Por Ádamo Bazani
A maior parte dos motoristas e cobradores de ônibus quando começa na profissão não tem idéia do que acontecerá no dia-a-dia. Cada turno é uma surpresa. É risco de assalto, de acidente, de demissão pela instabilidade econômica e política que marcou a história do setor. No passado houve, ainda, a dificuldade em abrir caminhos nos anos 1920, a crise de combustível dos anos 1940, a Segunda Guerra Mundial, e a inflação dos anos 1980, dentre tantos eventos.
Há e houve – surpresas positivas, também. E na conversa com os funcionários das empresas as melhores se dão quando o assunto é relações humanas: amizades com os passageiros, o bate-papo das garagens, e as festas.
Com o motorista Olécio Aparecido da Silva, de 46 anos, não foi diferente. Ele começou a trabalhar numa época difícil. Mais precisamente em 14 de abril de 1976. Época de ditadura militar em que até as conversas nos ônibus corriam perigo de serem vigiadas.
Olécio entrou no ramo como cobrador, com 14 anos, no grupo formado pelas empresas Viação Nima, Auto Viação Vila Alpina e Expresso Santa Rita, de Santo André. Todas extintas. Ele se recorda de estudantes, trabalhadores e militantes que passavam pela catraca e iam para as reuniões políticas. Dentro do ônibus, com medo, muitas destas pessoas cheias de ideais, eram tomadas pelo silêncio, mesmo sendo o ABC Paulista um dos berços do movimento pró-democracia na época.
Em 1988, quando foi trabalhar na Viação Vila Ema, da Capital Paulista, os ares políticos eram outros. No rádio dos ônibus se ouvia falar na Constituinte e o tema prevalecia entre os debates nos pontos e nos bancos, na época de fibra, duros, de modelos como Caio Gabriela e Caio Amélia. Olécio também havia passado pelo grupo Benfica, com linhas operadas hoje pela Viação Padre Eustáquio, de São Caetano do Sul
A pedido dos passageiros da Expresso Santa Rita, que fizeram até abaixo-assinado, Olécio teve de voltar à empresa, que tinha ligação com a viação da Capital Paulista.
Mesma linha todo o dia, mesmos rostos, os mesmos bons dias, até que num mês de dezembro de 1995, na Viação Humaitá, que também era do grupo da Santa Rita, Olécio ganha um presente inusitado: uma festa de fim de ano sobre rodas.
Foi emocionante. Uns 60 passageiros se reuniram, o ônibus ficou apinhado de gente e me encheram de presente. Muitos destes passageiros eu sequer sabia o nome. Ganhei panetone, bolo, nozes … menos bebida alcoólica. Desse dia pra cá, o carinho que tive com os passageiros aumentou ainda mais.
Os que não tiveram tempo de comprar presente deram dinheiro. Ganhei 79 reais limpinhos, um bom dinheiro pra época. O Plano Real tinha há pouco tempo
Mas as surpresas que a vida nos transportes reservaram não pararam por aí.
No trabalho, Olécio conheceu Marta Oliveira da Silva, hoje sua esposa.
Tínhamos muita coisa em comum. Gostávamos de nos ver todos os dias, quando ela pegava o ônibus, tínhamos as mesmas conversas e os mesmos gostos. Inclusive pelo transporte coletivo. Tanto é que Marta Oliveira da Silva atualmente é motorista de ônibus em Santo André, também. Faz a linha que serve o bairro de Capuava e a estação de trens da CPTM, Prefeito Saladino.
Trabalhar com ônibus simplesmente me deu tudo: meu caráter foi melhorando; lidando com diferentes tipos de passageiros, consegui patrimônio e estabilidade de vida e, sim, lógico, o diesel e os brutos urbanos que presentearam com o amor da minha vida diz Olécio no ponto final.
Ádamo Bazani é reporter da Rádio CBN e busólogo. Toda terça-feira reproduz aqui no blog histórias registradas nas muitas viagens de ônibus que fez.