Pauta do dia no #CBNSP

CBN SP

 

A demanda por entrevistas que foram ao ar no CBN São Paulo nem sempre é atendida no Blog. O pessoal ouve no rádio e depois quer conferir o assunto, reproduzir em seus blogs ou sites, discutir com outras pessoas o tema, mas não encontra o material por aqui.

Para atender estes pedidos, a partir de hoje vou publicar diariamente o post ” Pauta do Dia no #CBNSP” onde estarão os links para o material divulgado no programa. É escolher e clicar.

As entrevistas serão postadas no decorrer do dia e, portanto, pode ser que no momento em que você entrar no blog esta ainda não esteja por aqui. Mas lembre-se que boa parte delas já estará na página da rádio CBN São Paulo na internet.

Vamos a pauta desta terça-feira, dia 09.03:

Consumidor – Correios diz que não tem prazo para se adaptar a Lei da Entrega em vigor no estado de São Paulo desde novembro de 2009, mas que processo para se adequar às regras já se iniciou. A entrevista foi com o diretor regional dos Correios na região metropolitana José Furian Filho. Ouça, também, o que disse o diretor Roberto Pfeifer do Procon de São Paulo em entrevista ao CBN SP, na segunda-feira, 08.03.

Educação – Um estudo do Unicef mostra que na avaliação de crianças e adolescentes o acesso a atividades extras nas escolas é restrito. O CBN SP mostrou que estas ações podem ter resultados positivos no desenvolvimento dos jovens e entrevistou a diretora do Grupo Artes Simples de Teatro que está há um ano em Heliópolis, Tatiana Rehder.

Assistência Social – O programa Bolsa Família atende 110 mil famílias na cidade de São Paulo, isto significa apenas 1/3 do total de pessoas que poderiam ser beneficiadas. Para ampliar o programa, o Governo Federal repassou R$ 4 milhões à prefeitura que é responsável pelo cadastramento dessas famílias. O serviço se inciará em abril, segundo a diretora do Departamento de Cadastro Único do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome Létícia Bartholo de Oliveira e Silva.

Trinta anos para não serem esquecidos

 

Os anos de 1950 a 1980 marcaram a profissionalização do setor de transportes no Brasil. Inovações adotadas até hoje surgiram neste período que foi crucial para a indústria e o serviço de ônibus

Caio Bossa nova, o primeiro com estrutura tubular, um grande avanço

Por Adamo Bazani

Suspensão pneumática, banheiros e poltrona-leito em ônibus; direção hidráulica, regulamentação sobre o uso de registros de velocidade, níveis de ruído e extintores de incêndio; ônibus articulados, veículos a gás natural e a álcool; ônibus de três eixos, carrocerias mais leves e linhas de grande distância.

O que hoje parece ser algo normal que sequer nos chama a atenção quando andamos de ônibus foi fruto de uma série de pesquisas e resultado do trabalho de pioneiros de empresas e fabricantes. Gente e grupos que, muitas vezes, artesanalmente, mediante as necessidades que apareceriam na operação das linhas, fabricavam componentes e soluções. Muitas destas necessidades, que antes eram itens de conforto e hoje são de série, foram trazidas por empresários e motoristas que na prática sentiam as dificuldades em operar os transportes, desde os anos 1950 – período em que era possível distinguir enormes diferenças no país: enquanto em algumas regiões a situação era de atraso, com vilarejos de estradas de barro, que apresentavam uma condição quase impossível de transporte, outras, muito próximas, já se desenhavam como grandes centros urbanos.

Dentro do contexto desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, presidente de 1956 a 1961, que construiu Brasília, levou crescimento ao Centro Oeste e impulsionou a indústria automobilística, o setor de fabricação e operação de ônibus aproveitou a onda e arregaçou as mangas.

Até os anos 1950, apesar de algumas encarroçadoras como a Grassi, já estarem constituídas no Brasil, a fabricação dos ônibus era artesanal. Na prática, não se fabricava ônibus no Brasil. Os chassis próprios para o veículo eram importados e na maioria das vezes as carrocerias eram adaptadas em chassis para caminhão, com pouco conforto para os passageiros. Neste aspecto se aliavam dois fatos que puniam quem usava ônibus: o chassi de caminhão tem feixes de mola mais duros, portanto, balançam mais. Imagine isso, então, em ruas e estradas de terra.

A partir de Juscelino, novas estradas foram construídas. Se por um lado, os ônibus começaram a viagem rumo a modernidade e ao conforto para os passageiros, por outro houve o sucateamento do sistema ferroviário, principalmente para transporte de pessoas, considerado o modal mais apropriado para atender grandes massas, com rapidez e menor poluição.

Atualmente, a indústria brasileira de ônibus é considerada uma das mais modernas do mundo. Claro, há muito ainda que aprimorar. Mas os principais problemas hoje estão no gerenciamento e operação do sistema, já que a indústria nacional apresenta soluções tão avançadas que são usadas fora do País. Algumas, aliás, não são implantadas por aqui por falta de estrutura, como combustíveis limpos e veículos de grande porte – a exemplo dos de dois andares urbanos.

Os anos de 1950 a 1980 foram cruciais no desenvolvimento dos ônibus no Brasil. E foi o período em que surgiram grandes empresas e linhas bastante extensas, algumas chegando ao exterior.

Com base em pesquisas a partir de diversas fontes, como catálogos de montadoras e encarroçadoras, propagandas de empresas de ônibus, sites especializados e vídeos, além da consulta a obras de pesquisadores renomados – cito em especial Waldemar Correa Stiel – , o “Ponto de Ônibus” se propões a trazer os fatos mais marcantes que transformaram esta indústria e a transformaram em uma das principais do mundo.

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Cemitério de aviões da Vasp

 

Restos da Vasp

Dez aviões se desmancham em uma área reservada do aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, e chamam a atenção da repórter Pétria Chaves todas as vezes que sobrevoa próximo do local com o helicóptero da CBN. As aeronaves são da Vasp e estão desativadas desde 2000, pelo menos. Existem mais quatro em Guarulhos e outras espalhadas pelo Brasil totalizando 27 aviões na mesma situação.

A jornalista Carolina Marcelino conversou com o advogado Alexandre Tajra, responsável pela massa falida da Vasp. Ele informou que um leilão foi realizado em junho do ano passado mas não houve interessados na compra. Em 2010, haverá mais uma tentativa e se a venda não for fechada é possível que todas estas aeronaves se transformem em sucata, disse o advogado.

Os equipamentos estão sendo depenados segundo descrevem ex-funcionário da empresa e a visão que se tem desses aviões não é nada animadora.

A Infraero está como depositária das aeronaves e a área em que estão “estacionadas” era da Vasp mas foi reintegrada à estatal responsável pelos aeroportos brasileiros. A dívida estimada da companhia aérea é de R$ 3,5 bilhões. A Vasp foi fundada em 1933 e parou de operar em 2005, quando já estava com sua imagem deteriorada – tanto quanto seus aviões.

Foto-ouvinte: Engarrafamento de bicicleta, São Paulo tem

 

Congestionamento na ciclovia

Poderia ser visto como sinal do sucesso, mas é de desorganização, mesmo. Inaugurada há menos de duas semanas, a ciclocia do rio Pinheiros tem apenas duas áreas de acesso e em uma delas houve congestionamento de bicicletas, neste domingo. De acordo com o ouvinte-internauta Ivson Miranda os ciclistas tiveram de esperar quase meia hora para sair da ciclovia pela passarela da Estação Vila Olímpia, na zona oeste. “É isso que acontece quando uma obra é inaugurada com pressa e sem uma boa consultoria técnica”, reclamou por e-mail.

Agora o outro lado

O presidente da CPTM Sérgio Avelleda explica que o congestionamento na saída da ciclovia, no fim de semana, se deu pelo grande número de ciclistas – mais de 3 mil, segundo ele – e apenas no horário de pico, mais próximo do meio-dia. Ele entende que com a inaguração de mais acessos – o próximo será na estação Santo Amaro, em 15 dias – a situação não se repetirá.

Ouça a entrevista de Sérgio Avelleda ao CBN SP

Deusas do cotidiano

Por Sérgio Vaz

“De todos os hinos entoados em louvor às revoluções nos campos de batalhas, nenhum, por mais belo que seja, tem a força das canções de ninar cantada no colo das mães.’

O nome dessas mulheres eu não sei, não lembro e nem preciso saber. São nomes comuns em meio a tantos outros espalhados por esse chão duro chamado Brasil.

Mas a maioria delas eu conheço bem, são donas de um mesmo destino: as miseráveis que roubam remédios para aliviar as angústias dos filhos. É quando a pobreza não é dor, é angústia também. São as ladras de Victor Hugo.

Donas da insustentável leveza do ser, as infantes guerreiras enfrentam a lei da gravidade. Permanecem de pé ante aos dragões comedores de sonhos que escondem na gravidade da lei.

Das trincheiras do ninho enfrentam moinhos de mós afiadas para protegerem a pança dos pequeninos. São as Quixotes de Miguel de Cervantes.

Místicas, não raro, estão sempre nuas em sentimentos. Quando precisam, cruas, esmolam com o corpo, e se postam à espera do punhal do prazer que cravam no seu ventre. È quando o prazer humilha. São as habitantes do inferno de Dante.

Rainhas de castelos de madeiras, sustentam os filhos como príncipes, e os protegem da fome, do frio, e da vida dura e cruel que insiste em bater na porta das mulheres de panela vazia. Quanto aos reis, também são os mesmos: os covardes dos vinhos da ira.

Mágicas, esses anjos se transformam em rochas, quando a vida pede grão de areia. Em flores quando rastejam, em espinhos quando protegem.

Essas mulheres são aquelas que limpam tapetes, mas não admitem serem pisadas.

Riscam papéis, limpam máquinas e consertam crianças que nascem com o sonho quebrado.

São domésticas, mas não admitem serem domesticadas.

E riem quando suam sob lágrimas e sangram o perfume da violeta impune estampada no rosto, que de rosa, não tem nada.

Sim, elas são as deusas do dia a dia.

Sérgio Vaz é poeta e criador da Cooperifa

De perdidos e achados

 

Por Maria Lucia Solla

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No interminável processo de colocar minha casa em ordem, tenho encontrado de tudo, em toda parte; mas são os livros, como sempre, a maior fonte de tesouros. Vou folheando, matando a saudade e encontrando fotos, bilhetes, dedicatórias de amigos, cartas e cartões de embarque de empresas aéreas. Cartões feitos de papel cartão, que serviam de marcadores de livro, durante a viagem. Hoje, fico sem graça quando recebo o papelucho amarelento de máquina registradora fantasiado de cartão de embarque. E a passagem, então? Rebento da mesma cepa; fácil de confundir com o recibo do café com pão de queijo engolido às pressas, antes do embarque, para evitar o mini pacote de salgadinhos servido a bordo, acompanhado de suco ou refrigerante, para fazê-lo escorregar mais facilmente garganta abaixo.

Mas o que eu quero dizer é que, mexe daqui, organiza dali, no meio da arrumação, num exemplar de O Profeta, de Gibran Khalil Gibran, encontrei um papel dobrado e amarelado pelo tempo, onde eu reproduzira à máquina esta oração:
Solla

E depois de ter lido isso, meus amigos, não encontrei mais nada digno de ser dito.

Boa semana, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeura, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung, sempre com algo digno a nos dizer

Lugar de homem é na cozinha

 

Por Dora Estevam

Imagem de Alexandre Severo http://www.flickr.com/photos/severo/

No fim de semana, recebemos um convite para jantar na casa de uns primos. O convite feito pela prima Lílian trazia um aviso especial: “o jantar será feito pelo Marcelo.” Hum ! Que delícia, convite irrecusável.

Além do menu, Marcelo também pensou no vinho adequado para cada prato servido, vez que escolheu um menu degustação.  Um verdadeiro chef tem que pensar em tudo: coordenar, elaborar, planejar, criar, pesquisar e executar como se fosse um comandante de navio – é o que ensina o professor Daniel Frenda, da Faculdade de Gastronomia da Anhembi Morumbi, SP.

É interessante porque eu mesma adoro fazer jantares, receber convidados, amigos e parentes, só que na minha casa eu preciso fazer tudo, desde a elaboração do cardápio, passando às compras, até a decoração da mesa.  Na hora de servir eu preciso dar atenção aos convivas e à cozinha para nada sair errado. Fico dividida entre os dois ambientes: sala e cozinha. Se contrato uma copeira, a preocupação é a mesma.

Agora, imagine-se na casa da prima Lilian. Nós ficamos conversando o tempo todo. Ela não precisou se preocupar com nada. Não é incrível?

Marcelo adora cozinha; Daniel faz a cozinha adorável

Marcelo adora cozinha; Daniel faz a cozinha adorável

O meu marido não faz nada na cozinha, eu já sabia o motivo, mas não resisti e quis provocar a minha sogra: por que a senhora não ensinou o seu filho a cozinhar? A senhora sabia que muitos homens vão pra cozinha e fazem pratos maravilhosos?

A resposta: “minha filha, no meu tempo homem nenhum entrava na cozinha, só mulher. No meu prédio, eu chamava as mulheres pra ensinar culinária, elas aprendiam e depois faziam os almoços e convidavam os maridos. Ou seja, eles só iam lá para comer”.

A minha sogra que me desculpe, mas na longa conversa que tive com o professor de gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi, uma das mais importantes na área em São Paulo, Daniel Frenda, soube que na história da humanidade as cozinhas sempre foram dominadas por homens. E são vários os motivos: tinha que ter força para os trabalhos braçais (grandes sacas de comidas e enormes panelas) e o domínio dos funcionários para executar a enorme equipe. À mulher estava reservada a parte leve. Fazia os doces.

Diz o professor que o homem sempre gostou de cozinhar. Note que na alimentação caseira, quando tem que preparar um churrasco ou uma paella, quem esta à frente é sempre ele.  Frenda só lamenta que a cozinha caseira venha perdendo qualidade: os homens, interessados pela cozinha sofisticada e internacional, e as mulheres, com a revolução sexual, não querem saber de cozinhar, compram quase tudo pronto – comidas que vão direto para o microondas.

O professor tem razão. Veja só o cardápio que tivemos o prazer de saborear na casa dos primos Marcelo e Lílian:

Menu

Minhas anotações:

O folhado é do Fauchon (dispensa comentários); o relish da Cia das Ervas; e as torradinhas, como devem ser, sem sabor e pouco sal. O Foie gras com torradas feito com bolo de nozes da Casa Suiça, e o camarão é presente de aniversário da sogra. Sem contar a delicadeza de servir um sorbet de pitanga para mudar o paladar e depois do jantar um pouporri de doces. Além do café e do licor.

“Ir para cozinha por hobby é muito prazeroso e relaxante: começo com as compras, faço visitas em mercados, supermercados, feiras, adegas, ,mercadão e afins. Escolher o produto, ler, aprender sobre cada coisa que você pretende usar, ouvir pessoas mais experientes … Tudo isso transforma o ato de cozinhar numa mistura de sentidos, num sinergismo, inigualável: visão, olfato, audição, tato e paladar se unem e se completam com o sexto sentido que é o equilíbrio” confessa o chef Marcelo, ortopedista por profissão.

Marcelo também já fez cursos, gosta muito de ler e quando viaja sempre vai às feiras e mercados só para sentir os sabores locais: “Não sou um Bourdain que fez ‘em busca do prato perfeito’, mas procuro provar coisas que deixem minhas papilas gustativas em festa”.

Que trabalho, hein!

Como diz o professor Daniel – a propósito, um publicitário que mudou de profissão após descobrir que o talento estava na culinária -, gastronomia se aprende para sempre: 1% é aspiração e 99% é transpiração.

E como? Meu primo que o diga!

E você, querido leitor, tem algum menu especial para sugerir?

Dora Estevam é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung aos sábados sobre moda e estilo de vida – e está devendo um jantar para o editor.

N.E: A foto do fogão é da galeria de Alexandre Severo no Flickr; a de Daniel foi feita pela Katiuska Azevedo; e do Marcelo pela mulher dele

Piratas e picaretas da sociedade moderna

 

Por Rosana Jatobáhttp://www.flickr.com/photos/paratyemfoco/

Depois de bater perna pela Oscar Freire, atraída pelas vitrines em liquidação, Patricia avisa à amiga:

-Preciso ir na 25 de março. Tenho que comprar minha Gucci. Soube que os coreanos estão fazendo cópias perfeitas!
– E se alguém descobrir que é falsa?
– Do jeito que eu sou fina e descolada, a maioria vai olhar pra mim, arder de inveja e constatar : ela é bem-sucedida! No meu metier, é preciso usar certos ícones de status social…
-Você não acha melhor ir até a loja da Gucci no shopping e investir numa bolsa verdadeira? Você terá um produto de qualidade, que suas netas poderão herdar. Veja o custo-benefício.
– Você acha que eu tenho R$ 3 mil pra dar numa bolsa?
– Mas eles dividem em até 5 vezes no cartão.
– Nem se dividissem em 20 vezes! Acho um absurdo a ganância desses  empresários da moda internacional.
– E quem paga a pesquisa feita pra desenvolver um produto como este? Quem paga a matéria-prima de primeira?  E o trabalho artesanal? Já ouviu falar em propriedade intelectual?
– Não sei quem paga. Eu é que não pago!!

A conversa se esvazia na abordagem superficial dos direitos do autor.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, O jornalista italiano Roberto Saviano lança o livro Gomorra, em que revela o modelo de produção de grifes italianas. Para reduzir os custos, tercerizaram os serviços de tecelagem, normalmente em países da Ásia, por meio de um sistema de concorrência.

A grife desenha as roupas e entrega os modelos para inúmeras pequenas confecções. Imigrantes ilegais trabalham dia e noite, num regime análogo ao da escravidão,obrigados a produzir mais e em menos tempo. A confecção que ganha a concorrência é paga. Quem perde, não ganha nada, mas pode ficar com as roupas produzidas. Este “encalhe” vai para as mãos de comerciantes informais. O mercado é inundado por roupas e acessórios piratas infinitamente mais baratos do que os originais e com um alto padrão de qualidade.

Dos guetos de Pequim para a 25 de março, a bolsa da Patrícia chega de navio, invisível aos olhos de quem fiscaliza.

Eu pergunto: Se a poderosa indústria da moda não garante um processo de produção social e ambientalmente responsáveis, quem vai exigir tal responsabilidade do consumidor?
Eu respondo: Historicamente, as leis criadas para proteger a propriedade e o lucro são mais severas e efetivas do que as que foram implantadas para defender a vida e a dignidade.

Ali mesmo na 25 , o motoboy Gilvan encontra o desejado DVD que vai assistir com a família no fim de semana. Mas antes ouve a provocação do colega de profissão.

– Seu Capitão Gancho do asfalto, qualquer hora dessas tu vai ser preso. Pirataria é crime!
-A 25 tá cheia de polícia e em toda esquina tem venda de produto pirata, perante os homens da lei. O próprio presidente Lula assistiu a “Dois Filhos de Francisco” em cópia pirata. Se eu posso comprar o dvd por R$ 4, por que pagar R$ 40 ?
– Tá sonegando imposto e incentivando o crime organizado!
– Se eu pagar imposto, aí é que vou incentivar o crime organizado. Ou você conhece quadrilha mais organizada que o governo, que toma os impostos e não devolve nada ao povo? Pelo contrário, enfiam o meu dinheiro nas meias e cuecas. “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. E eu ainda tô ajudando o camelô, coitado, que tá trabalhando em vez de assaltar por aí.

Enquanto isso, o Pesquisador Pablo Ortellado , do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPOPAI), da Universidade de São Paulo (USP), legitima o comportamento do Gilvan:

“Vejamos o caso da pirataria comercial, na venda em camelôs, que é uma transação comercial e um empreendimento de capital de pequeno porte. Quando esse tipo de pirataria é voltado para o segmento popular, ele tem a característica de oferecer às pessoas pobres o acesso a bens culturais digitais. O benefício comercial é enorme: a estimativa é de que se multiplica por sete o acesso à música e por 2,5 aos filmes. Isso não causa prejuízo significativo para a indústria porque essas pessoas estavam excluídas do mercado, pois não têm meios econômicos para pagar R$ 30 em um CD ou R$ 60 em um DVD”.

Numa outra universidade, o aluno Marvin sente-se à vontade para contar como usa os programas de compartilhamento na internet:

– Faço parte do grupo musical da minha igreja e posso afirmar que mais de 70% dos CDs e Playbacks utilizados por grupos e corais são piratas. Quem nunca usou uma imagem em seu blog que não foi criada pelo próprio blogueiro? Quem não baixou ou deixou alguém instalar um programa sem a compra da licença? Será que todos os programas que tem no computador foram comprados numa loja de produtos de informática?

Marvin engrossa as estatísticas. Entre os brasileiros que têm Internet em casa, 45% revelam que baixam conteúdo pirata.

Eu pergunto: Sendo a Internet uma rede baseada em computação digital, copiar arquivos digitais ou baixar um arquivo que está disponível é pirataria?

Desta vez quem responde é Sérgio Amadeu da Silveira, sociólogo e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.

“Os negócios construídos no mundo industrial não têm mais sentido nas redes digitais. No mundo das redes digitais, quando alguém copia um arquivo, não está tomando nada do original. É equivocada a ação das indústrias de copyright no mundo das redes digitais. Falar para não copiar nas redes digitais é ir contra a natureza técnica das próprias redes. A indústria agonizou sem se adaptar à nova situação tecnológica do mundo, e optou por reagir à pirataria de uma maneira repressiva. Só agora, há cerca de dois anos, é que efetivamente começou a desenvolver novos modelos de negócio, com a venda de música digital a preços mais baratos.

Patrícias, Gilvans e Marvins representam a parcela de 72% da sociedade que admite já ter utilizado um produto pirata.

Antes da crítica feroz, vale uma reflexão.

Tomemos o cuidado de não virarmos Piratas Sociais. Seres que ouvem ou lêem as versões lançadas pelos governos ou pela indústria, se apropriam das informações oficiais, e tecem longos discursos moralizadores.

A Sustentabilidade prega uma sociedade múltipla, em que todos são ouvidos e valorizados em seus desejos e necessidades.

O crescimento econômico não pode ser um fim em si mesmo, mas uma forma de atingir objetivos sociais, respeitando o meio-ambiente.

Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade e consumo.

Veja mais imagens da Galeria de Exposição Coletiva do Paraty

José Mindlin, o eterno doador de livros

 

Por Suely Aparecida Schraner
Ouvinte-internauta

jose mindlinUma viagem ao mundo dos sentidos. Era 1962. Festa de natal dos funcionários da Metal Leve, em Santo Amaro. Farejou o aroma dos comes e bebes. Pais e filharada tudo junto. O pai, faxineiro e oito filhos. Bom ‘salário-família’, na época. Somados todos os filhos, salário fixo mais que dobrava.

Ela vibrava com os sons da alegria que chegavam aos seus ouvidos, anunciando presentes nem sequer sonhados.

Saboreou os sanduíches fartos e sucos que não eram Tubaína nem Grapette. Gostou dos doces que não eram Neuza nem Paçoquinha .E tinha maçã do amor.

Tateou seu pacote e sentiu o coração acelerar. Tinha brinquedo e tinha um livro: Uma Folha na Tempestade, de Lin Yutang. Seu primeiro livro novo.

Deslumbrou uma nova viagem literária. O prazer de ler que sua vista alcançava, era: revistas velhas ‘Sétimo Céu’, a revista Detetive e X-9. Também qualquer outra sobra que encontrava. Até bula de remédios.

José Mindlin, maior bibliófilo do país, advogado, empresário, conselheiro, entre outras coisas. Não tinha dificuldade em conciliar os múltiplos interesses. Os livros, um fio condutor de uma vida inteira. Percorrendo diversos caminhos ao longo dos seus 95 anos, foi um divisor de águas na vida daquela menina. Plantando sementes, gerando novos leitores.

Sempre viu a empresa como uma instituição de progresso coletivo, com obrigações sociais incluindo a cultura. Sentindo-se um peixe dentro d’água na imersão nos livros e na responsabilidade social. O interesse cultural desde sempre.

Passados mais de quarenta anos, ela lhe escreveu contando sobre o quanto a atitude em dar livros de presente na cesta de natal, foi importante em sua vida.

Dias depois, uma resposta amável e outro livro de presente: ‘Uma Vida entre Livros’de José Mindlin. Um eterno doador de livros a despertar ternura e saudades.

Admiração para sempre.

Foto-ouvinte: Buraco verde

 

Árvore no buraco

Uma árvore “nasceu” dentro do buraco na rua Arthur de Azevedo, em Pinheiro, zona oeste de São Paulo. A cena chamou atenção do casal Anderson e Patricia Santos que passam com frequência pelo local. Por e-mail eles comentam: “Acho que esta foi a solução que a prefeitura de SP achou para acabar com os buracos e plantar mais árvores na cidade de SP”.