O luxo artesanal e a indústria do luxo

 

Por Ricardo Ojeda Marins

O consumo de produtos de luxo passou por desenvolvimento internacional extraordinário nos anos 80, e o luxo foi reconhecido como setor econômico e industrial desde o fim dessa década, com a constituição e o crescimento de grandes conglomerados de marcas deste mercado. No começo dos anos 90, foi a época em que o luxo deu passo definitivo na direção de se tornar setor econômico e suas empresas assumirem-se como negócios. Louis Vuitton Malletier, até então uma pequena empresa familiar com negócios na ordem de 32 milhões de euros, tornava-se, com 1,3 bilhão de euros, a filial mais lucrativa do líder mundial dos produtos de luxo: o grupo LVMH.

 

De acordo com Dana Thomas, autora do livro “Como o Luxo perdeu o brilho”, na década de 1980, o crescimento tornou-se não apenas prioridade, mas, sim, objetivo, nos Estados Unidos, pois possuíam mercado médio de maior porte, mais rico e fluido do mundo. Era então necessário para o luxo encontrar lugares com número abundante de clientes, sem diminuir o status percebido da marca.

Para muitos, o processo de “industrialização do luxo” o fez menos exclusivo, principalmente pelo fato de ter-se deixado de lado, talvez em maior parte, a produção à mão, que deu lugar à produção em máquinas. Afinal, algumas das premissas do luxo são a exclusividade, o feito sob medida, o prestígio e a edição limitada. O crescimento do segmento de bens e produtos desse segmento e a substituição em boa parte do artesanato pelo industrial geraram a democratização do luxo, aumentando sua presença global e o tornando acessível a um público mais amplo do que o consumidor da antiguidade.

 

Encontrar o equilíbrio entre ter mais clientes sem correr o risco de perder o glamour e a sofisticação anteriormente conquistados é um dos principais desafios das marcas de luxo. Para evitar a banalização, ou seja, impedir que as marcas percam o conceito de exclusividade e sejam vistas apenas como mais um nome sem caráter prestigioso, devem-se preocupar em ter posicionamento preciso, distribuição seletiva, serviços diferenciados, treinamento de pessoal e canais de comunicação eficazes para o público-alvo deste mercado, além de investirem em criações de edição limitada em algumas linhas de produtos, como fazem Louis Vuitton, Goyard e Hermès, que ainda possuem produtos feitos à mão, sob medida e exclusivos.

 

Não se deve esquecer: o verdadeiro luxo ainda é para poucos.

 


Ricardo Ojeda Marins é Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP 460: minha paineira do Butantã

 

Por Robson Luquêsi
 

 

 

 

fim dos anos 1960. é coisa do milênio passado. saía de casa, lá no jaguaré, pertinho da divisa com osasco. levado pelo meu pai ou minha mãe, ou os dois, a caminho da cidade. sim! cidade era lugar de pra lá do rio, que mais tarde fiquei sabendo se chamava pinheiros.

 

mas só sabia que estava a caminho do centro de são paulo quando o ônibus passava ao lado, bem perto, quase colado àquela imensa árvore. espinhuda, maior do que os postes de luz de madeira que existiam em várias ruas do meu bairro, e que um dia foram árvore também

 

 
se era um domingo, ia para a praça da república assistir à apresentação de uma banda lá no coreto, que ainda existe, o coreto. a banda? não. quando passava pela paineira sabia que não ia demorar muito – felicidade

 

 
se era dia de semana e se estivesse tossindo, percebia que logo chegaria ao médico assim que passasse por ela. sempre linda, ali, solitária, cercada de gente por todos os lados. inalações, injeções, receitas de remédios. queria ficar curado logo, mas não queria virar peneira para agulhas – tristeza

 

 
se era perto do natal, pronto: presentes, modestos, mas lembranças de fim de ano. por mais que tivesse passado pela paineira, juro que vi papai noel sentado nela, parecia um nunca chegar nas lojas de brinquedos. um desses dias, perguntei pro papai noel porque tinha criança que não ganhava nada. ele nunca mais apareceu pra mim – meio feliz, meio triste

 

 
notícia ruim! disseram que um caminhão bateu na paineira e tinha de ser cortada. outros disseram que ela tinha de ser retirada pra fazer mais pistas pros carros. disseram um monte de coisas e fizeram a única coisa que não poderia: cortaram

 

 
consultaram francisco morato? e vital brasil, lineu de paula machado e eusébio matoso? que hoje são nomes de avenidas que passam bem onde havia a paineira do butantan. não perguntaram nada

 

 
não moro mais lá ‘praqueles’ lados. mas, mesmo que não passe no lugar tanto quanto antes, tem vezes que me vejo assim: cumprimentando aquela danada verde e grandona. me sinto alto e forte como ela

 

 
se estou curvado pelo peso dos tempos, me fortaleço com  aquela imagem de antes que marcou, e marca, a distância dos quilômetros, dos ponteiros do relógio e da imensidão da cidade que pouco, ou nada, é percebida pelos doutores que sabem tudo sobre o nada e que um dia tiraram ela do lugar

 

Robson Luquêsi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Mais histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

As consequências do calor de Porto Alegre

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Porto Alegre,neste verão,está rivalizando com as cidades mais quentes do mundo. Equipara-se,no mínimo,com algumas da Austrália,Namíbia e outras caniculares. Não lembro de ser obrigado a enfrentar aqui os dias – e as noites,como não – sequer parecidas com a deste mês de janeiro. E olhem que moro em POA faz 78 anos,isto é,a vida inteira,tirante apenas a primeira semana depois do meu nascimento, que ocorreu em Caxias do Sul. Quem tem condições, não deixa de ligar o ar-condicionado,mesmo que o aparelho nem sempre vença a exagerada temperatura que precisa combater.

 

Na última terça-feira, não consegui digitar o texto postado pelo Mílton neste blog.A CEEE,sei lá se por ter acontecido excesso de condicionadores e outros que tais, ligados ao mesmo tempo, na capital gaúcha,deixou a rua na qual moro com meia fase de energia por longo período. E o computador,sem contar com o wi-fi,não serve para nada. O meu filho,então,que me desculpe pelo atraso na entrega do texto que marca o meu retorno das férias, que gozei enquanto ele viajava para os Estados Unidos. A propósito,não deixem de ler as histórias contadas pelo “âncora”do blog. Apreciei-as todinhas. E não se trata de corujice.

 

Está ficando difícil de se entender o que provoca os exageros climático que estão acontecendo no mundo. Normalmente,Porto Alegre é uma cidade quente no verão,mas,repito,acho que nunca com temperaturas tão altas como agora. Enquanto isso,nos Estados Unidos,o frio e tempestades de neve açoitam várias regiões. Três mil voos,repetindo o que já havia se verificado, não puderam decolar na quarta-feira. Aliás,o avião que levaria meu filho e sua família a Vermont,uma estação de esqui,esteve entre os que não decolaram,há duas semanas, por força do péssimo tempo. Compreendo a frustração deles. É bom lembrar,porém,que mais tem Deus para dar do que o diabo para tirar.

 

Em fevereiro,entro em férias na Guaíba e vou com Maria Helena para Tramandaí, litoral gaúcho. Espero que o vento, que costuma soprar no próximo mês,não nos maltrate à beira do mar. Outro problema, que afeta os veranistas das nossas praias, é música,geralmente em altíssimo volume,tanto a rodada por automóveis estacionados nas ruas próximas do oceano quanto a que parte de vizinhos importunos. E não adianta apelar para a Brigada Militar. Ao mesmo tempo,as operadoras de telefonia,entra veraneio,sai veraneio,e a conexão 3G,no litoral,fica cada vez pior.Também não dá para entender por que a ANATEL não as obriga a investir nos principais balneários gaúchos.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de SP 460: a sapataria do seu Otacílio

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira

 

 

Caro Sr. Otacílio

 

Dias destes fui surpreendida com o anúncio de “aluga-se” afixado na porta da sapataria, na avenida dos Jamaris, 442, em Moema. Confesso que fiquei atônita, sem chão. Como assim, aluga-se? E o “seu Tacílio” – maneira carinhosa como todos o tratavam? Suspendi a respiração e um pensamento funesto atravessou-me como um raio. Tentava entender aquele vazio quando passa por mim uma amiga:

 

– Você sabe o que aconteceu com seu Tacílio? pergunto um tanto temerosa.
– Ele parou de trabalhar, responde sem titubear.

 

Trocamos algumas poucas palavras, pois o tempo na cidade grande não nos permite aprofundar e estreitar os laços, infelizmente. Prossegui meu caminho num misto de sentimentos, enquanto segurava a sacolinha com meus sapatos avariados. E agora?Quem cuidará deles? Murmurava e andava a esmo. Tentava me convencer de que Moema tem comércio farto, que não seria difícil reparar meus sapatos. Mas não era apenas o profissional que conserta sapatos que perdíamos. Perdíamos, perdemos, o nosso querido Tacílio… Pessoa ímpar, artesão no ofício de consertar calçados. Pessoa doce, meiga, serena, de sorriso fácil com os lábios e com os olhos.

 

Estabeleceu-se há 50 anos em Moema e desde sempre cuidou com extrema competência de sua clientela – traduzida nas orientações de como cuidar dos sapatos, no cumprimento da data de entrega, na habilidade em coser, engraxar, lustrar, colar, reformar e reparar tudo que fosse necessário para que saíssemos com os velhos “novos sapatos” reluzentes.
Cuidou também de seu espaço, pintava a pequena sapataria com esmero e organizava as prateleiras que o acompanhavam há cinco décadas, no mínimo. Cuidou como poucos da natureza, plantou as duas frondosas árvores que mais pareciam colunas de um templo, que adornavam a entrada de seu singelo negócio.

 

Diariamente, exceto às segundas, lá estava ele detrás do balcão, sentado em seu banquinho, a martelar e polir. Por volta de 11 horas era possível sentir o aroma de tempero caseiro. Ele abria a marmita e fazia a refeição ali mesmo, altar em que celebrava a vida com seu ofício.

 

Às cinco da tarde, outro aroma. Perfume agradável misturado às graxas e tintas. Era “seu Tácilio” a se preparar para ir embora. Perfumava-se, aprumava-se e baixava a pesada porta. Foi assim desde que aqui cheguei, menina ainda. Lá se vão 46 anos.
Esse ilustre vizinho acompanhou de seu banquinho toda a transformação do bairro. Lugar pacato e rico em brejos, que atraía cavalos em busca de saciar a sede; lugar da algazarra e do pouso de pássaros, nos primórdios. Anos depois, lugar dos grandes “pássaros de aço” com sua algazarra ensurdecedora noite adentro, em pousos, vez ou outra, catastróficos. Acompanhou a pavimentação das ruas, a chegada do Shopping, o ”boom’ imobiliário, o ”point” das chopperias e, recentemente, do metrô, nos subterrâneos da mesma avenida Ibirapuera, em que outrora correra o bonde. Sempre de seu banquinho.

 

Nos últimos tempos “seu Tacílio“ sofreu alguns duros golpes, eu imagino. Ao menos um ele confidenciou. Por ocasião das grandes chuvas do início do ano, uma das árvores plantadas por ele, desabou. Quem testemunhava seu zelo e amor por elas solidarizou-se. Ele, num misto de tristeza profunda e de impotência, frente às forças da natureza e do descaso público, disse: “elas estavam com cupim, mas a prefeitura nada fez .. Se ela tivesse caído para o lado de cá e não o de lá, teria me matado na hora. Meu telhadinho não teria agüentado.

 

Sim, sim. Agora compreendo o senhor ter baixado a porta e devolvido o espaço ao senhoril. Foi descansar, saborear as refeições ao lado das pessoas queridas, perfumar-se para elas, sorrir para elas e ser cuidado por elas. Teria sido muito triste se a “árvore–coluna” tivesse caído para o lado de cá. Muito triste. Cuidemos, então, para que a outra não desabe sobre nós todos, que sequer a olhamos muitas das vezes, na correria e no sem-tempo do cotidiano. Que permaneça como um símbolo. Símbolo da passagem de alguém como o Seu Tacílio para nos inspirar e nos lembrar de que a beleza e a simplicidade caminham juntas (com sapatos lustrados), quando desejamos encontrar a felicidade.

 

O senhor fechou a velha porta e abriu novos caminhos, fique com a certeza de ter feito o seu melhor sempre. Sábia decisão. Parabéns! O senhor saiu de nosso convívio, sem aviso, mansa e delicadamente. Saiu tão silenciosamente como quando chegou. Só quem passava por ali, viu o caminhão retirando seus pertences e o último baixar da porta. Privilegiados, que puderam abraçá-lo e despedir-se.

 

Desejo que, continue a ser muito feliz e que a vida nos promova um reencontro. Sua ausência o tornará mais presente em nosso bairro, em nossa memória e em nosso coração.

 

Um abraço carinhoso, senhor Otacílio

 

Marina Zarvos Ramos de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Seu Otacílio, também. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Decisões políticas da Copa começam a cobrar a conta

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Algumas das mais expressivas empresas de comunicação do mundo estão revendo seus planos para a COPA 14. Outras estão até cancelando a cobertura local no Brasil, pois os custos devidos à distância, a contratação de habitação, alimentação e mão de obra, são excessivos e bem acima do mercado internacional.

 

Recente reportagem de Carolina Juliano do UOL ilustra o problema. Australianos planejavam montar estúdio no Rio com equipe própria, mas o orçamento de US$ 200mil daria apenas para a locação do imóvel. Uma produtora de São Paulo para cobrir jogo em Manaus levaria sete dias para se deslocar e montar o equipamento necessário, entretanto este custo para apenas 1 jogo é inviável. Ingleses rescindiram contrato que previa transmissão direta daqui com pessoal deles, mas US$ 1 milhão pedido era excessivo e irão trabalhar de lá.

 

Ao estabelecer 12 sedes para os jogos, quando o máximo indicado seria 10, Brasil e FIFA estavam priorizando interesses políticos. Fato agravado pela extensão geográfica de nosso território, que aumenta as despesas de cobertura e algumas vezes impossibilita a mesma equipe cobrir dois jogos seguidos. Tudo indica que as emissoras maiores não virão como previam, pois deverão reduzir as equipes e os gastos, enquanto as menores ficarão em seus países retransmitindo localmente. Os benefícios financeiros e as vantagens da divulgação do país, tão alardeados pelos políticos que conduziram a nossa candidatura, começam a sucumbir.

 

A boa imagem do Brasil, outra das metas perseguidas para o evento, também está correndo sério risco, em função de atrasos de estádios e obras para a estrutura complementar. A gravidade da situação é ilustrada pela metamorfose de Jérome Valcke, na segunda-feira, em Itaquera, vitima e refém da política que apoiou. Diante da arena inacabada, em vez do prometido ponta pé no traseiro lembrou o recorde de procura de ingressos. Também não falou como resolver os R$ 70 milhões que faltarão para as estruturas complementares. E, claro, 2010 deve ter apagado da memória, mas o Estado através dos jornalistas Jamil Chade, Marcio Dolzan e Paulo Favero, lembra que um dos argumentos para tirar a Copa do Morumbi foi a falta de garantias financeiras. Exigências que não foram feitas para o Itaquerão e que repercutiram internacionalmente, ficando clara a opção política.

 

Se a política é inevitável, troquemos os homens.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP_460: com os olhares do pombo e do urubu

 

Por Suely Schraner
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Consta que Deus, cansado de ouvir reclamações sobre a Terra, mandou que o urubu sobrevoasse tudo e retornasse dizendo o que viu. Ele voltou contando das guerras, carniças (delícias), poluição, violência, catástrofes e vícios, um inferno enfim. 

Desolado, Deus quis ouvir uma segunda opinião. Pediu então que a pomba fizesse o mesmo. Aí ela retornou dizendo do sol clareando a terra e o orvalho das plantas. Dos passarinhos arrulhando nas árvores após um dia de chuva. Das flores com seus diversos matizes sob o céu de azul diáfano. Das cachoeiras que inundavam a atmosfera com sua música maviosa. De crianças a brincar e a sonhar. De velhos nas praças a ver a vida passar com graça a dar milho aos pombos. 

Deus então deu um logo suspiro e declarou: é preciso olhar o mundo com os olhos da pomba.

 


Esse é o desafio do paulistano: olhar esta cidade com os olhos da pomba. Ver a beleza que existe na diversidade, na concentração de talentos, nas oportunidades de desenvolvimento e mudança. Beleza no seu centro cultural, nas atividades criativas. Na poesia concreta das suas esquinas, como na canção.

 



Cai, levanta, cai levanta. Vocês sabem do que estou falando. Como na teoria do evolucionismo, os mais aptos sobreviverão. Uns chegam de longe para se tratar e vão ficando. Outros chegam munidos de muita vontade de trabalhar, transformar o pouco em muito. Tenacidade de aço e nervos de concreto faz do cidadão paulistano um ser singular. Caçadores de beleza na cidade dos migrantes e imigrantes. Diz-se que quem vive aqui, está apto a viver em qualquer lugar. Uma metrópole que contempla tanto o olhar do urubu como o olhar da pomba. A escolha é sua.

 

SP é um pólo de atração. Atrai os que ousam sair da zona de conforto e mudar, transformar, garimpar ouro em merda. Cidade em constante mutação a provocar mudanças em seus atores. Quantos desses 11 milhões de habitantes, sem contar os 10 milhões no entorno, aqui chegaram apenas com a roupa do corpo, coração acelerado e, um sonho na cabeça povoada de ilusões.  Educaram seus filhos, trabalharam e conquistaram seu espaço. Quem não se envolve não desenvolve.



 

Amar sua cidade. Apropriar-se dos seus espaços. Nossos parques, nossas praças. Sonhar juntos. Saber que num dia, policiais estão brandindo seus cassetetes e spray de pimenta. E que, no outro, acontece um desfile de moda de uma grife famosa, em plena região da Luz, mais conhecida como “cracolândia”. Que hoje, fazemos muito mais que antigamente.  Que para levantar é preciso antes, cair. Que egoístas os temos mas, também, solidariedade. A tragédia e o espetáculo. Choro e riso. Corruptos. Honestos, a maioria.  Ainda bem. 



 

Cair do pedestal da ilha do egocentrismo. Sair da inércia e elevar-se em sabedoria.

 

Suely Schraner personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

No estúdio de tatuagem do “NY Ink” símbolos familiares

 

 

No Soho, visitei o estúdio The Wooster St. Social Club, cenário do seriado “NY Ink”, transmitido pelo canal a cabo TLC, para atender o pedido da turma mais jovem de casa, que admira as histórias vividas pelos integrantes da casa de tatuagem mais famosa de Nova York. Terem encontrado Megan Massacre, uma das estrelas da área, foi o ponto alto da visita ao estúdio. Enquanto conversavam com a moça de pele (muito bem) desenhada, minha atenção se voltou para dois detalhes bastante familiares em meio a desorganização criativa daqueles artistas. Fiz a foto e publico para ver se você os identifica, também.

Conte Sua História de SP: Maradona e Zico estavam na Portuguesa

 

Por Daniel Lescano
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Sempre fui apaixonado por futebol. Ainda criança, em Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul,  adorava ir ao  cinema para assistir ao Canal 100 e acompanhar a atuação dos craques na telona, com a linda canção na Cadência do Samba, que tocava enquanto rolavam os melhores momentos da partida. Era a maior alegria ver craques como Zico, Pelé, Dinamite, Leão, Falcão, Clodoaldo entre tantos outros atletas. E, principalmente, assistir às jogadas do time de coração: Santos Futebol Clube.

 

Entre assistir ao Canal 100 no cinema e a minha vida para São Paulo muita coisa rolou. Mas um fato que nunca vou esquecer ocorreu em 1979, no Ginásio da Portuguesa de Desportos, no bairro do Canindé, quando tinha apenas 13 anos.  Nunca vou esquecer por dois motivos: primeiro, foi a felicidade por meu irmão ter conseguido ingressos para que pudéssemos entrar no Ginásio da Portuguesa e participar da entrega do Troféu Gândula, criado pelo jornalista, cantor e compositor Wilson Brasil. Eram premiados jogadores do Brasil e do Mundo. Havia também troféus para profissionais do rádio e TV que trabalhavam com esporte. A ansiedade era grande. Logo na entrada do ginásio para minha surpresa já comecei a ver vários atletas tirando fotos com os fãs. De repente olho para o lado … e Zico, bem ali do meu lado. Não acreditei. Parecia um sonho. Aí não parou mais de chegar atletas de todo canto. Só pelo fato de conhecer Zico pessoalmente a noite já valeria.

 

O segundo motivo pelo qual nunca vou esquecer esse momento é que lá havia um atleta argentino com cara de garoto, muito tímido, bem discreto. Um ou outro repórter o entrevistava. Cheguei perto e fiquei olhando aquele jogador baixinho. Meu irmão perguntou: vai tirar uma foto com o cara? Como na máquina só tinha um filme de 24 poses não quis gastar, afinal, muitos atletas de nomes consagrados ainda estavam por vir para receber o prêmio. Saí dali certo de que havia sido uma noite perfeita … não fosse meu vacilo, só descoberto na Copa de 1986.

 

O argentino baixinho, com que não quis desperdiçar meu rolo de filme Kodak, desde aquele encontro no Ginásio da Portuguesa, ganhou fama, se destacou na Copa de 1982 mas arrebentou mesmo na Copa de 86. E foi nesta que lembrei dele, quando a Argentina ganhou da Inglaterra por 2 a 1, em jogo marcado por um gol que ganhou nome e sobrenome: “La Mano de Dios”.

 

Ah, se eu pudesse voltar naquele 1979, não teria dúvida de registrar o momento em que Zico e Diego Armando Maradona, juntos, estiveram no Ginásio da Portuguesa

 

Daniel Lescano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Nas malas de regresso, a esperança de ser melhor

 

Fazer as malas é exercício que poucos admiram. Aqui em casa sou o especialista no assunto, talvez resultado da minha paciência e mania de organização. Ou porque os companheiros de viagem já descobriram que deixando para última hora, minha ansiedade resolve o problema. Pra ir ou pra partir, encaro a tarefa como um jogo de encaixar, no qual cada peça tem seu espaço. Embaixo as mais pesadas, casacos e calças. Camisas, e camisetas dobradas para não amassar, em cima. Sapatos em sacos pra não sujar o resto. Meias e cuecas preenchem os buracos que restam. Mala feminina é mais difícil porque as roupas tem menos simetria, e os sapatos, mais pontas. O mais difícil são as peças lembradas na última hora que atrapalham toda a organização. Nada se compara, porém, as malas do regresso, onde é preciso lugar para as compras.

 

Para tornar a tarefa mais aprazível no fim das férias, faço da arrumação, ritual. E gosto de cumpri-lo bebendo vinho. Separo as roupas e sapatos sobre a cama ou no chão, conforme a quantidade, e coloco os presentes e demais compras lado a lado. Comparo a área ocupada com a quantidade de malas disponíveis. Normalmente faço conta muito otimista e uma extra se faz necessária. Começa, então, a parte mais interessante, com peça por peça sendo encaixada e puxando à memória dos dias que se passaram. O casaco de frio que nos protegeu no passeio na neve. A calça usada no jantar especial que nos oferecemos no restaurante chinês. A encomenda para o amigo que espera em São Paulo. E as surpresas que também são esperadas. O tênis novo, o sapato novo, a camisa nova. Aquela traquitana comprada no primeiro dia de viagem que não lembrava mais e talvez nem fosse mais necessária também está ali a provocar emoções.

 

Sim, o momento é rico pois ativa a lembrança das coisas que fizemos e deixamos de fazer. Das que gostaríamos de não ter feito, também. Raras as férias que não têm mico para se lamentar e erros para se arrepender. A maioria entra para o folclore e será comentada daqui alguns anos acompanhada de sonoras gargalhadas. Talvez fiquem perdidas entre milhares de fotos digitais armazenadas em um computador. Enquanto procuro espaço para alguma coisa, encontro cenas de alegria com a família e assuntos que poderiam ter sido evitados (me lembre, por favor: no ano que vem não darei mais palpite sobre você-sabe-o-quê).

 

Quando se arruma as coisas, se tem tempo para pensar no que passou tanto quanto no que virá. O trabalho já recomeça nesta segunda-feira. Logo cedo tem de se encarar as notícias sem se importar com a ressaca das férias. Provavelmente, vou me deparar com os mesmos assuntos de antes. Como sempre mudaram muitas coisas para ficar tudo como estava. O rolê da moda já havia se iniciado, antes das férias, e começa a ser desvirtuado, como foram as manifestações juninas que, dizem, voltam próximo da Copa. Ano de Copa? Haja trabalho. Tem eleição, também. Mais trabalho ainda. Tem a política enfadonha de gente que torce contra e retorce as ideias para se justificar. Tem político corrupto e suas mentiras convenientes. Tem os personagens do cotidiano: a vítima da violência, o craque da hora, o motorista bêbado, o herói da resistência, todos em busca de seus segundos de fama (ou difama).

 

O curioso neste trabalho é o paradoxo de que mesmo que as notícias pareçam as mesmas sempre tem algo novo a fazer. Sempre é possível tornar melhor o fazer. É isto que me motiva a recomeçar nesta segunda-feira, pois nas malas de regresso tem espaço privilegiado para a esperança de que seremos capazes de mudar a nós e a quem mais vier junto com a gente nesta jornada.

 

Conto com você!