Foto-ouvinte: Tantos postes no meio do caminho

 

Poste no meio do caminho

A prefeitura foi zelosa com os moradores de Cambuci – sul de Minas – e reformou a avenida, mas o desenho dos seus engenheiros não combinava com o dos postes da companhia de energia elétrica. Resultado: ir do Jardim Américo para o bairro Santo Antonio pela velha estrada rural se transformou uma prova de obstáculos. Cleber Lambert, ouvinte-internauta que registrou o fato, diz além dos postes do meio do caminho, a avenida ficou inacabada e o calçamento está solto, um transtorno para carros, bicicletas, pedestres, carroças e calaveiros que passam por lá.

De diferença

 


Por Maria Lucia Solla


Ouça “De diferença” na voz e sonorizado pela autora

não somos todos iguais

a gente só sente
a sede da gente
a sede do outro
é indecente

O que a gente quer, do primeiro ao último dia de vida, é matar a sede e a fome; cada um a sua.

tem o que sai afoito atrás de qualquer tigela
qualquer cálice qualquer panela
e tem o que nem se atreve a cogitar
da própria sede aplacar

Tem o redondo, o quadrado, o triangular, o hexagonal e quantas forem as possibilidades de forma e receita, na prateleira do universo e do seu inverso, que cantamos e choramos em prosa e verso.

tem o agitado e o modorrento
o que corre pelo prado
e o que voa
no impulso do vento

E é aí que nós vivemos, tentando encontrar a nossa turma, a mais parecida e a mais diferente possível pra preencher a fome lícita e aquela proibida.

E na sofreguidão, morremos de inanição. Temos fome, temos sede e fazemos dieta de tudo. Que ironia. Uma regra nova a cada dia.

Um brinde ao fim da tirania do bom, do belo, do bem-estar, do vintém, do que não convém, da atenção e da falta dela. Abaixo as listas de bem-ou-mal isto e bem-ou-mal aquilo. Morte às listas de isso é brega e aquilo é chique. Tem coisa mais brega?!

Eu às vezes me desidrato; outras me afogo, mas cá ou lá, brilhando ou opaca, respostas não tenho; nem chego perto. Quando me aproximo de uma, saio correndo feito o diabo da cruz, e me entrego à incerteza, que é vizinha da loucura, da arte e da beleza.

incerteza abre espaço
pra possibilidade
que nos embarca nas asas da fantasia
transformando em realidade
o que antes era massa de sonho

E é onde quero estar, dia após dia, dos abrires aos fechares dos meus olhos,

ficar contente
despir no palco da vida
o personagem carente
será que não dá pra notar
que ser
é a única maneira de doar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expresão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung,

Fetiche e celulite na Louis Vuitton

 

Por Dora Estevam

Depois do caso Galliano, a semana de moda de Paris não poderia esperar mais nenhuma surpresa. Engano seu ! Sempre é possível ir além.

E quem virou notícia (de novo) foi Kate Moss, que desfilou para Louis Vuitton em coleção que marca o inverno 2011-2012 da grife.

Mais do que a entrada espetacular da moça, o que realmente marcou e acabou na boca das comadres foi a celulite dela. Isso mesmo, ce-lu-li-te com todas as sílabas e marcas. A modelo, que já passou dos 30, enfrentou os holofotes da moda sem pudor. O que ela não poderia imaginar é que a comparação seria instantânea. Num momento pós-Gisele isso jamais deveria acontecer. É encarado como uma depreciação do modelo feminino.

Kate Moss não foi á única veterana na passarela, mas foi a que marcou. Afinal, é uma iconoclasta polêmica.

Além de tudo, a moça desfilou fumando em contraponto ao Dia Sem Fumo.  Dizem que até aplaudiram. Não sei se apoio à ideia ou gosto pelo arrojo. De qualquer forma, o look casaco de pele, luvas pretas e botas fetichistas faziam parte do tema da marca.

Tema que o diretor de criação  Marc Jacobs desenvolveu após uma conversa com Bernard Arnault do grupo LVMH sobre a “inexplicável” obsessão que as mulheres têm por bolsas.

O fetiche às fetichistas.

A produção do cenário, realmente, estava maravilhosa, com quatro elevadores antigos, porteiros de uniforme e tudo mais. As modelos entraram na passarela com fortes referências a bellboys, copeiras e arrumadeiras. Uma delas, a italiana Mariacarla Boscono, tinha em mãos um enorme espanador de penas de avestruz … e nos pés uma sandália de salto fininho entrelaçada quase até o joelho.

Casacos também fizeram parte da coleção, foram 65 looks de todos os tipos: casacos-vestidos estruturados, mangas volumosas, botões grandes; colarinhos tipo Peter Pan e calças jodhpur. Radicais foram os comprimentos, com modelos que terminavam logo abaixo do joelho.

De todas as coleções que vi nesta temporada, sem dúvida, a que mais marcou foi a Louis Vuitton. Usar o tema fetiche foi uma grande sacada. Nós mulheres temos um desejo irracional em conquistar bolsas e acessórios, não poderia ser diferente. Ainda que nem falei das peles dos casacos. São detalhes que não decepcionam o público feminino. Só precisamos encher os bolsos e as  bolsas de dinheiro para ter tudo isso.

Nada como um pouco de fetiche para agradar as retinas das editoras de moda. Marc Jacobs provou ser um artista brilhante, fez tudo terminar em triunfo com um grande show, magistralmente orquestrado por ele, que está na sua melhor forma.

A sensação de rigor que conseguiu criar, o desejo, obsessão, fetiche tudo inspirado na coleção, estavam alinhados. O casting que escolheu foi apenas o creme do bolo. Modelos veteranas e muitas brasileiras: Naomi Campbell, Raquel Zimmermman, Izabel Goulart, Aline Weber, Isabeli Fontana e Bruna Tenório.

De volta a celulite.

O caso  bastou para a editora do site Tendances de Mode, Coco, relembrar que, depois de criticar a perda de peso do Crystal Renn no documentário “Picture Me” de Sarah Ziff, o mundo da moda nos mostra, mais uma vez, a sua atitude com o corpo da mulher que pode ser esquizofrênico. E que além de tolerar as ideias duvidosas, seria melhor ficar em casa do que enviar uma mensagem negativa às mulheres geneticamente programadas para desenvolver celulite.

Sara Ziff disse ainda que, ao invés de se perderem em discursos grandiosos sobre anorexia na moda urbana, seria melhor apontar o dedo para a deficiência das supermodelos que já passaram dos 30 e querem continuar no pódio.

A quem interessar possa, cenas de “Picture Me” de Sarah Ziff:

Nada disso compromete o desfile: a coleção e a produção estão deslumbrantes, KateMoss foi e sempre será polêmica. Mas se cabe uma sugestão: só não podemos imitá-la nem com cigarrinho, nem com celulite.

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

De opção

 

Por Maria Lucia Solla

Chuva em São Paulo

Ouça De Opção na voz e sonorizado por Maria Lucia Solla

Olá,

quando eu era adolescente, entre os catorze e os cinquenta, tinha comigo uma sensação deliciosa que se manifestava o tempo todo, nas mais diversas situações. O meu acordar era seu momento favorito para mostrar que estava ali para ficar, e durante o dia pipocava: numa conversa solta com alguém, enquanto eu dirigia pela estrada sem fim. Ouvindo uma música que fazia ferver o sangue que corre pelas estradas de mim. No cinema, no teatro…

uma sensação folgada
iluminada
moleca
ilimitada
sem fronteira
nem preconceito
redentora

E não é que, depois de umas férias de mim, ela volta! Volta como se nunca tivesse ido embora, como se nunca nos tivéssemos afastado, firme e forte, vibrante, ágil como antes.

Noutro dia, quando abri os olhos, de manhã, lá estava ela, me acenando, sorrindo, se agarrando em mim. E eu não hesitei, me entreguei sem reserva, sem resistência, feliz com a volta dela. Fiquei rolando na cama, viajando na sensação, vendo de novo as prateleiras da vida abarrotadas de possibilidade, ideia, desafio, caminho, experiência. Onde eu posso tudo. Posso escolher o que ser. Posso ser padeira se quiser. Adoro fazer pão. Cada vez faço um pão diferente, é verdade; às vezes cresce, noutras não, um dia fica comprido e encorpado, no outro encolhido e embatumado. Mas eu faço.

Posso ser o que quiser, estar onde o meu dinheiro der, dizer o que me vier na telha, confessar, declarar, perdoar, fazer arte; ah! fazer muita arte. De todo tipo: arte artística e arte arteira. Preparar o almoço, fazer surpresa e ser surpreendida. Escolher morar onde quiser, economizar tostões ou gastar milhões. Sair de mim e passear na terra onde sim quer dizer sim, e não, não.

E de novo, cada dia que nasce, e num leque de lampejos ao longo do dia, vivencio isso tudo e me reinvento, como sempre fiz. Me lembro de que não devo nada, não tenho que, coisa nenhuma. Sou livre. Livre para desenhar e costurar os meus dias. Arrematá-los bem ou deixar os fios pendurados e sair pirilampa pelo mundo afora, saboreando o caminho, solta ou mendigando atenção e carinho,

entre o sonho e
o fato realizado
a ilusão e
a realidade palpável

vivi muitas vidas numa vida só

fui escrava
fui rainha
comi caviar
e sardinha
inebriada
fascinada
pela caminhada

Posso escrever, ler, subir, descer, chorar, rir, até tarde dormir, ou bem cedo acordar.

E você?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

As mulheres e o vinho

 


Por Dora Estevam

Quem pensa que as mulheres têm visão diferente da dos homens com relação aos vinhos está enganado. Hoje, mulheres e homens competem de igual para igual em vários setores e no vinho não é diferente.

É o que diz o Diretor de Degustação da Associação Brasileira de Sommeliers de SP, prof. Nelson Luiz Pereira. “Aliás, você pode ofender uma mulher oferecendo um vinho doce ou um moscato d’asti tentando agradá-la”, alerta.

Não existe uma fórmula pronta para a mulher começar a apreciar o vinho. O contato pode ser familiar, entre amigos ou em encontros corporativos. No geral, elas costumam ter preferência por sapato, marca de cosmético, de produto em supermercado. E com o vinho não fica distante.

Para o prof. Nelson, existem vinhos de estilo que eles chamam de “feminino”, elaborados com uvas Pinot Noir ou Merlot, por exemplo. Mas as preferências de um modo geral são bem ecléticas. Com isso, mulheres podem se agradar de vinhos com aromas florais e de frutas bem maduras. Sem generalizar, não costumam gostar de vinhos tânicos (aquele que amarra a boca, sensação de banana verde) nem muito alcoólicos.

Na apuração de gosto para vinhos, Nelson enfatiza que não há distinção entre homens e mulheres. Elas costumam ser mais detalhista, porém emocionalmente são mais instáveis, ou seja, adoram um vinho hoje, e não gostam tanto assim dele amanhã.

Como todo mercado intitulado masculino, no vinho não é diferente. Às vezes, o degustador tenta direcionar vinhos espumantes, champagnes e tintos mais leves para as mulheres – o que para Nelson é uma bobagem: a mulher pode tomar um vinho encorpado, sim.

E se falamos em bobagens, vamos a outra:

Garrafa masculina e garrafa feminina. A França ainda hoje dita regras de vinho para o mercado, e as garrafas borda lesas (mais estreitas e ombros mais retos) são chamadas de masculinas, pois o Bordeaux é um vinho mais viril. Já a Borgonha costuma fazer vinhos delicados e suas garrafas são largas na base com ombros mais suaves, explica Nelson.

Então, amiga, nem se preocupe se você nunca escolheu uma garrafa considerada feminina – nada disso revelará tendências. Comigo sempre acontece isso e prefiro as mais viris.

O brasileiro consome per capita mais de dois litros de vinho por ano. Não é muito. Nesta conta entram as mulheres que não ultrapassam um quarto deste volume. De qualquer forma já fazemos parte deste crescimento no país.

Geralmente, em uma saída a um restaurante quem escolhe o vinho são os homens. Só que isso, hoje em dia, está bem fora de moda. As mulheres estão mandando bem e, portanto, devem dividir a carta com o companheiro.

Acerte nos pratos e nos vinhos. O jantar ficará muito mais agradável e a conversa poderá girar em torno da carta de vinhos e da experiência de cada um.

Para as mulheres que estão começando a apurar vinho hoje, o diretor da ABS-SP, dá dicas importantes. Inicie-se pelos mais simples para depois provar os de sabores mais complexos – geralmente mais caros. Participe de degustações e faça um curso básico para aproveitar melhor este mundo fascinante (o da Associação Brasileira de Sommeliers é o mais completo do Brasil).

Se você tiver um grupo de amigas e amigos com o mesmo espírito, monte uma confraria sugere Nelson. As reuniões podem ser mensais, quinzenais ou semanais.

Agora, mulheres, a parte mais gostosa da história. Nosso amigo passou uma relação incrível e deliciosa de vinhos para comprarmos e consumi-los nos próximos dias. E uma excelente oportunidade e começar agora no Dia Internacional da Mulher, em oito de março.

Anote na agenda, são dicas das principais uvas facilmente encontradas em nosso mercado:

• Um Sauvignon Blanc da Nova Zelândia (vinho branco muito aromático)

• Um Chardonnay chileno da região de Casablanca (vinho branco encorpado)

• Um Pinot Noir da Nova Zelândia (vinho tinto delicado)

• Um Cabernet Sauvignon chileno da região do Maipo (vinho tinto encorpado)

Além destes, para aquelas que não dispensam um espumante, podem partir para os brasileiros, são muito confiáveis – diz Nelson.

Não deixe de conhecer o Blog Vinho Sem Segredo, do Diretor de Degustação da Associação Brasileira de Sommeliers Nelson Luiz Pereira, você pode encontrar muitas outras dicas legais. E se quiser conhecê-lo pessoalmente, Nelson é sommelier do restaurante La Cucina Piemontese em Alphaville.

Amei todas as dicas e já estou morrendo de vontade de tomar uma boa taça de vinho.

Dora Estevam é jornalista e, aos sábados, escreve sobre moda e estilo de vida no Blog do Mílton Jung

A foto que abre este post é da galeria de Ale J. Ven, no Flickr (veja mais aqui)

Quanto choro, ai, quanta agonia

 

Por Airton Gontow

(Nesta marchinha verdadeira,  quem marcha durante o ano inteiro somos nós, o Bloco dos Otários, dos motoristas de São Paulo que passam horas e horas diárias no trânsito. Neste desfile de descaso, nossas autoridades atravessam no Samba e em Sampa, em um verdadeiro Carnaval de incompetência. Sorte que temos humor e, claro, a mídia para comandar nosso grito, não apenas da Avenida, mas também nas ruas e ruelas de São Paulo…)

Quanto choro, ai, quanta agonia.
Mais de 100 mil palhaços no piscinão;
Motorista está chorando pelo descaso das autoridades.
No meio da Marginal.

Foi ruim sofrer outra vez
Tá terminando o dia
E o trânsito ainda não melhorou.
E sou aquele cidadão
que paga impostos
como o IPVA, meu senhor!

Os mesmos caras de pau
Que escondem a verdade
Eu quero acabar com a impunidade!
Vou protestar agora, não me leve a mal, não é Carnaval…
Vou protestar agora, não me leve a mal, não é Carnaval…

Contra promessas, Mapa de Rotas é saída para bicicleta

 

Bicicleta na pista

Foi com satisfação que comecei a ler a entrevista do secretário municipal de Desenvolvimento Urbano Miguel Bucalem, na Época São Paulo, edição de março, que está nas bancas. A manchete era convidativa: “Os carros serão usados apenas como opção de lazer”. Era do tipo pingue-pongue, pergunta e resposta, e logo soube que estão nos planos da prefeitura a entrega de 100 quilômetros de ciclovias até 2012, melhoria da circulação dos pedestres e novos corredores de ônibus, além de um planejamento voltado para 2020.

Quatro páginas e 18 perguntas depois caí na real. Ao ser perguntado sobre o que realmente seria entregue até o fim deste ano, Bucalem tascou: “O Complexo Padre Adelino – três viadutos com intersecções que levarão os motoristas provenientes de ambos os sentidos da Radial Leste a acessar a Avenida Salim Farah Maluf”. Motoristas de carro, é lógico.

E as ciclovias? Nem alguns metros dos quilômetros sugeridos? Quem sabe uma faixa exclusiva para os ônibus? Ou ruas privilegiando o pedestre?

Nada disso será contemplado em 2011. Mas, calma, tudo faz parte dos planos para a cidade.

Foi aí que lembrei de um experiente e pragmático editor de política da TV Cultura, Rui Rebelo, cansado de ouvir políticos prometendo maravilhas para dali quatro, cinco, dez anos: “jogue para o futuro e você nunca vai errar”, dizia ele, apostando no esquecimento do cidadão e da mídia para as promessas de médio e longo prazos.

A cidade dos nossos sonhos com ambiente urbano organizado, mobilidade garantida e carros como opção de lazer – assim dito pelo secretário à Época SP – estão na promessa deste e dos governos anteriores. Enquanto isso, confinamos os ciclistas a uma faixa que grita em tinta vermelha no asfalto que só deve ser usada domingo das 7h às 14h.

Leia este post completo no Blog Adote São Paulo, na Época São Paulo

Foto-ouvinte: Farol ecológico

 

Semáforo ecológico

“Se o semáforo está sempre no verde, podemos avançar?”, pergunta ironicamente o ouvinte-internauta Toninho Spindola, autor da curiosa imagem de um farol de trânsito na Av. Eng. Heitor Antonio Heiras Garcia, próximo do número 5.000, nio Butantã, zona oeste de São Paulo.

Taxistas abusados ocupam vaga de deficiente

 

Ponto de táxi ilegal

Motoristas de táxis transformaram as vagas para pessoas com deficiência em ponto fixo, no supermercado Carrefour, na avenida Giovanni Gronchi, no bairro do Morumbi, em São Paulo. Quem reclama é nossa colunista dominical Maria Lucia Solla que chegou a alertar funcionários do supermercado, que não parecem tão interessados assim em resolver o problema. Sem solução, resolveu registrar em foto a irregularidade e o desrespeito com o cidadão.

De Santorini

 

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Hoje quero pensar em prazer: alegria, cor, leveza, beleza e magia, ao som de banda de coreto, que sempre me faz emocionar e me faz chorar. Quando estou muito feliz, meu prazer alcança o limiar da dor. Um lugar de pura magia; alquímico.

Quero pensar na sofisticação da simplicidade que traz consigo satisfação, no mar, nas ondas que dançam, dançam, e se expressam, cantando, no dançar.

Quero pensar no sol queimando a pele, sem culpa de me deixar seduzir por ele, sem culpa de passear pelo passado e sem culpa do privilégio de poder me lembrar.

Quero tomar um καφές με κονιάκ (café com conhaque), de frente para o vulcão, hipnotizada pelo mar, sem saber onde termino e onde começa ele. Ouvindo o Adagio de Albinone e escrevendo um cartão postal para o meu pai. Obrigada, pai, pela vida, por eu estar aqui neste mundo, por poder ver tanta beleza e sentir tanta emoção.

Nesse momento da minha vida eu já era executiva, independente, descasada mais de uma vez, mãe de dois filhos criados e independentes. Não agradecia por um presente que se compra com dinheiro. Há muito tempo minhas viagens eram presentes meus para mim mesma. Agradecia por ter me trazido à vida e ter me conduzido com cuidado e estratégia para que eu fosse firme e digna, diante do mundo. Ele era responsável pela magia da minha vida.

Quero pensar num passeio de moto pelas vias rochosas e dar de cara com o mar.

Quero comer frango assado com batatas ao sabor de limão siciliano.

Quero salada grega, o queijo feta original e o orégano que vem rindo na travessa, de tão vivo que está.

Quero as buzúquias, os grupos de dança que me puxavam para o palco e me faziam perceber que eu já nascera dançando aquela música, que eu nunca existira antes de estar naquela roda.

Quero a areia pedregosa, de seixos de lava vulcânica. Quero os velhos da cidade dizendo : Υειά σου, Μαρια! olá, Maria, quando eu passava no caminho para o mar e de volta para casa.

Quero assistir aos barcos voltando da pesca, as mulheres agradecendo a Deus pela volta dos seus homens e as velhas de lenço preto na cabeça, passando a limpo a vida dos outros, nas calçadas.

Quero olhar mulheres e homens caiando muros e calçadas, apagando as pegadas do turista que fugiu do vento que sussurra a verdade, levando na mala a fantasia vivida.

Quero sempre e quero mais.


Ouça “De Santorini” na voz e sonorizado pela autora


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung