De Mistérios Lexigramados e Soletrados – II

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Palavras saltaram feito pipoca do nome do Papa, por três dias. Um pouquinho por dia. E eu focada. Preparava o café da manhã e voltava para as letrinhas que compõem o nome do Sumo Pontífice da Igreja Católica. Fazia minha caminhada na praia e voltava para elas e para ele. E assim passava o dia.

 

Decidi não pesquisar na internet sobre o que se disse e o que ainda se diz sobre ele, porque queria me fechar para opiniões e deixar que seu nome o revelasse.

 

Até aí, minha postura era a da pesquisa, mas estava afoita para ver a mensagem desta vez. Encontrei mais de cento e cinquenta palavras, e elas mesmas me mostravam a que grupo pertenciam. Me remetiam a elementos Sagrados, Naturais e Míticos, como PIO, ARCA e CINCO, que me faz pensar na Estrela de Cinco Pontas. Com ARCA veio uma porção de representantes do Reino Animal: ASNO, SAPO, CARPA, CORSA, PORCA, RÃ, CRINA, FOCA, RAPINA. Na área do Sagrado tem PAI e PÁSCOA, tem PIA, COPA e PIRA. Tem AR, explícito, tem ÂNCORA, FRANCO e FORÇA.

 

Não encontrei POmPA, porque isso me parece não lhe ser confortável. Tem CAPA, mas não tem espada.

 

E é por esse caminho que eu ia, quando decidi sentar no chão e formar o nome do Papa, com as letrinhas posando para uma foto.

 

Quando sentei no chão, fui relaxando, e aí sim, sete palavras se apresentaram uma a uma, até formarem a frase:

 

PAPA FRANCISCO, ORAI AO PAI POR NÓS.

 

Assim, não há mais nada que eu possa dizer.

 

Excelente semana, com muita Luz!

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: o que o mercado espera dos novos executivos

 

 

O novo executivo não fala mais em oferta, mas em demanda; não fala em produto, mas em serviço; não é mais força de trabalho operacional, é força intelectual. A explicação é de Rodrigo Vianna, diretor executivo da Talenses, entrevistado do programa Mundo Corporativo da rádio CBN. Especializado no recrutamento de executivos, Vianna fala ao jornalista Mílton Jung dos desafios impostos pelo mercado de trabalho que está ainda mais competitivo e como se adaptar a essa realidade, além de mostrar o caminho para a internacionalização destes profissionais.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, ao vivo, no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br, pelo Twitter @jornaldacbn ou com perguntas pelo grupo de discussão Mundo Corporativo no Linkedin. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Descubra SP: me sinto em casa, no Pateo do Colegio

 

 

Fui entrevistado pela Fabiana Novello para a série Descubra SP, um dos programas da CBN em homenagem aos 460 anos de São Paulo. A ideia era indicar um dos lugares que mais gostamos da Capital e não tive dúvida em escolher o Pateo do Colegio, local de fundação da cidade, onde todo segundo sábado do mês nos encontramos no Adote um Vereador. A história bem contada pela Fabiana tanto quanto bem sonorizada pelo Claudio Antonio você ouve aqui:

 

Conte Sua História de SP 460: o bonde que levava à zona do meretrício

Por Antonio Favano Neto

 

 

Estudava no Liceu Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, e morava no Alto da Mooca. Para estudar, ia de de ônibus cujo ponto inicial era na rua do Oratório com Fernando Falcão e o ponto final, na praça Clóvis Bevilacqua. Caminhava até o Largo do Tesouro e tomava o bonde Júlio Conceição, próximo do Liceu, porém muito mais perto da zona do meretrício, que existia oficialmente em São Paulo: as famosas ruas Iaboca e Aimorés, hoje o maior centro comercial de confecções do Brasil. O mais curioso é que o bonde saía do Largo do Tesouro apinhado de homens nos estribos, completamente lotado, e ao chegar no segundo ponto de parada, na rua José Paulino, parecia que a tropa de choque da antiga Força Pública com seus meganhas prenderia a todos. Não ficava um passageiro nos estribos, desciam correndo como crianças para dentro da zona.

 

Quando o dinheiro dava, eu pegava o ônibus Estações que fazia o rodízio das estações do Norte, Sorocabana e Luz, fazendo um contorno por todo o centro expandido de São Paulo da época. Defronte a Caixa Econômica Federal, ao lado do relógio da Praça da Sé, saía o ônibus circular Linha 1, que passava pelo Largo São Bento, Paissandu, Viaduto do Chá, Largo São Francisco, Praça João Mendes e Sé. Eram ônibus americanos de última geração, Thin Coach, com breque a ar que fazia barulho ao ser acionado, que mais parecia um aviso aos pedestres: estou perto, cuidado.

 

Das coisas mais pitorescas, eram as mães que acordavam de madrugada para levar os filhos na rua do Gasômetro para as crianças respirarem a fumaça do gás que saía dos bueiros. Na rua Santa Rosa existia o trenzinho da Companhia de Gás de São Paulo com cinco vagões, que partia do Largo do Pari com destino à rua da Figueira para descarregar o carvão que chegava da Europa, via Porto de Santos. Isto tudo na contra-mão do trânsito.

 

Antonio Favano Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

 
 
 
 

O luxo artesanal e a indústria do luxo

 

Por Ricardo Ojeda Marins

O consumo de produtos de luxo passou por desenvolvimento internacional extraordinário nos anos 80, e o luxo foi reconhecido como setor econômico e industrial desde o fim dessa década, com a constituição e o crescimento de grandes conglomerados de marcas deste mercado. No começo dos anos 90, foi a época em que o luxo deu passo definitivo na direção de se tornar setor econômico e suas empresas assumirem-se como negócios. Louis Vuitton Malletier, até então uma pequena empresa familiar com negócios na ordem de 32 milhões de euros, tornava-se, com 1,3 bilhão de euros, a filial mais lucrativa do líder mundial dos produtos de luxo: o grupo LVMH.

 

De acordo com Dana Thomas, autora do livro “Como o Luxo perdeu o brilho”, na década de 1980, o crescimento tornou-se não apenas prioridade, mas, sim, objetivo, nos Estados Unidos, pois possuíam mercado médio de maior porte, mais rico e fluido do mundo. Era então necessário para o luxo encontrar lugares com número abundante de clientes, sem diminuir o status percebido da marca.

Para muitos, o processo de “industrialização do luxo” o fez menos exclusivo, principalmente pelo fato de ter-se deixado de lado, talvez em maior parte, a produção à mão, que deu lugar à produção em máquinas. Afinal, algumas das premissas do luxo são a exclusividade, o feito sob medida, o prestígio e a edição limitada. O crescimento do segmento de bens e produtos desse segmento e a substituição em boa parte do artesanato pelo industrial geraram a democratização do luxo, aumentando sua presença global e o tornando acessível a um público mais amplo do que o consumidor da antiguidade.

 

Encontrar o equilíbrio entre ter mais clientes sem correr o risco de perder o glamour e a sofisticação anteriormente conquistados é um dos principais desafios das marcas de luxo. Para evitar a banalização, ou seja, impedir que as marcas percam o conceito de exclusividade e sejam vistas apenas como mais um nome sem caráter prestigioso, devem-se preocupar em ter posicionamento preciso, distribuição seletiva, serviços diferenciados, treinamento de pessoal e canais de comunicação eficazes para o público-alvo deste mercado, além de investirem em criações de edição limitada em algumas linhas de produtos, como fazem Louis Vuitton, Goyard e Hermès, que ainda possuem produtos feitos à mão, sob medida e exclusivos.

 

Não se deve esquecer: o verdadeiro luxo ainda é para poucos.

 


Ricardo Ojeda Marins é Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP 460: minha paineira do Butantã

 

Por Robson Luquêsi
 

 

 

 

fim dos anos 1960. é coisa do milênio passado. saía de casa, lá no jaguaré, pertinho da divisa com osasco. levado pelo meu pai ou minha mãe, ou os dois, a caminho da cidade. sim! cidade era lugar de pra lá do rio, que mais tarde fiquei sabendo se chamava pinheiros.

 

mas só sabia que estava a caminho do centro de são paulo quando o ônibus passava ao lado, bem perto, quase colado àquela imensa árvore. espinhuda, maior do que os postes de luz de madeira que existiam em várias ruas do meu bairro, e que um dia foram árvore também

 

 
se era um domingo, ia para a praça da república assistir à apresentação de uma banda lá no coreto, que ainda existe, o coreto. a banda? não. quando passava pela paineira sabia que não ia demorar muito – felicidade

 

 
se era dia de semana e se estivesse tossindo, percebia que logo chegaria ao médico assim que passasse por ela. sempre linda, ali, solitária, cercada de gente por todos os lados. inalações, injeções, receitas de remédios. queria ficar curado logo, mas não queria virar peneira para agulhas – tristeza

 

 
se era perto do natal, pronto: presentes, modestos, mas lembranças de fim de ano. por mais que tivesse passado pela paineira, juro que vi papai noel sentado nela, parecia um nunca chegar nas lojas de brinquedos. um desses dias, perguntei pro papai noel porque tinha criança que não ganhava nada. ele nunca mais apareceu pra mim – meio feliz, meio triste

 

 
notícia ruim! disseram que um caminhão bateu na paineira e tinha de ser cortada. outros disseram que ela tinha de ser retirada pra fazer mais pistas pros carros. disseram um monte de coisas e fizeram a única coisa que não poderia: cortaram

 

 
consultaram francisco morato? e vital brasil, lineu de paula machado e eusébio matoso? que hoje são nomes de avenidas que passam bem onde havia a paineira do butantan. não perguntaram nada

 

 
não moro mais lá ‘praqueles’ lados. mas, mesmo que não passe no lugar tanto quanto antes, tem vezes que me vejo assim: cumprimentando aquela danada verde e grandona. me sinto alto e forte como ela

 

 
se estou curvado pelo peso dos tempos, me fortaleço com  aquela imagem de antes que marcou, e marca, a distância dos quilômetros, dos ponteiros do relógio e da imensidão da cidade que pouco, ou nada, é percebida pelos doutores que sabem tudo sobre o nada e que um dia tiraram ela do lugar

 

Robson Luquêsi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Mais histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

As consequências do calor de Porto Alegre

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Porto Alegre,neste verão,está rivalizando com as cidades mais quentes do mundo. Equipara-se,no mínimo,com algumas da Austrália,Namíbia e outras caniculares. Não lembro de ser obrigado a enfrentar aqui os dias – e as noites,como não – sequer parecidas com a deste mês de janeiro. E olhem que moro em POA faz 78 anos,isto é,a vida inteira,tirante apenas a primeira semana depois do meu nascimento, que ocorreu em Caxias do Sul. Quem tem condições, não deixa de ligar o ar-condicionado,mesmo que o aparelho nem sempre vença a exagerada temperatura que precisa combater.

 

Na última terça-feira, não consegui digitar o texto postado pelo Mílton neste blog.A CEEE,sei lá se por ter acontecido excesso de condicionadores e outros que tais, ligados ao mesmo tempo, na capital gaúcha,deixou a rua na qual moro com meia fase de energia por longo período. E o computador,sem contar com o wi-fi,não serve para nada. O meu filho,então,que me desculpe pelo atraso na entrega do texto que marca o meu retorno das férias, que gozei enquanto ele viajava para os Estados Unidos. A propósito,não deixem de ler as histórias contadas pelo “âncora”do blog. Apreciei-as todinhas. E não se trata de corujice.

 

Está ficando difícil de se entender o que provoca os exageros climático que estão acontecendo no mundo. Normalmente,Porto Alegre é uma cidade quente no verão,mas,repito,acho que nunca com temperaturas tão altas como agora. Enquanto isso,nos Estados Unidos,o frio e tempestades de neve açoitam várias regiões. Três mil voos,repetindo o que já havia se verificado, não puderam decolar na quarta-feira. Aliás,o avião que levaria meu filho e sua família a Vermont,uma estação de esqui,esteve entre os que não decolaram,há duas semanas, por força do péssimo tempo. Compreendo a frustração deles. É bom lembrar,porém,que mais tem Deus para dar do que o diabo para tirar.

 

Em fevereiro,entro em férias na Guaíba e vou com Maria Helena para Tramandaí, litoral gaúcho. Espero que o vento, que costuma soprar no próximo mês,não nos maltrate à beira do mar. Outro problema, que afeta os veranistas das nossas praias, é música,geralmente em altíssimo volume,tanto a rodada por automóveis estacionados nas ruas próximas do oceano quanto a que parte de vizinhos importunos. E não adianta apelar para a Brigada Militar. Ao mesmo tempo,as operadoras de telefonia,entra veraneio,sai veraneio,e a conexão 3G,no litoral,fica cada vez pior.Também não dá para entender por que a ANATEL não as obriga a investir nos principais balneários gaúchos.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de SP 460: a sapataria do seu Otacílio

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira

 

 

Caro Sr. Otacílio

 

Dias destes fui surpreendida com o anúncio de “aluga-se” afixado na porta da sapataria, na avenida dos Jamaris, 442, em Moema. Confesso que fiquei atônita, sem chão. Como assim, aluga-se? E o “seu Tacílio” – maneira carinhosa como todos o tratavam? Suspendi a respiração e um pensamento funesto atravessou-me como um raio. Tentava entender aquele vazio quando passa por mim uma amiga:

 

– Você sabe o que aconteceu com seu Tacílio? pergunto um tanto temerosa.
– Ele parou de trabalhar, responde sem titubear.

 

Trocamos algumas poucas palavras, pois o tempo na cidade grande não nos permite aprofundar e estreitar os laços, infelizmente. Prossegui meu caminho num misto de sentimentos, enquanto segurava a sacolinha com meus sapatos avariados. E agora?Quem cuidará deles? Murmurava e andava a esmo. Tentava me convencer de que Moema tem comércio farto, que não seria difícil reparar meus sapatos. Mas não era apenas o profissional que conserta sapatos que perdíamos. Perdíamos, perdemos, o nosso querido Tacílio… Pessoa ímpar, artesão no ofício de consertar calçados. Pessoa doce, meiga, serena, de sorriso fácil com os lábios e com os olhos.

 

Estabeleceu-se há 50 anos em Moema e desde sempre cuidou com extrema competência de sua clientela – traduzida nas orientações de como cuidar dos sapatos, no cumprimento da data de entrega, na habilidade em coser, engraxar, lustrar, colar, reformar e reparar tudo que fosse necessário para que saíssemos com os velhos “novos sapatos” reluzentes.
Cuidou também de seu espaço, pintava a pequena sapataria com esmero e organizava as prateleiras que o acompanhavam há cinco décadas, no mínimo. Cuidou como poucos da natureza, plantou as duas frondosas árvores que mais pareciam colunas de um templo, que adornavam a entrada de seu singelo negócio.

 

Diariamente, exceto às segundas, lá estava ele detrás do balcão, sentado em seu banquinho, a martelar e polir. Por volta de 11 horas era possível sentir o aroma de tempero caseiro. Ele abria a marmita e fazia a refeição ali mesmo, altar em que celebrava a vida com seu ofício.

 

Às cinco da tarde, outro aroma. Perfume agradável misturado às graxas e tintas. Era “seu Tácilio” a se preparar para ir embora. Perfumava-se, aprumava-se e baixava a pesada porta. Foi assim desde que aqui cheguei, menina ainda. Lá se vão 46 anos.
Esse ilustre vizinho acompanhou de seu banquinho toda a transformação do bairro. Lugar pacato e rico em brejos, que atraía cavalos em busca de saciar a sede; lugar da algazarra e do pouso de pássaros, nos primórdios. Anos depois, lugar dos grandes “pássaros de aço” com sua algazarra ensurdecedora noite adentro, em pousos, vez ou outra, catastróficos. Acompanhou a pavimentação das ruas, a chegada do Shopping, o ”boom’ imobiliário, o ”point” das chopperias e, recentemente, do metrô, nos subterrâneos da mesma avenida Ibirapuera, em que outrora correra o bonde. Sempre de seu banquinho.

 

Nos últimos tempos “seu Tacílio“ sofreu alguns duros golpes, eu imagino. Ao menos um ele confidenciou. Por ocasião das grandes chuvas do início do ano, uma das árvores plantadas por ele, desabou. Quem testemunhava seu zelo e amor por elas solidarizou-se. Ele, num misto de tristeza profunda e de impotência, frente às forças da natureza e do descaso público, disse: “elas estavam com cupim, mas a prefeitura nada fez .. Se ela tivesse caído para o lado de cá e não o de lá, teria me matado na hora. Meu telhadinho não teria agüentado.

 

Sim, sim. Agora compreendo o senhor ter baixado a porta e devolvido o espaço ao senhoril. Foi descansar, saborear as refeições ao lado das pessoas queridas, perfumar-se para elas, sorrir para elas e ser cuidado por elas. Teria sido muito triste se a “árvore–coluna” tivesse caído para o lado de cá. Muito triste. Cuidemos, então, para que a outra não desabe sobre nós todos, que sequer a olhamos muitas das vezes, na correria e no sem-tempo do cotidiano. Que permaneça como um símbolo. Símbolo da passagem de alguém como o Seu Tacílio para nos inspirar e nos lembrar de que a beleza e a simplicidade caminham juntas (com sapatos lustrados), quando desejamos encontrar a felicidade.

 

O senhor fechou a velha porta e abriu novos caminhos, fique com a certeza de ter feito o seu melhor sempre. Sábia decisão. Parabéns! O senhor saiu de nosso convívio, sem aviso, mansa e delicadamente. Saiu tão silenciosamente como quando chegou. Só quem passava por ali, viu o caminhão retirando seus pertences e o último baixar da porta. Privilegiados, que puderam abraçá-lo e despedir-se.

 

Desejo que, continue a ser muito feliz e que a vida nos promova um reencontro. Sua ausência o tornará mais presente em nosso bairro, em nossa memória e em nosso coração.

 

Um abraço carinhoso, senhor Otacílio

 

Marina Zarvos Ramos de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Seu Otacílio, também. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Decisões políticas da Copa começam a cobrar a conta

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Algumas das mais expressivas empresas de comunicação do mundo estão revendo seus planos para a COPA 14. Outras estão até cancelando a cobertura local no Brasil, pois os custos devidos à distância, a contratação de habitação, alimentação e mão de obra, são excessivos e bem acima do mercado internacional.

 

Recente reportagem de Carolina Juliano do UOL ilustra o problema. Australianos planejavam montar estúdio no Rio com equipe própria, mas o orçamento de US$ 200mil daria apenas para a locação do imóvel. Uma produtora de São Paulo para cobrir jogo em Manaus levaria sete dias para se deslocar e montar o equipamento necessário, entretanto este custo para apenas 1 jogo é inviável. Ingleses rescindiram contrato que previa transmissão direta daqui com pessoal deles, mas US$ 1 milhão pedido era excessivo e irão trabalhar de lá.

 

Ao estabelecer 12 sedes para os jogos, quando o máximo indicado seria 10, Brasil e FIFA estavam priorizando interesses políticos. Fato agravado pela extensão geográfica de nosso território, que aumenta as despesas de cobertura e algumas vezes impossibilita a mesma equipe cobrir dois jogos seguidos. Tudo indica que as emissoras maiores não virão como previam, pois deverão reduzir as equipes e os gastos, enquanto as menores ficarão em seus países retransmitindo localmente. Os benefícios financeiros e as vantagens da divulgação do país, tão alardeados pelos políticos que conduziram a nossa candidatura, começam a sucumbir.

 

A boa imagem do Brasil, outra das metas perseguidas para o evento, também está correndo sério risco, em função de atrasos de estádios e obras para a estrutura complementar. A gravidade da situação é ilustrada pela metamorfose de Jérome Valcke, na segunda-feira, em Itaquera, vitima e refém da política que apoiou. Diante da arena inacabada, em vez do prometido ponta pé no traseiro lembrou o recorde de procura de ingressos. Também não falou como resolver os R$ 70 milhões que faltarão para as estruturas complementares. E, claro, 2010 deve ter apagado da memória, mas o Estado através dos jornalistas Jamil Chade, Marcio Dolzan e Paulo Favero, lembra que um dos argumentos para tirar a Copa do Morumbi foi a falta de garantias financeiras. Exigências que não foram feitas para o Itaquerão e que repercutiram internacionalmente, ficando clara a opção política.

 

Se a política é inevitável, troquemos os homens.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP_460: com os olhares do pombo e do urubu

 

Por Suely Schraner
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Consta que Deus, cansado de ouvir reclamações sobre a Terra, mandou que o urubu sobrevoasse tudo e retornasse dizendo o que viu. Ele voltou contando das guerras, carniças (delícias), poluição, violência, catástrofes e vícios, um inferno enfim. 

Desolado, Deus quis ouvir uma segunda opinião. Pediu então que a pomba fizesse o mesmo. Aí ela retornou dizendo do sol clareando a terra e o orvalho das plantas. Dos passarinhos arrulhando nas árvores após um dia de chuva. Das flores com seus diversos matizes sob o céu de azul diáfano. Das cachoeiras que inundavam a atmosfera com sua música maviosa. De crianças a brincar e a sonhar. De velhos nas praças a ver a vida passar com graça a dar milho aos pombos. 

Deus então deu um logo suspiro e declarou: é preciso olhar o mundo com os olhos da pomba.

 


Esse é o desafio do paulistano: olhar esta cidade com os olhos da pomba. Ver a beleza que existe na diversidade, na concentração de talentos, nas oportunidades de desenvolvimento e mudança. Beleza no seu centro cultural, nas atividades criativas. Na poesia concreta das suas esquinas, como na canção.

 



Cai, levanta, cai levanta. Vocês sabem do que estou falando. Como na teoria do evolucionismo, os mais aptos sobreviverão. Uns chegam de longe para se tratar e vão ficando. Outros chegam munidos de muita vontade de trabalhar, transformar o pouco em muito. Tenacidade de aço e nervos de concreto faz do cidadão paulistano um ser singular. Caçadores de beleza na cidade dos migrantes e imigrantes. Diz-se que quem vive aqui, está apto a viver em qualquer lugar. Uma metrópole que contempla tanto o olhar do urubu como o olhar da pomba. A escolha é sua.

 

SP é um pólo de atração. Atrai os que ousam sair da zona de conforto e mudar, transformar, garimpar ouro em merda. Cidade em constante mutação a provocar mudanças em seus atores. Quantos desses 11 milhões de habitantes, sem contar os 10 milhões no entorno, aqui chegaram apenas com a roupa do corpo, coração acelerado e, um sonho na cabeça povoada de ilusões.  Educaram seus filhos, trabalharam e conquistaram seu espaço. Quem não se envolve não desenvolve.



 

Amar sua cidade. Apropriar-se dos seus espaços. Nossos parques, nossas praças. Sonhar juntos. Saber que num dia, policiais estão brandindo seus cassetetes e spray de pimenta. E que, no outro, acontece um desfile de moda de uma grife famosa, em plena região da Luz, mais conhecida como “cracolândia”. Que hoje, fazemos muito mais que antigamente.  Que para levantar é preciso antes, cair. Que egoístas os temos mas, também, solidariedade. A tragédia e o espetáculo. Choro e riso. Corruptos. Honestos, a maioria.  Ainda bem. 



 

Cair do pedestal da ilha do egocentrismo. Sair da inércia e elevar-se em sabedoria.

 

Suely Schraner personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung