Nas malas de regresso, a esperança de ser melhor

 

Fazer as malas é exercício que poucos admiram. Aqui em casa sou o especialista no assunto, talvez resultado da minha paciência e mania de organização. Ou porque os companheiros de viagem já descobriram que deixando para última hora, minha ansiedade resolve o problema. Pra ir ou pra partir, encaro a tarefa como um jogo de encaixar, no qual cada peça tem seu espaço. Embaixo as mais pesadas, casacos e calças. Camisas, e camisetas dobradas para não amassar, em cima. Sapatos em sacos pra não sujar o resto. Meias e cuecas preenchem os buracos que restam. Mala feminina é mais difícil porque as roupas tem menos simetria, e os sapatos, mais pontas. O mais difícil são as peças lembradas na última hora que atrapalham toda a organização. Nada se compara, porém, as malas do regresso, onde é preciso lugar para as compras.

 

Para tornar a tarefa mais aprazível no fim das férias, faço da arrumação, ritual. E gosto de cumpri-lo bebendo vinho. Separo as roupas e sapatos sobre a cama ou no chão, conforme a quantidade, e coloco os presentes e demais compras lado a lado. Comparo a área ocupada com a quantidade de malas disponíveis. Normalmente faço conta muito otimista e uma extra se faz necessária. Começa, então, a parte mais interessante, com peça por peça sendo encaixada e puxando à memória dos dias que se passaram. O casaco de frio que nos protegeu no passeio na neve. A calça usada no jantar especial que nos oferecemos no restaurante chinês. A encomenda para o amigo que espera em São Paulo. E as surpresas que também são esperadas. O tênis novo, o sapato novo, a camisa nova. Aquela traquitana comprada no primeiro dia de viagem que não lembrava mais e talvez nem fosse mais necessária também está ali a provocar emoções.

 

Sim, o momento é rico pois ativa a lembrança das coisas que fizemos e deixamos de fazer. Das que gostaríamos de não ter feito, também. Raras as férias que não têm mico para se lamentar e erros para se arrepender. A maioria entra para o folclore e será comentada daqui alguns anos acompanhada de sonoras gargalhadas. Talvez fiquem perdidas entre milhares de fotos digitais armazenadas em um computador. Enquanto procuro espaço para alguma coisa, encontro cenas de alegria com a família e assuntos que poderiam ter sido evitados (me lembre, por favor: no ano que vem não darei mais palpite sobre você-sabe-o-quê).

 

Quando se arruma as coisas, se tem tempo para pensar no que passou tanto quanto no que virá. O trabalho já recomeça nesta segunda-feira. Logo cedo tem de se encarar as notícias sem se importar com a ressaca das férias. Provavelmente, vou me deparar com os mesmos assuntos de antes. Como sempre mudaram muitas coisas para ficar tudo como estava. O rolê da moda já havia se iniciado, antes das férias, e começa a ser desvirtuado, como foram as manifestações juninas que, dizem, voltam próximo da Copa. Ano de Copa? Haja trabalho. Tem eleição, também. Mais trabalho ainda. Tem a política enfadonha de gente que torce contra e retorce as ideias para se justificar. Tem político corrupto e suas mentiras convenientes. Tem os personagens do cotidiano: a vítima da violência, o craque da hora, o motorista bêbado, o herói da resistência, todos em busca de seus segundos de fama (ou difama).

 

O curioso neste trabalho é o paradoxo de que mesmo que as notícias pareçam as mesmas sempre tem algo novo a fazer. Sempre é possível tornar melhor o fazer. É isto que me motiva a recomeçar nesta segunda-feira, pois nas malas de regresso tem espaço privilegiado para a esperança de que seremos capazes de mudar a nós e a quem mais vier junto com a gente nesta jornada.

 

Conto com você!

9 comentários sobre “Nas malas de regresso, a esperança de ser melhor

  1. Bom retorno Milton
    Pode contar comigo que acompanho o seu desempenho a cada dia. Que bom que não faltaram gargalhadasem sua viagem.
    Abraços alegres.

  2. E não apenas podes – mas deves – contar comigo. Fui dos muitíssimos ouvintes que saudaram o teu retorno. Espero,nesta quinta-feira,estar de volta ao teu blog,Mílton. Ah,achei excelente a história das tuas férias com a Big,o Greg e o Lo. E fiquei sabendo de uma coisa que desconhecia,talvez por a teres adotado depois que foste para São Paulo:tua capacidade de arrumar malas,malas,malas e malas. Nesse particular,confesso que sou,como em tantos outros quesitos,incapaz de sequer compor uma sacola com roupas.

  3. Milton querido!

    Antes de mais nada, conte comigo! Sempre!

    Lendo o seu texto, parece até que “ouço vc contando passo a passo”…fantástico como vc descreveu (e ensinou a muitos aqui) como se fazer uma mala. A mala de ida já é uma tarefa nada fácil…. a de volta então…sempre dá um certo desespero. Mas sorte dos que estão ao seu redor, que podem contar com a sua sensatez e organização invejáveis…risos…

    Que a viagem de férias tenha sido incrível e que tenha inspirado você para muitas coisas novas…sejam elas novas matérias, novas viagens e por que não novos planos? O ano “virou”, e esse momento sempre nos dá a vontade de mudar, inovar e começar algo diferente. Conte comigo!

    E obrigado pelas dicas de como otimizar o espaço em malas…rs

    Abraçãoooooooooo

    PS: Teve encomenda de amigo de SP então? rsrsrs

    • Ricardo,

      O diabo sabe mais por velho do que por diabo. O tempo me obrigou a aprender esta prática. Isto que não contei o desarrumar as malas quando chegamos de volta. Esta é outra história.

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