgia no palco para tocar algumas músicas. Deste tempo eu peguei o final, onde se mantinha o hábito de usar terno e gravata, mas somente um cinema mantinha um excelente pianista, o Cine Ouro do Largo do Paissandu. Os outros já não suportavam este custo.
Depois de alguns anos, e com novas tecnologias, surgiu o Cinerama. Um espetáculo: tela imensa, som estéreo, só apresentando filmes especiais para aquele equipamento.

Na minha juventude ainda mantive alguns hábitos que meu pai me deixou, tais como ir comer um bauru no Ponto Chic do Largo Paissandu, ou tomar um chopp no Bar do Léo, na rua Aurora esquina com a rua dos Andradas, ou ainda uma boa canja de galinha no frio da madrugada no restaurante Papai, na esquina da Duque de Caxias com a São João.
Já não existia mais o Fasano da Vieira de Carvalho e o Guanabara mudou para rua São Bento, já não tinha nada mais a ver com aquele dos anos 50.

Hoje, às vezes, quando saio com meu filho, vamos comer um bauru ainda no Ponto Chic do Largo Paissandu e ele me lembra destas histórias dos passeios de meu pai, seu avô.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e 30, dentro do programa CBN SP. Você pode participar enviando seu texto ou agendando uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: Eu vi o Zepellin

 


Ouça estas duas história sobre o Zepellin sonorizadas por Claudio Antonio

Na década de 1930, apenas dois anos antes do início da Segunda Guerra Mundial, o Hindenburg Zeppelin passou pela cidade de São Paulo. A imagem do monumental dirigível cortando os céus da cidade marcou a memória dos moradores na época. Alzira Paulino, nascida em São Paulo em 1931, contou suas lembranças durante uma oficina de memória do Museu da Pessoa em novembro de 2008:



Morávamos, eu e minha família, na rua da Consolação, travessa da avenida Paulista.
Deveria ter mais ou menos 7 anos quando ouvimos um grande alvoroço na rua. Era um Zepellin que estava passando lentamente, muito grande, parecia um balão. Saímos todos muito assustados, pois nunca tínhamos visto tal coisa no ar; mamãe, vizinhos, todos acenando para o alto, e éramos correspondidos; as pessoas que nele estavam também acenavam para nós. Foi emocionante, ficamos muito tristes quando soubemos que o mesmo havia pegado fogo com todos os tripulantes e passageiros. Foi um fato que muito marcou a minha infância.



Samuel Blay, nascido em São Paulo em 1922, era adolescente quando o Zeppelin passou pela cidade. Ele também se lembra da comoção na época do incêndio do dirigível. Mas o que mais o marcou foi a lentidão com que a aeronave cruzava o céu, como ele contou ao Museu da Pessoa em 1999:





Foi em 1937 que o Zeppelin Hindenburg passou por São Paulo, e depois ele pegou fogo lá nos Estados Unidos, caiu e matou muita gente.  A velocidade do Zeppelin era três vezes menor do que a de um avião e parece que tinha também compartimentos, camarotes para passageiros… Isso eu não tenho muita certeza, havia uma forma de acolher os passageiros, porque levava dois, três dias uma viagem de Paris a Nova York. O avião levava 15 horas e o Zeppelin levava, vamos dizer, umas 40 horas.


Participe do Conte Sua História de São Paulo enviando seu texto ou agendando uma entrevista em vídeo e áudio no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: No Cine Nacional

 

Roberto Cetra nasceu em São Paulo em 1948. Mas um dia se redescobriu um turista em sua própria cidade. Um turista do tempo, e não do espaço, como ele contou neste texto em homenagem ao Cine Nacional, escrito em fevereiro de 1992 e  enviado ao Museu da Pessoa:


Ouça o texto de Roberto Cetra sonorizado por Claudio Antonio

Entrei e fiquei olhando para cima e para as paredes, tal e qual um turista visitando a Capela Sistina, que admira por horas seguidas os detalhes contidos naquelas seculares obras de arte. Porém o prédio onde eu me encontrava não tinha um valor histórico de 500 anos, tinha no máximo 50. No lugar das maravilhosas pinturas de Michelângelo, tinha apenas um forro de Eucatex pintado de preto fosco. No lugar do riquíssimo altar, um palco, também preto, com cortinas de tecido brilhante e finalmente, em vez do silêncio sagrado de uma igreja, eu fui atropelado por centenas e centenas de decibéis vomitados por imensas e agressivas caixas acústicas instaladas nos dois lados do palco.

Mesas colocadas em forma de ferradura abraçavam, com certo aconchego, a pista de dança. O restante delas, arrumadas no mezanino. Tudo levava a crer que se tratava de uma casa de espetáculo e dança bem grande, moderna, porém comum, isto é, sem detalhes artísticos importantes pelas paredes, teto e estrutura arquitetônica que pudessem deixar alguém parado a contemplar. Mas por incrível que possa parecer, eu estava emocionado e até mesmo trêmulo por estar novamente sob o mesmo teto e paredes em que passei grande parte da minha infância e adolescência.

Quando saí de casa, eu já tinha um pensamento fixo: apesar de totalmente reformado, o prédio ainda é o mesmo e naturalmente haverá de ter sobrado algum vestígio do passado.
Passei pela portaria com a ansiedade de um homem que retorna a sua terra depois de muitos anos ausente.
Entrei no salão, olhei para o chão, tudo diferente, mas quando olhei para cima, lá estavam as arandelas em formato de janelas de palácios árabes, perfeitamente acesas e conservadas como quando ali funcionava o velho cinema, essas luzes somente eram desligadas depois de uns cinco minutos de filme.
Continuando o meu garimpo, reconheci o forro (sim, aquele forro comum, de Eucatex furadinho) denunciado à minha memória pelo recorte das placas que formavam grandes círculos em torno das enormes saídas do ar condicionado central.

Parece-me que restaram muitos vestígios, e o que restou era familiar demais para mim. Foi gratificante constatar que boa parte da memória havia sido resgatada, não sei se por consciência do arquiteto ou do dono da obra, mas o importante é que estava lá.

Quando o cinema parou de funcionar, o prédio ficou muitos anos fechado, depois abriu como depósito de sementes e implementos agrícolas, passou alguns anos assim e novamente ficou anos fechado, até que passasse pela grande reforma que o transformaria na casa de espetáculos Olympia.

Eu precisava partilhar com alguém a minha alegria, mesmo sabendo que eu conseguiria passar somente meras informações e não a emoção, pois aquilo tudo só teria significado para quem conviveu comigo naquela época. Não me contive, peguei esposa e filha pelos braços e saí mostrando.

– Estão vendo aquela escada com corrimão estilo art déco? Ela dá acesso ao mezanino, ao banheiro masculino e à sala de projeção. Tudo ainda está lá, nos mesmos lugares!

– Logo abaixo da escada – continuei – ficava a bombonière. Nas matinês de domingo, tão logo entrávamos, íamos direto a ela, a custo de empurrões e cotoveladas, cada um de nós queria ser atendido em primeiro lugar. Os que tinham mais dinheiro comparavam Mentex; os outros, sem melhores alternativas, optavam por bala de goma ou amendoim doce, aquele que tem cor de ferrugem.

O importante não era o doce e sim o celofane, para fazer de assobio. Mentex tinha uma vantagem, o proprietário adquiria o poder de assobiar mais depressa, bastando para isso desencapar a caixinha. Já o amendoim somente poderia ser usado como assobio quando terminava o seu conteúdo. Até então poderia já ter terminado o Primo Carbonari e deixar de vaiar esse filminho de notícias desatualizadas que eles insistiam em passar seria realmente muito frustrante. Esse documentário semanal tinha uma gasta e riscada vinheta de abertura na qual aparecia um chafariz numa praça, tão apagada que ninguém conseguia afirmar se fora filmado de dia ou de noite, acompanhado de um fundo musical, tão tremido e desafinado que mais parecia um disco rodando ao contrário. Era, então, perfeitamente normal surpreender garotos numa atitude desesperada, despejando o saquinho de amendoim inteiro na boca, enchendo as duas bochechas de tal forma que mal podiam mastigar para poder assobiar no papel. As técnicas de arrotos em altos volumes eram altamente desenvolvidas por essa trupe de educados meninos para soltar nas horas tristes ou românticas dos filmes.

– Estão vendo aquela porta ao lado do banheiro feminino? Lá era a gerência. O gerente era um senhor com idade superior a 60 anos, ele tinha um defeito na perna e usava uma grossa bengala de madeira, era calvo e apesar da paciência que tinha conosco, nós o respeitávamos muito, não sei se pela sua aparência de vovô, se pelo seu modo de pouco falar ou se por analogia com o diretor de escola. Em compensação, os “lanterninhas” que agiam com muito rigor tornavam-se verdadeiras vítimas em nossas mãos.

– Naquela parede, à esquerda de quem entra, ficava todo o nosso orgulho. Apesar de termos sido expulsos daqui inúmeras vezes por indisciplina, nós amávamos este cinema e era ali que estava instalada uma placa de bronze com os dizeres: LOTAÇÃO DESTE CINEMA 2.250 PESSOAS.


Participe do Conte Sua História de São Paulo, envie seu texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo pelo site do Museu da Pessoa

Conte Sua História de SP: Minha Cidade Tiradentes

 

No Conte sua História de SP, Márcia Cristina de Oliveira nascida em 1975 que nos primeiros anos da década de 1980, se mudou para a Cidade Tiradentes. O hoje famoso bairro da zona leste de São Paulo era, então, apenas um conjunto habitacional em construção, com poucas crianças para Márcia e seu irmão brincarem. Mas logo ela ganhou dois grandes companheiros para a aventura de testemunhar o nascimento de um bairro. História que Márcia contou ao Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Márcia Cristina de Oliveira, sonorizado por Cláudio Antonio

Eu tinha 7 anos quando vi um bairro nascer. O bairro em questão é a Cidade Tiradentes, uma Cohab que virou bairro. Mudei-me para a Cidade Tiradentes aos 7 anos. Quando cheguei, não tinha nada. Nenhum tipo de comércio ou escola e até por causa disso eu perdi um ano de estudos.

O que mais me deixava contente em morar nesta Cohab era a promessa que meu pai fez, a mim e ao meu irmão: assim que tivéssemos nossa casa, ele nos daria um cachorro e duas bicicletas de corrida. Então, morar em um lugar onde não havia muitas criança para brincar, somente mato por todos os lados, me deixava muito contente. Meu pai cumpriu sua palavra e nos deu nosso primeiro cachorro, chamado Buner. Ele era lindo.

Alguns meses depois, ganhamos as duas bicicletas. Já era Natal nessa época. Com o passar do tempo, a Cohab, que começou com poucos moradores, virou um bairro da zona leste de São Paulo. E, por incrível que pareça, tirando minha casa, eu vi cada prédio, cada loja, cada escola ser construída, tijolo por tijolo. É muito emocionante poder dizer que eu vi o nascimento de um novo bairro.

Márcia Cristina de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. O texto foi enviado ao Museu da Pessoa. Conte a sua historia de São Paulo, agende uma entrevista em áudio ou vídeo ou envie seu texto para o site http://www.museudapessoa.net. Sábado que vem, tem mais.

Conte Sua História de São Paulo: Coisas de meninos

 

No Conte Sua História de São Paulo, Aldo Della Monica que nasceu em 1952 aqui na capital e passou quase toda a infância no Tatuapé – momentos que foram lembrados no texto enviado ao Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Aldo Della Monica sonorizado por Cláudio Antônio

Parece que certas coisas nunca mudam. Soltar pum, por exemplo, sempre foi um negócio engraçado. Os meninos são mestres nessas coisas. Os garotos daqueles tempos também. Aliás, também tínhamos nossos heróis japoneses. National Kid voava sobre Tóquio e sempre detonava os monstros vilões ao final do filme. Outro dia, revi um trecho do National Kid: vai voar mal assim lá nas arábias…

Outros tempos. No começo dos anos 60, computador era palavrão. O que se diria de computação gráfica e outros desses bichos tecnológicos modernos.

Bem, voando mal ou não, ele era nosso herói japonês.

Bairro de operários e pequenos comerciantes, o Tatuapé parecia uma dessas pequenas cidades interioranas. Quando alguém precisava ir á Praça da Sé, no Centro, dizia: eu vou à cidade. Como se vivêssemos em outro local que não na própria cidade de São Paulo.

A rua Bom Sucesso, asfaltada e recém iluminada, terminava em uma pracinha de terra. Os poucos automóveis que ali passavam pertenciam aos moradores daquele trecho de rua. Não havia movimento de veículos e, nos finais de tarde, dava pra se ouvir muito bem o barulho dos grilos lá da pracinha.

Tal silêncio só era interrompido, vez ou outra, pelo som do trem da Central do Brasil, que passava mais à frente, logo depois da praça.

É… bons tempos, mesmo! A gente nem precisava ter medo de sair à rua.

Lá pelas seis da tarde, banho tomado e com a série do National Kid devidamente atualizada, a garotada saía à rua. Brincava-se no meio da rua mesmo.

Não sei se a idéia foi do Francisquinho, o mais gordinho da rua. Mas, resolvemos promover um concurso de puns. O responsável pelo pum mais barulhento seria o campeão.

Havia uns dez garotos em nosso quarteirão. Todos mais ou menos entre os 9 e 10 anos.

Meninas?… nós só começávamos a reparar que elas existiam: a Miriam, a Denise, Angela, Ilze, Angelina…

Mas foi por causa da Dorinha, a mais velha delas – uns 12 anos- que um garoto passou a frequentar nossa turma: o Dagmar morava lá em cima, quase no final da rua e devia ter a mesma idade da Dora.

Nos intervalos das façanhas do National Kid, os reclames na TV tentavam vender os drops Dulcora, aquele que era embrulhado um a um. Era um tablete de drops que usava o slogan: Drops Dulcora a delícia que o paladar adora! Não demorou para que um de nós democratizasse a idéia: Dulcora, a delícia que o Dagmar a Dora. A gozação não abalou o Dagmar. Ele parecia mesmo apaixonado. Mas, tímido, não conseguia se declarar à Dorinha.

Paulinho, apesar do diminutivo, era o mais alto de nós. Magro e meio despachado, Seu pai era feirante. Vendia balas, doces biscoitos. Vez por outra, quando os sacões de biscoito de polvilho estavam no fim, o pai do Paulinho deixava ele trazer as sobras para a turma. Era apenas o farelo dos biscoitos mas… e a farra? O desafio era fazer alguém encher a boca com o farelo e dizer: minha mãe é rica porque pode. Invariavelmente o p de pode acabava virando ph, ou…f, pra se mais moderno.

Não sei se há explicação científica, mas tenho provas empíricas suficientes de que, depois de comer tanto farelo de polvilho, acabávamos todos, por assim dizer, virando um bando de balões de gás. Acho que foi daí que tiveram a idéia do concurso de puns.

Sábado, final de tarde. Minha tia Inês já tinha voltado da permanente na cabeleireira. Tio Zé Carlos engraxava seu mais novo par de botas. No baile iria rolar Ray Conniff para dançar de rosto colado e Chubby Checker, pra esquentar as cadeiras.Nós, no entanto, estávamos preocupados com outras emoções: hoje, o Dagmar iria se declarar à Dorinha.

Ficamos todos atrás do caminhão que o Seu Mário deixava estacionado na frente de sua casa.

Do outro lado da rua ( em frente à casa da Dona Aracy), o Dagmar: cabelo com corte americano curto máquina 1, calça nova com barra, camisa branca e pulover azul marinho.

– Olha lá, a Dorinha vem vindo!

Ela morava na pracinha.

Dava pra ler os lábios do Dagmar tentando relembrar o que ele devia ter ensaiado nos últimos quinze dias: você tem namorado; qual a sua religião (coisas de nossa educação no colégio das Irmãs); você quer namorar comigo?!

A Dorinha se aproximou.

Mal o Dagmar pôs as mãos nos bolsos, mostrando que iria começar a sua declaração e… uma explosão familiar ecoou pela silenciosa Bom Sucesso.

– O que foi isso?! gritou assustada a Dorinha.

Nada não! Era o Paulinho que acabava de vencer o concurso…

Você também pode contar um capítulo da nossa cidade. Escreva para www.museudapessoa.net. Ou agende uma entrevista, em áudio e vídeo, pelo telefone 2144-7150.

Conte Sua História de SP: Nascido na Aclimação

 

No Conte Sua História de São Paulo, Roberto Frizzo que nasceu em 1945 e passou a infância no bairro da Aclimação, em São Paulo. Na época, segundo suas próprias palavras, o bairro “parecia uma cidade do interior, era um bairro onde todo o mundo se conhecia” e o lugar permanece em sua memória como o ambiente da formação de sua identidade e de seu hábitos.

Acompanhe o texto enviado ao Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Roberto Frizzo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

“Sou fruto da Aclimação, bairro que tinha uma concentração de casas da classe média ascendente. Principalmente imigrantes italianos que, a bordo do crescimento econômico, acabaram se transportando da Mooca para lá. Avenidas largas, um bairro moderno, casas grandes, bonitas. A Prefeitura punha todas as novidades na Aclimação, que fica a 15 minutos do Centro: o primeiro microônibus, trólebus, papa-fila. O sujeito ia trabalhar de ônibus, voltava para almoçar, seis da tarde estava todo mundo em casa. As pessoas se conheciam. Os velórios eram em casa. Nessa altura tinha o castelo do Kowarick, que foi dono do Lanifício Kowarick. Eu cheguei, moleque, no início dos anos 50, a testemunhar filmes do Mazzaropi sendo gravados lá. Num determinado momento uma incorporadora comprou a área do castelo e construiu um conjunto de oito prédios em ferradura com playground. Foi uma das primeiras experiências desse tipo de moradia, tida então como moderna. Acabamos nos mudando para lá. O Kowarick era uma ilha dentro da própria Aclimação e me deu um momento importante de sociabilidade. Pra alguém de fora namorar uma menina do Kowarick, tinha aquelas rivalidades, o sujeito era espancado, como numa cidade do interior. Outra característica é que vieram estrangeiros preparar a mão-de-obra para nossa indústria automobilística, que estava começando. Americanos, franceses, dinamarqueses. Quando viram aquele projeto de vida, quadras, piscina, coisas com as quais estavam acostumados, optaram por morar lá. Morou lá o Faria Lima, que foi prefeito de São Paulo, o Jânio ia jantar lá, moravam deputados, cônsules. Nessa altura eu estudava no Mackenzie. Uma criança de 11, 12 anos podia ter sua chave de casa, tomar ônibus para a escola sozinha, a cidade não era violenta como hoje. A migração ainda era muito contida, a cidade tinha um padrão, e a Aclimação tinha um padrão excelente dentro da cidade, sempre muito bem servida de infra-estrutura. Eu tinha telefone, vi na casa de um vizinho a primeira transmissão de televisão – a TV Tupi sendo inaugurada, em 1950, com frei Mojica cantando”.

Conte mais um capítulo da nossa cidade, envie seu texto ou agende uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Brincadeira de criança

 

Roberto Samuel da Silva nasceu em 1962 em Alvorada do Sul, Paraná. Mas é a cidade de São Paulo, em especial o bairro Jardim Japão, que povoa suas memórias de infância. Para relatar essas lembranças, ele escreveu ao Museu da Pessoa em agosto de 2010.

Ouça o texto de Roberto Samuel da Silva sonorizado por Cláudio Antônio

Chegamos a São Paulo num dia frio e de muita garoa no ano de 1968, não sei em que mês. Viemos de trem da cidade de Alvorada do Sul, Paraná. Lembro-me pouco da viagem. Tenho uma vaga lembrança do trem. Na verdade, não sei se são lembranças ou histórias que meus pais contaram depois. Dizem que, durante a viagem, eu saí andando pelos vagões e teria me perdido. Meu irmão, João, é que me encontrou “vagando”.

Fomos morar no Jardim Japão, na rua Nigata. Acho que, na época, o povo chamava essa rua de Niagata. Ali passei minha infância e fiz meus primeiros amigos. Lembro-me do senhor Zacarias. Ele trabalhava em uma grande fábrica de pneus e me ensinou a torcer pelo Santos Futebol Clube. Esse senhor tinha três filhos e uma filha: Carlos, o mais velho, depois o Airton, o filho do meio, apelidado de Tito e o Rui, o mais novo dos meninos. A menina era a mais nova, chamava-se Sonia. Ela tinha a mania de chupar os dedos indicador e médio. De tanto chupá-los, ela ganhou duas verrugas neles. Ouvi essa história da matriarca dessa família, Dona Isolina. Achava-a bonita, no entanto, não lembro mais de seu rosto.

Eu era um “televizinho” deles, ou seja, um sujeito que não possuía televisão e ia à casa do vizinho para aproveitar um pouquinho daquela maravilha. Era uma TV da marca Telefunken.

Com mais ou menos a minha idade, havia uma garota chamada Marlene e um garoto chamado Cido. Brincávamos nas ruas e na enorme praça. Aliás o pai do Cido, “Seo” João, era vigilante e morreu, durante o serviço, no início dos anos 70, não lembro se foi de enfarte ou derrame. O então menino chorou muito. Coube à dona Maria Teixeira (lembrei do nome dela) conduzir a vida. Essa família era muito amiga da nossa.

Minha primeira escola foi a Escola Imperatriz Leopoldina, até hoje na rua Togo. Ali estudei até o quarto ano do primário. Dessa fase, guardo o nome de apenas duas professoras: Cecília, minha primeira mestra, e Sonia Agosto, a professora do segundo ano primário. Ah, havia também a toda poderosa diretora: Dona Ada.

Falando nisso, dia desses aconteceu algo muito estranho. Eu estava tomando uma cerveja com um amigo, hoje secretário de Esporte de Guarulhos, e falávamos do passado quando ele revelou que estudou nessa escola, na mesma época que eu, e era morador da rua Osaka, rua paralela à minha querida rua Nigata. Incrédula, pedi que ele dissesse o nome da diretora e confirmou: “Dona Ada”. Lembrou inclusive do “grande” porte físico que nos parecia ainda maior quando sua poderosa voz ecoava pelos corredores da escola.

A história parece-me ainda mais inverossímil quando esse meu amigo revela: “Morava ao lado da fábrica de balas”. Eu vivia por ali. Apenas para constar, todas as balas tinham o mesmo sabor: eram de açúcar puro, apenas açúcar. Mas havia papéis de várias cores e com desenho de diversas frutas. Um verdadeiro engodo. Mas eu olhava para o papel cheio de desenhos de abelhas e sentia o sabor de mel. Para complementar a renda familiar, era comum as pessoas pegarem essas balas para embalar em casa. Havia uma família na rua Osaka, com muitas crianças, que embalavam as balas e também ensacavam figurinhas.

Lembro-me do início das obras do Praça Oyeno, situada no centro do bairro e em frente à minha casa. Minha mãe chegou a fazer lanches e vender aos trabalhadores da obra, mas não deu muito certo. O parque ficou muito bonito. Muitas árvores foram plantadas e tinha até minas de água. Ele começava na avenida das Cerejeiras, seguia até próximo à rodovia Presidente Dutra. O lugar era bonito, pois as transportadoras ainda não tinham se instalado naquela região.

Morei também um tempo em uma casa da avenida das Cerejeiras. Foram tempos de muitas dificuldades. Meu pai lutava muito, éramos oito. Meu irmão João casou pouco depois de chegarmos a São Paulo e foi morar na Vila Maria Baixa, perto da avenida Guilherme Cotching. Apenas meu pai trabalhava. De vez em quando faltava alguma coisa, o feijão, a carne, o pão… Minhas irmãs, a Cida e a Cícera, começaram a trabalhar muito cedo para ajudar. Tenho um carinho e um respeito muito grande por elas. Se você acha que hoje existe exploração, nos anos setenta havia muito mais.

Em 1974, deixamos São Paulo e mudamos para a cidade de Guarulhos. Perdi o contato com meus amigos de infância e com os vizinhos. Tentei, ainda manter contato, mas meus amigos ficaram no passado.

Você participa do Conte Sua História de São Paulo enviando seu texto para o site do Museu da Pessoa ou agendando entrevista para gravar seu depoimento em áudio e vídeo

Conte Sua História de São Paulo: O bar automático

 

No Conte Sua História de São Paulo, Oliver Gomes da Cunha, natural de Botucatu, interior paulista. Veio morar na capital, em 1940, para fazer a faculdade. A história que você vai ouvir agora faz parte do acerto do Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Oliver Gomes da Cunha que foi ao ar no CBN SP, sonorizado por Cláudio Antonio


Quando chegamos aqui em São Paulo – meu pai me trouxe -, nos hospedamos no Hotel do Este, que era ali na Rua Boa Vista. Era um dos melhores hotéis de São Paulo. Dali fomos à faculdade tirar informações. Era a Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo. São Paulo era uma coisa estranha para mim, por causa do movimento que havia na época. Eu fiz o vestibular, acabei me classificando e fui morar com uma tia que morava no Brás, na Rua Oiapoque.

Comecei a viver São Paulo. Tomava bonde para vir à cidade, era um deslumbramento. Para conhecer a cidade tinha um bonde chamado 17 que saía do Brás, ia para o Largo do Arouche, dava uma volta enorme, passava pela Avenida São João, entrava na Consolação, dava uma volta enorme, e era um grande passeio. Eu me lembro de umas coisas interessantes na época.

Havia em São Paulo um bar chamado Bar Automático, não sei se ouviram falar nisso. O Bar Automático era um bar que tinha na Avenida São João, ali no primeiro quarteirão entre a Libero Badaró e o Anhangabaú. A gente colocava um níquel e caía um sanduíche, não tinha garçom, não tinha ninguém. Você botava uma moeda, o sanduíche descia o degrau, você pegava o sanduíche, punha a moeda noutro lugar, jorrava um copo de refrigerante. Quantas e quantas vezes esse foi o meu jantar, porque eu tinha que ir pra aula e não dava tempo. Então eu ia no Bar Automático, que custava barato, e gastava pouco. Eu vivia de mesada.

Outra boa recordação que eu tenho nessa época, já na fase de estudante, era o Bar Pingüim. O Bar Pinguim era situado em frente ao Correio, mas do lado da descida da São João, perto de onde tem a Praça Antônio Prado. Na esquina tinha um bar chamado Bar Pingüim, que era da Antarctica, e a gente ia beber chope, sentava lá e ficava bebendo até esborrachar. Foram coisas que ficaram na época. Em frente ao Bar Pingüim era o Correio, tinha evidentemente uma urbanização. A gente fazia uma brincadeira: os estudantes todos saíam da faculdade e iam tomar chope no Bar Pinguim. A gente fazia apostava para ver quem bebia mais chope sem precisar ir ao banheiro. Nosso companheiro ganhou a aposta, só que quando levantou ele estava todo molhado!

Este texto está publicado no site do Museu da Pessoa. Vá até lá e registre mais um capítulo da nossa cidade. Ou então, agende uma entrevista com o Pessoal do Museu, pelo telefone 2144-7150.

Conte Sua História de SP: Ouvindo minha avó

 

Regina Aparecida Lyrio nasceu em 1962 em São Paulo e sua infância foi marcada por momentos muito especiais ao lado da avó. Ela descreveu esses momentos no texto enviado ao Museu da Pessoa e reproduzido no Conte Sua História de São Paulo:


Ouça o texto de Regina Lyrio sonorizado pelo Cláudio Antônio

Tive o privilégio de ouvir tantas histórias de minha avó que às vezes acho que quem viveu aquelas histórias fui eu.

Minha avó materna, italiana, tinha muitos filhos e filhas. Morava cada vez na casa de um. Mas onde ela mais gostava de morar, segundo ela me confiava em segredo, era em nossa casa, onde chegou realmente a ficar mais tempo, indo à casa dos outros filhos pra ficar sempre por pouco tempo e para não deixar ninguém chateado.

Em nossa casa, dormíamos eu, minhas quatro irmãs e minha avó no mesmo quarto. Depois de todo o trabalho que minha mãe tinha, dar banho, escovar dentes e cabelos, dar remédios para minha avó, ela colocava todas nós nas camas, apagava a luz, fechava a porta e dizia:

– Não quero ouvir um pio.

Eu ficava olhando a fresta de luz debaixo da porta, que indicava que minha mãe ainda estava no andar de cima, pois só apagava a luz quando chegava na sala. Aí quase toda noite começava a festa!

Às vezes eu ia até a cama de minha avó, às vezes ela me chamava. Ela trazia consigo sempre o radinho de pilha ligado, geralmente ouvindo o programa do Zé Béttio (que me parecia ficar 24 horas no ar!).

Conversávamos sobre muitas coisas, coisas que ela não conseguia entender, fofoquinhas, mas o que eu mais gostava era que ela contasse ou recontasse as histórias da vida dela na roça, em fazendas de café, na casa de barro. Os partos em casa, os filhos que tinham morrido pequenos, como ela fazia o pão e o macarrão em casa, como era a colheita do café, onde ela comprava os panos para costurar roupa para toda a família.

Eram tantas, tantas coisas, um universo tão diferente do meu, que as perguntas eram muitas, e as histórias muitas vezes repetidas. É que eu queria entender! Aquelas histórias me acompanhavam todo dia, a todo lugar, mas eu não conseguia entender muitas coisas e voltava sempre a perguntar a ela:

– Como assim, a senhora ia para a plantação de café e deixava a tia Nica, ainda bebê, num buraco forrado com panos, debaixo de uma árvore? Não vinha nenhum bicho? Ela não chorava? Como assim, a senhora casou com nosso avô sem conhecê-lo, só por que seu pai mandou?

Até hoje, quando vejo um filme de época, ou uma novela em que aparece a imigração italiana, me envolvo de tal forma naquelas cenas, naquele clima, que me dá a impressão de que fui eu que vivi aquela realidade.

Você pode participar do Conte Sua História de São Pauloi enviando seu texto para o Museu da Pessoa ou agendando uma gravação em vídeo pelo telefone 2144-7150