De Francisco e de Pessoa

Por Maria Lúcia Solla

Olá,

Guardei a mensagem do meu amigo Francisco – Chico Solano – para abri-la agora, na calma da manhã de domingo. Em casa, num cantinho preferido, e de frente para parte do jardim que me oferece flores em pleno inverno, vejo dois canteiros de azaléias e um vaso de primavera; tudo cor-de-rosa, na manhã ainda menina, resultado do amor entre o amanhecer, que se ofereceu em sacrifício para que ela nascesse, e sua mãenhã.

É nesse cenário, com a lareira crepitando para manter minha atenção no presente, que viajo na sua sabedoria. Ele discorre sobre Fernando Pessoa – e eu, com prazer, deixo-me iniciar – chamando-o de gênio consciente da própria genialidade e afirmando que inconsciência e genialidade são incompatíveis. Convida-me ainda a refletir sobre o mandamento máximo, contido nos evangelhos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, e sabe a que chego? Que é por obediência e fidelidade a esse mandamento que aqui não se instalou ainda o paraíso, e que há fome, engano, mentira, dor e vazio.

É por estarmos longe de nos amarmos – a nós mesmos – que nos permitimos ficar vazios de alma. Confundimos tudo e nos perdemos na ilusão. Levamos ao palco um corpo tão cheio de individualidade que fica faltando espaço para o personagem (a alma) entrar e tomá-lo por inteiro. Confundimos veículo com essência e vamos empurrando a mentira. Acreditamos na ilusão a ponto de nos comportarmos como corpo que morre, e desistirmos, de fato, antes dele.

A alma, porém, verdade que é, prevalece, respeitando nosso desejo. Espera na linha de largada até agitarmos a bandeira da permissão, que é um ato da natureza do amor mencionado no evangelho. Pois é num ato de amor que lhe atribuímos o papel de heroína e permitimos que encante. Sem intenção, que isso não é de sua natureza, ela encanta porque se mostra inteira, que é só o que sabe ser, e contagia. Irradia tanta luz que outros enveredam, no impulso do momento, por um caminho de libertação.

Não sei dizer em que pedaço de qual caminho me encontro, porque o nome fantasia já não me atrai tanto, mas gosto do que vejo, das curvas acentuadas aos encontros e desencontros. Começo a nascer, mais uma vez enfrentando as paredes do útero da Vida, decidida a vir à luz. Não nascerei morta, e meu choro será um grito de glória infinita pelo privilégio de ser.

Quando, há anos, o mesmo Francisco informou-me que a criação é fruto da dor e exclusivamente dela, e que nada jamais poderia ser criado, não fosse através dela, não aceitei e chorei.

Eu não tinha idéia de que falava desta dor e de que ela morava em mim, latente, pronta para se manifestar. Só agora, quando se dilaceram as carnes da minha carne, vejo-me cara a cara com ela. Como poderia ter imaginado tamanha intensidade e tamanha beleza? Sabia apenas da dor corriqueira, fruto de expectativa frustrada. Hoje, abro-lhe as portas e suplico-lhe que me ofereça o cálice.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De dentro e de fora

Por Maria Lúcia Solla

Olá,

Passei parte da manhã de sábado num grande laboratório de análises clínicas, em São Paulo. Logo na entrada, pegando uma senha em moderna engenhoca eletrônica, ergui as sobrancelhas – era cedo demais para reação mais profunda – ao ver o número de pessoas que tinham acordado ainda mais cedo e estavam sentadas na primeira sala de espera. Lotada.

Com a senha na mão eu esperava, nos dois sentidos, que cada campainha estridente viesse acompanhada do meu número, estampado em vermelho num dos painéis espalhados à volta. Enquanto isso, o máximo que cheguei a ler foi meia página truncada, de um saboroso livro de Gabriel García Márquez, testemunha de minha jornada.

Dava um sobressalto a cada campainhada e, quando a sorte grande bateu à porta, fui até o guichê indicado na tela. Apresentei documentos, passei por revisão detalhada de meus dados cadastrais, já vistos e revistos outras vezes, e entreguei as requisições do médico. A atendente levantou com elas nas mãos, fez cópias, sentou, levantou novamente, voltou a sentar, digitou, imprimiu uma requisição para cada exame e profetizou mais duas salas de espera no meu destino, naquela manhã.

Exames clínicos hoje são obrigatórios, você sabe. Não se admite viver um ano inteiro sem pagar regiamente para que examinem seu corpo, por dentro e por fora, que fotografem e imprimam cópias, retirem e analisem alguns de seus humores mais bem guardados, e que ainda por cima comentem e troquem opiniões a respeito.

E não é preciso que haja queixa, dor, ou suspeita de que algo não ande bem com você, para que seja dada a largada na corrida aos exames. Agendamos inspeções e laudos periódicos, porque não sabemos mais sentir. Temos noção distorcida do que seja normal e do que seja sadio, e estamos tão ocupados com pensamentos, tarefas e metas a serem atingidas que mal percebemos o descompasso do coração. A poluição envolveu, e levou com ela, nossa capacidade de sentir, da comida os odores e o cheiro das flores. Os sons que nos chegam são medidos em decibéis, e ouço dizer que, nesta metrópole, quase dois terços dos motoristas de ônibus apresentam séria perda de audição. Suas mulheres deveriam ser proibidas de discutir a relação quando eles chegam para o jantar. Ideal seria uma massagem, neles é claro, antes da refeição, em absoluto silêncio e com flores verdadeiras na sala.

Há critérios científicos para avaliar a intensidade do som que chega até nós, mas e a qualidade dele? Ouso dizer que se passa a ouvir menos, de propósito, puro instinto de preservação.

Quanto ao paladar, quem hoje prepara um prato, picando tempero, refogando no azeite, ralando um tomate fresquinho e se maravilhando com a alquimia?

Está passando da hora de acordarmos, concorda comigo? De começarmos a perceber o que se passa dentro para começarmos a entender o que se passa fora.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

Tora, tora, tora !

Centenas e centenas de árvores cortadas é o que mostram imagens do início da construção do trecho sul do Rodoanel. O local que você vê é área de manancial da Represa Billings, maior reservatório de água da região metropolitana de São Paulo. Segundo informa Carlos Bocuhy, do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, esta é a região do Botujuru, em São Bernardo do Campo.

Nesta terça-feira, no CBN SP, vamos falar sobre o assunto, mas você já pode deixar a sua opinião.

De entrega e mansidão

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Um dia inteiro, embrulhado para presente, é o que venho me oferecendo cada vez com mais freqüência, e no último domingo de sol foi o que fiz. Acordei e já fui tomando posse dele, rainha e soberana. Jamais digo imagine, não precisava se incomodar, quando recebo um presente, mas me torno refém da surpresa, ansiosa para ver com o quê o presenteador acha que me pareço, ou em que viagem se meteu para achar que eu poderia gostar daquilo. No caso, acertei no presente, que era a minha cara e o que eu precisava. Começo a me conhecer melhor.

Encantada com o dia lindo de inverno, tomei meu café da manhã em três etapas, curtindo cada uma delas, me acomodei num biquíni confortável, munida de um livro incrível, lápis e água de coco e fui ler na espreguiçadeira do terraço. Depois de algum tempo, senti as pálpebras pesadas. Sol, preguiça domingueira e festa na noite anterior eram razões mais do que convincentes, e eu cedi. Dei boas vindas ao desejo de fechar os olhos, apoiei livro e lápis na mesinha ao lado – confesso que não sei ler sem um lápis na mão –, embarquei e fui envolvida por indescritível sensação de paz e de magia.

E o que é que normalmente acontece num momento como esse? Você é atacado por uma multidão desordenada de pensamentos, invejosos e estraga-prazeres, vindos sabe-se lá de onde, para acabar com a sua alegria. Bobeou, a mente sabota. Danada!

Ai o sol… pele… camada de ozônio e seus buracos… já passa do meio-dia… o que é mesmo que eu tinha que fazer?

Você sabe do que eu estou falando. Basta tentar se afastar da vala comum de pensamentos e tomar outra direção, para ser impiedosamente atacado. Espera-se que você siga o fluxo, sempre. Dar asas aos pensamentos para que a alma se manifeste, nem pensar. Se ao transgredir você baixar a guarda, eles invadem, mas se estiver vivendo a vida desperto, não babando e hipnotizado, dá tempo de reagir antes que o dano seja irreversível.
Agora, deixar que alguma coisa estragasse o meu dia, carregando o meu presente e com ele o meu prazer? Não mesmo.

O sol, então, dado o sinal verde, escaneou e desfragmentou cada célula dos meus corpos. Foi colocando tudo no lugar. Encontrava zonas em desequilíbrio, organizava e seguia em frente. Elencou prioridades, despertou sonhos, separou sentimentos por vibração de freqüência e arquivou importantes experiências, esquecidas aqui e ali na correria do dia-a-dia. Foi mais uma etapa do preparo para um novo tempo e uma nova vida. A minha. E dei boas vindas a ambos, sem medo nem expectativas superdimensionadas.
Garanto que não foi uma experiência paranormal e nem fruto de prática ritual de uma sociedade secreta qualquer. Podemos ter experiências assim, sempre que quisermos. A minha foi resultado de mansidão e de entrega, na medida certa, sabiamente recomendada por meu filho Paulo. Às vezes a gente acerta na mão.

E você, que presentes tem se oferecido?

Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De casas e ministérios

Por Maria Lúcia Solla

Olá,

Estava aqui matutando sobre as qualificações – formação acadêmica e experiência na área – necessárias para o cargo de Ministro, nesta República. Quero saber se existe um rigoroso processo de seleção para cargo de tão elevada importância. Quem sabe as exigências não são tão grandes assim e eu posso tentar, ou indicar um conhecido mais bem qualificado do que eu. Afinal, é para cuidar da nossa casa. Moramos todos aqui, certo?

Do ponto de observação de cidadã comum, e ao mesmo tempo de co-empregadora daqueles que não se consideram tão comuns assim, vejo candidatos se digladiarem pelo cargo, enquanto os já investidos de poder reclamam do salário e se mantêm ocupados, sabe-se lá com quê. Fato é que entra ano sai ano, não vejo ninguém pedindo as contas e procurando coisa melhor para fazer.

De Recursos Humanos conheço pouco, mas já tive funcionários e fiquei satisfeita com eles, na maioria das vezes, porque escolhi bem. Assim, se tivéssemos um Ministério da Conservação e Zeladoria das Casas (civis e militares), eu certamente indicaria a Carmem, antiga faxineira que admiro e respeito, e a quem sou muito agradecida.

Sob sua batuta honesta e eficiente, tudo andaria bem. Ela escolheria os melhores assessores e o pessoal mais bem qualificado para cada um dos cargos do Ministério. Como? Pelo fato de conhecer a tarefa e de já ter exercido um punhado das atividades da Pasta. Escolheria profissionais que pudessem enriquecer a equipe, acredita? Não passaria, pelo seu crivo atento, manga de camisa com dobrinha deixada pelo ferro de passar, e haveria economia na cozinha porque ela abomina desperdício. Mas nem a qualidade nem a fartura seriam relegadas a segundo plano.

Daria uma excelente gestora – seguramente uma das exigências impostas aos candidatos – porque viveu gerindo diminuto salário de faxina diária. Não me lembro da Carmem ter ligado para avisar que não viria. Veio sempre, e sempre sorrindo. Mandou os filhos para a escola e puxou e esticou tanto a sua casa, para cima e para os fundos que eles, mesmo adultos, nunca tiveram vontade de deixar o ninho. Mais uma qualidade fundamental, saber agregar.

A limpeza no seu Ministério seria impecável. Ia ficar tudo brilhando. Os tapetes poderiam ser levantados sem susto, que ninguém correria o risco de encontrar sujeira varrida para debaixo deles. Faria tudo com eficiência e alegria, procurando não decepcionar o povo como nunca decepcionou seus patrões.

Num certo ponto da vida, meu filho mais velho abriu asas e foi morar sozinho, na mesma rua em que eu morava. Graça de lugar. E lá foi a Carmem, cuidar do nosso menino e do gato Flicks.

Sua dedicação se traduziria em resultados positivos no Ministério, e quando chegasse a aposentadoria e a Ministra Carmem pudesse gozar de descanso merecido, o povo saberia onde encontrá-la e iria levar-lhe sua gratidão e seu mais profundo respeito.

A minha Carmem, sei onde encontrar e a vejo menos do que gostaria, mas e a maioria de nossos antigos Ministros? Em que República o povo poderá encontrar?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De tragédia e reflexão

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Hoje, estamos de luto, recolhidos, tristes, emocionados, emotivos, conectados, de olhos abertos e luzes acesas. E o que provocou isso tudo, o despertar, a conexão, e a reflexão decorrente, foi a tragédia ocorrida na cidade de São Paulo, com a queda de mais uma aeronave e a morte de centenas de pessoas, na noite de terça. Como disse um amigo, agora não é hora de pensar em culpa e de discutir a localização do aeroporto, que estava ali muito antes da chegada dos moradores com a benção dos poderes públicos. Não é hora de discutir a perícia do piloto, a eficácia dos trabalhos de reforma da pista principal de pouso e decolagem, a sorte, o azar, o direito à informação, ao conforto e à paz, nem de discutir o sexo dos anjos. É hora de falar, de chorar, de botar para fora os nós da garganta e os do estômago. É hora de reagir, da maneira que se pode e que se sabe. Não tem receita e nem regra de etiqueta que regule.

Tragédia é acontecimento tão impactante que arranca a gente da zona de conforto, provocando catarse coletiva e purificando-nos a alma através da descarga emocional. Elimina tensões e angústias há muito acumuladas e ignoradas. A catarse vem nos socorrer e libertar para que possamos chorar e sofrer por algo concreto. Catarse vem do grego, κάθαρση, e significa purificação, expiação.

O número absurdo de acontecimentos negativos à nossa volta, erros, desmandos, agressividade, violência, abandono, mortes, acidentes, assaltos, abuso a crianças, surra em professores, desrespeito pelo próximo, corrupção (classificada em ativa e passiva!), descaso das autoridades, e por aí vai que a lista é comprida, acaba nos anestesiando e nos induzindo ao conformismo para evitarmos o tão temido sofrimento. Mas o ser humano precisa do amor e da dor, para ser completo!

Vivemos a era do perfeito. Rosto sem marcas (aparentes), corpo sem gordura, anorexia, bulimia, seios com silicone, bundas duras e empinadas, lordose, crianças que nadam, dançam, usam aparelhos nos dentes, aprendem chinês, judô, xadrez, e vivem virtualmente. Têm até animaizinhos de estimação virtuais. É proibido errar, é proibido chorar, é proibido reclamar (até por que, reclamar para quem?), e é proibido sofrer.

Quem me conhece sabe que faço o que posso para estar de bem com a vida, mas com ela inteira, com seus momentos de alegria e de tristeza, com as perdas e ganhos, com o amor vivido intensamente e com a solidão vivida da mesma forma.

É tempo de buscarmos não apenas o belo, mas o equilíbrio e a flexibilidade. É ali que moram a beleza duradoura, o bem-estar verdadeiro e a segurança que tanto buscamos.

Que esta tragédia que nos atinge de forma tão brutal, em meio ao frio e à chuva, nos possibilite, acima de tudo, o despertar. Que possamos sair do torpor e do estado anestésico em que temos vivido.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

Das revistas e das escolhas

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Ando ouvindo tanta coisa estranha ultimamente que resolvi voltar atrás numa decisão tomada há quase um ano, quando cancelei a assinatura de um jornal diário e de uma revista semanal. Descobri que o pessoal da revista precisa mais de mim do que eu deles, uma vez que tenho sofrido assédio despudorado de seu departamento de marketing. Mas minha decisão não parou por aí. Deixei também de assistir aos noticiários da televisão e limitei-me a ouvir o rádio no carro, de onde o fato chega avaliado, decodificado, discutido e observado de ângulos diferentes.
Digo que voltei atrás porque resolvi ler a mesma revista que antes assinava só que, desta vez, emprestada. Com o friozinho que faz esta semana em São Paulo, comi uma fruta, me embrulhei num pijama deliciosamente confortável, cobri o sofá com uma manta quentinha, instalei um travesseiro nas costas e me acomodei toda pimpante, para me informar. Ler, para mim, é sempre um evento, e me preparo para isso com pompa e circunstância. Ler é como comer, você se abre e deixa-se alimentar. A comida nutre ou destrói você. A leitura também. Há que ter critério.
Tive certa dificuldade no (re)começo, mas uma vez embarcada na aventura, e não sou de me acovardar com facilidade, entrei de cabeça.
A certo ponto, quando começava a sentir mal-estar, parei. Ainda bem que antes de sentar para ler só tinha comido uma fruta, porque comecei a me sentir pesada, cansada e tinha uma sensação de solidão, de abandono e de impotência, de dar dó.
Logo na capa da revista havia a foto um senhor de aparência corriqueira, cara boa eu diria, usando óculos de grau de quem cansou as vistas ao longo da vida estudando, e sorriso discreto sem mostrar os dentes, meio desenxavido. A legenda, porém, dizia que é chantagista e a reportagem declara-o milionário ilícito, mentiroso, e usa outros adjetivos que nem vale a pena enumerar. Acontece que esse senhor não é um senhor qualquer, mas um dos homens que supostamente deveriam cuidar dos interesses de nossa empresa, o Brasil. É um cidadão que cuida do seu dinheiro e do meu, das suas ações e das minhas, e é pago por nós
Eu deveria ter desistido ali na capa, mas capricorniana teimosa que sou, insisti, e o pesadelo foi se intensificando. Vi pessoas bem vestidas dormindo no chão de elegantes aeroportos, em cidades ricas e prósperas de um lugar que outrora chamamos de pátria amada. Vi uma bolsa, horrorosa por sinal, sendo vendida pelo obsceno valor de quarenta e dois mil dólares, o que equivale mais ou menos a uns noventa mil reais. Vi político dividindo o produto de roubo ou suborno, nem me lembro bem. Palavras como cinismo, crise, impasse, chantagem, baixaria, favores financeiros, pedofilia, escândalo, promiscuidade, dissimulação, enriquecimento ilícito e dossiê, tudo misturado com ética, recheavam as páginas da dita revista. Li até a palavra incongruência, veja só!
Fechei a revista, decidida. De todo o cardápio de leitura disponível, essa eu tinha certeza de que não entraria mais na minha dieta. Escolho criteriosamente minha alimentação, com poucos deslizes, escolho os filmes que assisto e tento escolher o nível dos meus pensamentos. Por que não escolher o que leio?
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Da dança à quadrilha

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Roupa entra e sai de moda. A cintura desce, a barra sobe, e a gente cresce nisso e se acostuma.
Dança também. Um andamento mais rápido ou mais lento, e com apenas sete notas, o mesmo tanto de pecados capitais, faz-se milagre na cadência. Junta daqui, espicha dali e haja imaginação para dar nome ao resultado, na música e no pecado.
A quadrilha, por exemplo, aquela da contradança, nasceu na Inglaterra, por volta do século XVIII, pra tirar sarro do povo e animar os grandes salões da nobreza. Posso apostar que a razão primeira era que, das janelas do palácio, a corte olhava e sentia uma pontinha de inveja dos folguedos populares. Como não podia simplesmente copiar, confessando que gostava, fingia que arremedava, quando na verdade se esbaldava. Foi glamurizada quando chegou à França e acabou desembarcando aqui, com os mesmos propósitos europeus, na bagagem da aristocracia e de não tão aristocráticos invasores. Uma vez instalada e aclimatada deu início à zombaria, só que o destino da quadrilha, que ironia, na falta da nobreza que não vingou aqui na terra onde (quase) tudo dá, foi descer a escadaria do palácio e cair no colo do próprio povo. Esse, sem saber, ria de si mesmo, mas acabou por condená-la a um único mês que nem trinta e um dias tem. A quadrilha brilhava, então, em festa junina, fazendo troça de roupa reformada, de botina velha e de chapéu de palha. Era bigode falso, vestido de noiva remendado, e padre de faz-de-conta.
Mas o tempo foi passando, a moda foi mudando, e a quadrilha, como era de esperar, cansou da roça. Sentiu saudade do cenário suntuoso e do requinte dos idos tempos e resolveu galgar de novo os degraus palacianos. Nobreza, como bem sabemos, já não havia, mas a quadrilha exigiu roupa de grife, perfume importado, peruca, botox e bigode bem cuidado. Zombeteira, vaidosa e gananciosa que é, decidiu alojar-se onde o discurso é bonito e onde se faz conta tão bem que só se erra quando convém. Já assimilara trejeitos tropicais, mas descartou milho cozido, pé de moleque e quentão e passou a caviar, vinho importado e camarão. Ditou moda e ficou. Soberana!
Hoje os nada nobres – apesar de excelências – que povoam palácios, não dançam mais. A quadrilha, seguindo a moda, mudou, e como o solo aqui é fértil, ramificou. Em nova formação ganhou tentáculos e deixou o ritmo pra lá.
Pena que da alegria da festa junina tenha sobrado tão pouco. Nela a dança rolava solta num tablado ao rés-do-chão e a gente assistia aplaudindo, comendo e bebendo quentão. Hoje é a quadrilha que se refestela. Mantém a tradição e ainda zomba do povo, só que agora, quem dança? Nós.
Hoje, haja imaginação pra dar nome ao resultado, na dança e no pecado. E a gente cresce nisso e se acostuma.
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Palavra por palavra

Por Maria Lúcia Solla

Olá,

Gosto das palavras.

Mais precisamente, sou fascinada por elas! Admiro, respeito e gosto de brincar com elas. São femininas as palavras. Dão a impressão de fragilidade e de se deixarem subjugar, quando na verdade exercitam misteriosa liberdade. Como são flexíveis, fazem o que querem de si mesmas. Vestem-se, transformam-se, maquiam-se e surgem como adjetivos, substantivos, advérbios ou verbos que se conjugam de acordo com os tempos. Impressionam. Surpreendem. Assustam! Fogem de nossas bocas e nos deixam boquiabertos e sem nem uma, quando mais precisamos delas. Fazem chorar, mas também fazem rir. Ofendem, mas só se as reconhecemos como ofensa. Se tentarem me ofender em polonês, por exemplo, e eu não puder atrelar emoção às palavras ditas, uma vez que não as reconheço, sou capaz de sorrir de volta, e com isso desarmar o atacante.

Penso que esta seja uma boa chave para o segredo do bem viver: palavras só têm poder quando as investimos do dito cujo, em ritual solitário ou coletivo. Só quando embarcamos no seu significado e levamos conosco a bagagem de emoções. Uma palavra pode ser mortal, admito, mas é a única arma que podemos enfrentar sem medo de morrer porque temos o poder de desarmá-la. O projétil da palavra não vem dela mesma; é disparado pela emoção. A nossa.
Palavras podem dar esperança ou matá-la, desmentindo o dito que é sempre a última que morre. Gente, isso é poder demais, não é? Vivemos reféns delas. Você, eu, todo mundo! Reféns de uma arma municiada por nós mesmos.

Já sabemos que o tal segredo do pensamento positivo é puro placebo e não tem efeito se cada um dos nossos pensamentos não vier acoplado a um sentimento correspondente. Posso passar anos repetindo que tenho sucesso profissional, que tenho toneladas de tudo o que preciso para viver bem, que sou amada e tenho saúde, mas se realmente não me sentir assim, estou perdendo tempo. Sou feliz, sou feliz, repetido milhares de vezes, terá o mesmo efeito de uni duni te.

A gente sofre com o som de algumas palavras, vibra com o som de outras, e vai pondo tudo em malas e carregando vida afora. Vai arrastando essa bagagem, suando, chorando de dor em tudo o que é canto do corpo e da alma. Faz bolhas nos pés e nas mãos, do peso delas. E não solta! Não larga, não deixa ir. E palavra aprisionada é como mulher; se rebela, espezinha, despreza, faz o diabo.

E se a gente só carregar aquelas que nos fizeram felizes?

Não, meu caro, nem essas. Palavra não aceita meio termo. É como mulher; é tudo ou nada. Se algumas ficam, ficamos todas, diriam aquelas que nos fizeram chorar; aquelas que sapatearam sobre nosso ego.

O bom é soltar, não aprisionar nenhuma. É considerá-las com o respeito que merecem, quando se apresentam, sermos tocados por elas e deixá-las ir. É aceitar cada imagem que trazem, com uma tela em branco, para que cada uma possa desenhar-se livremente em todo seu esplendor.
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

De música e família

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Fui passar o final de semana na casa do meu filho, no extremo sul de Minas Gerais. Ele mora com a família, no topo de uma montanha cercada de vales, de outras montanhas e da natureza toda, com a qual convivem respeitosa e agradecidamente.
Sempre aprendo, e aprendo muito lá.
No final da tarde de sexta-feira estava lendo, tranqüila na sala, quando comecei a ouvir meu filho no banheiro, administrando um de sete, um de cinco e uma de três, no banho. Foi muito interessante.
O resultado era um quarteto afinado, composto de uma só família de instrumentos que emitiam sons completamente diferentes. Ouvi de gritos de Tarzan a choro, e risadas de quase perder o fôlego. Às vezes meu filho, o primeiro violino, conseguia um solo surpreendentemente calmo e equilibrado, mas era por pouco tempo porque os outros instrumentos se atiravam literalmente em cena. Os movimentos da peça eram inesperados e surpreendentes. Tinham começado hesitantes, na entrada do banheiro, num adagio ma non troppo, e crescido até chegarem ao allegro. Tudo indicava que haveria um segundo movimento, mas não demorou para que quebrassem todas as regras e ziguezagueassem entre extremos.
Sem anúncio prévio nem sutil indicação, um ou outro instrumento se retirava do conjunto, por espaços de tempo descompassados, e o andamento continuava surpreendendo.
Havia ais, havia uis, havia sai daí que agora é minha vez, e olha ele pai! E eu, de camarote, sorria, me deliciando. Lavou bem a orelha filho? Ai pai, meu olho! Enxuga bem no meio dos dedos. Deixa eu ver atrás da orelha. Ai!
Quando estavam todos vestidos e cheirosos, meu filho pediu para eu secar os cabelos da criançada, e plugou o secador na tomada ao lado do sofá onde eu tinha sentado para ler.
Terminada a tarefa, dei graças aos céus por serem só três cabecinhas molhadas. Era o meu limite. Os cabelos da pequena, além de longos, finos e loiros, são cacheados. Bastaria um deslize para que eu perdesse pontos preciosos da sua confiança.
Entrei no quarteto, no meio de nova execução, quando fui à saleta de televisão onde se acomodavam para ver um filme, com o pai. Não demorou para eu perceber que a melodia resultante era bem diferente da que eu ouvira antes, vinda do banheiro. Saí de cena para testar e percebi que a melodia recobrava a harmonia original.
Tomei então a decisão de conter meu instrumento. De hoje em diante vou tocar mais baixinho, acompanhando mais do que solando. Quem tem ensaiado junto todos os dias, ano após ano, tem maestria do conjunto. Eu não. Sei que toco bem, sem falsa modéstia, mas no conjunto, sem ensaio, faço apenas o que posso, e de improviso, no momento da apresentação. Nunca tinha olhado para nós mesmos, através dessa lente. Gostei. Não posso dizer que vejo mais, mas seguramente vejo melhor.
Quem disse que vovós e vovôs não ouvem e não vêem bem?
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano