De aniversário de casamento

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Hoje, 25 de janeiro de 2015, meus pais, Oswaldo Rocco Solla e Clélia Calò Solla, comemoram setenta anos de casamento, onde quer que estejam, já que se foram deste planeta sem comunicar seus destinos.

 

Como todos os que se vão daqui, imagino que nasçam em novo lugar, para nova vida, em dimensão e vibração muito diferentes das nossas. Mas quem é que sabe…

 

A gente não sabe o porquê nem para que veio, e vive na ignorância do que virá. Mas vive. O propósito é esse, e pronto. Dia a dia, dor a dor, riso a riso.

 

Me afasto do assunto.

 

Meus avós paternos, Pedro Rojo Sola, espanhol, e Deolinda D’ Assumpção Marcello, portuguesa, criaram a metade homem, muitíssimo bem assessorados pela Bisa Maria da Luz; e meus avós maternos, Vito Calò e Grazia Giannuzzi Calò, ambos italianos, a metade mulher.

 

Oswaldo – e dois irmãos – nasceu e cresceu pobre, numa família ‘esquentada’. Estudou pouco na formalidade das escolas, mas atingiu o doutorado na vida. Trabalhou quase sessenta anos na mesma empresa, desde os quatorze anos. Começou cedo, e atesto que isso não fez mal a ele. Ao contrário, ajudou a forjar sua auto-estima e o seu caráter. Recebeu muitos prêmios, construiu sua casa, comprou seus carros e, principalmente, assegurou-se de que seus filhos não cresceriam sem o melhor estudo e o melhor código de honra que ele pudesse oferecer. Agora, o que fez de melhor foi proteger a Clélia. Contra tudo e contra todos, fazia tudo por ela. Ela era a Rainha do Lar – dirigida pelo Rei, é óbvio! Bibelô… mas tudo tem seu preço.

 

Clélia – e dez irmãos – vivia bem nesta nova e promissora terra brasileira, até completar nove anos. Nove! Foi então que o vovô Vito resolveu nascer, ele também, para uma nova vida, deixando a família que protegia, alimentava e acarinhava – todos dizem que ele era carinho puro -, nas mãos de D’eus.

 

Imagina a situação da vovó Grazia? Vivia as vinte e quatro horas do dia cuidando da casa e da família e de repente se viu sozinha e responsável pelo sustento da casa. Doze bocas para alimentar, doze de tudo! Nem quero nem pensar.

 

Pois ela pensou, e bem rapidamente: foi trabalhar numa fábrica de charutos e deu conta do recado, muito bem.
Por que eu conto tudo isso? Porque que me orgulho da minha família. Me orgulho de ser um pedacinho dela. Fruto dela. Dos seus erros e dos seus acertos, das suas brigas e da sua paz. O seu não-estar estando para sempre.

 

Obrigada, mamãe, obrigada papai, pela minha vida.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. É colaboradora do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Thiago Pessoa, da Gympass, fala de atividade física e produtividade na empresa

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Ao oferecer programa de qualidade de vida para os colaboradores, no qual eles têm a possibilidade de realizar atividades físicas, a empresa diminui a ociosidade, aumenta a assiduidade e ganha uma equipe muito mais saudável. Com isso, melhora a produtividade e reduz custos com planos de saúde, que, atualmente, são os responsáveis pelo maior gasto no Orçamento depois da folha de pagamento. De acordo com o empresário Thiago Pessoa, o trabalhador beneficiado por esse tipo de programa “consegue ser um colaborador mais feliz e tende a entregar mais resultados do que um colaborador menos feliz”. Thiago é diretor corporativo da Gympass, empresa que vende planos de atividade física que oferecem acesso a 2.600 academias credenciadas em 200 cidades brasileiras. A gestão de pessoas e a estratégia de atuação da empresa que dirige foram alguns dos assuntos da entrevista de Thiago Pessoa para o jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN.

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O Mundo Corporativo da CBN pode ser assistido ao vivo, quartas-feiras, às 11 horas da manhã, pelo site http://www.cbn.com.br. O programa é reproduzido aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN.

Fendi leva seu luxo ao comércio eletrônico

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

 

O comércio eletrônico no mercado do luxo ganha cada vez mais relevância. Hoje, são evidentes e inúmeras as oportunidades para esse nicho na internet. A grife italiana Fendi terá seu próprio e-commerce a partir de março deste ano, onde deverá oferecerá itens de suas criações de moda feminina e masculina, acessórios e perfumes. Até então, a grife italiana podia ser encontrada online apenas em sites especializados.

 

Inicialmente, Fendi terá sua loja online na Europa, em mais de 25 países, e de acordo com a marca deverá expandir para o Japão e Estados Unidos, até 2016. Para muitos consumidores AAA, a loja digital é ideal para poderem se atualizar das novidades e conhecer peças de coleções novas, podendo fazer a compra pela internet ou, até mesmo, ir a uma loja da grife.

 

Quando falamos em luxo, claro, falamos também em história e tradição. Fendi, fundada em 1925, é uma das grifes mais desejadas e renomadas ao redor do mundo. Desde 2001, pertence ao grupo LVMH, conglomerado de marcas de luxo.

 

Era muito comum no passado o pensamento e receio de que a venda de produtos de luxo online afetasse sua exclusividade. No entanto, existe uma demanda do próprio consumidor por este comércio. Para as marcas o maior desafio é oferecer a seu consumidor todo o luxo e experiência de compra já oferecidas em suas lojas físicas, sendo essencial investir em tecnologia, logística e uma comunicação eficaz entre a loja online e seu cliente. Layout simples e elegante aliado a atendimento de qualidade e agilidade de entrega certamente colaborarão para o sucesso da marca na internet. Uma distribuição seletiva de seus produtos também é essencial na gestão do luxo no mundo online e offline.

 

E agora que já leu este texto, escolha seu modelo no desfile da coleção masculina outono/inverno 2015/2016, assistindo ao vídeo lá em cima.

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP – 461 anos: os lampiões de gás iluminavam os vagalumes da cidade

 

Por Alayde Toledo Silva Pinto

 

 

Ah, minha querida cidade São Paulo !

 

Nasci na Rua Conselheiro Furtado, 220 no ano de 1924 em uma família católica, apostólica, romana e paulista, maioria naquela época. Todas as passagens importantes da vida eram comemoradas em família: batizado, noivado e casamento, com a participação da vizinhança.

 

As festas do Natal não estavam focalizadas nas compras e presentes. A montagem do presépio natalino, por exemplo, era um acontecimento que unia a avó ao neto: todos os personagens eram arrumados nos mínimos detalhes em chão de alpiste. Na véspera da Natal, as crianças esperavam os adultos voltarem da Missa do Galo para aguardar seus presentes, que chegariam na madrugada pelas mãos do Papai Noel.

 

Brinquedos eram artesanais, feitos à mão, bastava a imaginação infantil para lhes dar vida…os meninos construíam caveiras na abóbora moranga recortada iluminada por velas, para causar susto nas meninas. Além disso, havia concurso de pipas que todos empinavam com talento. As pequenas, por sua vez, usavam uma espécie de argila para confeccionar panelinhas e bichinhos. Crianças brincavam nas ruas e nas escolas de jogos como barra-manteiga, cabra-cega, esconde-esconde, e de pular corda. Atividades simples e ingênuas que usavam apenas imaginação, sem gastos com dinheiro ou compras…

 

Lembro-me que ganhei uma boneca do meu tamanho em um aniversário da infância. Fui passear com a boneca e o tempo mudou, trazendo chuva forte. Minha bonecona foi se desmanchando e descobri então que ela era feita de papelão, não houve tempo para salvá-la na UTI…

 

Havia clara diferença entre os gêneros com uma escala gradativa para as mulheres: criança, menina, menina-moça e mocinha, para depois senhorita ou senhora. Os meninos até se tornarem moços, usavam bermudas, calça comprida era traje somente de reuniões solenes.

 

Nas cerimônias de batizados, além do padrinho e da madrinha, havia também a madrinha “de apresentação”, geralmente uma moça mais jovem que carregava o bebê até a pia batismal. E nos casamentos, havia a “madrinha de bandeja” para apresentar as alianças.

 

As casas sempre tinham árvores frutíferas nos quintais e nos jardins, na área da frente das moradias, as grades baixas eram coloridas por rosas trepadeiras e flores perfumadas, como madressilva, dama da noite e a rara e cobiçada “Flor de Baile” que só abria à meia-noite.

 

São Paulo era uma cidade romântica nas décadas de 40 e 50, até os anos 60, podemos dizer. Nas noites calmas e agradáveis, no clima fresco e com frequente garoa, nas ruas de paralelepípedo todos circulavam a pé ou de bonde, e era usual manter amizades com os vizinhos, sem rivalidade. No passeio noturno com meus pais e meus irmãos, apreciávamos assistir ao acendimento dos lampiões a gás para iluminação das ruas e ficávamos maravilhados com os lindos vagalumes, com suas asas em tons azuis e verdes, a colorir aquela atmosfera.

 

Ah, minha querida cidade que foi a terra da garoa !

 

Conte Sua História de SP – 461 anos: as peladas do Pateo do Collegio

 

Por Luis Silva

 

 

Em 1.971 trabalhava como office-boy numa companhia de seguros na Praça Padre Manoel da Nóbrega, perto da Praça da Sé, no centro de São Paulo. Na hora do almoço, após saborear a excelente refeição preparada com muito esmero por Dona Maria, que era a cozinheira da Cia. onde eu trabalhava, nós office-boys descíamos do vigésimo primeiro andar para dar umas voltas e apreciar o que existia de melhor  naquela época: ” A beleza da mulher paulistana”.

 

       Ficávamos sentados num banco existente no pátio do Colégio apreciando todas as meninas que passavam apressadas, vindo não sei de onde e indo para um lugar ignorado por nós, talvez algum banco, loja. Num determinado dia o Artur levou uma bola de futebol carcomida e propôs fazermos uma “pelada” no Pátio do Colégio, inicialmente ficamos um tanto apreensivos, eu os colegas achávamos que poderíamos ser presos, mas aceitamos e dividimos-nos em dois grupos e começamos a dar os primeiros chutes na velha bola de futebol.

 

        Com o passar dos dias, a “pelada” foi chamando atenção de outros office-boys que passavam apressadamente pelo pátio e pediam para participar, nem que fosse só um pouquinho e todos eram aceitos, a única restrição que fazíamos era que tinha que ser office-boy. Após algumas semanas surrando a bola, sempre no horário do almoço, nossa “pelada” já era conhecida por alguns transeuntes e uma pequena e ruidosa torcida composta de camelôs, engraxates, mendigos e alguns vagabundos que perambulavam pela redondeza que paravam para observar aquele bando de moleques sem juízo correndo em pleno centro da maior cidade da América Latina.

 

         Dois garotos tiravam “par ou ímpar” e começavam a escolher os “craques” que iriam compor o time, geralmente os garotos com porte físico avantajado tinham a preferência e rapidamente eram os primeiros a serem escolhidos, ficando os “miudinhos” e raquíticos para serem escolhidos no final ou aceitavam o ingrato convite para ser gandula.

 

         O jogo de futebol era muito divertido, pois tudo era improvisado, desde as traves que poderia ser dois pedaços de pedras subtraídas da construção do metrô da Praça da Sé, que estava sendo construido ou uma maleta 007 de algum office-boy ou mesmo um saco de roupas sujas de qualquer mendigo torcedor.

 

         Inicialmente não existia juiz, mas com o passar dos dias e aumentando o número de jogadores, aceitamos a sugestão de alguns torcedores e resolvemos “escalar” um juiz. O mais difícil era convencer um garoto office-boy a aceitar ser juiz,. cargo tão decisivo e perigoso, visto que qualquer desentendimento era fácil observar o juiz levando alguns cascudos, pegar sua maleta 007 e sair xingando a todos e ir embora; outro dia voltava, mas não aceitava ser juiz de jeito algum.

 

         Em toda partida de futebol, escolhe-se o melhor jogador em campo, na nossa “pelada” os torcedores escolhiam o pior jogador do Pátio e era dificílimo a escolha, pois um era pior que o outro, éramos verdadeiros “pernas de pau”, mas sempre existia o piorzinho de todos e não envergonho-me de ter sido escolhido algumas vezes, poucas vezes, mas…. Esse garoto que era escolhido ” o pior” era zombado em plena rua aos gritos por outros office-boys e mesmo dentro de algum banco da Rua XV de Novembro, enquanto aguardava pacientemente na quilométrica fila podia ouvir-se ” E aí pior!”. Quando tinha sido escolhido, nem ligava, fazia de conta que não era comigo, mas que dava um “odiozinho” dava.

 

          Aconteceu uma partida inesquecível em que participaram quarenta e quatro office-boys, vinte e dois de cada lado, acho que todos os office-boys dos escritórios da redondeza estavam lá naquele dia, tinha mais jogadores que torcedores no Pátio,infelizmente neste dia a partida foi interrompida por policiais de trânsito, que vendo aquele bando de garotos atrás de uma bola resolveram parar para observar o que estava acontecendo. Paralisaram nossa partida de futebol e tentamos explicar que era apenas uma “pelada”, que não estávamos prejudicando ninguém, a não ser algumas boladas que alguns transeuntes levavam, é claro, que a gente era trabalhador (office-boys), etc, etc. Não houve jeito, confiscaram nossa bola e pediram delicadamente para que voltássemos para nossos escritórios.

 

           Mas a gente não se  preocupava, pois no outro dia outro colega trazia outra bola e lá  estávamos nós correndo pra lá e pra cá novamente, mas sempre de olho nos policiais de trânsito.

 

            Estava chegando o final do ano e resolvemos promover um mini campeonato entre nós office-boys dos escritórios da região e decidimos que o mesmo seria realizado em pleno Pátio do Colégio e somente office-boys poderiam participar. Ficou estabelecido entre nós que o campeão ganharia um troféu, uma quantia em dinheiro e seria necessário os times ter camisetas próprias com o nome do escritório. Quando o campeonato começou era muito lindo ver a molecada abandonada dentro de lindas camisetas ostentando o nome do escritório, soubemos mais tarde que até alguns supervisores e gerentes de escritórios patrocimaram algumas camisetas, mas pediam para não serem identificados, pois poderiam ser demitidos pela ilegalidade do campeonato e pelo local ser um espaço público.

 

 
            Faltando alguns dias para o dia do Natal já estava definido os dois times finalistas,os jogos aconteceram em duas semanas, após várias partidas acirradas, no estilo “perdeu, cai fora”, o tradicional “mata-mata”.  Os dois times finalistas eram o nosso e de um outro escritório pertencente a um banco da rua Boa Vista.
golaço, mandando a bola na Rua General Carneiro, quase acertando a cabeça de um camelô. No segundo tempo novamente o Artur nos presenteou com outro gol maravilhoso. Resultado final, ganhamos  a partida por 2×0. Éramos Campeão! Abraços misturavam-se com gritos de: É Campeão!

 

            Atravessamos a Rua XV de Novembro aos gritos de “É Campeão!” e fomos comemorar nossa vitória comendo sanduiches de linguiça calabresa com guaraná na Rua do Tesouro. 

 

             Lá estava nosso troféu em cima do balcão de vidro e a cada mordida em que eu dava no meu sanduiche, olhava para o troféu com um orgulho danado em ter sido Campeão. Campeão da “pelada” do Pátio do Colégio.

 


Luis Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar, enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Premissas do passado norteiam o novo Plano Diretor

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Tomando a mobilidade como uma das metas principais a serem alcançadas, autores e apoiadores do Plano Diretor têm usado argumentos fora de conexão com a atualidade.

 

Uma das premissas é que o Plano possibilitará a criação de moradias e empregos dentro do mesmo bairro, evitando que os moradores cruzem a cidade para ir de casa ao trabalho. Por isso será permitido o adensamento residencial e comercial. Ora, hoje as pessoas mudam de emprego várias vezes no transcurso de seu período de trabalho, e continuam no mesmo endereço.

 

A outra premissa é que os corredores comerciais propostos ajudarão na diminuição da mobilidade, pois fornecerão produtos aos moradores da região, evitando que se desloquem para fazer compras. Sem contudo interferir na qualidade da região. Premissa tão falsa quanto a primeira, pois está baseada no passado. Hoje, o pequeno varejo de cadernetas de fiado, deu lugar a formatos que irão perturbar as características ambientais, além de não se sustentarem com a clientela de vizinhança. Haja vista, que serão permitidas operações de 500 a 1000m2 de área.
Ao mesmo tempo em que o Plano Diretor considerou o passado para justificar a melhoria da mobilidade, desrespeitou o passado das zonas de preservação, colocando nelas novos corredores comerciais. Estas, embora pequenas em proporção ao tamanho da cidade, pois apenas ocupam 3,8% do território de 1500km2, serão totalmente descaracterizadas. Terão redução na importante função de equilíbrio ecológico que prestam a São Paulo.

 

Uma simples examinada no mapa proposto dá a dimensão do estrago que os corredores comerciais farão dentro destas áreas preservadas. Em avenidas onde hoje estão localizadas parcialmente áreas comerciais, o Plano abre corredor comercial em toda a extensão. Em outras ruas estritamente residenciais, o Plano permitirá comércio total. Um ataque tão intenso que precisará de “Super-heróis”. Neste caso, urbanistas de méritos.

 

Por ordem alfabética: Cândido Malta, Heitor Marzagão, Ivan Maglio, Lucila Lacreta, Luiz Carlos Costa, Regina Monteiro, Sergio Reze.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP – 461 anos: quando os engenheiros chegaram para construir o Minhocão

 

Por Deborah Pereira

 

 

Em 1965, minha família se mudou para a Rua Albuquerque Lins no trecho entre a Praça Marechal Deodoro e a Brigadeiro Galvão. O bairro era ótimo, tranquilo e residencial. A rua era de paralelepípedos e andávamos de bicicleta com tranquilidade até a praça.

 

De repente começaram a aparecer uns engenheiros da prefeitura, mediam aqui, ali e só diziam que haveria uma obra enorme que mudaria o bairro. São Paulo não podia parar e isso, na época, era sinal de progresso, valorização dos imóveis e crescimento econômico. Nada foi perguntado ou informado aos moradores.

 

Depois dos engenheiros chegaram os trabalhadores e o minhocão começou a subir. E foi rápido. Se me lembro bem, coisa de um ano. Na véspera da inauguração deixaram as bicicletas curiosas subirem sob os olhares surpresos dos adultos.

 

Nossa que obra! Isso sim é um país que cresce!

 

E cresceu, e se tornou um problema para os vizinhos que moravam em frente e que aos poucos foram se mudando. A rua foi se deteriorando, meu pai foi transferido para uma cidade do interior e nós também partimos.

 

A vida me trouxe para morar na Rua Albuquerque Lins de novo, agora entre a Alameda Barros e a Rua Baronesa de Itú e daqui observo agora o destino que se quer dar ao elevado Presidente Costa e Silva.

 

Do meu modesto ponto de vista, ele deve ser demolido e o seu entorno recuperado. O sol deve voltar a iluminar a praça Marechal para que as crianças possam voltar a andar de bicicleta.
 

 

Deborah Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar a sua história da nossa cidade, escrevendo para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: da Serra Pelada ao Jardim Filhos da Terra

 

Por Clair Ramalho

 

 

Quando era pequena, ouvia dos velhos moradores algumas passagens históricas da conquista desse morro. No meu imaginário infantil, essas passagens eram tão fantásticas que me pareciam verdadeiras epopeias. Então, com o passar do tempo, eu quis recontar o que ouvi.

 

O pessoal daqui é gente simples! A riqueza está em nossa origem e em quem somos.

 

Construímos um patrimônio no alto do morro, carpindo o mato, limpando o terreno, martelando pregos em madeiras, colocando telhas de barro sobre a estrutura de paus, formando barracos.

 

Cada morador, ainda que não fosse muito escolarizado, escreveu a história desse lugar através da oralidade. Uma multiplicidade vozes sob uma arquitetura improvisada, no subir e descer das ladeiras, escadarias e becos.

 

Minha mãe também me contava, que o Jardim Filhos da Terra* (bairro localizado na região do Jaçanã, Zona Norte de São Paulo), a Serra Pelada, como ficou conhecido após a limpeza do mato, surgiu em um movimento de ocupação. Esse movimento foi iniciado pela igreja local na metade da década de 80, após a construção de um barraco à margem do córrego, abaixo da serra, para uma moça chamada Maria, vinda do nordeste com três filhos pequenos sem um lugar para moradia.

 

A notícia desse fato se espalhou rapidamente e trouxe inúmeras Marias e Josés, com histórias parecidas. Então, a igreja liderou a busca de terra e moradia.
Um terreno foi encontrado, estava desocupado e sem uso, no topo do morro íngreme e sinuoso. A estratégia de abrigar quase mil famílias foi desenha em cartolinas brancas que receberam grafites e riscos com a divisão do terreno para cada família. Tudo estava organizado.

 

Há 30 anos, no cair da noite, a ladeira foi tomada por um longo tapete de pessoas. Era quase cinco mil! Estavam com tochas, foices, martelos e enxadas as mãos. Mulheres grávidas e crianças à frente do grupo, formando um cordão, para repreender confronto policial, caso houvesse. O restante do grupo viera depois. Os policiais não usaram seus revólveres, e nem a multidão usou suas foices. A ocupação foi pacífica, com reza, com canto e com a lua testemunhando essa chegada.

 

A Pracinha, lugar que preserva o verde de nossa origem, foi o primeiro lugar a ser ocupado. Depois formaram ruas estreitas, ao lado, barracos de madeira ligeiramente construídos. Surgiu a periferia! A informalidade urbana na metrópole paulistana. Nasceram os “Filhos da Terra”.

 

O tempo trouxe a evolução de nossas casas. Agora tijolo, cimento e laje.

 

O bairro foi edificado e vive nas lembranças doces dos antigos moradores que viveram essa conquista. E, hoje, a história perpetua em suas vozes, nas vozes de seus filhos e nas de tantas outras crianças, que assim como eu cresceram e continuam contando, aqui, no alto do morro.

 

Clair Ramalho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br

A Boa Mentira: para quando quiser pensar além do seu umbigo

 


Por Biba Mello

 


FILME DA SEMANA:

“The Good Lie”
Um filme de Phillipe Falardeau.
Gênero: Drama
País:USA

 

 

Uma aldeia no Sudão é atacada por guerrilheiros e apenas algumas crianças sobrevivem. Elas caminham por um longo período até chegar em um acampamanto das Nações Unidas. Uma missão humanitária as levam, após muitos anos, para viver em solo americano.

 

Por que ver: É um filme baseado em relatos verídicos, a história é tocante e profunda. A atriz Reese Whitherspoon fica em segundo plano como coadjuvante e nos ajuda a entender que somos todos iguais; e assim nos leva a pensar um pouco além do conforto de nossa vida urbana. Em uma frase que chega a ser engraçada pela ingenuidade e ignorância de um dos personagens, ele questiona a um criador de gado lá no EUA: “devo me previnir contra algum animal perigoso?- criador – qual animal? E o rapaz responde – Leão”.

 

Como ver: Sempre que quiser sair de algum momento “raso”de sua existência e pensar além do seu próprio umbigo.

 

Quando não ver: Se você estiver em um momento “curtir a vida”…Vai quebrar o clima te botando rapidinho com os pés no chão.

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos.