Francesco, um imigrante italiano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Muitos de nós temos em nossa árvore genealógica familiares que deixaram tudo em outras partes do mundo e vieram recomeçar suas vidas no Brasil. Entre os anos de 1800 e 1930, aproximadamente 40 milhões de europeus deixaram seus países. Os primeiros imigrantes italianos que chegaram ao Brasil eram, em sua maioria, provenientes da região do Vêneto e vinham substituir a mão de obra escrava, especialmente na agricultura, após a abolição do tráfico. Embora os primeiros italianos tenham se instalado na região sul, foi o sudeste brasileiro que recebeu o maior número de imigrantes da Itália. Até 1920, o estado de São Paulo havia recebido cerca de 70% dos imigrantes italianos que vieram para o Brasil, especialmente para o trabalho nas fazendas.

Assim como tantas histórias, a chegada do meu bisavô, vindo de Cremona, na Itália, está registrada nos livros presentes no museu da Imigração do estado de São Paulo. Francesco Villanova deu entrada na hospedaria de imigrantes do Brás – onde hoje está localizado o museu – em 22 de junho de 1912. Meu bisavô seguiu da hospedaria para a cidade de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, onde ficava o núcleo chamado Piaguí, local onde colonos italianos trabalhavam nas fazendas produzindo café, feijão, milho, batata doce e cana de açúcar.

Infelizmente, Francesco não conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar a própria terra. Nas fazendas, muitos italianos, assim como meu bisavô, viveram em condições indignas de trabalho e moradia. Diferentemente do sonho que tinham, a realidade foi amarga para muitos. Poucos anos após sua chegada, ele morreu vítima da gripe espanhola, deixando sua esposa e muitos filhos, dentre eles a minha avó, na época com cinco anos de idade. 

Como a maioria dos italianos que se estabeleceu na região do Vale do Paraíba, minha avó morou a vida toda em Guaratinguetá. Uma italianinha de um metro e meio, franzina, com olhos de um azul tão intenso que pareciam um pedaço do céu. Aprendeu a falar a língua portuguesa perto de seu casamento com meu avô, descendente de indígenas e portugueses, e nunca mais voltaria a falar o italiano. Não por esquecimento, mas por buscar um recomeço. 

Em 2016 ,visitei o museu da Imigração na cidade de São Paulo. Sim, o mesmo onde Francesco ficou hospedado em 1912. Que emoção eu senti naquela ocasião! Acomodações, nomes grafados nas paredes, objetos… Uma atmosfera que permitiu imediatamente imaginar o que passava por suas cabeças enquanto estavam ali. Na minha cabeça, uma explosão de histórias que já tinha ouvido vinham à tona, com um realismo comovente. Imigrantes que traziam na bagagem os sonhos e esperanças de uma vida melhor. Saudades que carregariam da terra natal, a qual muitos nunca mais voltariam a ver. Deixaram seu país por necessidade, por sobrevivência e pela expectativa de que a vida poderia ser diferente.

Foto: Simone Domingues

Na saída do museu, me deparei com a enorme árvore que fica no pátio central. Imensa, com tronco largo e inúmeras ramificações. Tinha a visto quando cheguei, mas depois da visita, quando me deparei com ela novamente, ainda tomada pela emoção, compreendi que não poderia haver nada mais representativo daquele museu. Essa árvore é o símbolo mais adequado para explicar sobre nossas origens. Raízes e tronco que simbolizam nossos antepassados. Entre eles, imigrantes que contribuíram para nossa formação. Assim como em minha família, as ramificações desta e muitas outras árvores vem nos delineando e gerando frutos. Frutos que são múltiplos por suas incontáveis influências. Ao mesmo tempo, únicos pela singularidade da nossa história que o Museu da Imigração, como tantos outros, ajuda a preservar. 

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sábio Chico: só queremos “uma ofegante epidemia que se chamava Carnaval”

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Imagem de JL G por Pixabay

“E um dia, afinal

Tinham direito a uma alegria fugaz

Uma ofegante epidemia

Que se chamava carnaval

O carnaval, o carnaval”

Chico Buarque

Confesso que nunca fui das maiores folionas de Carnaval, mas admirava aqueles dias de festa, as pessoas nas ruas, a explosão de sons e cores. 

Esse ano nosso Carnaval está diferente, como todas as demais festas que foram canceladas por conta da pandemia. A maior manifestação cultural brasileira foi silenciada.

O Carnaval no Brasil teve início no período colonial, como uma brincadeira popular praticada pelos escravos, alguns dias antes da Quaresma, na qual as pessoas saiam às ruas e jogavam umas nas outras líquidos que poderiam ser desde água, café ou até mesmo urina.

No século XIX, houve uma campanha para reprimir essa brincadeira ao mesmo tempo em que surgiam os bailes em clubes e teatros criados pela elite do Império. Apesar disso, as camadas mais populares não desistiam das comemorações de Carnaval e criaram os cordões. Ainda no século XIX, surgiram as marchinhas de Carnaval. No século XX, o frevo, o maracatu, as escolas de samba, os trios elétricos… o Carnaval continuou fazendo história. Se tornou uma das peças da formação da identidade e símbolos do nosso povo.

Retratado em poesias e canções, o Carnaval serviu de inspiração para muitos artistas, com seus ideais de liberdade, de sonhos, de fantasias e do saudosismo trazido com a Quarta-Feira de Cinzas, anunciando o fim da festa.

Exatamente na Quarta-Feira de Cinzas, algumas religiões cristãs iniciam a Quaresma, momento dedicado ao recolhimento e à penitência.

Das inversões produzidas pela pandemia, temos um Carnaval com privações, distanciamento e silêncio. 

Quiçá isso seja capaz de reduzir as contaminações e, com as vacinas em curso, possamos logo nos livrar desse mal que nos atinge.

Me sinto como aqueles foliões que na Quarta-Feira de Cinzas ficavam sonhando com o próximo Carnaval. Não porque eu esteja desejando tal data, mas porque vislumbro o momento no qual poderemos sair às ruas, cantar, dançar e nos abraçar como fazíamos em outros carnavais. Parafraseando Chico Buarque, a única epidemia que queremos agora é de uma alegria contagiante: “Vai passar!”.

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Bebida alcóolica não é terapia

Por Simone Domingues

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A pandemia de COVID-19 exigiu mudanças no padrão de hábitos e comportamentos apresentados em todas as esferas da vida cotidiana. Exemplos disso são as reuniões de trabalho que trocaram os escritórios pelas plataformas digitais; os shows que saíram das casas de espetáculo e foram para as redes sociais; e o consumo de bebidas alcoólicas, que aumentou significativamente e migrou dos espaços públicos para o ambiente doméstico.

Dados da indústria de bebidas alcoólicas indicam um aumento de 25,4% na venda de cervejas no terceiro trimestre de 2020. Esse aumento também foi identificado na comercialização de bebidas alcoólicas pela internet, cujos dados apontam um aumento de 195% nas vendas entre março e outubro de 2020 em relação ao mesmo período do ano anterior. 

Um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) corrobora esses dados e indica que 18% dos participantes relataram um aumento no consumo de álcool durante a pandemia, relacionado especialmente às mudanças no estado de ânimo, como o aumento de sentimentos de tristeza. 

Apesar desse padrão observado mais recentemente, relatos apontam que o consumo de bebida alcoólica está presente desde tempos remotos, tanto em sociedades primitivas como industrializadas. 

As bebidas fermentadas se originaram na Índia, difundindo-se para o Oriente Médio, a Grécia e o Egito e, posteriormente, para a civilização mediterrânea, chegando ao Império Romano. Inicialmente a bebida limitava-se ao uso doméstico, porém, por exigências comerciais, passou a ser negociada em forma de troca. 

Derivada da cultura de arroz na Índia e da cevada no Egito, a cerveja foi a primeira bebida alcoólica produzida em grande escala

No Brasil, antes da colonização portuguesa, a bebida fermentada utilizada pelos indígenas era extraída da mandioca ou de suco de frutas, como caju ou milho, que eram mastigados, misturados, colocados para ferver em vasilhas cerâmicas e, em seguida, enterrados para fermentar por alguns dias. 

Com a colonização, foram instalados os engenhos de cana-de-açúcar no Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo, que serviam também para a produção de aguardente, possibilitando que os trabalhadores dos latifúndios se embriagassem. 

No cenário internacional, uma mudança significativa no consumo de bebidas alcoólicas ocorreu com a Revolução Industrial, uma vez que o aumento da produção reduziu os preços e aumentou a oferta, tornando-as mais acessíveis.

 Se por um lado o consumo de bebidas alcoólicas não é um fato novo, o aumento nesse consumo tem se tornado um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade, com impactos econômicos e sociais, sendo responsável por 10 a 50% das admissões hospitalares, grande parcela de contribuição em acidentes automobilísticos, homicídios, agressão sexual, violência familiar, abuso infantil, problemas ocupacionais e educacionais.

Em baixas doses, o álcool pode promover relaxamento, porém, o uso durante a pandemia, como forma de reduzir a tensão e a tristeza, podem aumentar os sintomas de ansiedade e depressão, promovendo um círculo vicioso. Além disso, o uso frequente pode aumentar os riscos de desenvolvimento da dependência e de outros problemas de saúde, como o aumento da pressão arterial.

Outro fator que deve ser considerado em tempos de pandemia é o aumento do risco de contaminação, uma vez que a pessoa alcoolizada tende a diminuir as medidas de proteção recomendadas contra o vírus.

O álcool carrega em si essa característica paradoxal: por um lado traz relaxamento a curto prazo; por outro, está envolvido em situações de violência e agressão e em casos de doença, como o próprio alcoolismo e aumento do risco de contaminação pelo coronavírus.

Essa linha divisória entre o consumo moderado e os transtornos relacionados ao uso do álcool nem sempre é tão nítida.

Se o consumo da bebida alcoólica é percebido como uma válvula de escape e está associado a relaxar e esquecer os problemas, isso pode ser um enorme sinal de alerta. Nesse caso, o consumo exagerado deve ser avaliado não apenas pela quantidade e frequência, mas também pelos prejuízos que o álcool possa trazer para si e para quem está à sua volta.

Bebida alcoólica não é remédio. Bebida alcoólica não é terapia. Realizar atividades físicas e de lazer podem contribuir de maneira significativa para aliviar o estresse. Medidas de prevenção e tratamento em saúde mental são mais eficazes e duradouras aos efeitos psicológicos causados pela pandemia. 

Além disso, passado o efeito do álcool os problemas ainda existirão e, mais do que isso, o álcool pode potencializá-los. E, vamos combinar, de problemas e pandemia já estamos fartos! 

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Ansiedade: a antecipação exagerada pelo futuro nos rouba o momento presente.

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Pixabay

Na sociedade contemporânea, aprendemos a viver correndo com falta de tempo, estresse, agitação e quase nos vangloriamos ao dizer: “sou muito ansioso!”. Será que a ansiedade pode ser uma aliada para atingirmos nossos objetivos ou será que serve apenas para nos causar sofrimento? A ansiedade é uma resposta adaptativa que o nosso organismo apresenta diante de ameaças ou perigos reais, como forma de proteção. 

Ao nos depararmos com situações que oferecem riscos, o sistema nervoso simpático entra em ação e produz reações para podermos, por exemplo, fugir e sobreviver. Imagine-se diante de um animal selvagem com potencial de ataque. Numa condição como essa, algumas substâncias são liberada — cortisol e adrenalina, por exemplo — aumentando os batimentos cardíacos, a contração muscular e a frequência respiratória. 

A ansiedade, de certo modo, também nos permite criar estratégias para resolvermos problemas ou enfrentarmos situações desafiadoras. Isso acontece, apenas para ilustrar, quando estudamos para uma prova ou nos preparamos para uma entrevista de emprego. Nesses casos, percebemos os efeitos motivadores da ansiedade.

Entretanto, nem sempre a ansiedade é essa força que nos impulsiona ou nos auxilia a superar desafios. Em alguns casos, pode se tornar um problema, muitas vezes de saúde mental, como nos transtornos de ansiedade.

 

Os transtornos de ansiedade são os transtornos psiquiátricos mais prevalentes na população, atingindo aproximadamente 28% dos adultos ao longo da vida.

Esses transtornos são caracterizados por preocupação excessiva, persistente e incontrolável, inquietação, irritabilidade, tensão muscular e insônia; geram sofrimento intenso e grande impacto na funcionalidade, isto é, na capacidade de realizar as atividades cotidianas como estudar, trabalhar ou se relacionar socialmente.

 A preocupação excessiva e os medos, especialmente para situações que não oferecem risco potencial, geram pensamentos catastróficos e desencadeiam as reações físicas que são extremamente desagradáveis, como taquicardia, sudorese e tontura.

Diante disso, é muito comum o comportamento que chamamos em psicologia de esquiva: o afastamento do que nos causa a ansiedade. Como num círculo vicioso, quanto mais nos afastamos, mais reforçamos a ideia de que, possivelmente, não somos aptos a lidar com aquela condição, e isso aumenta a percepção de ameaça, potencializando os sintomas da ansiedade. 

Se por um lado a ansiedade nos protege, em excesso nos aprisiona pela preocupação excessiva, pelos pensamentos catastróficos e pela percepção de impotência diante das incertezas da vida. A dificuldade em tolerar o que não podemos controlar nos torna menos confiantes, e isso impacta diretamente a nossa capacidade de ser produtivo ou atingir objetivos.

Em decorrência da pandemia, diversos estudos têm apontado um aumento dos transtornos de ansiedade em todo o mundo. Dentre os principais fatores que contribuem para esse aumento estão o medo do adoecimento, as incertezas sociais e financeiras e o isolamento social. 

 Algumas medidas podem ser adotadas para reduzir os níveis de ansiedade: lidar com os pensamentos como hipóteses e não como fatos; realizar atividades prazerosas e relaxantes, como atividade física e meditação; praticar a atenção plena.

 A atenção plena ou mindfulness é caracterizada pela manutenção da atenção na experiência presente. Significa sair do piloto automático e realizar as atividades mantendo o foco, a consciência no que se realiza aqui e agora.

Nossas preocupações em geral nos levam para o futuro. Perdemos muito tempo e energia elaborando estratégias e resolvendo problemas que ainda não existem. Talvez, inclusive, nunca venham a existir. E se existirem? Não tem preparo prévio para enfrentarmos as durezas da vida. Um dia por vez. Uma atividade por vez. A antecipação exagerada pelo futuro nos rouba o momento presente. É só por hoje.

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Com vacina e paciência, surge a esperança

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Esperança: o “ato de esperar o que se deseja;

expectativa;

fé em conseguir o que se deseja”.

Dicionário Aurélio

Na terceira temporada da série The Crown, a mãe do príncipe Philip de Edimburgo, a princesa Alice de Battenberg, se muda para o Palácio de Buckingham e numa conversa com seu filho lhe faz a seguinte pergunta: “como está a sua fé?”. O príncipe responde que sua fé está dormente e, diante disso, a princesa diz que lhe dará um único conselho, como um presente que uma mãe dá para um filho e sugere: “encontre uma fé para você”

Longe dos registros palacianos ou de cenas de ficção, o momento presente talvez reforce a necessidade de tal conselho.  Encontre uma fé. Não falo da fé vinculada apenas com religiosidade. Falo da fé como sinônimo de esperança.

E não foi isso que experimentamos na última semana?

Depois de tantos meses de sofrimento imposto pela pandemia, um sentimento coletivo tomou conta de nós. O início da vacinação foi um alento. Um sopro de esperança de que num futuro próximo muitos leitos de hospitais serão desocupados, o número de mortes por COVID-19 será reduzida significativamente e a retomada da vida cotidiana com mais segurança, dentro de abraços apertados e de momentos festejados, se tornará novamente uma realidade possível.

Se por um lado esse sentimento de esperança foi coletivo, infelizmente algumas atitudes adotadas evidenciaram uma sobreposição de motivos individualistas para burlar as regras de vacinação. Com quantidade escassa de doses de vacina para a população brasileira, em diversas localidades do Brasil foram relatados casos de “fura-fila” — termo usado para pessoas que não estão no grupo prioritário do plano de imunização.

Quais os efeitos que uma pandemia pode ter sobre nós?

 Fiz essa mesma pergunta em 19 de março de 2020. Naquele momento, diante das dúvidas que surgiam com o início da pandemia, havia uma certa tendência a comportamentos de estocagem de produtos de higiene e de alimentos, como recurso ilusório de que isso garantiria a sobrevivência, numa busca frenética por salvar a si mesmo. Se há algo que aprendemos durante a pandemia – ou deveríamos ter aprendido — é que atitudes individualistas, seja estocar papel higiênico, não usar a máscara ou furar a fila da vacinação, amparadas no coro do “eu mereço”, trazem consequências desastrosas ao coletivo.

Todos desejamos e temos direito à vacina, à vida. Todos. 

A vacina nos renovou a esperança. Renovemos também a paciência. Paciência pela nossa vez. Esperança de que em breve alcançaremos o que tanto desejamos. 

No início da pandemia descobrimos que a ação de cada um afeta a todos, descobrimos que precisamos uns dos outros. Ainda precisamos. Será no respeito mútuo, na espera confiante, no uso das máscaras, nas medidas de distanciamento, no apoio que damos uns aos outros que conseguiremos vencer.

Ainda em The Crown, o Príncipe Philip menciona a coragem da princesa Alice para superar as torturas sofridas em sua vida. Ela diz: “eu não superei sozinha. Não teria conseguido. Eu tive ajuda a cada passo do caminho”. 

Não conseguiremos sozinhos. Como numa série, nessa temporada, a última coisa que precisamos é de manifestações egoístas. Falta pouco para o término… Mas, infelizmente, ainda temos alguns episódios pela frente. Com fé em um final feliz! 

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Animais terapêuticos: de um sorriso no rosto ao aumento da empatia

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Luke faz festa ao ver a família

 

Uma das coisas que eu mais admiro no meu cachorro, o Luke, é a sua disposição. Se na sua chegada em nossa casa isso causou um reboliço na dinâmica doméstica por conta da sua energia e poder de destruição – comia de rodapés a roupas –, hoje é algo que me causa certa inveja. Me explico: O Luke pode ter dormido pouco ou estar cansado, mas quando ouve o barulho das chaves anunciando que alguém chegou, se levanta e vem prontamente, abanando o rabo, feliz por estar conosco. Não existe cansaço que o impeça de se alegrar na nossa presença.

 Todas as manhãs, ele vem animado, chega pertinho, pede um afago, como se não nos víssemos há tempos. Não existe mau humor, desânimo, indiferença. Busca um brinquedo para que a gente corra atrás dele. Chego a pensar que faz isso por nós… pega o brinquedo e nos distrai, nos diverte, acreditando que aguardamos por esse momento (e no fundo aguardamos).

  Fontes históricas revelam que a interação entre os humanos e os animais acontece há milhares de anos. 

Quando o homem assumiu o sedentarismo, começou a domesticar animais numa tentativa de ter uma fonte de alimento mais acessível, já que se alimentava basicamente de caça e de alguns frutos. Aos poucos essa relação foi se modificando, e alguns animais também assumiram a função de ajudar na preservação da espécie humana, protegendo mulheres e crianças.

Evidências arqueológicas registram a relação entre os humanos e os cachorros. No sul da França, foram encontradas pegadas de uma criança que caminhou ao lado de um cão, há aproximadamente 26 mil anos. No Egito, pinturas encontradas na tumba de Ramsés retrataram o Faraó com seus cães de caça. Os cães eram enterrados com seus donos para fazer companhia aos faraós após a morte. Na Grécia Antiga, os cães eram criados para companhia, proteção e caça. Na Roma Antiga, o cachorro não apenas protegia as pessoas de animais selvagens, mas era visto como capaz de afastar ameaças sobrenaturais.

A relação entre humanos e animais evoluiu para funções afetivas, capazes de promover, inclusive, benefícios terapêuticos. 

Diversos estudos demonstram que a utilização terapêutica de animais promove ganhos em diversas condições clínicas, como transtornos mentais, com benefícios no bem-estar, na saúde física e mental, na socialização e nos aspectos cognitivos.

Um estudo realizado por pesquisadores do Espírito Santo mostrou que sessões semanais de Terapia Assistida por Animais (TAA) com idosos institucionalizados promoveu maior controle da pressão arterial, além de momentos de alegria e relaxamento naquele grupo.

Em dezembro de 2020, foi publicado um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Missouri, nos Estados Unidos, indicando que a adoção de gatos por famílias com crianças autistas promoveu uma melhora nas habilidades sociais, com aumento da empatia, e redução da ansiedade de separação nessas crianças. Esse estudo também chama a atenção para o fato de que crianças com autismo podem ter problemas sensoriais, sendo mais sensíveis a ruídos altos, sendo o gato um animal reconfortante, especialmente se tiver um temperamento mais calmo.

Muitas pessoas têm histórias incríveis para contar sobre seus animais. Permita-me revelar um pouco a minha: durante muitos anos eu senti um medo inexplicável por animais. Não conseguia me aproximar ou conviver com eles. Isso me rendeu situações de vergonha, especialmente quando eu visitava pessoas que tinham animais. Eu desejava conviver com os ´´pets“, mas não conseguia. 

Um dia, ouvi da minha filha que era muito difícil, por mais que desejasse, modificar um comportamento, adotar uma nova postura e superar uma condição que lhe causava muito sofrimento. Eu estava pronta para dizer que sempre podemos mudar e superar uma condição, mas me vi ali, aprisionada pelos meus medos e com dificuldades em enfrentá-los. Imediatamente perguntei: você acha que seria possível eu superar o meu medo de cachorros?

Fiz-me essa mesma pergunta várias vezes. 

Foram alguns meses elaborando a ideia, me aproximando dos animais – não sem sofrimento.

A chegada do Luke foi planejada, desejada e calculada. Não exatamente nessa ordem. Os primeiros dias foram difíceis. Não por ele, mas pelo meu medo que ainda insistia em se fazer presente. Mas eu não desisti. Insisti e não resisti ao amor que ele ia despertando em mim, numa proporção que eu não imaginava ser possível.

Luke foi terapêutico, não apenas para mim, mas para todos em casa. Ganhamos em conversas, em risadas, em momentos de recreação em família.

Não tenho mais medo de animais. Não apenas do Luke, mas dos outros também. Às vezes olho para ele e penso: sorte a minha, Luke! Sorte de todos aqueles que podem sentir um amor tão genuíno que um animal de estimação nos é capaz de oferecer.

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Quem você vê quando se olha no espelho?

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay
Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay

No conto “O espelho”, de Machado de Assis, durante uma reflexão filosófica sobre a existência, Jacobina — o protagonista — revela uma situação ocorrida na sua juventude para elucidar suas concepções sobre o tema abordado, alegando que os seres humanos teriam duas almas: uma interior, que olha de dentro para fora e outra exterior, que olha de fora para dentro.

  Jacobina conta que fora nomeado alferes da Guarda Nacional, causando muito orgulho a seus familiares e amigos. Eis que é convidado a passar uns dias no sítio de sua tia, sendo solicitado que leve sua farda, recebendo inúmeras cortesias por conta do cargo ocupado. 

No entanto, a tia precisa viajar às pressas e, em seguida, há uma fuga dos escravos. Na ausência das bajulações, Jacobina olha-se no espelho e não se reconhece na imagem refletida: danificada, com contornos imprecisos. Somente tem a sua imagem integralmente refletida quando se veste novamente com a farda.

A astúcia – ou provocação – de Machado de Assis nos aproxima de inquietações sobre nós mesmos: quem realmente somos?

Essa questão que poderia ser simples, a princípio, já que temos uma série de informações a nosso respeito, torna-se desafiadora quando compreendemos que a nossa identidade é construída diariamente, ou seja, apesar de sermos a mesma pessoa, estamos em constante transformação.

A construção da identidade envolve aspectos permanentes, como nome, parentescos, nacionalidade; além dos subjetivos, que permitem a compreensão de si mesmo e a consciência enquanto ser único, tais como os pensamentos, sentimentos e valores.

Entretanto, nossa identidade não está limitada apenas a esses aspectos subjetivos; compreende a relação constituída entre a subjetividade e as interações sociais.

É no processo de socialização, no encontro com o outro, com a sociedade, com a cultura, que a autoimagem vai se consolidando, permitindo a construção da nossa identidade social. 

Somos as características biológicas herdadas, somadas e transformadas pelas experiências vividas, como as oportunidades sociais, a profissão, os relacionamentos afetivos… Numa combinação que promove mudanças constantes e que guardamos na memória para nossa autorreferência.

Poderíamos então dizer que somos as memórias que temos sobre nós? O professor e cientista Ivan Izquierdo costuma dizer: 

“Somos o que lembramos e o que decidimos esquecer”

As memórias pessoais ou autobiográficas, de certo modo revelam nossas experiências de vida e permitem essa construção da nossa imagem; no entanto, pesquisas têm mostrado que não acessamos ou usamos todas as memórias disponíveis ao criarmos narrativas pessoais. 

Selecionamos como memória pessoal aquilo que de certo modo se ajusta à ideia atual que temos de nós mesmos, numa fusão entre memórias de quem fomos no passado e quem somos no presente, envolvendo a autoimagem, necessidades e objetivos. 

Somos aquilo que está dentro de nós e aquilo que o outro nos permite ser. 

Não podemos apenas ser. Mas também não podemos vincular quem somos exclusivamente ao desempenho de papéis estabelecidos e de atividades desempenhadas, que por vezes nos sufocam, nos engessam em cargos, títulos e organizações. Como numa engrenagem, as duas partes constituem um mecanismo que permite um movimento coerente e contínuo. Se uma das partes falhar, não conseguiremos nos reconhecer. Nossa imagem estará distorcida em formas e contornos.

Machado de Assis estava certo! 

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro (…). Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”.

Resolvo encerrar o texto e ir para o espelho… Quem será que vejo?

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A esperança de seguir em frente

Por Simone Domingues

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Imagem de @jplenio no Instagram por Pixabay

 

Confesso que nunca fui de superstições na virada do ano. Essa coisa de comer lentilhas, guardar sementes de romã ou pular as ondas como forma de atrair a fortuna ou a sorte não me empolgavam. Não que eu não precisasse disso para o ano que viria, mas preferia comer as lentilhas porque eram saborosas e estar na praia porque era revigorante. Agora, se tem algo que sempre me comoveu na passagem do ano é a sensação de ciclo encerrado e de renovação.

Pertinho da meia-noite, quando todos estão ali reunidos, aguardando para iniciar a contagem regressiva, um filme passa pela minha cabeça, uma espécie de retrospectiva de tudo o que eu vivi ao longo do ano. Ensaio aqui, enquanto escrevo este último artigo do ano, a sensação de fechar os olhos e percorrer o que me marcou: conquistas, decepções, superações, fracassos… E inevitavelmente vem a pergunta instigadora: onde e como estarei daqui a um ano?

A contagem regressiva e em seguida os fogos que clareiam o céu são para mim o marco simbólico de que a partir daquele momento algo novo me espera. Situações que eu nem sei quais serão, mas que eu já desejo experimentar, com uma esperança enorme de que o futuro, mesmo incerto, já está chegando e poderá ser desfrutado, trazer coisas novas, coisas boas.

Em 31 de dezembro de 2019 senti da mesma maneira mas nem a mais remota previsão apontava para o que viveríamos em 2020. Um ano difícil! Com certeza! De oportunidades para poucos e de perdas para muitos.

Existem anos que ficam marcados por grandes eventos. Em 1969, o homem chegou à Lua. O Brasil foi Tetracampeão no futebol, em 1994. O atentado às Torres Gêmeas de 2001. Esse ano de 2020, infelizmente, será o ano da pandemia.

Prefiro manter as minhas tradições de réveillon. Fecho os olhos e penso em tudo que vivemos. Apesar de a pandemia, consigo me recordar de muitas coisas boas. Agradeço pela vida, pelos projetos realizados, pelos familiares e amigos. E quase com a contagem regressiva “pipocando” na cabeça – acho que prefiro contar rápido para ver se 2020 já fica lá no passado – respiro fundo e projeto uma esperança enorme para 2021. 

Longe da lista de metas, tenho um desejo: “que tudo se realize no ano que vai nascer”. Para mim, para você. E se tudo não for possível, que não nos falte a esperança para seguirmos em frente e alcançarmos aquilo que faça sentido para cada um. Por uma vida melhor. Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo! 

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Espírito Natalino: resgate de memórias e renovação da esperança

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de Jill Wellington no Pixabay

 

Num ano marcado pelo cancelamento de tantos eventos e rituais comemorativos, de casamentos a jogos olímpicos, a celebração do Natal parece ser um momento propício para a confraternização e o resgate de memórias que podem contribuir positivamente para a nossa saúde mental e bem-estar.

O clima de Natal ou o espírito natalino é um fenômeno observado há séculos, mesmo entre pessoas que não são cristãs ou que não têm religião, e engloba uma variedade de sentimentos, como alegria e nostalgia, e comportamentos positivos que são vividos de maneira coletiva, como maior altruísmo e generosidade. Essas ações se manifestam no enfeite das casas, na troca de presentes, no preparo de comidas típicas e nas ações solidárias.

Em 2015, um grupo de pesquisadores dinamarqueses procurou identificar a localização do espírito de Natal no cérebro humano. Através do exame de ressonância magnética funcional, eles mapearam quais regiões do cérebro foram ativadas enquanto os participantes da pesquisa assistiam à uma série de imagens que evocavam o Natal. Metade dos voluntários era de pessoas que celebravam o Natal desde a juventude e a outra metade, pessoas sem tradições natalinas. Os participantes que disseram comemorar a data demonstraram maior atividade em áreas cerebrais associadas à espiritualidade, ao reconhecimento da emoção facial e ao compartilhamento de emoções. 

Esses resultados devem ser analisados com cautela, uma vez que a principal diferença entre os dois grupos pode acontecer em função do significado atribuído ao Natal, ou seja, pelas representações e memórias construídas acerca da data.

Repetir as tradições de Natal faz com que as memórias afetivas sejam ativadas. Quando enfeitamos a árvore de Natal, por exemplo, nossas memórias de situações semelhantes vêm à tona e nosso cérebro dispara sentimentos festivos armazenados.

O sociólogo Émile Durkeim usou o termo “efervescência coletiva” para descrever o humor positivo que sentimos quando participamos de atividades sociais que trazem alegria coletiva e nos fazem sentir parte de uma comunidade maior. Embora Durkheim se referisse a grandes reuniões religiosas, atualmente, pesquisadores indicam que esse mesmo sentimento pode ser experimentado em grupos menores, como entre familiares ou amigos.

Em 2020, tivemos que adotar novo repertório de atitudes para as mais diversas situações. Infelizmente, não será diferente para as comemorações do Natal. Apesar de não podermos celebrar da mesma forma, manter as tradições natalinas e se conectar à família e aos amigos, ainda que virtualmente, nos permitirá compor essa “efervescência”.

Então use a criatividade! Enfeite a casa, prepare a comida e conecte-se. Com esperança em dias melhores… Feliz Natal!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O segredo da longevidade

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Image by Mabel Amber from Pixabay
Image by Mabel Amber from Pixabay

“Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossivel ser feliz sozinho”

Antonio Carlos Jobim

Se a gente conseguisse ver um filme da nossa vida até a velhice, quais seriam nossas escolhas? O que faríamos para ter uma vida mais longa, com saúde e bem estar? Diante dessa pergunta muitos responderiam sobre hábitos saudáveis de alimentação, atividade física, dinheiro e controle dos fatores de risco cardiovascular. Diversas pesquisas mostram que esses fatores são importantes no processo, porém, um estudo que vem sendo realizado há quase oito décadas, por pesquisadores de Harvard (orginalmente Study of Adult Development), aponta para um indicador  fundamental para a felicidade e longevidade: manter bons relacionamentos.

Inicialmente, o estudo acompanhou 268 rapazes estudantes da Universidade de Harvard e 456 moradores de bairros pobres de Boston, ao longo da vida, monitorando seu estado mental, físico e emocional.  Os participantes do estudo responderam, por décadas, questionários sobre sua família, seu trabalho e sua vida social. Além disso, participavam periodicamente de check-ups médicos, incluindo análise de amostras de sangue e investigação do funcionamento cerebral.  

A pesquisa que ainda continua e está na segunda geração, agora contando com mulheres e homens, filhos dos primeiros participantes, apresenta diversos dados interessantes, como o fato do alcoolismo ser um dos fatores que antecederam a quadros de depressão e a principal causa de divórcio entre os participantes. O alcoolismo associado ao tabagismo foi o maior responsável pelo aumento da incidência de doenças e de morte precoce. Entretanto, para os pesquisadores, foi surpreendente a associação obtida no estudo entre envelhecimento saudável e bons relacionamentos.

Manter relacionamentos saudáveis significa ter alguém em quem confiar. Significa estabelecer bons vínculos e se manter conectado com familiares, amigos e com a comunidade. Segundo dados da pesquisa, manter bons relacionamentos torna as pessoas mais felizes, fisicamente mais saudáveis e aumenta a longevidade. Por outro lado, pessoas mais solitárias do que gostariam, apresentam níveis mais baixos de felicidade, piora da saúde após a meia idade e vivem menos dos que aqueles que não estão sozinhos.

A percepção de solidão pode ocorrer mesmo quando se está numa multidão ou num relacionamento duradouro, portanto, se sentir sozinho não envolve o número de pessoas que se tem ao redor, mas a qualidade dos relacionamentos. Relacionamentos saudáveis são aqueles que envolvem afeto, segurança, que nos permitem ser quem somos, oferecendo aos outros a mesma  oportunidade de serem o que são.

Agora, como passar por dificuldades na vida — problemas financeiros, perda de emprego ou outros tantas problemas — sem ter atitudes que nos afastem, nos isolem dos amigos, da família e da pessoa amada?

A resposta sinaliza para o conhecido “amar não basta, é preciso demonstrar”. Ou seja, diante das durezas da vida, a capacidade de gerenciar as emoções e o estresse permitindo que a gente se mantenha próximo, contando com aqueles com os quais nos relacionamos e que também podem contar conosco, parece fazer a diferença. 

Manter bons relacionamentos vai exigir investimento: de tempo, de atitudes, de disposição. Infelizmente, numa sociedade competitiva, onde somos treinados para produzir e acumular coisas, muitas vezes nossas prioridades estão na carreira, no sucesso e no dinheiro… e deixamos de cultivar momentos com as pessoas a quem queremos bem.

Às vezes uma disputa de jogos com os filhos, uma mensagem para um amigo, um jantar olho no olho com a pessoa amada — e sem tela do celular para espiar a rede social –- é revigorante e fortalece as relações.

Martin Seligman, professor de psicologia na Universidade da Pensilvânia, destaca que poucas coisas positivas são solitárias e faz um questionamento pertinente: quando foi a última vez em que você gargalhou escandalosamente? Qual a última vez em que sentiu uma alegria indescritível? Quando foi a última vez em que se sentiu muito orgulhoso de uma realização? 

Seligman sugere que possivelmente todas essas situações aconteceram em torno de outras pessoas, que são antídotos para os momentos ruins da vida e a fórmula mais confiável para os bons momentos.

Possivelmente, algumas pessoas não se importam com a solidão, muitas vezes até preferem estarem sozinhas, mas considerando como o riso fica fácil quando estamos com pessoas queridas e somando-se os dados da pesquisa de Harvard, não sei se é impossível ser feliz sozinho, como propôs Tom Jobim, mas pelo menos parece mais leve e prazeroso se a gente estiver bem acompanhado.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung