Por Maria Lucia Solla
Ouça Da Grécia na voz e sonorizado pela autora
O jornal Zero Hora trazido de Porto Alegre pelo meu fiho Luiz Fernando estampa na capa: “Brasil socorre Grécia com US$ 286 milhões”.
Não sei o que significa essa quantia para você; para mim é dinheiro que não acaba mais, e me faz curiosa. Quero saber que tipo de socorro é esse e leio a matéria.
Pelo que entendi, o FMI – Fundo Monetário Internacional correu a cestinha por alguns países que já foram socorridos antes, e que portanto não podem nem fingir que estão rezando, olhos semicerrados em fervorosa prece, nem que não viram a cestinha passar.
Ainda pelo que pude entender, se todo mundo não participar dessa vaquinha, a vaca vai pro brejo, no mundo todo.
Queria ser uma mosquinha para ver o que acontece nesses bastidores. Ou melhor, não queria não. Já vi gente morrer de overdose muito menor e menos letal.
Mas voltando ao socorro, o negócio foi quebrar o porquinho e meter a mão no bolso.
Agora, se você ingenuamente credita no que eu acreditava, pode mudar o canal, pode desviar a atenção porque mesmo esse socorro compulsório vem com vantagem embutida no pacote. Os países que emprestam na verdade estão investindo. Tipo agiota ou gerson: sempre leva vantagem.
Ainda confessando minha ignorância do tema, vejo o FMI como um Banco Big Brother planetário, que pega cá dá lá, e vice-versa, e leva o seu.
Esses milhões, que no caso são duzentos e oitenta e seis, saíram da nossa reserva internacional. Vou parar por aqui porque não conseguiria nem explicar para um neto meu o que é reserva internacional. Seria um fiasco. Não sou boa para números. Finanças, então…
Aprendi ainda, lendo a matéria, que eu tenho, tu tens, ele tem, nós temos US$ 249 bilhões na reserva internacional e o Brasil vai investir, quero dizer socorrer a Grécia com parcos US$ 286 milhões.
Se você se pergunta o que é que deu em mim para me meter a falar do que eu não entendo – e nem quero entender – eu explico: Não foi a transação financeira que me chamou a atenção.
O caso é que eu amo a Grécia.
Tenho uma ligação incrível com a terra, a cozinha, a música, o idioma, a gente. Pedras, vulcão, mares azuis como o céu de primavera, carneiros assados, batatas ao forno, tudo regado abundantemente com azeite da absoluta melhor qualidade e com limão siciliano. Terra das buzúquias e do mussaká. Da dança, de tragédia e de alegria. Alegria que nasce dali: da tragédia. Quando a tragédia atinge seu ponto máximo é que a gente encontra o chão – o fundo do poço – e consegue dar impulso para de novo respirar.
Com os gregos não é diferente: de tanto treinar, século após século, após século, esse mecanismo se automatizou.
na Grécia a arte faz parte do dia a dia
há tragédia na dança
e dança na tragédia
ali tudo é criação
comida música beleza história e dança
em qualquer situação
Numa casa grega com certeza, se come em volta do fogão, do lado, na frente ou atrás dele, dependendo da arquitetura da cozinha. Muda a cozinha, muda o endereço, e a festa em volta da mesa e do fogão é a mesma.
Enfim, o que vai acontecer com a Grécia?
Não sei. Só sei que muitos gregos que conheci trabalham para o governo. São funcionários públicos; ele ou ela, ou ele e ela e toda a família. O governo paga regiamente e oferece inúmeras vantagens como a de servir a pátria em Nova Iorque ou São Paulo, ganhando em euros mais moradia garantida e viagens de férias para a mãe pátria, duas vezes ao ano.
Eu poderia falar ainda da tristeza de voltar a Atenas e ver o centro, a praça Syntagma modernizada.
O berço do mundo virou cama-box!
E agora vou ouvir um pouco de música grega e sonhar que tudo vai bem, obrigada.
Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung




![11[6] 11[6]](https://miltonjung.com.br/wp-content/uploads/2010/05/116.jpg?w=676)





