De tempo e espaço



Por Maria Lucia Solla

Olá,

Será que é o tempo que passa depressa demais, ou é a vida que vai ficando cada dia mais interessante e cheia de possibilidades, e a gente quer fazer mais, aprender mais, e então se agita e corre contra ele? Fico com a segundo hipótese, principalmente agora, em que ao mesmo tempo preparo uma salada para o meu jantar, alinhavo as idéias deste texto, me organizo para as aulas de amanhã, e tento entender como funciona o meu mais novo objeto de desejo, a ponto de ser adquirido. Ainda nem sei o preço, mas já percebi que vai acabar como bichinho de estimação. Você desenha uma tabela apinhada de razões para não trazê-lo para casa; é caro, dá trabalho, exige muita atenção, você não tem tempo, viaja muito, não gostaria de deixar a criaturinha solitária, e por aí vai. O caso é que se alguém traz um filhote fofinho para a sua casa e diz, fica com ele por uns dias e, se realmente decidir que não o quer, venho buscá-lo de volta. Cruz credo! Afasta a bruxa! Só de pensar que alguém poderia tentar levar embora aquele serzinho gostoso, que te olhou de um modo como ninguém ainda tinha olhado antes na vida, passa um gelo pela corrente sangüínea, e você enxota a idéia. Final da história, você se transforma em senhor e vassalo do bichinho, ao mesmo tempo. Pois bem, meu mais novo objeto de desejo, do qual estou em vias de tornar-me senhora e vassala, é uma bússola internética moderna, engenhoca eletrônica, das mais incríveis. E ainda cabe na bolsa e não pesa; atributos decisivos, na hora de bater o martelo.

Mas voltando a falar de tempo, às sete e meia da noite estava cortando, no tamanho de pequenas bocadas, o pepino japonês, o tomate italiano, e deixado a alface americana de molho na água com sal, para tentar matar os germes menos resistentes, e fazer uma salada grega. No meio da função, percebi, bem ali na minha frente, cortadinho e colorido, um exemplo saboroso de que o mundo ficou mesmo pequeno. Faltava só cortar a cebola brasileira, separar uma porção de queijo feta, que eu trouxe de viagem, para me sentar e comer a salada grega com um belo pedaço de pão francês.

Doce ilusão. O tempo voou e o relógio já marcava dez horas. A salada, o queijo, o pão e minha fome tiveram que esperar, até chegarem ao juntos e felizes para sempre. Sentei para arrematar o texto, e fiquei pensando no bichinho de estimação, na jóia eletrônica, na salada, no tempo, no mundo ao alcance do paladar e do olfato, e o telefone tocou. Era um amigo querido. Fui tentando fazer o que tinha para fazer, equilibrando o telefone entre o queixo e o ombro esquerdo, me lembrando de separar o livro que vou usar nas aulas de amanhã, subindo e descendo as escadas de casa, e o tempo, o tal do tempo, foi passando. O celular tocou e era meu filho. Disse para o amigo, com quem falava no fixo, concorrência desleal; voou ter que desligar. Manda um beijo pra ele, disse o amigo de verdade. E falamos, meu filho e eu, como filho e mãe, como amigo e amiga, como um homem e uma mulher que vivem neste mundo de hoje, em que o tempo voa, a vida é fascinante com seus altos e baixos e seus tons e meio-tons, e foi difícil desligar. Mãe, a ligação tá ficando cara. É mesmo, filho, a gente fala mais amanhã. Amo você. Também amo você, mãe.
Agora vou me sentar para comer, curiosa para saber: como é que passa o tempo para você?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: O Tempo

Mário Quintana descreve a forma como o tempo se reflete no ser humano, na edição deste sábado de Quintanares:

Quintanares é publicado sábado e terça neste blog, resultado de gravações feitas por Milton Ferretti Jung que apresentou este programa, na Rádio Guaíba, de Porto Alegre.

Quintanares: Minha morte nasceu …

Negociar com a morte e enxergá-la bela tanto quanto natural só é possível aos homens geniais como Mário Quintana. É o que se encontra neste texto interpretado por Milton Ferretti Jung que apresentou Quintanares, na rádio Guaíba de Porto Alegre:

Quintanares é apresentado neste blog sábado e terça-feira

Idas e vindas



Por Maria Lucia Solla

Olá

Hoje, depois de um mês de férias, um amigo sugeriu que eu falasse sobre minha volta a São Paulo, a cidade onde nasci, cresci e para onde voltei, depois de algum tempo longe, para criar meus filhos. Achei que a tarefa seria fácil, sentei na frente do computador, rascunhei um punhado de pensamentos, e não consegui juntar lé com cré. Então fui reler um texto meu, publicado em 2004, no livro “São Paulo 450 anos Sua História e seus Monumentos – Destaques e Personalidades”.

Meu amor por São Paulo
Admiração e repúdio. Prazer e desprazer.

Amor passional é o que se tem por São Paulo. Nada aqui é cinzento, a não ser o seu céu – esporadicamente e não diariamente como dizem, em momentos de repúdio ou de dor de cotovelo –, assim como não somos cinzentos os seus moradores.

Somos valentes e ela é valente. Somos violentos e ela é violenta. Somos artísticos e ela é artística. Somos caóticos e ela é caótica. São Paulo é, sempre foi e sempre será, o resultado da soma de todos os que aqui trabalham, amam, geram, destroem, educam, choram e riem. São Paulo é o grito coletivo do êxtase da vida que criamos a cada amanhecer. São Paulo será melhor, mais amável, mais cordial, mais alegre, menos violenta e mais limpa, quando formos melhores, mais amáveis, mais cordiais, mais alegres, menos violentos e mais limpos.

Voltei, há apenas três dias, sentindo algo diferente. Um tipo de força que já esteve em mim antes, mas que fazia tempo não se manifestava. Talvez tenha sido a mudança de posição, que muitas vezes ajuda. Há um colorido diferente no meu modo de olhar as pessoas, suas atitudes, e os acontecimentos do dia-a-dia. É uma força que está louca para sair e se expressar. Quer vir à luz, nascer, crescer, se exercitar, ter seu próprio ciclo de vida.

Jamais tive intenção de colocar o que sinto numa caixa, colar-lhe um belo rótulo e desenhar um mapa indicativo de como atingir o que considero bom. Longe de mim. Só o que sei, quando sei, é que quando se está presente no presente, no momento real, tudo fica mais claro, e é onde estou agora. Se depender de mim, e esta força for bem cultivada, a cidade será cada dia melhor. Quando cheguei, não vi o caos, vi a cidade onde nasci. Vi a cidade onde moram muitos dos meus amigos mais queridos, vi uma cidade que se enche de mistério ao cair da noite, onde a solidão busca seu antídoto, a riqueza se esbalda ao seu modo e a pobreza ao seu. Vi uma cidade onde proliferam movimentos de esperança, de construção, de solidariedade, e me senti muito bem.

E você, como se sente na sua cidade?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Poema

Um ouvido atento nas pequenas beleza fazem do poeta um ser especial. Mário Quintana mantinha sempre os dois ouvidos abertos às surpresas do dia … e da noite, também, como neste texto interpretado por Milton Ferretti Jung que por 10 anos apresentou o quadro Quintanares, na Rádio Guaíba, de Porto Alegre:

Quintanares você ouve somente aqui no blog e toda terça e sábado uma nova interpretação da poesia de Mário Quintana.

Quintanares: A Morta é que esta morta

Na poesia de Mário Quintana, a morte sempre foi desafiada com textos irônicos e dramáticos ao mesmo tempo. Acompanhe mais este capítulo de Quintanares programa que foi apresentado originalmente na Rádio Guaíba de Porto Alegre pelo jornalista Mílton Ferretti Jung:

Você ouve Quintanares toda terça e sábado, neste blog. Não deixe de pesquisar as poesias que já foram publicadas aqui.

De Stratos e gratidão


Por Maria Lucia Solla

Olá,

Hoje pela manhã, caminhei pelo bairro onde estou hospedada, em Atenas, com familiaridade e segurança. Fui ao supermercado porque quero levar comigo e ter à mesa, por algum tempo, pedacinhos da Grécia. Suas cores, seus aromas e seus sabores. Então, num dado passo, num estalo, me dei conta de que cada viagem é uma pequena vida, com início, meio e fim. Quando se adquire a confiança necessária para usufruir cada minuto, é hora de ir embora.

No início desta minha pequena vida, sentia-me insegura e tateava o terreno com cuidado, temendo o caminho nunca trilhado. Passei por tudo um pouco; ilusão, desilusão, aprendizado de todo quilate, mudança de hábito e de opinião, emoção de todo tamanho e feitio, ruído e silêncio, companhia e solidão. No entanto, uma das fases mais importantes desse meu pedaço de vida começou com a viagem de trem, de Atenas para Edessa, cidade de aproximadamente cento e cinqüenta mil habitantes, capital do distrito de Pella, na região da Macedônia Central, ao norte da Grécia. No balançar do trem que deixava a cidade e se embrenhava entre montanhas cobertas de neve, um novo tipo de solidão tomou conta de mim. Não havia tristeza; só solidão, pura, com gelo. Já estive na tristeza antes, em diferentes latitudes, e diversas estações. Passei pela tristeza que desabrocha com as flores, pela tristeza alquebrada, que vai largando a carga ao longo da estrada, por aquela que arde como fogo e a que queima como gelo. Ali não. A tristeza ficou na estação de Atenas, fazendo companhia para a ansiedade e a expectativa. Levei comigo apenas uma espécie de entrega e confiança no passo seguinte. Ah, que bom seria, sempre assim, a vida.

Num dos tantos momentos mágicos, numa quarta-feira despretensiosa, meu amigo Stratos dirigia na descida da montanha, depois de um dia na estação de esqui Kaimaktsalan, derrapando aqui e ali, na estrada ainda gelada. De repente, parou num cotovelo de montanha, de tirar o fôlego.
– Quer voar de Paraglide?
– Eu? Não sei!
Começou a desembarcar os equipamentos, enquanto eu observava, sentindo tudo em mim se expandir.
– E então, decidiu? Quer voar?
Lá, muito lá em baixo, como miniaturas, os pequenos povoados viviam mais um dia-a-dia corriqueiro. Tentei calcular a altura, e não cheguei a conclusão alguma. Eram momentos que, curiosa e misteriosamente, se arrastavam e corriam, simultaneamente. Meu coração saltava no peito, querendo voar, e eu disse não. E o meu não ecoou na vastidão solitária da montanha gelada.
– Vai perder uma oportunidade na sua vida.
O tom era suave, sem intenção de me convencer de absolutamente nada. Pura e honesta constatação. Respirei fundo uma, duas, três vezes e disse quase gritando, sim!
– Sim, o quê?
– Eu quero voar!

E você, sabe o que quer?

Pense nisso, e até a semana que vem

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: A Cor do Invisível

Quando os sapatos ringem
– quem diria?
São os teus pés que estão cantando!

Mário Quintana, A Cor do Invisível, Ed.Globo.

Texto publicado nos comentários do Quintanares de ontem (26/02) pela ouvinte-internauta Celina. Tudo bem, era uma resposta dura ao outro participante da discussão, mas a lembrança é ótima e não deve ficar escondida por lá.

Quintanares: Rua dos Cata-ventos XVIII

Inquieto como o poeta são os ventos que movem a vida nas ruas onde a imaginação de Mário Quintana passeou. Hoje, você ouve um dos trechos de publicação das mais conhecidas deste gaúcho de Alegrete.

A gravação é parte do programa Quintanares, apresentado por Milton Ferretti Jung, na rádio Guaíba de Porto Alegre, durante 10 anos. Toda terça e sábado, você encontra uma nova publicação aqui no blog:

De Marias e de dor

Por Maria Lucia Solla
Da Grécia

Olá,

Minha Nossa Senhora das Mulheres que Gostam de Sofrer, rogai por nós, as pecadoras. Rogai pelas mulheres que já gostaram de sofrer, um dia, para não recaírem na tentação; por aquelas que ainda gostam, para largarem o vício, de uma vez por todas, e por aquelas que apenas deixaram de gostar, para perceberem a diferença, e continuarem firmes na nova jornada, rumo ao bem viver. Sofrimento é droga que vicia mais do que todas as outras e, de todas, é a mais prejudicial. Vai matando devagar e silenciosamente, na maioria das vezes sem deixar marcas aparentes, e se não mata, deixa seqüelas inomináveis.

Claro que há homens que gostam de sofrer também, mas como são feitos de ingredientes diferentes dos ingredientes das mulheres, e devem ter seu próprio santo protetor, prefiro não me meter nos seus assuntos. Sei, no entanto, que todos os que gostam de sofrer atraem, para si, magnética e inevitavelmente, aqueles que gostam de fazer sofrer; e aí trata-se de outro vício. É como açúcar e formiga. Onde há um, logo aparece o outro.

Aqui mesmo, no apartamento ao lado, tenho o exemplo de uma jovem de trinta e um anos, que tem sofrido muito. Dia mais, dia menos, mas as doses de sofrimento são contínuas. Ela e seu marido namoraram durante cinco anos. Ele é um rapaz do interior como ela, mas está em Atenas há muito mais tempo. Há menos de um ano se casaram, e o desastre não demorou a chegar. Moram num apartamento pequeno, muito bem arrumado, decorado com bom gosto e repleto de equipamentos eletro-eletrônicos dignos de país de primeiro mundo, que, diga-se de passagem, a Grécia está longe de ser. Os dois parecem ter descoberto, só depois do casamento, que têm sonhos diferentes. Ele é proprietário de metade de um táxi e decidiu trabalhar à noite, dizendo que assim ganha melhor. Dorme durante o dia e, nas horas vagas, sai com os amigos. Ela trabalha num super mercado, de segunda à sexta, durante o dia, e quando não chora, dorme à noite. Além disso, ele não quer filhos, enquanto o sonho maior dela, é tê-los; e depois de muito desentendimento, ele quis a separação. Ela não. Entre seus soluços e, usando meu parco grego, como ferramenta auxiliar, ouço-a com atenção. Entendo, muito mais do que o idioma, a expressão de dor e as lágrimas. Ele quis ir embora, e ela pediu que não fosse. Perguntei por quê, e ela simplesmente disse que não quer ficar sozinha. Sabe que vai sofrer ainda mais, em doses contínuas e previsíveis, mas quer assim.

Hoje, por exemplo, é um domingo absolutamente romântico e raro. Atenas está coberta de neve, e continua nevando. Dizem-me os gregos que, a última vez que isso aconteceu foi em 2004, e que antes disso, nem se lembram. Minha vizinha está em casa, sozinha. Maria é o seu nome, como tantas Marias, nos idiomas mais diversos. Da verdade de seus segredos, não tenho a chave. Nem dos meus, que também Maria sou. Mas não desisto de buscar minha porção de alegria, e vou aprendendo na busca. E você?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano