Animais terapêuticos: de um sorriso no rosto ao aumento da empatia

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Luke faz festa ao ver a família

 

Uma das coisas que eu mais admiro no meu cachorro, o Luke, é a sua disposição. Se na sua chegada em nossa casa isso causou um reboliço na dinâmica doméstica por conta da sua energia e poder de destruição – comia de rodapés a roupas –, hoje é algo que me causa certa inveja. Me explico: O Luke pode ter dormido pouco ou estar cansado, mas quando ouve o barulho das chaves anunciando que alguém chegou, se levanta e vem prontamente, abanando o rabo, feliz por estar conosco. Não existe cansaço que o impeça de se alegrar na nossa presença.

 Todas as manhãs, ele vem animado, chega pertinho, pede um afago, como se não nos víssemos há tempos. Não existe mau humor, desânimo, indiferença. Busca um brinquedo para que a gente corra atrás dele. Chego a pensar que faz isso por nós… pega o brinquedo e nos distrai, nos diverte, acreditando que aguardamos por esse momento (e no fundo aguardamos).

  Fontes históricas revelam que a interação entre os humanos e os animais acontece há milhares de anos. 

Quando o homem assumiu o sedentarismo, começou a domesticar animais numa tentativa de ter uma fonte de alimento mais acessível, já que se alimentava basicamente de caça e de alguns frutos. Aos poucos essa relação foi se modificando, e alguns animais também assumiram a função de ajudar na preservação da espécie humana, protegendo mulheres e crianças.

Evidências arqueológicas registram a relação entre os humanos e os cachorros. No sul da França, foram encontradas pegadas de uma criança que caminhou ao lado de um cão, há aproximadamente 26 mil anos. No Egito, pinturas encontradas na tumba de Ramsés retrataram o Faraó com seus cães de caça. Os cães eram enterrados com seus donos para fazer companhia aos faraós após a morte. Na Grécia Antiga, os cães eram criados para companhia, proteção e caça. Na Roma Antiga, o cachorro não apenas protegia as pessoas de animais selvagens, mas era visto como capaz de afastar ameaças sobrenaturais.

A relação entre humanos e animais evoluiu para funções afetivas, capazes de promover, inclusive, benefícios terapêuticos. 

Diversos estudos demonstram que a utilização terapêutica de animais promove ganhos em diversas condições clínicas, como transtornos mentais, com benefícios no bem-estar, na saúde física e mental, na socialização e nos aspectos cognitivos.

Um estudo realizado por pesquisadores do Espírito Santo mostrou que sessões semanais de Terapia Assistida por Animais (TAA) com idosos institucionalizados promoveu maior controle da pressão arterial, além de momentos de alegria e relaxamento naquele grupo.

Em dezembro de 2020, foi publicado um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Missouri, nos Estados Unidos, indicando que a adoção de gatos por famílias com crianças autistas promoveu uma melhora nas habilidades sociais, com aumento da empatia, e redução da ansiedade de separação nessas crianças. Esse estudo também chama a atenção para o fato de que crianças com autismo podem ter problemas sensoriais, sendo mais sensíveis a ruídos altos, sendo o gato um animal reconfortante, especialmente se tiver um temperamento mais calmo.

Muitas pessoas têm histórias incríveis para contar sobre seus animais. Permita-me revelar um pouco a minha: durante muitos anos eu senti um medo inexplicável por animais. Não conseguia me aproximar ou conviver com eles. Isso me rendeu situações de vergonha, especialmente quando eu visitava pessoas que tinham animais. Eu desejava conviver com os ´´pets“, mas não conseguia. 

Um dia, ouvi da minha filha que era muito difícil, por mais que desejasse, modificar um comportamento, adotar uma nova postura e superar uma condição que lhe causava muito sofrimento. Eu estava pronta para dizer que sempre podemos mudar e superar uma condição, mas me vi ali, aprisionada pelos meus medos e com dificuldades em enfrentá-los. Imediatamente perguntei: você acha que seria possível eu superar o meu medo de cachorros?

Fiz-me essa mesma pergunta várias vezes. 

Foram alguns meses elaborando a ideia, me aproximando dos animais – não sem sofrimento.

A chegada do Luke foi planejada, desejada e calculada. Não exatamente nessa ordem. Os primeiros dias foram difíceis. Não por ele, mas pelo meu medo que ainda insistia em se fazer presente. Mas eu não desisti. Insisti e não resisti ao amor que ele ia despertando em mim, numa proporção que eu não imaginava ser possível.

Luke foi terapêutico, não apenas para mim, mas para todos em casa. Ganhamos em conversas, em risadas, em momentos de recreação em família.

Não tenho mais medo de animais. Não apenas do Luke, mas dos outros também. Às vezes olho para ele e penso: sorte a minha, Luke! Sorte de todos aqueles que podem sentir um amor tão genuíno que um animal de estimação nos é capaz de oferecer.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

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