Promessas de vacina contra Covid-19 ainda este ano alimentam falsas expectativas, dizem especialistas

 

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Foto Pixabay

 

Dia desses publiquei aqui no blog um texto  em que “acusava” cientistas e jornalistas de formarem o exército do estraga-prazer. Bastava surgir uma novidade no tratamento da Covid-19 para os pesquisadores virem a público e colocarem dúvidas sobre os resultados alcançados. Os jornalistas, como em uma estratégia combinada, apareciam na sequência para dar espaço a essas opiniões desestimulantes, em um momento que tudo que as pessoas buscam é uma salvação.

 

Há um outro lado desta moeda — sempre há.

 

Nas mesmas comunidades existem aqueles que estão prontos para vender ilusão — seja entre os pesquisadores seja entre os jornalistas, deixando as pessoas mais felizes (apesar de iludidas) e outras mais ricas.  Desde o início desta pandemia, temos assistido à publicação de uma série de informações, geralmente controladas por agências de comunicação, contratadas por laboratórios de pesquisa, que correm em busca de uma solução para conter o avanço do Sars-Cov-2. Toda vez que essas notícias são publicadas — além de alavancarem o preço das ações das empresas envolvidas — geram uma enxurrada de mensagens, enviadas às redações, questionando porque não anunciamos estas descobertas ou não damos o devido destaque, em lugar de ficar noticiando o número de pessoas mortas e infectadas. “Precisamos de boas notícias”, reclamam.

 

Adoraria ser o porta-voz da boa nova. E espero conseguir fazer isso o mais breve possível. Lamento, porém, informar que aos jornalistas sérios, assim como aos cientistas, cabe a busca da verdade — independentemente de ser boa ou de ser ruim, a verdade é o objetivo.

 

Registre-se que a corrida pela vacina salvadora é bem-vinda, pois tende a acelerar uma resposta para um vírus que tem tirado o sono de boa parte do Planeta e, pior, a vida de 268.999 pessoas (número oficial registrado pela Universidade de John Hopkins até às 21h30 desta quinta-feira). O problema está em oferecer à opinião pública a informação de que a solução está logo ali.

 

Para colocar as coisas nos devidos lugares, o ideal é  recorrer a quem realmente entende do assunto. O Dr Luis Fernando Correia, comentarista de saúde da CBN, me apresentou, hoje, artigo publicado no STAT, site especializado em notícias sobre saúde, no qual são ouvidos especialistas por todo o mundo —- uma gente série, preocupada com a busca de um remédio ou vacina que nos protege tanto quanto em evitar que sejamos enganados por vendedores de óleo de cobra.

 

O título é claro na mensagem que o artigo pretende transmitir: “Promessas crescentes das vacinas Covid-19 estão alimentando falsas expectativas, dizem especialistas”.

 

Para o Dr. Luis Fernando, o texto traz uma visão coerente e lógica para as vacinas que somente devem surgir no horizonte para o público em geral, em 2021. As primeira levas serão para os profissionais de saúde e depois para os grupos de risco. “Mais coerência e menos marketing” foi o que meu colega de rádio sempre pediu na abordagem de temas relacionados a vacinas contra a Covid-19 e foi o que encontrou no artigo que reproduzo em partes aqui no blog.

 

No pé deste post você tem  o link para a publicação em inglês que vale ser lida ao menos para que você se convença de que não somos estraga-prazeres, apenas queremos que você esteja consciente da realidade:

As vacinas para prevenir a infecção pelo Covid-19 estão avançando em um desenvolvimento e velocidade nunca antes vistos. Mas as promessas crescentes de que algumas vacinas possam estar disponíveis para o uso emergencial já no outono (no hemisfério norte) estão alimentando expectativas simplesmente irrealistas, alertam os especialistas.

 

Mesmo que os estágios de desenvolvimento da vacina pudessem ser compactados e os suprimentos pudessem ser rapidamente fabricados e implantados, levariam muitos meses ou mais para que a maioria dos americanos pudesse arregaçar as mangas. E em muitos países do mundo, a espera pode ser muito mais longa — perpetuando o risco mundial que o novo coronavírus representa nos próximos anos.

 

Essa realidade está sendo obscurecida por relatos de que alguns dos primeiros candidatos a vacinas — incluindo um da empresa de biotecnologia Moderna e outro da Universidade de Oxford — podem, em meses, ter evidências suficientes para serem administrados em casos de emergência.

 

Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota, está preocupado que as pessoas não estejam adotando as medidas para reduzir a onda de infecções — que alguns especialistas temem que seja maior do que vimos até agora — porque eles esperam que uma vacina esteja à mão.

 

“Na verdade, ouvi especialistas em ensino superior dizerem: ‘Bem, você sabe, estamos contando com a vacina talvez até setembro porque continuamos ouvindo sobre isso.’ … na mente deles, eles estão acreditando que as faculdades e universidades terão a vacina ”, afirmou ao STAT.

 

Osterholm e outros especialistas deixam claro que não haverá vacina suficiente para estudantes em idade universitária nesse período, mesmo no melhor cenário. É provável que todos os suprimentos que estarão disponíveis — se alguma das vacinas provar ser protetora, no outono — serão designados para os profissionais de saúde e outros na linha de frente do esforço de resposta.

 

“Eu não acho que estamos nos comunicando muito bem com o público, porque eu tenho que dizer a essas pessoas, mesmo se tivéssemos uma vacina que mostrasse alguma evidência de proteção até setembro, estamos muito  longe de ter uma vacina no braço das pessoas ”, disse Osterholm.

 

Supondo que uma vacina possa ser desenvolvida rapidamente, a questão da fabricação não é irrelevante. A produção de algumas  vacinas candidatas  poderia ser mais facilmente aumentada do que outras, observou Emilio Emini, que lidera o trabalho da Fundação Bill e Melinda Gates sobre o assunto.

 

Caso algumas das vacinas mais “escalonáveis” se mostrem protetoras, é possível que elas possam ser feitas nas fábricas existentes, em vez de exigir a construção de novas instalações. A produção desse tipo de vacina pode atingir centenas de milhões de doses em cerca de um ano, disse Emini. Mas qualquer vacina que exija construção de tijolo e argamassa obviamente levará mais tempo para atingir esses níveis de produção.

 

A Organização Mundial da Saúde, que está monitorando de perto o campo das vacinas candidatas ao Covid-19, lista mais de 100 projetos, embora muitos estejam sendo desenvolvidos em laboratórios acadêmicos sem capacidade comercial de produção. Do total, oito já estão sendo testados em pessoas, quatro delas na China.

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A OMS pediu um compartilhamento equitativo das vacinas Covid-19, insistindo que elas devem ser vistas como um recurso global. Mas, desde os primeiros dias dessa pandemia, houve preocupações de que os países que abrigam instalações de produção de vacinas nacionalizem qualquer produção para garantir que as necessidades domésticas sejam atendidas antes que a vacina possa ser exportada para uso em outro lugar.

 

Robin Robinson, que liderou a Autoridade Biomédica de Pesquisa e Desenvolvimento Avançado de 2008 a 2016, disse que a agência gastou bilhões de dólares desenvolvendo a capacidade de produção de vacinas nos Estados Unidos com base nessa suposição. 

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“Eu não acho que a população em geral tenha vacina provavelmente até a segunda metade de 2021. E isso se tudo der certo”, disse ele.

O texto completo, “Promessas crescentes das vacinas Covid-19 estão alimentando falsas expectativas, dizem especialistas”, da STAT, você encontra aqui.

No Brasil, “bloqueio total” é mais eficiente que “lockdown”

 

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Bloqueio total foi imposto em quatro cidades no Maranhão (Divulgação / Agência São Luís)

 

O 5 de maio é o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Lembrei a data logo que iniciei a apresentação do Jornal da CBN, nesta terça-feira. Para que o dia criado pelo Unesco fizesse algum sentido, tomei cuidado em ler “bloqueio total” todas às vezes que o redator usou “lockdown” para identificar as medidas restritivas que se iniciavam em quatro cidades do Maranhão, incluindo a capital. Era o mínimo que podia fazer para não estragar a festa dedicada ao idioma de Camões.

 

Intriga-me desde o início desta pandemia a preferência que se tem dado nos textos jornalísticos e na fala de autoridades a expressão “lockdown” — que na origem era usada para o ato de manter os presos confinados nas celas enquanto se buscava restaurar a ordem no presídio durante rebelião. Passou a ser aplicada em diversas situações de emergência nas quais as pessoas devem permanecer em casa para preservar sua segurança — e se aproximou ainda mais da gente quando o Sar-Cov-2 desembarcou em nossas bandas.

 

Por coincidência, sobre a mesa que apresento o Jornal da CBN aqui em casa, estou com um dos livros que reencontrei na tentativa de reorganizar a biblioteca durante este confinamento que já dura 46 dias —- tarefa mal-acabada. “A Imprensa e o caos na ortografia — com um pequeno dicionário de batatadas da imprensa” (Editora Record), foi escrito pelo jornalista Marcos de Castro, em 1998. O livro reúne uma série de textos nos quais o autor descreve sua implicância com a maneira descuidada com que tratamos a língua portuguesa —- especialmente nós jornalistas. O livro é coisa fina, “caviar e salmão do Mar do Norte”, apenas para repetir a maneira como ele define um texto refinado. Deveria ser servido a todos que trabalhamos nas redações.

 

Um dos capítulos é dedicado ao uso do termo americano “slow motion” para identificar o que em bom português tinha nome e sobrenome: câmera lenta.

 

Escreve Marcos de Castro:

“É preciso ser muito colonizado culturalmente para desprezar uma expressão tão nossa, já integrada no tempo em nosso modo de dizer, em nosso modo de ser. É preciso ser muito macaquito”.

O incômodo do autor se dá pela barreira que o estrangeirismo cria entre quem diz e quem ouve:

“…é evidente que usar o que é nosso, ‘câmera lenta’, facilita muito para a comunicação com o telespectador ou com o leitor, de espírito evidentemente mais receptivo a uma expressão familiar do que ao pedantismo de slow motion.”

Para Marcos de Castro, o uso da palavra estrangeira diante de uma versão brasileira, conhecida e de fácil entendimento, prejudica a comunicação.

 

Se tem uma arma que se deve usar para combater o atual coronavírus é a comunicação eficiente. Deixar claro às pessoas o risco que corremos, o desafio que a comunidade médica e científica enfrenta e as dificuldades que as autoridades públicas têm para administrar essa crise. Informar, sem barreiras, a importância de lavar bem as mãos, evitar colocá-las no rosto, tossir e espirrar no antebraço, ficar em casa se possível e manter o distanciamento social.

 

Nos estados e nas cidades em que a situação é ainda mais grave, é preciso dizer de maneira simples, direta e objetiva que a circulação de pessoas e carros será proibida, com permissão apenas para os trabalhos essenciais, a busca de ajuda médica e a compra de comida e remédio. Ou seja, em lugar de “lockdown” dizer em bom português que o bloqueio é total.

Sua Marca: consumidor vai redimensionar necessidade de consumo no cenário pós-pandemia

 

 

 

“Se você quer que sua marca seja um sucesso, não perca oportunidades como essa que estamos vivendo para entender como as pessoas se relacionam com elas. Pode ser doloroso às vezes. Mas ‘tropicão’ também leva pra frente, como se diz lá em Minas” — Jaime Troiano

Um curso intensivo e compulsório sobre comércio eletrônico é o que marcas e consumidores estão vivenciando neste momento de isolamento social e restrições para o funcionamento dos mais variados tipos de lojas, devido a pandemia do coronavírus. A definição é de Jaime Troiano e Cecília Russo, comentarista do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.

 

Este momento tem colocado à prova muitas daquelas pessoas que eram resistentes ao mundo virtual — o que os comentaristas chamam de grupo de risco da internet. Se para consumidores é o aprendizado da compra; para as empresas, muitas descobriram o quanto a própria logística estava preparada  para essa pressão de demanda digital.

 

Outro impacto no comportamento do consumidor, identificado por Cecília Russo, é quanto a racionalização no acesso ao consumo, com a busca apenas de produtos considerados essenciais, em um fenômeno que já havia sido observado nos períodos de guerra. Soma-se agora os efeitos da compra digital que não costuma ter a mesma tentação da compra feita nas lojas, pois o consumidor tende a estar mais focado no que realmente precisa:

“Estes momentos têm mostrado que a gente pode, de fato, viver com menos. Menos produtos, menos marcas, menos contatos pessoais, menos movimentação social”

A despeito das lições que estão sendo aprendidas agora, Jaime e Cecília arriscam dizer que no cenário pós-pandemia essa necessidade de consumo começará a ser redimensionada em um ambiente social e econômico mais normal.

“Como já dissemos em programas anteriores, as marcas que amamos mas não temos tido acesso, por diversas razães, vão continuar a ser desajadas”, acredita Jaime.

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN, com apresentação de Mílton Jung.

“Por que estou sonhando com a(o) ex?”

 

Por Simone Domingues

 

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Imagem Pixabay

 

A internet tornou-se uma das ferramentas mais rápidas para se fazer pesquisas sobre diversos assuntos, e não seria diferente durante a pandemia que vivemos. Uma das informações mais procuradas durante o isolamento social tem chamado à atenção de pesquisadores: “por que estou sonhando com o ex”? ou “por que estou pensando no ex”? —- essa busca cresceu 2.450% na comparação com o mesmo período no passado, segundo a empresa de marketing digital AGY47.

 

 

Ivan Izquierdo, em seu livro Memória (2018), destaca que os sonhos são evocações desorganizadas de memórias, em combinações variadas e diferentes, numa interação entre memórias antigas, recentes e os estados emocionais. E se tem algo que estamos vivenciando intensamente neste momento são as nossas emoções!

De que modo a memória participa desse processo?

 

Vemos o mundo parado, seja no comércio, seja nas artes, seja na nossa capacidade de ir e vir. Na incapacidade de projeções futuras, tendemos a nos resgatar no passado. Até mesmo a televisão tem exibido reprises de novelas, filmes e jogos de futebol. Nesse cenário de saudades, nossa memória entra em ação, associando essas vivências atuais a contextos antigos, possivelmente resgatando onde estávamos, com quem estávamos…

 

Nossa memória trabalha com associações. Não memorizamos um item isolado, ou seja, não memorizamos o movimento da bola entrando no gol, mas, sim, o gol que deu o título, a fala do narrador evidenciando que éramos campeões e as companhias daquele momento.

 

Imagine a seguinte situação: todos os dias quando seguia para o trabalho, um rapaz passava na cafeteria e comprava um café. Um dia deparou com a cafeteria fechada. No dia seguinte insistiu e ela permanecia fechada. Assim se seguiram os demais dias até o rapaz mudar seu comportamento e não ir mais à cafeteira. Porém, em um determinado dia, ao passar em frente a cafeteria, ele se deu conta de que estava aberta. O que ele fez? Foi lá comprar o seu café.

 

Com a memória acontece algo semelhante: esquecemos ou extinguimos uma informação, porque esta se torna desnecessária num determinado momento. Entretanto, a presença de fatores que estejam, de certo modo, associados à uma lembrança, podem trazê-la à tona.

Agora, cuidado!

 

Antes de sair por aí confiando demais na sua memória é preciso saber que a memória tende a incorporar fatos irreais, distorcendo as situações. Nelson Rodrigues dizia: “não há nada mais relapso do que a memória”.

Então, se nesse momento de isolamento social você estiver pensando muito no seu ex (relacionamento), talvez seja a hora de colocar a memória para trabalhar e buscar na lembrança —- e não no Google — quais os motivos dele ter adquirido a condição de ex.

 

Simone Domingues (@simonedominguespsicologa) é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Expressividade: uma relação sem fim

 

Hoje publico o último episódio desta série com textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, que foi comemorado em 16 de abril, quando iniciei a publicação dos textos. Para ler o capítulo completo, acesse o link no pé deste post. Eles estão em ordem decrescente:

 

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ESTAS FONOAUDIÓLOGAS INCRÍVEIS E SUAS MARAVILHOSAS LIÇÕES!(2)

 

 

Na era pós-Glorinha de minha vida, descobri que este mercado, além de dominado pelas mulheres, tinha muita gente bem preparada que atuava com “amor, persistência e sensibilidade” —- palavras consideradas mágicas pela protagonista do livro “O que é ser fonoaudióloga – memórias profissionais de Glorinha Beuttenmüller”. Encontrei profissionais familiarizados com as características específicas do jornalismo ou daqueles que usam a voz como ganha-pão. Eram pessoas que não cuidavam apenas da fala, mas da alma, também. Muitas vezes as sessões eram ocupadas para contar casos pessoais ou histórias da redação, mais do que discutir diretamente o que deveria fazer para corrigir este ou aquele problema na comunicação. Mesmo porque as dificuldades na fala, algumas vezes, estão ligadas a questões emocionais.

 

É fundamental que a fonoaudióloga tenha excelente ouvido, capaz não apenas de perceber pequenos detalhes do som que emitimos, mas auscultar nossos sentimentos. Uma das experiências que tive em fonoaudiologia me mostra esta verdade de maneira mais crua. Por motivos que não saberia avaliar claramente quais foram, a relação que mantive com uma profissional contratada pela emissora de televisão em que eu ainda trabalhava foi das mais ruidosas. Não era exatamente pelo fato de ela fumar entre uma sessão e outra —- o que sempre pareceu uma contradição, mas o que eu tinha a ver com isso? Talvez tenha sido as inúmeras proibições que me foram impostas: “não beba, não fale, não …. e mais não”. Certo mesmo é que algo aconteceu — ou deixou de acontecer — entre nós que me levou a transformar cada sessão fonoaudiológica em uma avaliação da empresa. Parecia-me que todo encontro seria decisivo para meu futuro naquele emprego. Novamente somatizei na garganta a insegurança profissional e, impreterivelmente, na véspera de cada atendimento, minha voz sumia. Como o tratamento não flui fui recomendado a procurar uma profissional que não estivesse ligada à empresa e pudesse me receber com mais frequência. Foi daí que parti para minha terceira experiência.

 

Não sei quanto deste artigo poderá ser útil a você que lê neste momento. No entanto, se servir para que pelo menos uma fonoaudióloga pare para repensar seu comportamento sempre que estiver atendendo um empregado da empresa da qual ela é contratada, estarei realizado. Preste atenção se sua imagem —- e escrevo especificamente para as fonoaudiólogas —- não está sendo confundida com a do chefe do departamento ou diretor da fábrica; se sua postura naquela sala, sentada diante de um funcionário, não está muito mais parecida com a do patrão. Faça-o entender que o trabalho que está sendo realizado naquele momento, não é benefício da empresa, mas dele próprio.

Seja parceira do seu paciente.

Como já disse, estava na hora de encarar a terceira fonoaudióloga da minha vida. Na verdade, a terceira e a quarta, porque no mesmo consultório trabalhei com duas profissionais que não atuavam em emissoras de rádio e televisão, mas com conhecimento profundo do uso da voz no jornalismo. Passei por avaliações minuciosa a partir da aplicação de métodos de análise acústica e espctográfica, pela primeira vez. Aprendi exercícios para relaxar as cordas vocais e aquecer a garganta antes de iniciar uma locução. Alguns já conhecia e, para os novos, fui apresentado. Coisas como fazer sons semelhantes a mantras ou abrir e fechar a boca articulando exageradamente as vogais, que quando feitos dentro do carro a caminho da redação provocavam, nos mais próximos, estranhos olhares. Azar dos bisbilhoteiros. Soubessem eles os benefícios que sentia a cada movimento, fariam o mesmo, e, chegando ao trabalho, poderiam conversar com colegas em um tom “aveludado”, mais sedutor.

 

Mais importante, contudo, não foram os exames e exercícios, mas a liberdade que ganhei. Até começar esta etapa com as novas fonoaudiologia tudo era proibido. Eu seguia à risca a recomendação de não falar ao telefone, fechar a boca em locais barulhentos, ficar quieto dentro do carro da emissora, eliminar bebida gelada de meu cardápio, entre outras restrições. E nada resolvia. Perda de tempo, porque assim que me ensinaram que era possível fazer quaisquer dessas atividades —- convenhamos, algumas prazeirosas —- desde que com moderação, o tratamento passou a dar resultados positivos.

 

Falar sob estresse é parte da rotina de um jornalista de rádio e televisão. As restrições a que estava submetido, no entanto, aumentavam esta pressão psicológica, atingindo o ponto mais sensível de um profissional da voz — a própria. Pesquisas mostram a relação entre distúrbios da voz e a dificuldade para lidar com situações de estresse. Minha experiência pessoal serve bem para ilustrar estes estudos.

Ao abrir mão das restrições impostas, mas confiando minha palavra na moderação de meus atos, consegui atingir um ponto de equilíbrio.

Desde aquele momento, tornei-me grato às fonoaudiólogas. Entendi sua importância no processo de comunicação e passei a lamentar a falta das mesmas na maioria das redações brasileiras, principalmente as de rádio. É inacreditável que um veículo que tenha no som sua principal característica, tão pouca atenção dê à capacidade vocal de seus profissionais. É verdade que houve avanços neste processo. A locução radiofônica também ganhou tom coloquial e a forma de apresentar passou a ser vista com a mesma importância que o conteúdo. Há emissoras de rádio, como a CBN, em que os locutores obrigatoriamente são jornalistas. Não bastando mais ter um vozeirão. É preciso entender a notícia para transmiti-la com correção. Ao mesmo tempo, exige-se que este jornalista tenha recursos vocais, como articulação dos sons precisa e sem exageros e modulação e intensidade da voz coerentes como o que está sendo noticiado. Fatores que garantem o interesse do ouvinte, informam de maneira precisa e transmitem credibilidade. Apesar disso, você dificilmente verá uma fonoaudióloga com o crachá de uma emissora de rádio, a não ser que seja de visitante.

 

Minhas relação com as fonoaudiólogas nunca mais se encerrou. Fui e voltei aos consultórios tantas vezes entendi ser necessário. Lá estive para resolver problemas circunstanciais de rouquidão e, também, para encontrar o tom certo nesta ou naquela forma de transmissão. Em alguns casos para aumentar a velocidade da locução de notícias. Em outros, para ganhar confiança na apresentação dos programas. Procurei até mesmo para achar a nota certa no grito de gol. Não foi sempre que saí de uma sessão com o problema resolvido. Até hoje busco um recurso melhor para determinadas situações. O que apenas reforça a minha tese de que estas profissionais deveriam estar integradas ao corpo funcional das empresas de comunicação, assim como estão locutores, repórteres, redatores e editores — o que, faça-se justiça, já ocorre em algumas emissoras de televisão no Brasil, como é o caso da TV Globo.

 

Não estranhe o fato de ter citado apenas o nome de uma fonoaudióloga ao longo deste trabalho. Não é esquecimento ou injustiça deste que escreve. Primeiro, não é meu objetivo fazer críticas pessoais. Segundo, cada uma das profissionais das quais fui paciente vai encontrar —- se é que me darão o prazer da leitura —- um ponto aqui e outro acolá que deixarão evidente a importância dela na minha formação. Identifiquei apenas Glorinha Beuttenmüller por ser a pioneira na terapia da voz nos meios de comunicação.

 

Glorinha se aproximou de uma redação de telejornal no início da década de 1970. Sérgio Chapellin, já citado em capítulos anteriores, estava completamente rouco. Consta que o problema seria resultado da pressão psicológica provocada por ter de substituir na apresentação um dos maiores nomes do rádio e da televisão brasileiros, Heron Domingues, que se consagrou como locutor do “Repórter Esso” e depois se transferiu, como era comum, para a televisão. Já tendo sido aluno de Glorinha na Rádio MEC — onde a fonoaudióloga ministrou cursos de dicção, entre 1964 e 1973, curiosamente para profissionais liberais e não para radialistas —, Chapellin confiou sua recuperação na terapia desenvolvida por ela. O tratamento foi bem-sucedido e marcou o nascimento de uma nova atividade dentro das redações.

 

Esta história já tem 30 anos, período em que a relação entre fonoaudiólogas e jornalistas amadureceu. No princípio, eram os problemas vocais que levavam os profissionais de comunicação ao consultório. Queriam resolver distúrbios na maioria das vezes provocados pelo uso inadequado da voz. Hoje, estas mulheres incríveis —- homens, também —- e suas técnicas maravilhosas não apenas curam, mas apuram um padrão de qualidade, com enfoque no corpo não apenas na voz. Estimulam o desenvolvimento de um estilo próprio, respeitam a característica de cada indivíduo. Natural e espontâneo, o jornalista ganha expressividade e transmite credibilidade.

 

Para ler todos os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”,clique aqui. Estão publicados na ordem decrescente.

Conte Sua História de São Paulo: as novidades musicais chegavam na Hi-Fi

 

Por Douglas de Paula e Silva
Ouvinte da CBN

 

 

 

Nasci na Lapa, em 1955, na Rua Faustolo. A casa existe até hoje. Meus pais, Antonia e Rubens, sempre foram muito musicais: cantando, dançando, tocando piano. Ele com sua voz de tenor, cantava árias de óperas sem nunca ter estudado música, tocava piano de ouvido e dançava muito bem. Papai era da Aeronáutica, tinha muito contato com pilotos americanos, que traziam discos de jazz, blues, música clássica. Mesmo criança já ouvia Glenn Miller, Dave Brubeck, Miles Davis. Adorava “Take Five” do Brubeck.

 

Quando nos mudamos para o Planalto Paulista, em 1960, um lugar bem isolado naquela época, minha mãe logo me colocou para aprender a tocar piano com a Dna. Maria Expedito, perto de casa. Fiz seis anos de piano meio que por obrigação. Gostava mesmo era de bateria. Minha mãe, disse que aquilo só fazia barulho.

 

Tudo mudou quando, com oito anos, em 1964, minha tia me levou para assistir ao “Os Reis do Ié Ié Ié”, o primeiro filme dos Beatles. Fomos no Cine Nacional, na Rua Clélia, um dos maiores cinemas do Brasil. Quando vi os Beatles tocando, aqueles jovens gritando, dançando no corredor do cinema, percebi que o rock era a minha música.

 

Rádios FM eram raras bem como os aparelhos para ouvi-las. Ouvia as músicas no AM. Por falta de dinheiro, comprava apenas os discos compactos. Os LPs eram caros e demoravam para chegar por aqui. Costumava pegar emprestado os LPs de amigos mais abonados da escola.

 

As novidades chegavam primeiro na loja da “HI-FI” da Rua Augusta, trazidas diretamente dos Estados Unidos pelo dono Hélcio Serrano. Na visita à loja, além das novidades, você encontrava Rita Lee, Raul Seixas, Caetano … Em uma época em que tudo era proibido, as embalagens da HI-FI eram bem ousadas. Lembro de uma delas onde o Serrano aparecia nu com uma capa de disco tapando o que não poderia ser mostrado.

 

Os shows de rock não vinham para o Brasil. O mais famoso a se aventurar por aqui foi Alice Cooper num show caótico no Anhembi, em 1974. Em 1977, veio o Genesis, com Phil Collins no vocal. Um show maravilhoso no ibirapuera. Épico foi o do Queen no Morumbi, com Freddie Mercury comandando mais de 100 mil pessoas no “Love of my life”…

 

No rádio, duas emissoras se destacavam tocando rock: a Difusora e a Excelsior. Vasculhando o dial, descobri na madrugada, o programa Kaleidoscópio, que tocava rock progressivo e discutia temas como drogas, liberdade, teatro … e tocava discos na íntegra.

 

Vieram os CDs, em 1985. E com eles novos grupos como The Police e Nirvana.

 

Tive oportunidade de assistir a muitos shows de grupos que gostava desde a juventude.

 

Há quatro anos fui ver o cover do Led Zeppelin e fiquei impressionado com o baterista, que lembrava em tudo John Bonham. Conversei com ele e desde então, eu e meu filho de 15 anos, Daniel, estamos tendo aulas de bateria. Até nos apresentamos juntos. Foi inesquecível.

 

Falei para minha mãe, agora com 94 anos. E ela, ao contrário do meu tempo de criança, gostou muito. Felizmente!

 

Douglas de Paula e Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Mundo Corporativo: “quando você não inclui intencionalmente, você exclui de forma não intencional”, diz Ricardo Wagner, da Microsoft

 

“Quando você não inclui intencionalmente, você exclui de forma não intencional. Por pensar assim você perde uma grande oportunidade de mercado” — Ricardo Wagner, Microsoft

É preciso enxergar a questão da deficiência de maneira diferente e perceber que o problema não está na pessoa mas no ambiente ou nas ferramentas à disposição. É o que defende Ricardo Wagner, líder de acessibilidade da Microsoft, que foi entrevistado pelo jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da CBN. A conversa foi gravada pouco antes do início da pandemia do Sars-Cov-2 no Brasil e o tema é bastante pertinente se considerarmos que uma das ideias que se tem desta crise é que as empresas terão de se reinventar e criar novas relações no ambiente de trabalho.

“A melhor forma de você criar inclusão: contrate pessoas com deficiência. Aí você vai falar assim: “mas eu não estou preparado”. Justamente, por você não estar preparado. Entre você achar o que é certo para funcionar para a pessoa, se você tiver o colaborador dentro do ambiente que possa te dizer como isso funciona mais rápido, provavelmente você vai buscar a inovação em coisas que você nem imaginava”.

Calcula-se que existam 1,3 bilhão de pessoas com algum tipo de deficiência no mundo e cerca de 46 milhões, no Brasil. Para Wagner, as empresas estão desperdiçando talento, criatividade e oportunidades, porque quando se desenvolve um ferramenta acessível, está se criando uma solução para todas as pessoas:

“O assunto acessibilidade é extremamente relevante no mundo de negócios. Quem pensa, por exemplo, criar um ambientes de trabalho para atrair talentos, tem de pensar que todos os talentos tem habilidades e eventualmente deficiências: como que você cria um ambiente de trabalho inclusivo onde todos sintam-se em um ambiente em possam participar, entregar o melhor dela. Ou pensar em um produto que se oferece: como que você garante que a experiência de compra ou mesmo o produto que você vende, ele seja inclusivo e a pessoa que vai comprar, eventualmente uma pessoa com deficiência, ela também pode participar economicamente e ter a experiência do seu produto e sua marca?”

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN. E aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. O programa tem a colaboração de Juliana Prado, Rafael Furugen, Artur Ferreira, Gabriel Damião e Débora Gonçalves.

Expressividade: minha carreira foi salva pela fonoaudiologia

 

Estamos quase chegando ao fim deste seriado composto por trechos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

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ESTAS FONOAUDIÓLOGAS INCRÍVEIS E SUAS MARAVILHOSAS LIÇÕES!

 

O Colégio Nossa do Rosário sempre foi um dos mais completos de Porto Alegre. Lá passei boa parte da minha infância e adolescência. Aprendi muita coisa nas salas de aula, apesar de nunca ter sido um aluno exemplar. Aprendi mais ainda do lado de fora, convivendo com professores, comandando agremiação estudantil, trocando experiência com colegas e nos muitos treinos no time de basquete. Foi na escola, também, que me dei conta pela primeira vez das vantagens e desvantagens de ter uma voz grave mesmo na idade em que a maioria dos meninos ainda fala com o som de “taquara rachada”.

 

Não tenho dúvida de que minha voz — mais do que a personalidade —- colaborou muito para que eu assumisse posição de liderança nas discussões de política estudantil e nas atividades esportivas. Levava vantagem porque falava mais alto do que os outros. Mas ao mesmo tempo, o “vozeirão” me provocava constrangimento.

 

Foram muitas as vezes que, na dúvida entre uma resposta e outra no exercício de um exame qualquer, meu cochicho no ouvido do vizinho de carteira escolar reverberava no quadro negro e chamava atenção do professor. Outro motivo de incômodo era a brincadeira do dono da cantina que não se cansava em dizer: “enquanto os meninos trocam a voz fina pela grossa quando crescem, você vai mudar da grossa para a fina”.

 

Afinar não afinou, mas logo comecei a sentir problemas na garganta. Fosse depois de um recreio barulhento, uma festa com som alto, um discurso para o pátio repleto de gente, uma partida de futebol, sentado na arquibancada do estádio torcendo pelo meu Grêmio, o resultado final era o mesmo: rouquidão. Quase não conseguia falar. Situação que se agravou quando comecei a usar a voz profissionalmente. Os excessos foram tantos que o diagnóstico não tardou a surgir. Fui para a mesa de cirurgia tirar um nódulo nas cordas vocais, operação que me deixou sem falar por alguns dias e se tornou inócua por falta de orientação médica. Sem nenhum treinamento posterior, as dificuldades voltaram a aparecer.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, contrastado pela TV Globo. Um passo e tanto para quem ainda era inexperiente na profissão e havia trabalhado apenas um ano no veículo. A pressão psicológica se refletia na garganta. Algumas horas de trabalho e a voz começava a sumir. Foi quando conheci uma dessas figuras que se transformaram em ícone do jornalismo brasileiro, mesmo sem ser jornalista: Glorinha Beuttenmüller. Quase um mito, já que suas histórias —- muitas, lendas —- corriam o Brasil e, em cada estado que chegavam, recebiam uma nota mais alta. A fama era de que o sucesso dependia da palavra final dela. Só sobreviveriam os ungidos por sua benção.

 

Não precisei mais de um encontro para descobrir a verdade por trás daquela figura mística. Glorinha Beuttenmüller não era semideus. Era ser humano. Atendia a todos e tinha uma palavra para cada um dos seus ‘pacientes’. Ficou espantada quando lhe contei que apesar de ter feito uma cirurgia nas cordas vocais jamais havia sido orientado a procurar uma fonoaudióloga. Como sua presença na Globo de São Paulo não era frequente, dedicava seu pouco tempo comigo dentro de uma ilha de edição, reproduzindo minhas reportagens e chamando atenção para o forte sotaque gaúcho que marcava minha fala. Brincava —- ou seria uma ameaça? — ao dizer que iria proibir meu retorno ao Rio Grande do Sul, pois bastava um fim de semana nos pampas para o trabalho dela ir garganta abaixo.

Apenas alguns anos depois, quando ela e eu já não trabalhávamos mais na TV Globo, fui descobrir que Glorinha havia vivido boa parte de sua infância pelo interior gaúcho, tempo suficiente para detectar os defeitos da língua. Que fique bem entendida a frase anterior. A Globo, que fazia a primeira experiência de rede nacional de televisão, tinha como objetivo suavizar a pronúncia regional para não ferir os ouvidos alheios. O sotaque rasgado tem o mesmo efeito do excesso de gestos diante da câmera ou o uso de brincos, colares e gravatas extavagantes. Como bem define o jornalista Armando Nogueira, são vampiros que sugam a atenção do telespectador deixando a informação em segundo plano.

Lá no Rio Grande do Sul, além do sotaque trouxe algumas expressões, também. Goleira, atucanado, bragueta, pandorga, bergamota e barbaridade —- esta última podendo ser usada apenas pelo apelido, “bá”, ou acompanhada pelo polivalente “tchê” —- tornavam meu vocabulário exótico em terras paulistas e o trabalho de Glorinha mais difícil. Não havia erros de português ao utilizá-las mas atrapalhava o entendimento da mensagem. Parte pela insistência dela — que só não foi maior porque logo deixaria a emissora —- e parte pela facilidade que sempre tive em imitar a língua alheia, fui deixando o regionalismo de lado. Neste processo não poderia esquecer os puxões de orelhas do jornalista Carlos Tramontina, na época âncora do Bom Dia São Paulo, da TV Globo. Um professor na redação que quase perdia as estribeiras quando me ouvia dizer que “o fuca subiu a lomba e, em frente a lancheria, travou para não atropelar o guri com a pandorga na mão” (aperte a tecla sap: “o fusca subiu a ladeira e, em frente a lanchonete, brecou para não atropelar o menino com a pipa).

 

Apesar dos poucos encontros que tive com Glorinha, lembro de outra recomendação que fazia ao assistir às minhas passagens nas reportagens e participações ao vivo: “você tem de sentir os pés firmes e sentir o cóccix”. Era a a forma de explicar como manter uma postura equilibrada que transmitisse segurança. Em 1992, Glorinha Beuttenmüller deixou a TV Globo. Meu sotaque estava aparentemente dominado, mas ainda encontrava dificuldade para controlar a saúde vocal. De qualquer forma, minha primeira boa experiência com uma fonoaudióloga me abriu caminho para outras relações mais duradouras que me ensinaram a importância desta profissional.

Antes de seguir em frente, um pedido de desculpas: uso a palavra que designa o profissional responsável pela terapia da fala no feminino por força do hábito. Sempre trabalhei, entrevistei, fui entrevistado e li textos de fonoaudiólogas. Portanto, levando minha experiência em consideração, fonoaudiólogos que aí estão lutando contra a discriminação sofrida pelo sexo frágil, o masculino, me perdoem.

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

Expressividade: a representação correta de seu papel transmite credibilidade.

 

Acompanha hoje mais um trecho do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

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A LINGUGAGEM DO CORPO

 

Como já vimos, comunicação não é o que eu digo, mas o que você entende. Para que a mensagem seja compreendida em sua plenitude é importante usar todas as ferramentas que temos à disposição. Sobrancelhas, olhos, bocas, gestos, mão são elementos que complementam este processo, mesmo porque a linguagem do corpo é considerada mais fiel por ser inconsciente.

É fácil mentir com as palavras, difícil é confirmá-las com a mímica.

Para ser bem recebido pelo telespectador, fala-se com o corpo inteiro mesmo que apenas seu rosto esteja aparente. Os pés dividem com a coluna a responsabilidade de dar equilíbrio e, portanto, devem estar colocados de forma firme no chão, mesmo que você esteja sentado. Ter consciência da sua postura colabora para o pleno desempenho da sua função.

 

Aproveite o gravador abandonado no fundo da gaveta e grave a leitura de um texto sem movimentar as mãos, de preferência estático. Grave o mesmo texto marcando a fala com gestos e o corpo relaxado. Preste atenção no resultado final.

Atuar naturalmente tanto quanto falar de forma coloquial criam cumplicidade entre os agentes da comunicação.

Usar as mãos e o corpo é preciso, mas sem exagero. Os acenos, o movimento da cabeça ou a expressão facial devem antecipar a notícia que se vai dar. Algumas vezes acontecem simultaneamente. Jamais depois da mensagem porque não transmite confiança. Por normais que sejam estas ações, não podemos esquecer que diante das câmeras ou do público —- que pode ser formado por centenas de pessoas, dezenas de colegas ou apenas algumas unidades de desconhecidos — encaramos uma situação diferente da fala espontânea.

 

O apresentador de televisão quando transmite a notícia utiliza-se de equipamento eletrônico, o teleprompter. Ao ler textos escrito por um redator, tem de transformá-lo em mensagem falada. Conversa com a máquina como se falasse para cada uma das pessoas que formam sua audiência. Assim, age como ator diante das câmeras. Este fenômeno é que torna a tarefa jornalística um desafio à medida que o profissional atua mentindo, mas apresentando a realidade. A representação correta de seu papel será traduzida em credibilidade.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

O teste rápido na farmácia e a turma do estraga prazer na mídia

 

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ilustração Pixabay

 

O teste rápido para o novo coronavírus estará disponível na farmácia mais próxima da sua casa — notícia que deve ter agradado os ouvidos daqueles que reclamam por informações positivas nos meios de comunicação. Assim que a Anvisa anunciou a liberação para todo o Brasil, a mensagem correu por sites, blogs, redes sociais e afins.

 

Imaginei algumas pessoas ligando para o telefone da farmácia que fica permanentemente colado na porta da geladeira para agendar data e horário. Sonhando com o dia que fariam o teste para pegar o passaporte imunológico e sair saltitante pelas ruas sem se preocupar com as fronteiras impostas pelo Sars-Cov-2. Dar aquele abraço!

 

Até que surgem os cientistas e começam a falar umas verdades. E a eles se juntam os jornalistas que adoram ouvir a verdade. A Turma do Estraga Prazer está formada.

 

Não demora muito para os primeiros questionamentos aparecerem no rádio, na TV, nos jornais e em todos os espaços digitais que investem em jornalismo profissional.

 

O que era sonho … (vocês só gostam de notícia ruim, né!)

 

Logo se descobre que o teste é ineficiente. A margem de erro varia mais que pesquisa eleitoral (mas nessa você não acredita, não é mesmo?): vai de 20% a 70% dependendo o fabricante.

 

Começa que não foi feito para indicar quem está ou não com o vírus. Foi feito para dizer se a pessoa tem os anticorpos para o vírus — e, mesmo assim, com aquela margem de erro que a gente falou.

 

De acordo com a doutora Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão Ciência e pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas, da USP, o teste rápido pode dar uma falsa sensação de tranquilidade.

“… imagine que essa pessoa tenha um pouco de sintoma, ela vai até a farmácia e faz um teste rápido destes que não medem o vírus, mas medem anticorpos. Se ela estiver no começo da doença, o teste de anticorpos não vai acusar, porque não deu tempo dela ainda produzir os anticorpos — a gente começa a produzir os anticorpos a partir de uns 10 dias da infecção. Então, ela vai à farmácia, vai fazer o teste, tá lá com um pouquinho de sintoma, e o teste vai vir negativo. Se ela não for muito bem orientada o que esse negativo quer dizer, essa pessoa pode sair da farmácia pensando ‘ufa, não estou com o vírus, estou livre, posso abraçar meus pais idosos’ ….”.

Sai da farmácia sem saber o que realmente interessa e com R$ 200 a menos no bolso — é o que se diz que pode custar cada um desses testes. Imagine quanta gente não vai faturar alto. E quantos vão botar dinheiro fora.

 

Para que servem os testes rápidos? Foi a pergunta que Cássia Godoy e eu fizemos na entrevista de hoje, no Jornal da CBN, para a doutora Natália, que você pode ouvir no arquivo a seguir. Ou seguir lendo até o fim:

 

“Coletivamente podem ser úteis mais para à frente, quando a curva (de infecção) estabilizar, para gerar dados epidemiológicos, mas não para embasar políticas públicas de ‘vamos liberar a quarentena’”

Como jornalista nunca está satisfeito com a resposta, pergunta: quais os testes que são eficientes?

“O melhor teste para dizer se o paciente está com o vírus ou não é o teste (de biologia) molecular, que a gente chama de RT-PCR. Esse teste vai determinar o material genético do vírus, o RNA do vírus. Esse teste é muito sensível, é muito eficiente, se feito da maneira correta. Mas precisa ser coletado em locais adequados, e ele precisa ser avaliado em laboratórios de segurança e adequados para manuseio desse material”

Então é só ir na farmácia e pedir esse teste, ora bolas — logo pensa o amigo ouvinte que está pronto para disparar um e-mail para o apresentador e chamá-lo de alarmista juramentado.

 

Não é bem assim.

 

Como explicou doutora Natália o material tem de ser coletado em locais apropriados, além de serem mais caros e mais demorados. Não são vendidos em farmácia. Hoje, estão disponíveis apenas em hospitais que atendem pacientes internados com suspeita de Covid-19, mesmo porque faltam reagentes. Não têm suficientes para a maior parte da população infectada.

 

E aí mora o problema: somente com testes em massa —- e com esse teste mais caro e em falta —- é que se consegue desenvolver uma política pública eficiente e com menor taxa de risco. Sem eles, toda decisão de liberar comércio, restaurante, salão de beleza, clube de tiro (sim, tem gente preocupada com isso) ou as portas do seu escritório é uma loteria em que o grande prêmio é um vírus daquele tamanho. E mais um monte de gente contaminada, sofrendo no tratamento e podendo sair do hospital para o cemitério —- onde houver covas.

“No Brasil, a gente tem de lembrar que o país é enorme, e a doença afeta de maneira diferente as regiões. Então, o ideal é que cada região faça a sua testagem e trace o seu panorama … Precisamos fazer testes com amostras representativas da população, fazer amostras representativas de municípios e isso precisa ser muito bem planejado. Mas é a melhor maneira de otimizar os testes que por ventura tenha. Por enquanto a gente tem bem pouco”.

Por que vocês só ouvem quem é do contra? Calma lá, a gente ouviu mais gente, também, no Jornal da CBN. Ouça as entrevistas e reportagens que foram ao ar apenas nesta quarta-feira sobre o assunto, e tente entender que o papel do jornalista não é dar notícia ruim ou boa, é procurar a verdade.

 

“Pessoas com sintomas da Covid-19 não devem fazer teste em farmácia, diz Opas” — ouça aqui o que disse o vide-diretor da entidade, Jarbas Barbosa, ao Jornal da CBN

 

Liberação de teste rápido para detectar coronavírus fragiliza isolamento — ouça o comentário do Dr Luis Fernando Correia, no quadro Saúde em Foco, no jornal da CBN

 

E aqui a justificativa da Anvisa para liberar o teste rápido em farmácia