De partidos partidos

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Tem-se discutido muito, e acaloradamente, sobre partidos e parlamentares e sobre o fato de estes trafegarem por aqueles, ao aceno da mínima vantagem. Ser da direita ou da esquerda não é mais uma questão de sentar-se à esquerda ou à direita do plenário, como em idos tempos, não é, Dr. Anderson? Os partidos por sua vez querem que o mandato e o parlamentar lhes pertençam para terem munição, estamos em guerra e não percebi. De todo modo, fica claro que se foi o tempo de convicções e de construção da democracia. Romântica e femininamente, imagino um tempo em que alguns governavam – leia-se trabalhavam – enquanto outros davam duro fiscalizando. De olho, implacáveis. Ao menor deslize, a turma no comando pulava miúdo. Mas se houve esse tempo, durou até que alguém percebesse que, por lá, dava para dar menos duro e ganhar mais mole.

E foi como água mole em pedra dura que a idéia fixa dessa meta se infiltrou e se alastrou feito praga, por todos os lados. A gente, então, começou a vender os próprios pensamentos, a entregar as paixões, crenças e a própria identidade, em troca de não viver, já que isso dá um trabalho danado. Ficou anestesiada de tanto fingir que estava tudo bem, para não sair do conforto da poltrona. E a coisa foi crescendo tanto e tão velozmente, que se romperam os diques e a lama transbordou, nos cobriu e sufocou. E a gente? Acostumou.

Pense comigo, nosso país é de terceiro mundo, somos pobres, não temos água, luz, estradas, transporte, saúde pública, educação, e nem comida para todos. E o que fazemos? Mantemos aparências esfarrapadas com uma criadagem despreparada, sem experiência, sem cultura nem educação, que oferece, em bandejas de plástico, migalhas aos seus patrões, e nós os tratamos a pão-de-ló, com água mineral e bebida importada, servidas por copeiros em bandeja de prata, mesa farta, carros de luxo, um batalhão cada vez maior de subalternos, e avião importado.

Minha sogra abomina quem come mortadela e arrota peru. Pois é, dona Ruth, parece que nossa nação não anda bem de digestão.

Enquanto isso, países de primeiro mundo, com população mais rica, com pleno acesso a educação e saúde, e onde nem se imagina o que seja a dor de passar fome, têm muito menos empregados do que nós.

Voltando aos partidos, eles também geram aberração e mensalão. É o tal do cada um por si, do salve-se quem puder, coisa de republiqueta de quinta.

Portanto, enquanto nós, viventes do mesmo chão, continuarmos a contratar a corja, ela continuará oferecendo privilégios e benesses, aos que estão abaixo, acima, à direita e à esquerda, para eternizarem a farsa e o assalto miúdo às nossas carteiras e à nossa dignidade, as quais temos entregado de bandeja, como se nada valessem. Não é para isso que supostamente evoluímos como seres humanos, e que somos considerados cidadãos

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De estrelas

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Outubro tem levado consigo, nas asas do outono acima do Equador, cantoras intensas, dramáticas, corajosas, mas romântica e tristemente suicidas. Carregou Edith Piaf em 1963, Janis Joplin, em 1970, e Maria Callas em 1977. Quer mais intensidade do que jorravam? Paro e tento entendê-las; ponho minha vida no compasso de espera, por instantes, navego nas ondas da percepção e concluo que essas mulheres morreram de tanto viver. Cantaram até não poder mais, amaram até não poder mais, vivendo em alta velocidade e plugadas em altíssima tensão. Atingiram todos os limites e entregaram-se de corpo e alma a tudo o que fizeram. Era overdose em cima de overdose. De tudo um muito. Definitivamente, não foram as formas físicas que as fizeram famosas e inesquecíveis. Não foram plásticas, não foram doses maciças de botox e nem implantes de silicone, que na época nem se pensava. Foi a intensidade, a entrega, o dom maior descoberto a tempo, e a paixão. Foi a falta de tudo que as impulsionou. Onde faltou corpo, sobrou alma, onde faltou dinheiro sobrou garra, onde faltou amor, sobrou paixão.

Os tempos são outros, e hoje se morre é de desencanto, de descrença na sociedade, e de desesperança. Os jovens têm pressa de viver, para acabar logo com isso. Em vez do prazer da descoberta do amor e dos projetos de vida, entregam-se a experiências de pequenas mortes, através de drogas como o álcool que embota os sentidos e deforma a realidade, fazendo-a ainda menos atraente do que é, quando vista de cara limpa. Dizem não acreditar no país, nem na honestidade. Não têm mais o sentimento de pátria e argumentam que é isso mesmo, o negócio é participar da bandalheira porque empresário que paga imposto direitinho quebra. Dizem também que a burocracia está aí só para emperrar a máquina e que os administradores do país não querem mudar o status quo porque o sistema, do jeito que está, permite roubalheira desenfreada sob camadas de desculpas esfarrapadas. É muito, muito triste. Posso parecer ingênua, até patética, mas não consigo entender, e entristeço.

Eu faço o que posso e do jeito que sei, mas dou o meu melhor. Reconheço aos poucos meus dons e os exerço com dignidade. Sou teimosa, amo a vida e durmo bem. Não encontrei sucesso estrondoso em nenhuma área por onde andei e nem fui levada à ribalta, mas continuo exercitando meu direito à vida. Meus atributos físicos não me levaram a passarelas e meu livro e meus escritos encontram abrigo, senão no coração, nas prateleiras e arquivos de amigos e parentes. Mesmo assim, rio mais do que choro, sou gentil mais vezes do que agrido, aprendo mais do que ensino, e mantenho os olhos do corpo e os da alma, escancarados. Quero ver tudo, sentir tudo, experimentar cada chance, cada possibilidade de viver e de amar. Louca talvez, mas quando choro, choro mais pelos que se escondem da vida, que tiram mais do que dão, enganam mais do que tudo, entendem que os fins justificam os meios e ainda posam de salvadores da pátria. Agora, reconheço as Leis do Universo e sei que a colheita daquilo que plantam será de frutos amargos como fel.

A solução? Continuar no bom caminho é um bom começo.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De polícias, justiça e cinema nacional

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Ignoro o funcionamento das policias e dos serviços de segurança pública, nesta cidade e no país. Com franqueza, ignoro até o mecanismo de uma simples delegacia de polícia e tenho certo receio quando passo na frente de uma. Estranhamente sinto-me intimidada por um lugar que deveria estar ali para me fazer sentir segura, mas não quero entrar em detalhes.

Exatamente por desconhecer o assunto, permito-me imaginar. Vejo uma enorme pirâmide e lá em cima, bem no topo, como uma estrela brilhante numa árvore de Natal, alguém muito, mas muitíssimo poderoso. Imagine que dentre todos nós, cidadãos deste país, essa pessoa é a mais bem preparada para o que faz. É o supremo gestor de tudo o que se relaciona a prevenir e combater o crime e recuperar criminosos. Também, esse supremo gestor não tem que se preocupar com mais nada. Há outros, como ele, nas outras áreas. Agora, imagine a visão dessa pessoa que tem, sob sua batuta, desde a manutenção dessa imensa equipe, até a escolha dos mais bem preparados estrategistas disponíveis. É importante frisar que não estou me referindo a uma empresa privada, onde se precisa cuidar com os gastos e nem sempre se pode contratar pessoal qualificado. A pirâmide da segurança e da justiça não tem esse problema; pode trabalhar em paz e escolher os melhores dentre os melhores porque nós pagamos a conta para que eles possam dar conta.

Reconheço que o assunto é delicado. Imagine a trabalheira que deve ser cuidar de nossa segurança física, nos salvando do fogo, das enchentes, dos acidentes de trânsito terrestre e de trânsito aéreo, e ainda dos ataques de outros seres humanos. Sem falar da segurança e justiça moral e financeira. Parece que nesse setor o pessoal dá um duro danado. Devem nos salvar do sonegador, senão não vale, não é? Senão a turma esperta não paga, como em mesa de bar ou de pizzaria, onde tem os espertinhos que saem sem pagar. O setor é difícil, tem contrabandista, camelô irregular, corrupto e falsificador, o espertinho que copia mal e porcamente o que alguém levou anos de preparo e investimento para criar. O gestor dessa área deve ter uma agenda apertada. A tarefa número um deve ser mapear os pontos de distribuição e venda de mercadoria falsa e contrabandeada, por exemplo. Se esse gestor tiver qualquer problema nessa área é só perguntar para qualquer um nas ruas, maior de dezoito anos, para não envolver menores em assunto de gente grande, que o povo informa direitinho, um a um. A tarefa número dois deve ser mandar seguir o rastro dessa mercadoria, para encontrar as fontes, como a gente faz no jardim de casa para encontrar o formigueiro. Aí, é só decidir o que fazer.

Mas, mesmo ignorando as minúcias, sei que está todo mundo redondamente enganado; as cenas que vemos ciclicamente na televisão e nos jornais, um auê em volta de shoppings onde imperam o contrabando e a pirataria, desde sempre, não tem nada a ver com nossas polícias e nossa justiça. É pura ficção. Com certeza repórteres e jornalistas se deixam enganar toda vez, levados pelo realismo das cenas e julgando-as reais. Particularmente, não gosto desse gênero, mas deve ser do agrado do povo, porque cada remake em cartaz, atrai multidões por todos os meios de comunicação, inclusive o boca a boca. Mas acredite em mim, é pura ficção.

Pense nisso e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De vida, morte, e seus odores

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Tudo vive e morre a cada instante, dentro e fora de nós. Em cada pulsar de cada partícula de vida, há um cíclico viver e morrer; um suceder infindável e arrítmico de vida e morte. Há que fluir com o seu fluir. Acontece que nós, os humanos, aprendemos quase nada sobre morte e sobre vida. Ficamos entalados em gargalos estreitos que retardam nosso processo de crescimento e evolução, fugindo das duas.

Contraditório, porque dizem que a Terra existe há aproximadamente quatro bilhões de anos e que nós, pobres mortais, estamos aqui há cerca de um bilhão apenas (!). E a história mostra que desde que chegamos ao planeta, não temos feito outra coisa a não ser lutarmos pela sobrevivência, ou seja, pela vida. Enfrentamos a voracidade de répteis, mamíferos, aves e anfíbios, para quê? Para continuar vivendo. Desde os parasitas, em todos os níveis de vida, às formas mais sofisticadas e empreendedoras, todos lutamos por ela. Anarquistas e seguidores da ordem, bactérias e abelhas, ignorantes e doutores, peixes e cães, ricos e pobres, moços e velhos, estamos todos de acordo num ponto, escolhemos viver. Excelente ponto de partida para qualquer empreitada, pois forma a base mais sólida possível. Somos unanimidade.

No nosso planeta dual, onde tudo tem seu complemento, o Ser é acompanhado pelo Não Ser, mas por alguma estripulia da nossa natureza humana, ele trocou de parceiro e passou a viver com o Ter. Então, em algum ponto do processo a receita desandou, o equilíbrio foi para o brejo e nós confundimos tudo. O Ter trancafiou o Ser, para poder tê-lo, assumiu o comando e tem ditado as regras. Não me entenda mal, o Ter é de tão boa cepa quanto o Ser, e juntos e equilibrados chegam muito perto do ideal, mas o ser humano optou por ter razão, dinheiro, poder, controle e prazer, a qualquer custo, mesmo à custa do ser justo, honrado, fiel, amoroso, amigo, irmão, solidário; ser feliz. E então, já não somos livres. O Ter trancou nossas portas e janelas uma vez que a violência cresceu livre dos limites do Ser, encontrando terreno fértil na obsessão e no fanatismo, dos dois lados do rio.

Eu que me considero mulher de vanguarda, moderna e corajosa, talvez seja, na realidade, apenas triste remanescente de dinossauros, ainda ligada a valores antigos. Mas se somos unanimidade em relação à vida, onde é que perdi o rumo, se é que perdi. Continuo acreditando que antes de nos tornarmos seres partidários, fechados em células oposicionistas por definição, precisamos nos religar à origem, diretamente e sem intermediários, e assumirmos de vez nossa condição humana. Só assim deixaremos de temer a morte e a vida.

O mundo tem se voltado para o transcendente porque é o rumo a seguir, mas grande parte é impulsionada por não suportar mais o cheiro de carniça do imanente. Que voltem os leques antigos da Europa sem banho. O cheiro da vida anda insuportável por aqui!

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De honra e tradição

Por Maria Lucia Solla

Etiqueta saiu de moda, educação agoniza, respeito é desrespeitado a cada momento, honra é palavra do passado, e ainda bem que, muitos de nossos pais e antepassados não viveram para ver. No tempo deles, o objetivo era crescer, aprender, para chegar a ser uma pessoa de bem. Ser de bem era indispensável, então, para atingir o ponto mais elevado da escalada. Queria dizer ter educação, saber falar direito, ter um bom carro, casa própria, oferecer a melhor educação possível para os filhos e manter o nome limpo. Ah, manter o nome limpo era condição primeira. Matava-se pelo nome e pela honra.

Quem vinha de família pobre, de imigrantes recém chegados, como era o caso de meus pais, espichava o braço firme e determinado, apontava o dedo indicador para frente e para o alto e dizia, é lá que eu vou chegar. Uns se punham a estudar de dia e a trabalhar de noite porque recebiam apoio e sacrifício de toda a família. Todos por um, era o lema. Outros não podiam se oferecer o luxo do estudo porque de seus braços dependia parte da refeição levada à mesa. Era luta pela sobrevivência.

Cresci ouvindo e vivendo essas histórias. Havia briga e desentendimento, mas havia muita risada também, e muita festa, com música e mesa farta. Criança lavava as mãos antes de ir para a mesa, chamava seus pais de senhor e senhora, pedia benção e comia o que se punha no prato. Era sempre lembrada daqueles que não tinham o que comer, portanto, comida não se desperdiçava e pronto. Lembro que meu avô e meu pai beijavam o pão, antes de comer, e eu achava tão bonito.

Os imigrantes exerciam a etiqueta que trouxeram da Europa como podiam, cada um de acordo com as condições de educação e de sucesso financeiro alcançadas. A psicologia também entrava onde dava. Minha bisavó, por exemplo, era excelente atiradora de tamanco de madeira. Tio Neno contava que se virasse a esquina, correndo dela, os tamancos viravam atrás, com velocidade sempre crescente, desafiando as leis da física. Também não se falava bom português, naqueles grupos de imigrantes. As tribos criavam linguagens paralelas, dependendo de sua origem.

Agora, honra era palavra que faziam soar em todas as línguas, em tom mais grave e reverente. Entendi, no pequeno mundo onde cresci, que a sociedade era dividida em pessoas de bem e as outras. A história do fio do bigode selando acordo era recorrente na conversa de gente grande.
Muitas primaveras chegaram e partiram, desde a chegada dos imigrantes e a sua final partida, e nós supostamente evoluímos. No entanto, hoje, é comum chamar políticos e gestores públicos, à boca pequena e grande também, de desavergonhados, lavadores de dinheiro, gestores fraudulentos, burros, patrulheiros morais esfarrapados, indignos, violentos, picaretas, mensaleiros, bandidos, formadores de quadrilha, bandoleiros e doleiros, ginastas midiáticos, sacripantas, ladrões, demagogos, velhacos, patifes, devassos, vira-casaca, e ninguém liga.

O que diriam meu pai e meu avô? E os seus?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De dores e certezas

Por Maria Lucia Solla

Olá

As últimas notícias da administração deste país, recém saídas do forno a lenha de Brasília, juntaram-se a outras das mais diversas áreas à minha volta e, numa situação de superioridade momentânea e truculência, atingiram-me no plexo solar e levaram meu otimismo a nocaute.

Depois de ficar algum tempo estirado no chão, recobrou parcialmente os sentidos e, mal conseguindo abrir os olhos cobertos de hematomas, contorceu-se de dor. Afinou lentamente os ouvidos e percebeu outros gemidos que vinham preencher os espaços rítmicos da triste melodia de seus lamentos. Ergueu a cabeça com dificuldade, sentindo o mundo girar à sua volta, e deu de cara com a minha esperança, caída à sua frente e em péssimas condições. De pronto, sentiu-se humilhado. Logo ele, se lamentando, e pior, em público! O que poderia fazer, depois de flagrado assim caído, machucado e gemendo, para recobrar o respeito e a confiança da doce esperança? O que seria dela sem a segurança que ele trazia consigo? Já se tinham acostumado um ao outro, davam-se bem e gostavam das mesmas coisas.

Enquanto elucubrava, sentiu um cutucão nas costas e percebeu que eram as minhas expectativas em relação ao outro, agonizando. Outros também tinham caído! A situação era ainda mais séria do que ele podia imaginar, mas faltava um golpe. Ao virar a cabeça para o lado direito, viu meu sorriso. Perdido, coitado. Desbotado.

Profundamente preocupado, coisa que raramente sentia, ensaiou, mas não conseguiu se levantar. As dores no peito eram terríveis. Estava muito ferido. Jamais tivera intenção de abandonar o barco, mas dessa vez os golpes tinham feito um estrago e tanto.

E eu? Como fiquei? Depauperada. As baixas tinham sido significativas, dessa vez. Dolorida e com um pulso de ferro esmagando meu plexo solar, tentava não perder o rumo. Emergência! Meu ser entrou em estado de alerta e deu início a um tratamento com um terapeuta infalível, Dr. Momento. Reconheci que estava viva, e isso já era um bom começo. Dr. Momento levou-me a considerar um momento de cada vez e, toda vez que a frustração voltava com suas malas de lembranças tristes, pronta para conquistar mais um território em mim, eu corria para os seus braços. E foi num desses momentos balsâmicos que minha amiga Carina, antenada que só ela, me mandou, por e-mail, uma poesia de Fernando Sabino. O resultado foi tão bom que recomendo a leitura. Aí vai.

C E R T E Z A
De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando
A certeza de que precisamos continuar
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.

Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo
Da queda um passo de dança
Do medo uma escada
Do sonho uma ponte
Da procura um encontro.

Ah, antes que eu me esqueça, as minhas expectativas em relação ao outro não resistiram, e foi bom. Muito bom.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De olhos abertos e ouvidos atentos

Por Maria Lucia Sola

Olá,

Os acontecimentos têm me levado, ou forçado, a refletir sobre nossa dificuldade em lidar com as notícias e com muito do que acontece ao redor, que nem chega a ser noticiado. Se quiser, ache um canto confortável, pegue um petisco, um chá ou um café, e reflita comigo para vermos por onde, e aonde, a reflexão pode nos levar. É exercício; se não gostar desista, mas se tomar gosto, ela vira hábito. Não dá para dizer que refletir seja essencial à sobrevivência, porque tudo depende do que a sua alma gosta. Eu tenho uma queda por meditação e reflexão, mas nem penso em suar fazendo abdominais. Agora, se não refletir, ao menos uma pensada rápida a gente dá, para honrar a condição de ser pensante.

Então, quanto a notícias e acontecimentos, é sempre possível abrir um buraco no chão e enfiar a cabeça lá no fundo, para não ver, não ouvir, nem sentir o cheiro. Certamente dá para sobreviver assim, respirando com auxílio de máscara de oxigênio; que vontade, às vezes, não? No entanto, como diz o poeta Nelson Motta, pela voz de Lulu Santos, “Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo.”

Lidar com o mundo em volta não é fácil. Ninguém sorri, queixo solto e testa relaxada, assistindo ao telejornal. Ninguém sorri quando as coisas não vão bem, ou quando percebe amargura num ser amado. A dor dói na gente também, porque amargura é doença grave; é a alma que não agüenta mais o sufoco, gritando desesperada por socorro.

Agora, se optamos por manter a cabeça bem posicionada e erguida em cima dos ombros, olhos abertos e ouvidos atentos, – caso a boca ainda não lhes tenha tomado as funções – então podemos ver, ouvir e até, quem sabe, sentir. Daí em diante, o importante não é que todos ajam e sintam do mesmo modo, e sim na mesma sintonia. Assim como uma orquestra, onde cada um toca o seu instrumento, e o resultado é harmônico; onde a intenção é uma só. Basicamente você quer o mesmo que eu. Paz? Só brota no terreno vitaminado com harmonia, e saúde só se instala no corpo onde a alma estiver bem acomodada e satisfeita. O resto é conseqüência.

Não dá mais para continuar assim, e nem preciso desfiar um rosário de motivos. Se desejamos que as notícias mudem o tom, é hora de começarmos a afiar nossos instrumentos. Antes de qualquer coisa, é preciso conhecer a si mesmo. Nascemos sem manual de instruções, e vamos tentando, errando e acertando, até entendermos como funcionamos e a quê viemos.

É impossível descobrir quem somos, olhando só para fora, e não teremos paz enquanto continuarmos a nos comparar com o outro. A tentar um encaixe forçado àquilo que esperam de nós, então, não há nada mais perigoso. Urgência urgentíssima! É preciso olhar para dentro, onde mora a alma, e ouvir-lhe a voz que chega através do coração. Assim, estabelecemos contato com ela e, impulsionando a paz interna, abrimos caminho para a paz total.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De educação e ameaça

Por Maria Lucia Solla

Olá,

No domingo de manhã, fui à padaria. Não para tomar café da manhã, o que faço com freqüência, nos fins de semana. Fui comprar pão para completar minha festa matinal e, na banca ao lado da padaria, acabei pegando a Folha de São Paulo, que há muito tempo não lia. Sinto saudade de alguns colunistas, e se a Folha tivesse apenas as duas primeiras páginas, eu ficaria satisfeita. Em casa, depois do café, achei um cantinho bom para me acomodar e me deliciei com a arte de Clóvis Rossi em conseguir demonstrar, em poucas linhas e com elegância, a supremacia do poder do dinheiro sobre o dos governantes. Depois fui bisbilhotar na coluna de Antonio Ermírio de Moraes. Encontrei festa em cada linha, onde ele dizia que o Sesi e o Senai “investirão cerca de dez bilhões de reais no programa Educação para a Nova Indústria.” Ou seja, vão continuar fazendo o que já têm feito há mais de cinqüenta anos, investindo o que o governo não investe e com a capacidade que esse não demonstra ter. Sei o que estou dizendo porque colaborei com o Sesi durante algum tempo e constatei que, na área do serviço social, juntamente com o Senai, são muito bons. Instrumentalizam o jovem para que tenha ao menos o primeiro degrau para firmar o passo, se quiser continuar crescendo.

Pois é, lá vêm as elites outra vez, traiçoeiras, sorrateiras, solapando as bases, de educação em punho, acredita? E isso não vem de hoje. Sempre que inventam moda com essa história de cultura, as elites, com perdão da palavra, ameaçam todo e qualquer governo que quiser manter o povo anestesiado, incapaz de pensar e desmotivado para progredir. Ameaçam toda vez que questionam a justificativa de que está bem assim, se disser nóis vai e nóis fumo, dá para entender, e basta. Hoje, se o cidadão ficar em casa, desocupado, ganha mais das diversas bolsas à sua disposição, do que indo à luta e investindo na sua dignidade. Devo confessar, no entanto, que reconheço que bolsas, malas e cuecas garantem voto, enquanto educação… Bem, podemos conjugar o verbo saber de fio a pavio.

Então, para coroar o domingo, no final da tarde, recebi a visita de um amigo querido dizendo-se pedagogo indignado. Com razão, porque derrubou meu queixo com as notícias que trouxe. Marcos me contou que em sala de aula, pré-adolescentes dizem mais palavrões por minuto do que a Dercy Gonçalves conseguiu dizer em todos os espetáculos de sua carreira. Como ele dá aula de teatro, expressão corporal e também é orientador de sala de leitura –um Dom Quixote– sugeriu aos alunos que suavizassem o texto da peça que estão montando, dando-lhe uma visão mais otimista ao acrescentar uma mensagem de esperança. E eles? Recusaram-se terminantemente, dizendo que não adianta, porque nada na vida tem final feliz.
Estamos falando de crianças!
É isso, Marcos! Enquanto a sociedade questiona os jovens sobre seu desempenho e poder de sedução, você quer saber como eles sentem o mundo à sua volta e como se sentem, cutucando neles a esperança para ver se acordam e se animam a seguir em frente e passam a questionar os reis nus.
Essa sim é uma terrível ameaça.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De confusão e dor

Por Maria Lúcia Solla

Olá,

As últimas levas de acontecimentos, do macro e do microcosmo, têm drenado energia também da minha porção otimista; e haja força para mantê-la de pé. Falo de otimismo autêntico, não de tapar o sol com a peneira, não da síndrome de Poliana, e nem de uma síndrome ainda pior, a da hiena – nunca se sabe se está rindo com você ou de você. Fico me perguntando se a ciência já seguiu as pegadas de cada síndrome que assola o planeta, para determinar suas origens e tentar entender por que nos deixamos dominar por elas.

Síndromes são como pessoas que driblam porteiros e entram na festa, sem convite. Penetras. Invasores da intimidade. Guerrilheiros sociais. Você pensa que são meus amigos porque se vestem e batem tambores como a minha tribo, e eu penso que são seus. Ao final da festa, quando se apagam as luzes do salão, tímidas e impotentes perante o brilho do sol, já nos abraçamos todos, intoxicados pela ilusão. Então, essas pessoas acabam se incorporando ao grupo, ou a parte dele, exercendo profunda influência, sem que ninguém questione de onde e a quê vieram. Passam a interferir nas escolhas e a imprimirem nelas, a sua marca.

Mas eu falava de otimismo, que não se encontra na loja da moda, não se adquire seguindo conselhos, e nem se compra na farmácia. Vem no pacote; é ingrediente da nossa receita. Todo mundo tem ele e o seu contraponto, o pessimismo, que fazem parte da realidade dual que experimentamos. Tudo é assim, tem cara e coroa. E com o meu otimismo fraquinho do jeito que está, pensei em falar sobre alguns dos acontecimentos a que me referi lá no início. Mas logo pensei que você seguramente já sabe de tudo o que lhe interessa e, as minhas listas de acontecimentos bons e maus devem bater, em grande parte, com as suas. Portanto teria sido perda de tempo, para dizer o mínimo, porque aqui caberia um compêndio. Já sabemos das notícias de última hora e, principalmente, estamos cansados de ouvir as das horas passadas, do micro e do macrocosmo. Cada boca repetindo o mesmo fato a seu modo, sempre revestido de frustração, inconformismo – síndrome da criança mimada – medo, e outras ramificações, só para citar o lado pesado e dramático. Estou cansando de repetir e ouvir repetir cada fato, como reedições de um mesmo filme, mesma trilha sonora, com letras diferentes.

Então, quando senti que o nível da porção otimista baixava vertiginosamente, tive medo de ir escorregando até virar pessimista, assim do dia para a noite, oito ou oitenta, claro, mas acabei parando para sentir.

E sinto que o véu que ainda nubla a visão da minha consciência vai caindo, e otimismo e pessimismo diluindo um no outro, para que o equilíbrio se estabeleça. E o mesmo acontece com amor e ódio, rancor e perdão e todos os outros pares. E não haverá mais nem paz, nem guerra. Até dá medo de imaginar a vida sem paixão. Vai doer no começo, ou melhor, já está, mas é como aprender a andar de bicicleta; cai, machuca, levanta, se anima outra vez, vai com medo, mas quando se vão as rodinhas de segurança e com elas, ironicamente, a insegurança, então a sensação é indescritível. Lembra?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De amores e leis

Por Maria Lúcia Solla

Olá,

Talvez fosse interessante pensarmos na possibilidade da aprovação de leis que regulem os relacionamentos com pessoas que acionam o melhor em nós. Em primeiro lugar, deveriam ser proibidas de se afastarem. Após determinado período, cuidadosamente definido conforme o caso, elas seriam tombadas e consideradas de primeira necessidade. Patrimônio da nossa humanidade.

Quando entram na cena, purificam o que chamamos de ar, de tal forma que às vezes precisamos inspirar dobrado para alcançar o passo do coração. Este, por sua vez, se alia aos pulmões, e os dois alimentam e impulsionam o resto do sistema. Aí sim, a casa se põe em festa, e nos tornamos radiantes, receptivos e doadores, na justa medida – às vezes nem tão justa assim. Quando surgem no cenário, as luzes se acendem. O cinza se transforma em arco-íris, e tudo começa a fazer sentido. São definitivamente milagreiros, os que vêm e ficam para sempre, os que ficam por algum tempo – sempre curto demais – e os que apenas se insinuam, deixando um gostinho de pouco, dentro de nós. Mas quando um deles vira as costas e se vai, fica uma saudade de fazer dó.

Conseguem desenterrar, sabe-se lá através de que sortilégio, tesouros que nem sabíamos possuir. E o poder de suas presenças é tão grande que transforma em mágicos os momentos corriqueiros, suavizando os que considerávamos insuperáveis. Se olhássemos bem, com certeza veríamos, em suas mãos, um controle remoto, esquecido no estúdio de filmagem de uma película de ficção científica. Sem dúvida, é o que usam para controlarem a freqüência da vibração de nossa estrutura celular, nos tornando mais saudáveis e mais belos, e nos levando a resgatar a curiosidade e a coragem de viver.

É nessas pessoas que depositamos a responsabilidade pelo brilho nos cabelos e pelas estrelas que insistem em escapar-nos do olhar. Que poder é esse que extrai de nós o melhor som, o melhor cheiro e o melhor sorriso? O mundo circunstante agradece pelo resultado e faz de tudo para se juntar à festa. Cuidamos de detalhes há muito postergados, enchemos os vasos de flores, tomamos vitaminas, checamos a data de validade de cremes esquecidos no fundo do armário, e sentimos tamanho prazer de viver que só o que queremos é eternizar a experiência. Não se imagina a vida sem elas, para acionarem todos esses comandos e servirem de espelho, através do qual vamos, aos poucos, nos reconhecendo.

Agora, ao saírem de perto, deveriam ser obrigadas a deixarem para trás, como legado, o encantamento, para que os cabelos não perdessem o brilho, e os cremes não se esgueirassem de volta para o antigo esconderijo. Acima de tudo, essas pessoas deveriam ser proibidas de levar consigo a nossa luz. E nós, proibidos de passar a vida pulando entre a doçura do passado e a desesperança do futuro, fugindo do presente como o diabo da cruz. Não viveríamos na quase-morte porque a ausência do outro não levaria consigo nem o ar de nossos pulmões nem o sangue de nossas veias. A magia de suas presenças permaneceria ativa, para sempre.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.