Presidente do TJ de SP defende parentes em cargos de assessor

 

O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ivan Sartori, disse que procura uma forma de permitir que juízes possam contratar seus parentes, desde que funcionários concursados, para preencher as cerca de duas mil vagas de assistente judiciário, criadas pela Lei Complementar estadual 1.172/2012. A restrição para a contratação de parentes está no texto sancionado pelo governador Geraldo Alckmin e foi criada durante a discussão do projeto de lei, pois o texto original permitia a livre nomeação, ou seja, qualquer pessoa, funcionária ou não do tribunal, poderia ser indicada para assessorar os juízes bastando ser servidora pública e bacharel de direito. Para Sartori se não for autorizada a contratação de pessoas que tenham parentesco com juízes ou servidores da Justiça será muito difícil ocupar as vagas abertas. Como mudar a lei agora seria algum bastante complexo, se pensa na possibilidade de permitir a contratação de parentes em comarcas diferentes. Por exemplo, um juiz de São Paulo poderia indicar para assessor o parente de um servidor da Justiça de Campinas.

 

Mesmo que as mais justificáveis boas intenções estejam por trás desta proposta do presidente do TJ, a ideia desconsidera uma luta histórica da sociedade brasileira contra o nepotismo e o fato de que no Brasil, aberta uma exceção, logo esta se transforma em regra.

Novo prefeito tem de apresentar metas para os 96 distritos em SP

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da revista Época SP

 

Escola Carumbé

 

Tem sido bem interessante acompanhar as reportagens que a equipe da CBN está fazendo na série “Meu bairro, nossa cidade”, que começou semana passada com a promessa de visitar os 96 distritos da capital e mostrar os problemas que os moradores enfrentam em seu cotidiano. Nesta primeira etapa, as repórteres Cátia Toffoletto e Maria Eugênia Flores têm concentrado esforços nas zonas leste e norte. Dia desses, a Cátia mostrou que comerciantes de Ermelino Matarazzo têm de pagar pedágio a bandidos para manter suas lojas abertas, enquanto a Mage identificava a dificuldade para os 500 mil moradores de Jacarepaguá irem trabalhar devido aos problemas no transporte público. Ouvi, também, que na Casa Verde, as pessoas não têm acesso à saúde, pois faltam unidades que atendam emergências, exigindo que elas deixem a região em busca de socorro. Dos depoimentos que mais me incomodaram foi o de um cidadão que mora em um casebre à beira do córrego, no Carrão, e disse, conformado, que aprendeu a conviver com os ratos, basta colocar um rede nas entradas da casa. (você pode ver os vídeos e as reportagens aqui)

 

Desculpe-me se pareço cabotino ao abrir este post falando do trabalho da equipe de repórteres da emissora na qual trabalho desde 1998, mas o diagnóstico que fizeram das carências dos distritos visitados até aqui é capaz de mostrar o grande desequilíbrio que existe na cidade de São Paulo e como o poder público é ineficiente em suas ações. Aliás, indicadores levantados pela rede Nossa São Paulo, a partir de pesquisa feita pelo Ibope e com base em dados oficiais, também são claros ao revelar esta triste realidade. Há uma enorme quantidade de zeros em itens como hospitais, bibliotecas, teatros e outros que deveriam servir de ponto de partida para as ações do poder público. E de metas a serem propostas nos programas de governo de candidatos à prefeitura e de partidos que buscam vagas na Câmara Municipal de São Paulo.

 

A propósito, um fato que os próximos legisladores não poderão ignorar, é que a lei de metas, em vigor desde 2009, obriga a prefeitura a divulgar os objetivos a serem alcançados em todos os 96 distritos. A atual administração resumiu a Agenda 2012 a metas por setores e sem ter os indicadores de desempenho como referência. Será necessário, por exemplo, dizer o que se pretende fazer com a falta de unidades de saúde na Casa Verde ou quantas unidades habitacionais se pretende entregar para reduzir a ausência de moradia no Carrão. O grande objetivo da cidade tem de ser “zerar os zeros” ou seja oferecer a todo o cidadão seus direitos mais fundamentais. Não deixe de cobrar do seu candidato este compromisso.

Vamos falar de jornalismo ?

 

As transformações sofridas pelo jornalismo e o impacto do desenvolvimento tecnológico nos meios de comunicação são alguns dos temas que serão discutidos no debate 25 Anos – O Contexto Jornalístico, promovido pela Editora Contexto. Estarei ao lado de Milton Leite, Pollyana Ferrari e Carlos Eduardo Lins da Silva, a partir das 7 horas da noite, no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura, na avenida Paulista. Uma coleção completa da série de jornalismo da Contexto será sorteada.

 

Por bibliotecas atrativas e no fim de semana

 

Texto publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Trabalho de Eduardo Kobra quase finalizado

 

Em casa – leia-se, em Porto Alegre – não tinha uma biblioteca enorme à disposição, mas era muito comum ver meu pai com um livro na mão. Se não me falha a memória, ele gostava de romances policiais e talvez tenha sido isso que me impulsou a ler Agatha Cristie, primeira autora que aparece em minha lembrança literária, apesar de que antes dela, além dos infantis, havia aquela série clássica de brasileiros que fazem parte da lista de leitura obrigatória na escola – mas eu detestava ser obrigado a ler. A maioria deles fui conhecer somente mais tarde quando o hábito da leitura havia se transformado em um prazer e, isto, foi, sem dúvida, lição que aprendi, muito mais pelo exemplo do que pelas palavras, com meu pai. Foram poucas as bibliotecas que frequentei, se não me engano havia uma no colégio em que estudava, o Rosário, bem servida e estruturada, mas não dependia dela, pois, privilegiado, tinha livros ao meu alcance. Sei bem, porém, quanto estes equipamentos abrem as portas para o conhecimento em uma cidade e, por isso, espanta ver que 73% das pessoas jamais tiveram oportunidade de entrar em uma biblioteca no Brasil, conforme pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Ibope e encomendada pelo instituo Pró-Livro.

 

A cidade de São Paulo, foco de nosso olhar, apesar de ter das maiores redes de bibliotecas do País, como sempre ressalta a prefeitura em suas notas oficiais, também fica a dever a seus moradores quando o tema é acesso a literatura. Conforme o Observatório do Cidadão da Rede Nossa São Paulo, regiões como a de São Mateus e Cidade Ademar, onde vivem mais de 635 mil pessoas com 15 anos ou mais, não têm um só livro disponível à população em equipamentos públicos de cultura. Dos 96 distritos, 90 não conseguem oferecer 1 livro por morador, quando a meta recomendada pela Unesco é de, no mínimo, 2 livros por habitante adulto.

 

Bem verdade que a expansão da rede de CEUS, com seus prédios mais abrangentes e multifuncionais, permitiu que uma quantidade maior de livros estivesse ao alcance dos leitores, além de iniciativas como o ônibus-biblioteca e Bosques de Leitura, mantidos pela prefeitura, e as bibliotecas nas estações de metrô, resultado de trabalho da iniciativa privada – apenas para citar algumas ações interessantes. Mesmo assim ainda não é suficiente para tornar o paulistano um leitor apaixonado. Percebe-se, por exemplo, que as bibliotecas que existem são pouco atrativas – com as exceções de praxe – pois apesar de 67% das pessoas que responderam a pesquisa nacional do Ibope saberem da existência de uma próxima de casa, a frequência é muito reduzida.

 

Para amenizar este cenário, ao menos entre meninos e meninas do Parque Doroteia, no extremo sul da capital paulista, os criadores da Associação Esportiva Unidos Da Doze tiveram uma ideia simples e genial ao transformarem a pequena sala da entidade em biblioteca, graças a doações recebidas de diferentes instituições e pessoas dispostas a ajudar. A garotada que bate bola no campinho de futebol, enquanto descansa, estica a mão, pega um livro legal e começa a praticar um esporte ainda raro no Brasil: a leitura. Inclusive no fim de semana – informação que ressalto para chamar atenção da prefeitura que insiste em manter as bibliotecas municipais fechadas exatamente quando os jovens teriam mais tempo para aproveitar estes locais. Fico imaginando como seria bacana fazer das bibliotecas pontos de encontro e entretenimento cultural especialmente nas regiões em que são poucas as áreas de lazer.

“Que livro você está lendo nesta semana?”

 

A pergunta foi simples, mas provocou uma reação bastante interessante, transformando meu Twitter em uma rica biblioteca com sugestões dos ouvintes-internautas. Hoje, na conversa diária com Dan Stulbach, Zé Godoy e Teco, no Hora de Expediente, durante o Jornal da CBN, falamos sobre resultados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (Ibope/Instituto Pró-Livro), que, entre outros pontos, mostrou que os brasileiros leem quatro livros por ano, em média. Em seguida, perguntei pelo Twitter “qual o livro que você está lendo?” e recebi mais de 60 respostas. Alguns ouvintes-internautas pediram para que eu compartilhasse a opinião dos demais, criando uma enorme lista de sugestões. Aproveito para agradecer aos que tiveram a gentileza de citar “Jornalismo de Rádio” que lancei pela Editora Contexto, em 2004.

 

Veja as respostas enviadas, faça sua escolha, deixe outras sugestões nos comentários e boa leitura:

 

@ca_marcelino – Chatô, O Rei do Brasil… to na página 21 e já tô encantada!!!

@8Rosangela – A arte de ser leve de Leila Ferreira bem bacana.

@rcaldeirini – Quando é preciso ser forte DeRose

@sspyder @miltonjung Fenomenologia do Espírito do Hegel intercalado com a República.

@BaldinMP13 A Dance with Dragons – George R R Martin

@rbtravassos estou lendo Personal Branding – Arthur Bender

@analuizamarques e @30Ronaldoalves Jornalismo de rádio, Milton Jung

@ricsantos “Muito Além do nosso eu” do @MiguelNicolelis

@kelygouveia “Ficções”- Jorge Luis Borges.

@mandapraesse O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramgo!

@kellypassos “A menina que brincava com fogo”

@tabgiannini Beyond the bounderies – Miguel Nicolelis

@AlmirVieira Os Meninos da Rua Paulo (relendo)

@VanderAbreu China Megatrends, John Naisbitt

@TCOSTAESILVA li “o X da questão” e ao contrário da maioria, achei ruim. Uma mistura de autobiografia c/ autopromoção e uma pitada de autoajuda!

@Manfredo O Tao da Física de Fritjof Capra

@julianodip e @flamacedo O livro do Boni

@Ana_Matta O Jardineiro Fiel

@Elkeane estou lendo o “Content Strategy for the Web” de Kristina Halvorson’s

@a_magrela Biografia de Olga Benário

@SaintCoast o Cemitério de Praga do Humberto Eco!

@FlavyaPereira Antologia Poética, Carlos Drummond de Andrade.

@tommaioral 1808

@tazerldeiascom Estou lendo Steve Jobs por Walter Isaacson.

@OdilPereira Nesta semana, estou lendo “O fio das missangas – Couto, Mia”.

@leontheroad PLO Omaha poker.

@Maracard estou lendo historia da alimentação no Brasil de Luiz da Câmara Cascudo.

@sandrosepa Os Miseraveis ( Victor Hugo ) muito bom !

@kattiabasile Estou lendo “Conversas com Mies van der Rohe” de Moises Puente .. onde ele fala sobre suas ideias basicas sobre arquitetura @jornaldacbn

@oandrebelizario Em Aguas Profundas do David Lynch

@Deyver Qual e a tua obra, do Mario Sergio Cortella

@ZayraNavarro Bom dia, estou me aprimorando com: Controladoria – Uma Abordagem – de Armando Catelli

@Rogeriawerneck Millenium – A menina que brincava com fogo. Excelente!

@betelnet “Ombudsman: o Relógio de Pascal” de Caio Tulio Costa

@InsolenteTemera Eu terminei “O clã dos doze apóstolos” de Olga Behar, jornalista da Colômbia. Grande sugestão para conhecer sobe Alvaro Uribe

@drsoares A Guerra dos Tronos: Festim dos Corvos

@claudiorsouza Como mudar o mundo, eric hobsbawn.

@thiago_osantos Relendo “o mundo é plano” Thomas Friedman

@KarlaPierri De amor e de sombra, Isabel Allende

@fabiik 1Q84 do Haruki Murakami!!!

@abtfkeury Estou lendo Metro 2033

@SabrinarGomide Cavalo de Tróia 1.

@Fvet66 Planos de Negócio Vencedores, de Rhonda Abrams.

@Qvivais Pai Rico, Pai Pobre, do Robert Kiyosaki e Etiqueta sem Frescura, da Cláudia Matarazzo.

@eleonorabfruet “Dois irmãos” de Milton Hatoum.

@luiskolle Milton, estou relendo “Multiplicando o Bem-estar” de Sérgio Buaiz

@vanessavcamargo Estou lendo Memórias de Sherlock Holmes, Arthur C. Doyle, da Ed. L&PM Pocket

@isabelcampos A primavera do Dragão

@marcostwt Deus e o Estado – Bakunin

@Pr_Begnalia “O Incomparável Jesus Cristo” do Dr. Amin Américo Rodor, Unaspress.

@PadreWesley07 Cristianismo puro e simples de C. S Lewis

@quasecubano A Humilhação, de Phillip Roth. Grande autor norte-americano.

@Liddiane A força de ser mulher, Lisa Bevere.

@AnselmoAndriolo Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

@fjsp pode ser um #mangá? estamos relendo “Sandman: Caçadores de Sonhos” (1999), do @neilhimself e com ilustrações de #YoshitakaAmano

@rickaoi Bem vindo a bolsa de Valores. Marcelo Piazza.

@wandKernelpanic A menina que roubava Livros

@AndreaVecci “Sobre a China” Kissinger

@GustavoSemblano Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro

@daniel_puzzi Da Euforia à Crise

@FlavyaPereira Antologia Poética, Carlos Drummond de Andrade.

“O rádio não vai embora, vai para todos os lugares”

 

O caro e raro leitor deste blog é testemunha do esforço que faço para defender a tese de que a internet foi o oxigênio do rádio e nós jornalistas que atuamos no meio temos de estar sempre dispostos a experimentar as ferramentas que esta tecnologia inovadora nos oferece. Verdade que muitas vezes não me sinto recompensado por este exercício, a medida que o resultado que imagino alcançar ao me aproximar do cidadão quase sempre está aquém da minha expectativa. Talvez seja resultado dá má avaliação que faço do potencial de cada recurso ou da má utilização deste recurso. Mas vamos parar de choradeira se não até você, raríssimo companheiro, vai embora desta página sem nem mesmo chegar ao segundo parágrafo.

 

Nesta semana, fiquei muito satisfeito ao ler reportagem com o CEO da NPR, Gary Knell, publicada no site Nieman Journalism Lab, da Fundação Nieman de Harvard, na qual o entrevistado fala de como a National Public Radio ou rede pública de rádio dos Estados Unidos está se adaptando às novas tecnologias. Recentemente, a organização entregou seu departamento de jornalismo e de programação de rádio para Kinsey Wilson, chefe do setor de mídia digital da NPR. Esta foi a primeira grande mudança realizada por Gary Knell, que assumiu o cargo de CEO há três meses. Para o jornalista Andrew Phelps, que o entrevistou, “um sinal claro de que a NPR não é mais apenas uma rádio”.

 

Para o CEO da NPR a intenção é mostrar que não deve mais existir distinção entre as plataformas nas redações e com este trabalho alcançar o público mais jovem, além de diversificar racial, geográfica e politicamente a emissora. Um aspecto interessante na entrevista de Knell é quando chama atenção para o fato de mais da metade da audiência do rádio estar, atualmente, no carro: “os americanos estão vivendo em seus carros cada vez mais, às vezes imagino que vamos dormir e comer dentro dos nossos carros, devido ao trânsito” – isto me soa familiar, não !? Esta realidade tem levado fabricantes a investirem em carros conectados, com tecnologia digital que permita os motoristas a acessar todo tipo de informação que esteja na rede. “Se não estivermos nessas plataformas, estamos mortos”, disse Knell.

 

Sem mais detalhes, fica-se sabendo na entrevista que a NPR tem trabalhado com a Ford para explorar novos recursos a serem instalados nos automóveis e parte desta tecnologia estará abordo dos novos modelos que saem da fábrica. Com o rádio de carro na web, por exemplo, as emissoras ganham dimensão global, e o ouvinte pode acompanhar o noticiário de sua emissora preferia onde quer que esteja. Ao anunciar as mudanças no comando da NPR, Gary Knell brincou com as palavras em mensagem publicada no Twitter: “radio isn’t going away, it’s going everywhere” – algo como “o rádio não vai embora, vai para todos os lugares”.

 

Agora que terminou de ler este post no blog que escrevo na rádio CBN, ouça a nossa programação seja no computador, no telefone celular ou no tablet, esteja onde você estiver.

O impacto da vida digital na vida familiar

 

No começo da semana, Ethevaldo Siqueira, comentarista do Mundo Digital, nos apresentou parte dos resultados de pesquisa mundial feita pela Ipsos Public Affairs, encomendada pela fabricante de biscoitos Oreo, que mostram que o convívio entre crianças e adultos está praticamente desaparecendo e um dos fatores que mais influíram nesta mudança radical na vida familiar e no isolamento das pessoas é, em grande parte, o uso intensivo da tecnologia digital. Meninas e meninos estão conectados na internet, nos celulares, nos games e na televisão, enquanto pais vivem obcecados pelos dispositivos e aplicativos que lhes oferecem aumento de produtividade e ganhos financeiros. Nas palavras do próprio Ethevaldo: a vida em família pode entrar para a lista de espécies ameaçadas de extinção.

 

A maioria dos pais pesquisados acredita que as crianças estão crescendo mais depressa do que as das gerações anteriores, diz que seus filhos deveriam ter mais tempo para simplesmente serem crianças, e confessa que não se diverte diariamente com eles.

 

Enquanto escrevo este post, estou em uma mesa redonda na qual há três computadores conectados, ocupados por mim e meus dois filhos, em uma sala que combina espaço de trabalho, estudo, som e televisão. Sempre preferimos manter os terminais longe dos quartos para evitar o isolamento e garantir, de alguma forma, nossa interação. Um deles está jogando em rede com amigos e o outro aproveita a máquina, em um chat, para estudar para a prova do dia seguinte. A todo momento trocamos impressões, tiramos dúvidas e mostramos uns aos outros aspectos interessantes que encontramos na internet. Costumamos nos levantar para fazer um lanche juntos – agora há pouco, demos uma bela colherada em um brigadeiro que minha mulher deixou pronto antes de ir trabalhar -, às vezes apenas conversamos, e quando o assunto na televisão está mais interessante nos jogamos em um sofá e fazemos uma sessão coletiva. É bem provável que a internet, em especial, nos tome mais tempo do que deveria, nos emaranhando nas interligações digitais; além disso, tem a caixa de correio sempre me chamando, a troca de informação nas redes sociais e outras demandas que surgem a partir do computador. Tenho certeza, porém, que não fosse o acesso que este me oferece não seria possível realizar a maior parte do meu trabalho em casa e isto me afastaria deles, me levando a chegar tarde, desperdiçar tempo no trânsito, na fila do banco e na visita a lojas e casas de serviço.

 

A diretora global da Oreo, Sheeba Philip, com os dados da pesquisa em mãos, comentou que “precisamos restaurar e reconquistar o espírito da infância em todo o mundo”, contou-me Ethevaldo, em nossa conversa na CBN. Concordo com ela, mas não devemos nos enganar e fazer das máquinas bode expiatório de um problema que, me parece, é mais da vida humana do que digital: a dificuldade dos pais de definirem prioridades, e colocarem no topo desta lista a sua família.

É nas escolas que a casa está caindo

 

Coluna publicada na revista Épocas São Paulo, edição de março, que está nas bancas:

 

Demolição da favela Jardim Edite

 

Um amontoado de casebres, construído de forma irregular com puxadinhos para os lados e para o alto, sempre me chamava atenção quando passava pela Avenida Roberto Marinho, no Brooklin. Até 2009, ali existia a favela do Jardim Edith, vizinha às obras estaiada – novidade que, mesmo suntuosa, não atraía meu olhar como as cons- truções populares. Eu ficava impressionado com a arquitetura local, feita de improvisação e audácia, adaptada à fal- ta de espaço para se expandir pelo terreno (já cercado de prédios e interesses imobiliários). Algumas casas ganhavam um ou dois andares com uma rapidez incrível. Quando menos esperava, mais um cômodo havia sido concluído. Como se mantinham em pé aquelas habitações mambembes? Tanto me intrigava que procurei engenheiros da prefeitura e, com surpresa, descobri que haviam sido realizados ensaios que com- provavam a segurança das obras. Problema, mesmo, era a ausência de área de escape. Em caso de incêndio ou desmoronamento, não havia para onde correr.

 

Lembrei-me dos “prédios” do Jardim Edith ao acompanhar, em fevereiro, a sequência de que- das de edifícios no Rio de Janeiro e em São Bernardo do Campo, ambos construções antigas e consolidadas, nas quais morreram 20 pessoas (18 no Rio e duas no ABC). Especialistas especularam sobre o que teria causado as tragédias. Nos jornais, reformas malfeitas são apontadas como as principais suspeitas, o que só poderá ser comprovado após a conclusão da perícia téc- nica. Seja como for, a probabilidade de barracos despencarem sempre foi muito maior do que a de qualquer prédio construído com alvará. Mesmo assim, nunca tive notícia de que uma das 400 famílias que viviam no Jardim Edith tenha perdido um parente devido a um desmoronamento.

 

A política de conveniência que pauta a administração de Gilberto Kassab (PSD) o levou a defender, agora, uma lei que obriga a vistoria, a cada cinco anos, em edifícios com mais de 500 metros quadrados. Em 2009, ele mesmo vetara projeto do vereador Do- mingos Dissei (PSD), alegando que interferiria no trabalho do Departamento de Controle e Uso de Imóveis (Contru). Após as quedas de fevereiro, Kassab pede para que os vereadores derrubem seu veto e mandem a conta de mais uma burocracia para os cidadãos – sem qualquer garantia de que isso impedirá, em São Paulo, acidentes como os do Rio e São Bernardo.

 

“Kassab tem de se preocupar com a estrutura das escolas, e não dos prédios”, ouvi de Seu Venceslau, companheiro de pastel no sacolão perto de casa. “É lá que a casa está caindo”, disse, sem notar o tro- cadilho. Tens razão, amigo Venceslau! De cada 10 alunos da rede pública paulistana, apenas três sabem razoavelmente mate- mática, diz relatório do Movimento Todos Pela Educação. Talvez por não saber fazer contas, mais de 60% dos estudantes que entram em engenharia na USP desistem do curso. Resultado: no Brasil, apenas 10% dos formandos são engenheiros, enquanto esse índice chega a 40% em países mais avançados. Como faltam engenheiros, contratamos mestres de obra para reformar nossas casas; e, no lugar do mestre de obras, pedreiros – que sabem mais por hábito do que pela técnica. Na falta de conhecimento, partimos para o improviso, o jeitinho brasilei- ro, que funcionou enquanto éramos só Terceiro Mundo. À medida que o Brasil cresce, como os puxadinhos, tem se tornado um desastre.

 

A imagem deste post é do meu álbum digital no Flickr e foi feita pela estudante de jornalista Beatriz Salgado, durante a destruição da favela do Jardim Edith

Minas Gerais não divulga dados de violência há mais de um ano

 

Próximo do prazo em que União, Estados e municípios devem garantir o acesso à informação sobre serviços prestados a qualquer cidadão, conforme lei que entra em vigor dia 16 de maio, o que assistimos em alguns lugares beira o absurdo e nos remete a um passado em que a sociedade tinha de ser subserviente à autoridade. Em Minas Gerais, a Polícia Militar emitiu memorando no qual proíbe que os comandantes de batalhões repassem estatísticas de criminalidade aos jornalistas. A ordem talvez se justificasse se a intenção fosse centralizar as informações para serem oferecidas de forma organizada, mas não parece ser o caso, haja vista que o governo mineiro não divulga os dados desde janeiro do ano passado. Depois que o jornal O Tempo publicou o texto do memorando 5008/2012, o governo de Antonio Anastasia (PSDB) prometeu divulgar à sociedade os índices de criminalidade no estado, o que deveria ter acontecido nessa segunda-feira, mas decidiu adiar a divulgação em virtude de acidente de carro envolvendo o secretário de Defesa Social, Lafayette Andrada, sexta-feira passada, no Rio de Janeiro. De acordo com o Tempo, em Minas, apenas dados de crimes não violentos, como furto, ficam disponíveis ao público.

 

A Lei de Acesso à Informação, sancionada em 18 de novembro de 2011, determina que todo órgão público municipal, estadual e federal, inclusive autarquias e fundações, deverá garantir o acesso a informação sobre o serviço prestado a qualquer cidadão. Os dados tem de estar publicados em sites oficiais.

Ficha Limpa no Carnaval

 

 


Este texto foi publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Carnaval no Sesc Pompeia

 

A baderna que se transformou a apuração de notas do Carnaval de São Paulo, terça-feira, provocou uma série de reações das autoridades paulistanas e ameaças de punição. Em entrevista coletiva, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) se esforçou para mostrar indignação e anunciar medidas para impedir a repetição dos fatos, apesar de que na prática a única mudança é que a SPTuris vai assumir a segurança do evento, apesar de não eu não ser capaz de identificar de que forma isto evitaria a invasão do local em que as notas eram anunciadas. Além de pessoal contratado pela Liga, a Polícia Militar estava lá com contigente maior do que nas principais partidas de futebol, segundo informações oficiais, e nada disso foi suficiente para conter os baderneiros. Em respeito ao público do Carnaval, é preciso que se registre que a confusão não partiu daqueles que estavam nas arquibancadas do Sambódromo, mas de gente autorizada, com crachá e pulseira de acesso que representa as principais escolas de samba da cidade. Mesmo a reação violenta, registrada pelas câmeras de televisão, de parte dos “torcedores” da Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians, somente explodiu após a invasão comandada por dirigentes – o que não os justifica.

 

Os meios de comunicação, em especial a TV Globo, que tem os direitos da transmissão, foram capazes de identificar uma a uma as pessoas que se manifestaram favoráveis a bagunça para impedir que houvesse a conclusão da apuração. Sem exagero, houve formação de quadrilha, pois os chefes, todos com cargos importantes dentro de agremiações, se reuniram, demonstraram descontentamento por não cumprimento de suposto acordo no qual não haveria rebaixamento de escolas para o Grupo de Acesso, e deram sinal de comando para “melar” a apuração, no que foram devidamente atendidos por seus asseclas, um deles, por sinal, que demonstrou muita agilidade no ato de roubar e extraviar as notas, enquanto fugia com destreza para escapar da segurança – parecia profissional (eu escrevi, parecia). A Polícia Civil já convocou ao menos nove deles para prestar depoimento, teria identificado o envolvimento de seis escolas e promete, em dez dias, a conclusão do inquérito que servirá de subsídio para a prefeitura e para a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo determinarem as punições cabíveis.

 

As declarações dadas até aqui, tanto pelo prefeito quanto pelo presidente da Liga, não foram convincentes e sinalizam para a punição talvez de alguns integrantes mas não das agremiações sob a justificativa de que a comunidade não pode pagar pelos erros de algumas pessoas. Da mesma forma, durante muito tempo, se passa a mão na cabeça de torcidas organizadas no futebol permitindo que usem todo tipo de chantagem, com a parcimônia dos cartolas, e sigam promovendo a violência e afugentando torcedores e suas famílias dos estádios. O Carnaval vai pelo mesmo caminho ao permitir que quadrilhas se apoderem das escolas de samba com financiamento público. Este ano, a prefeitura paulistana investiu R$ 27 milhões.

 

Importante ressaltar que a relação entre criminosos e samba não é privilégio de São Paulo, haja vista o que acontece no Rio de Janeiro, onde os dirigentes afrontam o Estado ao rejeitarem a proposta do governador Sérgio Cabral (PMDB) de afastarem os bicheiros que financiam a festa com dinheiro arrecadado de forma ilegal. Cabral defende a profissionalização das agremiações, tornando-as sustentáveis durante todo o ano e dependendo cada vez menos de verbas públicas. E de verbas sujas.

 

Para mudar a cara do Carnaval, em São Paulo e no Rio, será preciso implantar uma espécie de Ficha Limpa, afastando os criminosos, impedindo a presença de pessoas condenadas no comando das Ligas e das escolas, punindo com todo o rigor da lei as agremiações que se envolverem em baderna e não respeitarem o regulamento e cortando verbas públicas daquelas que forem incapazes de comprovar como gastaram este dinheiro. Está na hora de fazermos com que a criatividade dos carnavalescos, revelada a cada noite de desfile, contamine a administração do Carnaval e impeça que este se transforme em uma festa de quadrilha.

 

A foto deste post é de autoria de Luis Fernando Gallo e faz parte do meu arquivo de imagens no Flickr