Vereador usa campo público para promoção pessoal

 

Política e futebol

Os clubes da comunidade (CDC) e os clubes da Cidade de São Paulo têm se transformado em reduto de vereadores que se utilizam destes equipamentos para se aproximar do eleitor e oferecer benefícios em troca de apoio na eleição seguinte. Por isso, não surpreende que uma das famílias mais poderosas na política paulistana use 14 CDCs para promover um torneio de futebol que, lógico, leva seu nome: 2a. Copa Família Milton Leite. Curioso é ver nos banners que, coincidência, se parecem com os usados nas campanhas eleitorais – aliás, outra coincidência, ano que vem haverá uma -, a frase “futebol arte em campos de qualidade”. Ao ler a mensagem fiquei pensando se os campos de qualidade são obras do vereador Milton Leite e seus dois filhos, Milton Fº e Alexandre, deputados estadual e federal, respectivamente, ou da prefeitura, feitos com dinheiro público – o nosso dinheiro. A imagem que você vê neste post é no Clube Escola Maria Felizarda, na avenida Salim Antônio Curiati, no Campo Grande (Santo Amaro, base eleitoral da família, uma das sedes do campeonato que distribui carros para os três primeiros colocados.

Adote um Vereador para fiscalizar conselheiros do Grêmio

 

Clubes de futebol tendem a ser pouco fiscalizados por seus torcedores, muitos mais propensos a chorar e vibrar com os resultados em campo do que em caixa. Esquecem-se, porém, que as contas em dia, o dinheiro bem aplicado, a compra e venda de jogadores baseadas na sustentabilidade financeira são fundamentais para a construção de um time qualificado e tranquilidade da comissão técnica e seu elenco. Os conselhos deliberativos, com as exceções de praxe, reproduzem este comportamento e, na maioria das vezes, tendem a se transformar em clubes de amigos, com gente muito mais interessada nas benesses do cargo, ingressos de graça para distribuir aos conhecidos e a proximidade com o poder. Algo muito parecido com o que ocorre com o Congresso Nacional e as demais casas legislativas no país.

Faço este paralelo, depois de ler post publicado no Blog Grêmio 1903 (que, lamentavelmente, aparecerá em vermelho neste link), escrito por um coletivo de gremistas, no qual denunciam que o clube não está cumprindo ao menos uma das regras do Conselho Deliberativo: afastar do órgão os conselheiros que se ausentam por três sessões seguidas ou cinco intercaladas, no período de um ano (art 66, parágrafo 1º). Dentre os conselheiros que perderiam a vaga, está o prefeito de Porto Alegre José Fortunatti que apareceu em apenas uma das reuniões de 15 realizadas neste ano, sem dar qualquer justificativa. Até acredito que o prefeito tenha coisas mais importantes para fazer na cidade, desafios não lhe faltam na capital gaúcha, mas se não pode cumprir com suas obrigações com o clube, deveria abrir mão do cargo, assim como todos os demais conselheiros que têm se omitido do papel de poder fiscalizador.

A sugestão de Bruno Coelho, autor do post citado acima, e desde já agradeço pela lembrança, é que os torcedores levem para o Grêmio a ideia do Adote um Vereador, que lançamos em 2008, aqui em São Paulo, com o objetivo de incentivar os sócios a fiscalizarem a atuação dos conselheiros, exigindo que eles exerçam a função para a qual foram eleitos. Assim como os vereadores, deputados e senadores, os conselheiros são os nossos representantes no clube.

Um conselho deliberativo atento e fiscalizador teria impedido que o Grêmio entrasse na aventura da ISL que destruiu com o patrimônio tricolor, corroendo os cofres do clube, o que o levou para a Segunda Divisão. Antes que novos aventureiros cometam os mesmos erros Adote um Conselheiro.

Como o Adote um Vereador não tem partido nem time de futebol, que a ideia se espalhe nos demais clubes, promovendo a transparência da gestão do esporte.

A farra dos vereadores: serão 6.300 na eleição de 2012

 

Metade das cidades brasileiras aumentou o número de vereadores com base na Emenda Constitucional 58/2008, que altera limites de vagas nos legislativos municipais. Com isso, provavelmente, haverá cerca de 6.300 cargos sendo disputados na eleição do ano que vem, calcula a Confederação Nacional de Municípios com base no levantamento que fez no último mês.

A CMN 1.857 cidades, das quais 930 (50,08%) aceitaram ampliar o número de vagas. Mas a farra não para por aí. Afinal, entre as cidades que ainda não aumentaram o número de vereadores, mais de 60% dizem que aprovarão a mudança até o prazo final, junho de 2012.

A mudança, conforme já falamos neste blog, vai encarecer a vida nas cidades brasileiras, apesar das promessas de que não haverá aumento de verbas destinadas às Câmaras Municipais. Primeiro, nem todas as Câmaras conseguem gastar o dinheiro previsto no Orçamento; mas o farão a partir de agora a medida que será preciso pagar além do salários dos vereadores, os custos com o gabinete e funcionários. Segundo, as Câmaras que já gastam no limite previsto em lei, farão esforço para aumentar a arrecadação do município, pois recebem um percentual variável do Orçamento. E este esforço vai bater no seu bolso: haverá aumento de IPTU e ISS, com certeza.

Por curiosidade: apenas a cidade de Conchal, interior de São Paulo, diminuiu a quantidade de representantes na Câmara, de 13 para 11.

Decoro parlamentar exige voto aberto

 

Por Antonio Augusto Mayer dos Santos

O Estado Brasileiro é uma democracia cuja regra essencial para as atividades públicas é a transparência. Isto consubstancia dever de obediência a um princípio constitucional. Aqueles que se encontram na condição de mandatários tem não o direito mas a obrigação de prestar contas de suas atividades, eis que a parcela de poder que exercem decorre de uma vontade popular.

O Congressista acusado em processo por quebra de decoro parlamentar usufrui de amplas garantias processuais em matéria de defesa. Pode apresentá-la por escrito, acompanhada de documentos, através de advogado, há uma instrução. Somente após este procedimento é que o feito disciplinar vai a julgamento, precedido da exposição oral dos argumentos perante os demais parlamentares.

Este julgamento deve ser público por lógicas razões. Primeiramente, porque o parlamentar é escolhido pelo voto direto e secreto. Depois, que a sua atividade é pública e exercida em nome e em função da sociedade. Tanto que embora eleito por um Estado, ele integra o Legislativo Federal e vota em igualdade de condições com os demais integrantes da sua Casa Legislativa. Por fim, algo irrefutável: os julgamentos são televisionados pelas emissoras do Congresso Nacional, o que os torna insuscetíveis de fraude, escamote ou manipulação.

Para os casos de perda de mandato é inconcebível que o seu julgamento seja secreto apenas porque envolve um dos seus. Assegurada ampla defesa e contraditório ao acusado, o Congressista deve avaliar o conjunto de provas e votar publicamente de acordo com a sua convicção.

O eleitor está saturado de corporativismos viperinos e desconfia de um sistema onde os fatos são de domínio público mas o julgamento é confinado ao segredo.

Este tema é relevante, seja pela sucessão de episódios desta natureza, seja porque a conseqüência imediata da cassação é a inelegibilidade do cassado. Afinal, se tudo é público, nada ampara o sistema vigente, em descrédito e rechaçado. Conforme ponderação do combativo senador paranaense Álvaro Dias,“O voto secreto impede qualquer possibilidade de avaliação sobre o comportamento das pessoas. É por isso que o voto secreto é condenável quando se trata de julgamento de natureza ética. É possível que se crie constrangimento, mas a população tem o direito de fiscalizar o seu representante. O atual sistema de votação para a cassação do mandato de um parlamentar subtrai esse direito da população ao manter o voto secreto”.

Em função da sua importância, algumas considerações sobre esta PEC 50/2006 são necessárias. Primeiro, que a sua redação refere “voto ostensivo”, o que a meu sentir, não significa o mesmo que direto. Somente a PEC 86/2007 consigna “voto aberto”. Portanto, a regra não está a salvo de eventuais interpretações casuísticas e corporativistas. Depois, a mesma não determinou esta publicidade aos parlamentos estaduais e municipais. Por fim, a sua longa tramitação legislativa e o fato de estar engessada desde o ano passado evidenciam o desinteresse do Senado em apreciá-la.

A PEC traduz algum avanço mas tem conotações acacianas. O eleitor descrente, apático e que sequer sabe o endereço eletrônico do Senado Federal, nenhuma postura crítica assume: não debate, não envia cartas nem e-mails aos Congressistas. Criticar na frente da televisão não vale e não resolve nada.

No próximo dia 8 de novembro, a partir das 18hs, estarei na Feira do Livro de Porto Alegre lançando a obra Vereança e Câmaras Municipais – aspectos legais e constitucionais, pela Editora Verbo Jurídico. O trabalho aborda temas de interesse público como o número de vereadores para as eleições de 2012, quebra de decoro parlamentar, eleição da mesa diretora, hipóteses de perda de mandato e questões eleitorais, dentre outros.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor do livro “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: Personagens do Brasil

 

No Grupo Escolar de Olímpia, cidade do interior paulista, o menino Hilmo Alves descobriu as belezas do Brasil ouvindo músicas de Ary Barroso. Foi na capital, porém, que ele conheceu personagens e se transformou em protagonista da história deste País. Estudante e militante, teve a chance de entrevistar o presidente Juscelino Kubitschek e o prefeito Jânio Quadros quando levou sugestões para combater a discriminação racial e melhor o atendimento médico aos estudantes da USP. Hoje, com 84 anos, Hilmo Alves, filho de um funcionário da estrada de ferro e de uma dona de casa, ex-alfaiate de uma das mais chiques alfaiatarias paulistanas da época, conta a sua história de São Paulo, em depoimento ao Museu da Pessoa.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo com Hilmo Alves, sonorizado pela Cláudio Antonio e editado pela Juliana Paiva

Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, logo após às dez e meia da manhã, no CBN São Paulo.

Avalanche Tricolor: Os titulares

 

Grêmio 2 x 0 Cruzeiro
Brasileiro – Olímpico Monumental

Escudero em foto do site Gremio.net

Muitas vezes ouvi de meus colegas do esporte, que costumam entender muito mais do que eu de futebol – não que precise muito para tanto -, que um dos sinais que revelam o equilíbrio e a qualidade de uma equipe é o fato de o torcedor conhecer, de cor e salteado, os 11 titulares. Evidentemente que em uma competição longa como o Brasileiro, é muito difícil manter a mesma escalação por muitos jogos seguidos. São jogadores cansados, machucados ou suspensos em um “turnover” (perdão, estou contaminado pelos meus entrevistados do Mundo Corporativo) capaz de desestabilizar tanto o planejamento de um time de futebol quanto o de uma empresa. Mas quanto mais a escalação se repete, ao menos a sua base principal, maior é a tendência de se encontrar um equilíbrio na competição.

Nesta temporada, parece-me que pela primeira vez, o Grêmio encontrou os seus 11 titulares. Tira um daqui, tira outro dali, pelos motivos que citei no parágrafo anterior, mas quando a partida vai começar é bem provável que a gente acerte boa parte dos nomes escalados. Vitor, Mário Fernandes, Ed Carlos, Saimon, Julio César, Rochenback, Fernando, Douglas, Marquinhos, Escudero e André Lima são os titulares de Celso Roth. O técnico talvez tenha dúvidas em uma posição da defesa e outro no comando do ataque (eu tenho, principalmente, no ataque), mas tem mantido o mesmo time em campo, sem invenções ou milagres, buscando regularidade – um expressão que no futebol significa uma sequência de vitórias.

Na partida deste fim de domingo, a marcação forte, a troca de passe rápida, a descida veloz pelas laterais e a movimentação talentosa do meio de campo mostraram que a estabilidade está sendo alcançada a 12 rodadas do fim da competição. Antes que você me corrija, enquanto a maioria dos adversários terá 11 partidas, no caso do Grêmio ainda faltam 12 a serem disputadas, devido ao jogo adiado contra o Santos (aliás, azar dos santistas que vão nos encontrar neste meio de semana embalados). Portanto, temos 36 pontos em jogo e, a persistirem os sintomas, tudo para fazermos uma arrancada final de ficar na história.

Neste domingo, destacou-se Escudero que tem melhorado a cada partida e oportunidade que recebe. Um argentino que dribla os esteriótipos ao jogar calado, concentrado e disposto a aparecer apenas com o seu talento. No gol que fez demonstrou apuro técnico seja ao receber a bola, seja ao desviar do goleiro. Justiça seja feita, o passe de Marquinhos do outro lado do campo foi um primor.

De minha parte, um desejo privado: ver na escalação principal o outro argentino, Miralles, em lugar de André Lima.

De dia mais dia menos

 

Por Maria Lucia Solla

De dia mais dia menos


Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Tem dia em que a gente está animado – movido pela alma – com o tanque cheio, sorriso atrevido, pele brilhando. Tudo muda quando a gente muda: pele olhar postura voz. Isso para falar só da parte de fora, a que dá para ver. Imagina lá dentro, as vias do sangue descongestionadas, o coração batendo ritmado, as glândulas que secretam hormônios fazendo o que têm que fazer. A receita dá certo, a gente fica palatável.

Agora, quando o bicho pega – e ele está sempre pronto para atacar na virada do minuto um para o minuto dois – o tanque vai a zero, as impurezas entopem os filtros, a pele murcha, os olhos caem, ficam opacos, o sorriso… que sorriso, tá doido? É o primeiro que se manda, e quando a gente puxa ele a força, vem deformado arrastado de má vontade. O intestino para de funcionar porque a gente está enfezado, a gente quer se esconder debaixo das cobertas e dormir para não viver, chora até os olhos perderem a forma, as sobrancelhas caírem e as olheiras beijarem o queixo, e mano olha para você e diz: para de chorar, não chora!

Tá doido?

São tantos os issos-e-aquilos que levam a uma e outra disposição, que nem sendo médico químico astrólogo físico acupunturista dietista psiquiatra vidente, daria para entender. Ninguém entende os próprios humores, vai entender os do outro? Se bem que olhar de fora dá uma perspectiva diferente, fora o fato de a pimenta arder em boca alheia.

Na fase animada basta o silêncio de alguém que se ama, que o clima muda, o coração aperta, a boca seca, e a respiração perde o compasso. Em baixa, basta um contato, e a gente logo abana o rabo. Digo isso com todo o respeito, porque observo a Valentina, e ela quase desparafusa o rabo quando está contente.

Assim, sem entender nada de nada, aposto no bom nível de equilíbrio que resulta da escolha consciente do que comer, de com quem conviver, do que fazer, do que ouvir e dizer, do que pensar, do que beber…

E você, aposta no quê?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Paris, Paris, Paris…

 

Por Dora Estevam

Jamais deixaria de falar da semana de moda da capital que eu mais amo, depois de São Paulo, é claro. Paris recebe com muito prazer os estilistas com suas coleções de moda primavera 2012. A cada desfile uma surpresa, este em especial da Balmain está demais. Eu gostaria de comprar todas as roupas desta marca. Sem brincadeira, é chiquérrima.

Como olhar não paga, então vamos apreciar o que tem de bonito no mundo, não acha? Sem dúvida, é um show de criação de moda que precisa ser apreciado.

Com todos estes milhares de cristais e bordados dourados, com os tecidos fluídos franceses, e a inspiração na androginia dos toureiros, tendência para a temporada. Notaram os rabos de cavalo das tops? Quem resiste? A trilha é do grupo INXS, famoso dos anos 80.

Paris continua sendo a maior lançadora de moda mundial, todos os olhares estão voltados para esta semana. As marcas mais tradicionais como Chanel, Christian Dior, Balenciaga e Balmain, esta do vídeo, são as mais cotadas para as apresentações, todas as pessoas envolvidas no meio querem estar lá.

Sinta mais um pouco da atmosfera da fashion week parisiense:

A semana de moda ainda está pela metade, tem muito desfile para ser apresentado. Semana que vem eu mostro outras novidades e inspirações de moda pra você.

Dora Estevam é jornalista e escreve, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Marketing para consumir a cultura

 

O aprimoramento das leis de incentivo cultural pode oferecer maior diversidade de oferta e acesso às artes, permitindo que mais artistas tenham oportunidade de apresentar seu trabalho e o consumo neste mercado também aumente. A opinião é do professor da Faculdade de Administração e Finanças da UERJ Manoel Marcondes Neto entrevistado do Mundo Corporativo da CBN. Com o tema “economia da cultura”, o programa discutiu caminhos para que o marketing cultura atenda as diferentes demandas do setor sem interferir na qualidade e conteúdo da obra. Manoel Marcondes Neto escreveu Lusia Angelete Ferreira, o livro “Economia da Cultura: contribuições para a construção do campo e histórico da gestão de organizações culturais no Brasil”.

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da CBN com participação dos ouvintes-internautas pelo Twitter @jornaldacbn e pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br. A entrevista é reproduzida aos sábados, no Jornal da CBN

A morte de Escurinho

 

Por Airton Gontow

Eu não lembro bem em que Gre-Nal foi. Mas o Grêmio ganhava por 1 a 0 e parecia que dessa vez tinha tudo para quebrar a terrível e torturante hegemonia colorada no futebol gaúcho. A torcida gremista, em maioria no estádio Olímpico, festejava o resultado e a ampla supremacia do time na partida. Até que faltando poucos minutos, 15 talvez, o treinador colorado mandou Escurinho aquecer.

Um murmúrio tomou conta do lado azul. No canto do estádio, os colorados se agitaram. Até que ele, negro, alto e esguio, entrou em campo. Parecia que já estava escrito. Ao primeiro cruzamento, os até então inexpugnáveis zagueiros gremistas sentiram as pernas pesadas. A torcida tricolor sentiu a espinha gelada, como se um vento minuano tivesse rapidamente passado pelo estádio. Escurinho subiu alto, muito alto, mais alto ainda do que você, leitor, imagina e, de cabeça marcou o gol de empate do Inter.

Como poucos, Escurinho personificou o jogador “Camisa 12”, aquele que entra no segundo tempo e resolve o jogo. Aquele herói que nunca consegue conquistar um lugar na equipe titular, mas que é decisivo ao entrar para salvar a Pátria, fundamental nas partidas difíceis, essencial para a conquista de títulos. Nunca vi alguém cabecear como ele.

Chego a dizer que daquele time colorado que foi octa gaúcho e tricampeão brasileiro (Escurinho participou de sete conquistas estaduais e de duas nacionais), eu não temia os craques, mas sim o Escuro, que tinha o poder de tornar meus domingos menos azuis.

Nos últimos anos, o ídolo colorado teve uma vida muito difícil. Com diabetes e insuficiência renal passou longos períodos hospitalizado. Chegou a ter amputadas ambas as pernas, triste ironia da vida para quem saltava tão alto nos tempos de jogador. A direita em 2009. A esquerda este ano. Felizmente, encontrou a solidariedade e o reconhecimento dos antigos colegas, da torcida vermelha e da diretoria colorada, que doou para ele a bilheteria do filme “Nada vai nos Separar”, que narra os 100 anos do time gaúcho.

Na última terça-feira, 27 de setembro, recebi ao final da tarde de um lindo dia a notícia de que Luís Carlos Machado, o Escurinho, morreu, de parada cardíaca, aos 61 anos. Olhei para o céu. Nuvens vermelhas começavam a tornar meu dia menos azul. Imaginei o Escuro subindo, subindo, subindo…Um frio congelou minha espinha. Mas logo abri um sorriso. “Escurinho finalmente pode voltar a saltar, a voar sobre todos nós”, pensei, enquanto uma lágrima escorria pelo meu rosto. Olhei novamente para cima. Agora não havia nem azul, nem vermelho. O céu estava quase escuro. Estava Escurinho…

-Descanse em paz, meu querido e inesquecível rival…


Airton Gontow, 49 anos, é cronista, jornalista e gremista