MORTE NO AVIÃO

Está no Ancelmo Gois, a reprodução de trechos do poema de Carlos Drummond de Andrade:

Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre
Saio para a rua. Vou morrer.
Não morrerei agora. Um dia

(…)

A morte dispôs poltronas para o conforto da espera.
Aqui se encontram os que vão morrer e não sabem.
Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido, pequenos serviços cercam de delicadeza nossos corpos amarrados.
Vamos morrer, já não é apenas meu fim particular e limitado, somos vinte a ser destruídos, morreremos vinte, vinte nos espatifaremos, é agora.

(…)

Ó brancura, serenidade sob a violência da morte sem aviso prévio, cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico golpe vibrado no ar, lâmina de vento no pescoço, raio choque estrondo fulguração rolamos pulverizados caio verticalmente e me transformo em notícia.

Apertem os cintos: ninguém sabe quem manda

A manchete acima está em O Globo, desta quinta-feira. Na reportagem de Cristiane Jungblut e Geraldo Doca, o jornal afirma:

“Sobram autoridades e siglas, mas faltam comando e gestão na aviação, dizem especialistas e parlamentares … A crise aérea agravada com o segundo grande acidente aéreo em dez meses reacendeu a polêmica sobre a falta de comando no setor da aviação civil. Parlamentares e especialistas afirmam que há uma crise de gestão e apontam o Ministério da Defesa como o elo mais fraco neste momento”

No CBN SP desta quarta-feira, a diretora do Emurb Regina Monteiro, que atua desde a década de 90 com o objetivo de reduzir as operações de vôo em Congonhas, afirmou que uma das dificuldades nas conversas com autoridades era saber quem manda no que e quem manda em quem. O mal é antigo.

Agora o outro lado

Na Mônica Bergamo, a posição das empresas:


O presidente do Snea (sindicato que representa as empresas), José Marcio Mollo, diz que Congonhas já registrou no passado 60 pousos e decolagens por hora -e que hoje opera 44. “É cômodo para o governo tentar culpar as empresas”, afirma. “Se os vôos forem desviados de Congonhas, o aeroporto de Guarulhos também não aguenta, explode.”

Empresas aéreas defenderam liberação de Congonhas

É o que diz reportagem desta quinta-feira, da Folha de São Paulo:

Pressões das companhias aéreas foram determinantes para a liberação da pista principal do aeroporto de Congonhas antes da conclusão da reforma e da realização do “grooving” -processo de cavar sulcos no asfalto para acelerar o escoamento da chuva. Oficialmente, a Infraero (estatal que administra os aeroportos) e a Anac negam que tenha havido quaisquer pressões. Segundo apurou a Folha, o lobby empresarial visava não só manter a inauguração em 29 de junho, antes do começo das férias, mesmo sem a realização do “grooving”, mas também reduzir pousos e decolagens de jatos executivos e táxi aéreo, o que realmente aconteceu.

A informação vai ao encontro da postura da TAM que, na entrevista coletiva de terça, elogiou as condições da pista principal do aeroporto de Congonhas. Agora há pouco, um especialista em aviação ouvido no Bom Dia Brasil falou que as empresas teriam prejuízo enorme se reduzissem pousos e decolagens em Congonhas.

Talvez o seguro de vida pago pelas empresas seja mais barato.

Vídeo mostra airbus em alta velocidade

Os dois principais canais de televisão (Globo e Record) divulgaram, na noite desta quarta-feira, imagens que mostram o momento do pouso do vôo 3054, da TAM. O avião cruza em apenas 3 segundos a pista. O mesmo trecho foi percorrido em 11 segundos por uma aeronave que aterrissou momentos antes. O vídeo revelaria, assim, que o comandante do airbus desceu em alta velocidade e (perdoe-me por insistir no assunto) justifica a questão levantada com o ministro da Justiça, Tarso Genro, em entrevista pela manhã na CBN

Para ver a imagem acesse o link abixo do portal G1:

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL72804-5605,00.html

Ouvintes-internautas discutem entrevista com Tarso Genro

O ministro da Justiça, Tarso Genro, foi entrevistado por este jornalista, hoje, na CBN, e concedeu as declarações de praxe, preferindo não entrar em polêmicas. Algumas delas repetiu pouco mais tarde durante a entrevista coletiva.

Ouvintes-internautas do CBN SP fizeram críticas ao meu desempenho. Fui acusado de inquisidor, assim como de “amolecedor”. Reproduzo duas das mensagens destes ouvintes-internautas e ofereço o link da entrevista para que você possa fazer sua avaliação e comentários.

A ouvinte-internauta Maria Rita Guedes Queiroz Lopes escreveu:

“Prezado Milton Jung, Bom dia. Eu sempre me irritei com sua maneira tendenciosa de efetuar entrevistas e comentários, mas achei que eu poderia estar um pouco equivocada, e que eu poderia estar sendo preconceituosa em relação a uma pessoa que, claramente, apoia o governo de centro acadêmico de quinta categoria que nos “dirige”. Agora, depois de ouvir sua entrevista com o Ministro Tarso Genro, não dá mais. Até o gancho final para a saída oficial que já se anuncia você se prestou a dar: o piloto tocou na pista de maneira inapropriada. Que vergonha para o bravo povo gaúcho. Você faz parte de um sistema tão nefasto quanto o que vigorou neste país por 21 anos. E talvez até mais nefasto pois se reveste de “transparência”. Pelo menos na era negra da ditadura as coisas eram mais claras e as receitas de bolo de chocolate na primeira página do Estadão não deixam dúvidas Só posso te dizer uma coisa: QUE VERGONHA!!! Sei que isso não significa absolutamente nada para você e para o grupo ao qual a rádio CBN pertence, mas vou imitar um gesto que meu saudoso avô fazia cada vez que se irritava muito com o editorial do Estadão ou da Folha. Eu achava muita graça nisso, mas hoje entendo perfeitamente. EU NÃO SOU MAIS OUVINTE DESTA RÁDIO”

O ouvinte-internauta Carlos Bernardes escreveu:

“Sou assiduo ouvinte desta rádio desde sua criação. Fico muito triste
quando tragédias como essa são usadas politicamente e de forma arbitrária
pela imprensa, como está sendo agora feito pela CBN. Sua entrevista com o
Ministro da Justiça, Tarso Genro, mais parecia um inquérito ou acusação
direta. Fica claro aí uma defesa de uma classe e não especificamente a
preocupação com o acidente em si ou com suas dores. Não nos esqueçamos
aqui do caso da Escola Base, cujos donos foram condenados por TODA a
imprensa nacional, destruiram suas vidas e depois se verificou que não era
bem aquilo que foi amplamente noticiado o que ocorrera.
Por exemplo, tres pilotos disseram que os aviões da TAM vôam “pinados”,
prejudicando o frear da aeronave. Vocês noticiaram isso? Por que voces não
fazem um trabalho isento e se pronunciem após concluido o inquérito. Não
gostaria de pensar assim, mas vejo que determinados repórteres devem estar
como abutres atrás dos parentes e amigos das vítimas querendo deles uma
declaração que elevem a indignação nacional ou o índice de audiência de
determinados veículos de rádio e televisão e venda de jornais e revistas.
Uma rádio comno essa, com sua importância, não pode se servir ao erro de
servir a interesse expúrios de certos setores da sociedade.

Acompanhe a entrevista do ministro da Justiça Tarso Genro acessando http://www.cbn.com.br

Um portão-avião dentro da cidade, diz arquiteta

Uma das principais lutas do Movimento Defenda São Paulo, ONG que atua em questões relacionadas a capital paulista, foi a restrição ao número de vôos no aeroporto de Congonhas, na zona sul. A fundadora do movimento, urbanista Regina Monteiro, atualmente diretora da Emurb, disse que o aeroporto pode ser comparado com um porta-aviões dentro da malha urbana da cidade (não deixe de visitar notas abaixo as fotografias aéreas de Congonhas)

Regina Monteiro, que mora no bairro do Brooklin Velho, próximo do aeroporto, falou ao CBN SP:

Um argentino entre as vítimas da tragédia, em Congonhas


A informação é reproduzida do site do Clarin.com. O link está abaixo:

Lo confirmó esta mañana el embajador argentino en Brasilia, Pablo Lohle, quien aclaró que en principio no se supo del origen porque el hombre tenía residencia en Brasil. Ayer, un avión de la compañía TAM se despistó tras aterrizar en el aeropuerto de Congonhas. Cruzó una transitada avenida y tras estrellarse contra un depósito, se incendió. Los equipos de rescate ya encontraron la caja negra.

Un ciudadano argentino radicado en la ciudad brasileña de Porto Alegre murió en la tragedia aérea ocurrida en Brasil, lo confirmó esta mañana el embajador argentino en Brasilia, Pablo Lohle.

El diplomático dijo que los familiares de la víctima, identificada como Alejandro Camozzi, se están comunicando con la compañía aérea TAM, uno de cuyos aviones se incendió ayer en San Pablo causando cerca de 200 muertes.

El embajador dijo a Radio Mitre que en principio no se supo de la víctima argentina porque el hombre tenía residencia en Brasil.
http://www.clarin.com/diario/2007/07/18/um/m-01459879.htm

Aeroporto de Congonhas: culpado ou inocente ?

?

Há 11 anos, no dia seguinte a tragédia com o Fokker-100 da TAM, no bairro do Jabaquara, ouvia-se vozes contra o funcionamento do aeroporto de Congonhas em área densamente ocupada. Em seguida, a contra-resposta: o aeroporto já estava lá quando as pessoas construíram ou compraram suas casas.

Têm razão, em parte. Ao ser construído, o aeroporto foi para um local aparentemente seguro para os moldes da cidade naquela época, década de 1930. Havia lá um vazio urbano e a área era distante da cidade. Foi a solução para resolver o problema dos constantes alagamentos na pista do Campo de Marte, construído ao lado do Rio Tietê, que teimava retomar seu leito.

Desde a década de 1980, quando iniciou-se o planejamento e construção do aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos, imaginava-se a diminuição das operações em Congonhas. Os vizinhos do aeroporto já eram em número muito grande e o risco de acidentes, também.

A situação apenas se agravou desde lá. A única vitória da comunidade foi diminuir o período de funcionamento do aeroporto para que os moradores pudessem dormir em paz.

Por mais que os fatos e as fotos (veja imagens publicadas neste blog) mostrem, claramente, que a cidade foi quem sufocou o aeroporto de Congonhas, é preciso entender que este movimento era natural, devido ao crescimento da população de São Paulo.

Apesar dos protestos e ações na justiça, ninguém quis abrir mão do conforto de embarcar em um aeroporto que fica ao lado de casa. Muito menos as empresas aéreas que nunca aceitaram tirar seus aviões dali e transferi-los para Guarulhos, afinal perderiam dinheiro.

Os 99 mortos do acidente da TAM em 1996 não foram suficientes para São Paulo e o Brasil discutirem com profundidade o aumento das restrições nos vôos em Congonhas. Os quase 200 mortos do acidente desta terça-feira não o serão também. É o que a história nos mostra. Tomara que apareça alguém para mudar esta rota.