Um tiro de revólver disparado sabe-se lá por quem e talvez nunca se saberá – matou Antonio Carlos Figueiredo, aos 63 anos, pouco antes dele chegar em seu condomínio no Morumbi, zona sul de São Paulo, há uma semana. O caso ganhou destaque no noticiário pois ocorreu em um bairro nobre da capital paulista e com um assessor do Governo do Estado de São Paulo. Antonio Carlos trabalhava para o secretário estadual da Fazenda Mauro Ricardo e teria sido vítima de um assalto. Ainda tentou chegar em casa dirigindo seu carro, mas não resistiu.
O CBN SP recebeu mensagem de um dos filhos de Antonio Carlos, Fernando Figueiredo, que descreve com lucidez e emoção seu sentimento após a morte do pai:
Neste momento, poucas palavras expressariam a dor e o sentimento de perda tão repentino que sinto desde domingo à noite.
Por outro lado há muitas para falar sobre as causas e os efeitos que levam um cidadão exemplar e um pai dedicado a morrer sob a mira de um revólver por motivos banais assim como centenas e milhares de famílias já sentiram!
Digo que os motivos são banais, não porque de fato sejam, e sim porque assistimos, diariamente, anestesiados à toda violência que acontece nesta cidade que se transformou em uma gigantesca roleta russa para seus milhões de habitantes.
Ouvir minha avó com mais de 80 anos, afirmar que para ela os cemitérios são alguns dos poucos locais de São Paulo onde realmente conseguimos nos sentir um pouco menos inseguros durante o dia, deve ser algo para todos nós pensarmos a respeito.
Meu pai não será o primeiro, o segundo ou mesmo o último a morrer de forma tão estúpida e inconseqüente. Então pergunto: Por quanto tempo vamos ter que esperar para de fato começarmos a resolver as bases destes pais? É claro que desejo ver os criminosos que fizeram isso pagar pelos seus atos.
Entretanto, para mim, isso não é um consolo ou a causa a ser resolvida. A dor será superada, a saudade será amenizada, mas não tenho dúvidas de que as marcas do que fizeram serão eternas para mim, minha família e todos aqueles que conheceram de fato o ser humano que foi meu pai, assim como são para muitas famílias que perderam seus parentes de forma trágica.
Estejam certos: “Não existe solução em curto prazo.” É natural como ser humano desejar, dentro de uma visão imediatista, amenizar o sentimento de perda e dor buscando as pessoas que lhe tiraram algo de valor inestimável.
Um consolo para mim seria ver nossos políticos e a sociedade realmente se mobilizarem pela solução das causas que levam a eventos como este. A verdade é que temos de aceitar que a grande maioria daqueles que escolhemos para representar e apoiar os cidadãos brasileiros, que deveriam estar preocupados com as necessidades de segurança, saúde, educação, historicamente gastam o dinheiro dos impostos que vêm de tudo aquilo que “damos o sangue diariamente para conquistar”, com temas e causas superficiais, visando à manutenção de suas “imagens” intactas aos efeitos de suas ações pouco eficazes.
O que dizer do tempo e do dinheiro que está sendo gasto, enquanto nosso presidente do senado e seus aliados tentam provar as “versões de suas verdades”?
Enquanto isso esperamos e cobramos pelas mudanças que a sociedade lhes exige, mas vejo que poucos realmente estão preocupados em “idealizar, pensar e agir sobre as mudanças necessárias”.
Sei que meu pai era um destes poucos. Assim ele viveu e morreu, dedicando 43 anos de sua vida ao Governo do Estado de São Paulo, com um salário simples de funcionário público e uma dedicação imensurável a família, aos amigos e a sociedade.
Gostaria que não apenas nossos políticos, mas também todos que ouvirem ou lerem este desabafo, busquem entender o real significado das palavras “Vida”, “Sociedade”, “Educação”, “Respeito”, “Amor ao Próximo”, “Ética”, “Moral” e “Democracia”.
Não precisamos de muitas palavras para reconstruir uma sociedade. Mas precisamos parar de “banalizá-las” em falácias e de fato aplicar seu real conceito em nossas vidas e sobre as vidas que nos responsabilizamos em administrar.
Fernando Luis Ramsthaler Figueiredo.