Fora da Área: quem diria, o Itaquerão virou Arena na Copa

 

 

Vestido para a Copa, a Arena Corinthians deixa de ser Itaquerão. É a primeira impressão que se tem com a proximidade do estádio que foi desenhado com arquitetura diferente da que estamos acostumados. Os velhos campos de futebol e as novas arenas têm, em sua maioria, linhas arredondadas com arquibancadas, cadeiras e camarotes sobrepostos em várias circunferências. À distância, desde o estacionamento onde o ônibus fretado nos deixou, a arena, que visito no dia em que Uruguai e Inglaterra se enfrentaram pela segunda rodada do grupo D do Mundial, lembra um ginásio poliesportivo muito grande. Há os que brincam dizendo que se parece com uma impressora caseira. A medida que nos aproximamos, entendemos melhor a estrutura entregue poucas semanas antes do início do Mundial e que causou tanta polêmica seja pela necessidade, seja pelo custo, seja pelas mortes (aliás, não encontrei nenhuma referência a estes que perderam a vida durante a obra). O material usado é de primeira linha e o telão na área externa, que dá as boas-vindas aos torcedores se destaca pela tecnologia. Os métodos e processos implantados são marcas da construção que quase não percebemos mas que que se tornam fundamentais para oferecer qualidade e modernidade ao ambiente. Já ouvi falar do ar condicionado que deixa a grama na temperatura ideal e a manterá em condições para não se errar um só passe – como brincou há algum tempo o ex-atacante Ronaldo. Disseram-me, ainda, que os vestiários são excepcionais com área suficiente para pequeno campo de treinamento, o que dará mais conforto e eficiência ao aquecimento pré-jogo.

 

Sob a direção da Fifa, impressiona mesmo a quantidade de funcionários e voluntários e a forma como se esforçam para melhor atender ao público. Talvez por ter cara de gringo ou devido ao vermelho britânico do casaco que vesti para enfrentar o frio da quinta-feira passada, em São Paulo, muitos arriscaram palavras em inglês enquanto outros preferiram a mímica em lugar do diálogo. Todos, porém, eram bastante solícitos e se não eram capazes de dar uma resposta logo procuravam alguém que resolveria a dúvida do visitante. Mesmo aqueles com cara de segurança sabiam ser simpático e talvez por isso são chamados internacionalmente de “steward” palavra que em inglês pode ser traduzida também como mordomo, o que de certa maneira mostra mudança de conceito em relação aos brutamontes de terno e gravata pretas que geram medo em lugar de respeito na maioria dos eventos. O sorriso no rosto não é suficiente, porém, para fazer as filas do banheiro e dos bares andarem mais rápido do que os ponteiros do meu relógio que mostravam faltar mais de 30 minutos para entrada das seleções no gramado quando encarei a primeira delas. Banheiro em estádio é quase tudo igual diante do comportamento dos torcedores mais entusiasmados que gritam, riem e dizem bobagens típicas de homens em bando. O da Arena Corinthians ao menos é bonito e, aparentemente, limpo. Espero que resista assim quando ocupado apenas pelas nossas torcidas. As atendentes da lanchonete, assim como a maioria dos funcionários, oferecem simpatia na falta da maioria dos produtos que aparece na tabela de preços. Cerveja, refrigerante e água têm de sobra. Tudo feito e tudo servido, nesta ordem, volto para minha cadeira já com a bola rolando. Entrada das seleções, hinos entoados e apito inicial ficam para a próxima.

 

Assistir ao jogo em estádios construídos com a concepção de arena é um privilégio que havia tido há quatro anos quando fui ao Green Point, na Cidade do Cabo, uma das cidades-sede da Copa do Mundo na África do Sul. A sensação foi muito parecida pois a arquitetura coloca o torcedor próximo do campo, independentemente do lugar que você sentar. “É imagem Full-HD”, brincou meu companheiro de torcida. Bem verdade que as arquibancadas provisórias, que serão retiradas assim que a Copa se encerrar, além de quebrar a harmonia visual, não parecem oferecer o mesmo conforto dos demais espaços. Ficaram muito altas, distantes e sem cobertura. Devia fazer frio demais lá em cima, porque próximo do gramado a temperatura já era suficientemente baixa. Os dois telões são muito úteis e consultados a qualquer lance pelos torcedores. É uma pena que para restringir a pressão sobre o árbitro os momentos mais polêmicos são censurados pela Fifa, diferentemente do que acontece na televisão. Já a imagem revelando os torcedores faz a festa de todos os presentes. Outro destaque na Arena da Copa é a mistura de brasileiros, uruguaios e ingleses que nos dá a ideia de civilidade, sempre ausente nos jogos locais. Havia setores dominados pelos azuis e dominados pelos vermelhos, mas o colorido das arquibancadas sinaliza que a convivência é possível na Copa. Temo que isto jamais se repita após o Mundial. A experiência se completou pelo acesso que tive ao centro de imprensa e ao salão das entrevistas coletivas, no qual desfilei por escadas e portas largas com piso de mármore. A acessibilidade me chamou atenção e a facilidade com que os torcedores entram e saem das arquibancadas, também. O estádio se esvazia rapidamente e com segurança. Demorado é o caminho de volta para casa, devido a enorme distância de Itaquera ao centro de São Paulo, sem falar de outros bairros nas zonas Sul e Oeste da capital paulista.

 

Assim que a Copa passar, o Corinthians retoma o local e boa parte da estrutura de atendimento será desfeita, tanto quanto as arquibancadas provisórias. Muitas obras precisarão ser concluídas, dentro e fora da Arena. Agora, com certeza, seus torcedores assistirão aos jogos com muito mais conforto e precisão e terão bons motivos para se orgulhar. Espero que as torcidas organizadas e o nosso futebol desorganizado não desperdicem esta oportunidade e permitam que o Itaquerão continue sendo a Arena Corinthians (ou a Arena de São Paulo, como batizou a Fifa).

Mundo Corporativo: Felipe Gomes, da Allianz Seguros, fala da estratégia na Arena do Palmeiras

 

 

O grupo Allianz Seguros pretende alavancar seus negócios no Brasil a partir do investimento que fez para comprar o direito de explorar o nome da arena multiuso do Palmeiras, que está sendo construída pela WTorres, e deve ser inaugurada no segundo semestre do ano. A estratégia é semelhante a usada pela Allianz em mais cinco países, onde grandes praças de esporte e espetáculos levam a marca do grupo. O diretor executivo da Allianz Felipe Gomes explica as ações que já estão sendo planejadas para que a empresa recupere o investimento feito ao longo de 20 anos, nesta entrevista ao programa Mundo Corporativo, feita pelo jornalista Mílton Jung.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar, ao vivo, às quartas-feiras,11 horas, no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN). O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: vitória para lembrar e relembrar

 

Grêmio 3 x 2 Portuguesa
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Ao deixar Porto Alegre, em 1991, meu primeiro encontro com o Grêmio foi na final da Copa São Paulo de futebol júnior, no estádio do Pacaembu. Fomos goleados pelo incrível time comandado pelo atacante Dener, da Portuguesa, que mais tarde vestiu a camisa tricolor, antes de ir para o Vasco, no Rio, onde morreu precocemente em acidente de trânsito. Fiquei admirado com a performance daquela equipe e passei a acompanhá-la com mais carinho. O encanto se encerrou quando, mais uma vez, a Lusa apareceu no caminho do Grêmio, na final do Campeonato Brasileiro de 1996. Aqui em São Paulo, todos torciam para a Portuguesa, ao menos ninguém lhe queria mal. Eu, cercado de paulistas por todos os lados, praticamente sozinho, com a força e a vontade que apenas os gremistas são capazes de ter diante das adversidades, defendia nossas cores e acreditava no título, mesmo depois da derrota por 2 a 0, no primeiro jogo, em São Paulo. Ao meu lado, havia apenas o Gregório, meu primeiro filho, que não tinha mais de 50 dias de vida, mas já se apresentava coberto no berço pelo manto do Imortal. De plantão, assisti à última partida na redação da TV Cultura, onde todos eram contra mim naquele momento. E foi diante de todos eles que comemorei como louco os gols de Paulo Nunes e Aílton, suficientes para nos dar o bicampeonato brasileiro.

 

Apesar do histórico restrito, se comparado aos demais grandes do futebol paulista, a Portuguesa sempre foi traiçoeira às minhas expectativas. No ano passado, você deve lembrar, foi a Lusa quem interrompeu a trajetória de vitórias gremistas no Brasileiro. Portanto, não me surpreendeu a dificuldade que tivemos para vencê-la no sábado à noite, na Arena. Não bastasse isso, outra vez nossos limites foram testados. Nem sempre a bola chegava ao ataque da forma que gostaríamos, apesar do talento de Zé Roberto. Nem sempre a defesa se posicionava da maneira que desejaríamos, mesmo tendo três zagueiros e dois volantes próximos da nossa área. E, como sempre, nos expomos a riscos e sofrimentos para provarmos quanto somos capazes de superar nossas restrições. De positivo, a sequência de jogadas pelas laterais e o desempenho de Kléber que deixou de ser apenas um trombador, para se tornar fundamental no ataque.

 

Outro fator importante, é que aos poucos construímos uma história na Arena Grêmio, levando para lá a força que emanava das arquibancadas do Olímpico Monumental, inclusive com o aumento na média de público por partida, próximo de 25 mil pessoas. Em nove meses de vida, foram nove jogos pelo Brasileiro e apenas uma derrota. Que essa fique para a estatística e o jogo contra a Portuguesa seja mais um na caminhada de 2013, quando espero comemorar o título da mesma forma que em 1996, mas com mais companheiros ao lado, pois hoje, além do Gregório tenho o Lorenzo.

Avalanche Tricolor: um Gre-Nal em família

 

Grêmio 1 x 1 Inter
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Foram intensos estes dias em que comemorei os 50 anos, em especial pela presença da família. Estar com o pai quando se chega a essa idade é sempre animador, ao menos porque nos dá a sensação de que não somos tão velhos quanto os outros imaginam. E temos a chance de exercitar o papel de filho, o que sempre nos oferece a oportunidade de sermos ainda mais novos. Os irmãos também colaboram muito nesta tarefa porque não se cansam de nos lembrar de quando éramos crianças. Desde pequenos aprendemos juntos a torcer por um time de futebol lá no Rio Grande do Sul, e você, caro e raro leitor deste Blog, sabe bem da escolha que fiz. Se chega aqui pela primeira vez, bastará um pouco de atenção ao nome da coluna e a cor da escrita para ter a resposta certa.

 

Foi assistindo ao Grêmio no clássico gaúcho que encerrei estes dias agitados, em São Paulo. Boa partida do jogo vi atirado no sofá ao lado do meu pai, como já havíamos feito no passado muitas outras vezes. Aliás, foi com ele que aprendi a ter comedimento diante das conquistas temporárias de uma partida de futebol, mesmo que tenha alguns rompantes diante de lances incríveis como um carrinho salvador que despacha a bola para longe e o adversário para fora (que ninguém me leia) ou uma chegada firme que evite o ataque contrário e quem sabe ajude a armar o contra-ataque. No entanto, sei que boa sequência de ataque não significa gol, da mesma forma que a sinalização de pênalti pelo árbitro. Preferímos esperar a bola na rede para comemorar de verdade. Estamos convencidos há algum tempo que ter o domínio da bola, jogar melhor e se impor ao time contrário não são suficientes para chegarmos a vitória. Um vacilo e tudo se vai: uma falta mal marcada, um cartão não dado ou exagerado, lances fortuitos mudam o destino de um jogo.

 

O horário restrito do voo de volta para Porto Alegre nos tirou de frente da televisão e nos fez assistir ao restante da partida na tela do Ipad até quase a sala de embarque, em Congonhas. No que foi possível prestar atenção, enquanto dávamos preferência às lembranças do fim de semana, pouca coisa mudou desde aquilo que vimos no início da partida: houve mais faltas, mais expulsões, mais pressão e mais nenhum gol de ambas as partes. Terminou empatado o primeiro Gre-Nal na Arena. Menos mal – disse meu irmão ao saber do placar, pouco antes de se despedir. Pelo que jogamos não merecíamos um resultado negativo além disso terminar o fim de semana com um revés não estaria a altura da alegria que foi conviver estes dias com a minha família gremista.

Avalanche Tricolor: chuta este mau humor para escanteio

 

Grêmio 1 x 0 Vitória
Brasileiro – Arena

 

 

(um bate-papo comigo mesmo)

 

Deixa de ser mal-humorado! Esta é a quarta rodada do Campeonato Brasileiro e, além do teu time, só tem mais dois invictos. Foram duas vitórias em casa e um empate fora. A receita perfeita em competição de pontos corridos. Tem um jogo a menos e está empatado com os líderes que disputaram quatro partidas. Tem concorrente que já está até com a sombra da zona do rebaixamento! Sem contar os que sequer deixaram seus técnicos esquentar o banco por muito tempo. E o que o é que foi aquele golaço do Elano. Que baita cobrança de falta. Parecia ter ajeitado a bola com a mão. Pensando bem, foi o que fez com o pé.

 

Está reclamando, então, do quê? Seu mau humorado!

 

Eu sei, nós bem que gostaríamos de assistir aos nossos atacantes convertendo em mais gols as bolas que recebem, de ampliar o placar sem nos expormos a riscos e de ganhar as partidas com mais facilidade. Mas, neste “salve-se quem puder” do Brasileiro, talvez tenhamos que nos contentar mesmo com esta luta diária, ou melhor, com esta disputa dura rodada a rodada. E tirar este nariz torcido com alguns jogadores e com o técnico que, convenhamos, jamais ganharia o título de Simpatia do Ano.

 

Está na hora de retomarmos à alegria, apesar dos pesares, e torcer para que o Padre Reus do meu pai (leia o texto anterior) nos ajude.

 

Até a próxima!

Brasileirão teima em não entrar na moda

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Essa gente que dirige o futebol é realmente coerente. Quando se trata de organização, métodos, processos e tecnologia, são todos do passado. Envelhecidos até na idade, o que neste caso é um problema, porque ao seu envelhecimento cresce simultaneamente o envilecimento. Ao mesmo tempo, quando a oportunidade de altos investimentos se apresenta, como no caso de novos estádios, surge uma surpreendente modernidade celebrada por unanimidade entre o futebol e a política. O início do campeonato brasileiro de futebol e a pesquisa com os atuais jogadores de futebol ilustram estas coerências tão incoerentes dessa tribo de “velhos” que manda no futebol.

 

Aficionado do futebol e partícipe da moda, a comparação entre estes setores me é inevitável. Em qualquer parte do mundo, o mundo da moda celebra o lançamento das coleções, mais do que o sucesso final delas, como o momento supremo desta atividade que exalta antes de tudo a criatividade e o talento. No futebol brasileiro isto não faz sentido. Muito pelo contrário, só se festeja no final e se ignora o lançamento. Por insegurança, ou pura ignorância, não sabemos. O mais provável é que ambos expliquem o que foi feito até então. Ainda mais porque este ano agregou-se o espírito de “vira-latas”. A cúpula da CBF e seus convidados abandonaram a primeira rodada do Brasileirão para assistir à final da Liga dos Campeões da Europa em Londres. Colonialismo puro!

 

Esta mesma CBF, auxiliada pela FIFA, ignorou o estádio do Morumbi para abertura da COPA. É justamente o estádio que, em recente pesquisa com os jogadores, é apontado como o preferido pelos atletas. Esta é a outra face da coerência pela modernidade de todos estes dirigentes. De clubes, de federações e de confederações. Tudo pelo maior gasto. Onde surgem números inexplicáveis, como os 350 milhões privados gastos na arena do Grêmio comparados aos 800 milhões públicos previstos para o estádio do Corinthians. E a arena gaúcha é bem maior que a corintiana.

 

Em plena época da espetacularização, o grande espetáculo do Brasileirão 2013 foi coerente a estas incoerências. O único ganhador fora da primeira rodada deu 44 passes errados, e foi impedido de levar a sua torcida por falha do mandante, que levou a própria para se auto digladiar. Enquanto no novo Mané Garrincha o também novo recorde de renda passava distante do subserviente Santos, que de R$ 7 milhões ficara com R$ 800 mil.

 

O nosso futebol está numa fria, mas parece que Nero vem aí.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Avalanche Tricolor: quem viu, assistiu a dois espetáculos

 

Grêmio 2 x 0 Lajeadense
Gaúcho – Grêmio Arena

 

 

Espero que você tenha tido oportunidade de assistir ao jogo de sábado à noite. Soube de torcedores que foram surpreendidos com uma decisão do PPV que, me parece, fere o Código de Defesa do Consumidor: não transmitir a partida para os assinantes. Aqui em São Paulo, encontrei a transmissão na Sport TV, canal 39, o mesmo não aconteceu com aqueles que estavam em Porto Alegre, que receberam o sinal de outra partida pelo Campeonato Gaúcho. Os que têm paciência para navegar na internet e boa rede de relacionamento ainda conseguiram conectar-se às transmissões clandestinas disponíveis no computador. E tiveram esforço recompensado, haja vista a boa qualidade do futebol jogado pelo Grêmio, a partir da segunda metade do primeiro tempo.

 

Os dois gols de Zé Roberto foram uma pintura não apenas pelo toque final do nosso craque, mas pela movimentação de equipe, o deslocamento veloz de posição, o passe certeiro e o chute mortal. No primeiro, uma batida forte superou o bom goleiro adversário, Eduardo Martini, que já havia feito defesa sensacional em ataque concluído por Barcos, pouco mais cedo. O segundo, ‘Zé da Galera’ encobriu o goleiro com um toque sutil que esteve a altura do passe recebido de Barcos – rápido e preciso. Aliás, nosso centroavante, por justiça, tem de começar a somar, nem que seja meio gol, cada assistência que dá de presente para seus colegas. Vai alcançar rapidinho a meta de 28 gols que se propôs logo que chegou no Olímpico – perdão, na Arena.

 

O time titular do Grêmio tem qualidade muito superior a seus adversários neste Campeonato, a ponto de ter vencido com facilidade o único time invicto na competição até aqui. O problema é a intenção de mudar a equipe conforme os compromissos da Libertadores. Problema ou previdência, os próximos resultados dirão.

Avalanche Tricolor: tenho orgulho de ser gremista

 

Grêmio 2 x 1 Hamburgo (ALE)
Inauguração da Arena Grêmio

 

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Tenho orgulho de ser gremista. A inauguração do novo estádio colocou o Brasil no primeiro mundo das Arenas multiuso, escreveu em letras garrafais o jornal O Estado de São Paulo, na edição que li na manhã de sábado. A manchete que abriu reportagem de duas páginas do diário paulista, reconhecido por seu jornalismo crítico e independente, descrevia bem o significado daquele momento que viveríamos à noite, no bairro de Humaitá, zona norte de Porto Alegre. O Grêmio, mais uma vez, seria protagonista da história do futebol. Desta vez, da própria história do Brasil.

 

Tenho orgulho de ser gremista. A cerimônia de inaguração trouxe de volta parte das emoções que havia sentido uma semana antes na despedida do Olímpico. Foi além, pois abriu as portas para o futuro relembrando a construção da sua própria história, com imagens que destacavam o heroísmo dos primeiros anos e as conquistas que elevaram o nome do Grêmio, das quais muitas comemorei com os demais torcedores na arquibancada. De todos os craques que vestiram nossa camisa, o mais emocionante foi ver Milton Kuelle, aos 79 anos, único jogador vivo que desfilou talento no pioneiro estádio da Baixada e no Olímpico Para Sempre Monumental. Talento, na frase anterior, não é exagero da retórica. Kuelle, que viria a ser meu dentista quando morei em Porto Alegre, jogava futebol moderno para os anos de 1950 e 1960, ao se destacar por excelente preparo físico e domínio de bola que o permitiam atacar, marcar e se descolar com maestria. Ele também estava emocionado no novo palco.

 

Tenho orgulho de ser gremista. O acordeon de Renato Borgetti se agigantou como sempre ocorre quando este artista da música regional passa a dedilhar seu instrumento. No meio da Arena, tocou o Hino Rio-Grandense vestindo a camisa 7 de Renato Gaúcho e brincou com a banda marcial que fazia performance no palco.  Era mais uma lembrança dos meus tempos de guri na escola em Porto Alegre, onde fomos colegas de sala.  Antes dele, a imagem de Lupicinio Rodrigues, autor do hino que embala os gremistas, já havia surgido para provar que nossos talentos não estão apenas dentro de campo.

 

Tenho orgulho de ser gremista. O destino quis que um dos jogadores mais identificados com o torcedor, André Lima, marcasse o primeiro gol na Arena do Grêmio. Poderia ter sido outro,  pois muitos mereceriam esta marca histórica. Poderia ter sido, até mesmo, o adversário. Afinal se a festa pode ser programada  – e o foi com genialidade e sensibilidade – não haveria como interferir no resultado da partida. Na noite desse sábado, porém, nem mesmo o imponderável seria capaz de nos surpreender. Marcamos primeiro, como na final do Mundial contra o Hamburgo; sofremos o empate, da mesma forma que no Japão; e se não vencemos na prorrogação, pois não haveria esta possibilidade, deixamos para fazer o gol da vitória praticamente no fim da partida, com Marcelo Moreno.  Alguém, sabe se lá de onde, decidiu que o roteiro deste jogo teria de relembrar o feito de 1983. Talvez para fazer justiça com um clube que ergueu, por conta própria, sua Arena e pensando apenas na sua torcida e na sua história.

 

É por tudo isso que tenho orgulho de ser gremista.

E o menino descobriu um templo

 

Por Silvio Bressan
Jornalista e gremista

 

 

Havia muita cor e barulho naquela noite de dezembro de 1971, quando o menino assustado entrou pela primeira vez no Estádio Olímpico. Grêmio e Coritiba disputavam um jogo do Campeonato Brasileiro, mas para uma criança que só via futebol pela TV, em preto e branco, o que mais chamava a atenção era a imensidão daquele espaço, o verde da grama, o colorido dos uniformes e os sons da torcida. Os dois gols do ponteiro-direito Flecha me iniciaram na profissão de fé pela camisa 7, a mesma que já havia sido honrada por Tesourinha e Babá e ainda seria consagrada por Tarciso e Renato. Graças ao Olímpico, futebol para mim tornava-se uma coisa real, palpável, com cor, cheiro, barulho e a minha saga de gremista ganhava um palco, um verdadeiro templo para celebrar algumas de minhas maiores decepções e alegrias até hoje.

 

E já lá se vão mais de 40 anos de emoções variadas, mas sempre intensas… Logo no segundo jogo (Grêmio 1 x 1 Cruzeiro, em 1972), o espanto pelo soco de Everaldo no juiz José Faville Neto. Depois, a reverência de ver, pela primeira e última vez, o gênio Pelé naquele histórico gramado (Grêmio 1 x 0 Santos, em 1974). Na mesma época, um inusitado 0 x 3 contra um desconhecido time de Encantado virar 3 x 3 para o delírio da multidão (por outro lado, nos anos 80, também houve um 4 x 1 conta o Santo André que virou 4 x 4 para a frustração geral).

 

Eram tempos difíceis, anos de chumbo para a democracia e a torcida gremista, com derrotas em Gre-Nais e um jejum de oito anos sem títulos. O adolescente tímido, porém, como toda a nação tricolor, não desistia. Mesmo quando a bravura de um Chamaco, Cacau, Tarciso e Iúra não era suficiente para vencer o tradicional rival, lá estava ele na geral, almofada numa mão e rádio na outra, acreditando que um dia a sorte mudaria. E mudou tão de repente que quase ninguém acreditou. Na verdade, levou apenas 14 segundos até que Iúra, agora melhor acompanhado, abrisse o placar naquele Gre-Nal de agosto de 1977. O Grêmio deu a saída de bola e, sem que o adversário tocasse na bola, já estava vencendo.

 

Tínhamos, enfim, um time confiável, onde a bravura de Tarciso e Iúra agora era lapidada pela categoria de Tadeu Ricci, André e Éder. Naquele ano foram sete Gre-Nais e o Grêmio venceu cinco, três deles no Olímpico, com direito à duas goleadas. E chegamos ao dia mais importante, até então, para a história daquele adolescente no Estádio Olímpico. O Gre-Nal de 25 de setembro teve de tudo: pênalti perdido por Tarciso, gol do André, contusão do mesmo André na comemoração e um final tumultuado pela invasão da torcida e briga no gramado. O mais importante, porém, para aquele rapaz, era que finalmente seu time era campeão, em cima do seu principal adversário, e no seu grande palco. Não havia nada mais a desejar. Como reza uma de nossas mais famosas faixas, “Nada pode ser maior”.

 

Saindo da adolescência, ainda vieram o título de 1979, também no Olímpico, e a escalada nacional e mundial, a partir de 1981, com a conquista do campeonato brasileiro, até o título da Libertadores, em 1983, o maior feito da história do Olímpico. Na década de 80, aliás, fomos brindados por uma seqüência memoráveis de vitórias em Gre-Nais e títulos no nosso maior templo: de 85 a 90 quase todas as decisões foram clássicos vencidos pelo Grêmio no Olímpico. Em 89, já na vida adulta, pude testemunhar o título da primeira Copa do Brasil, em 1989, um sábado à tarde, em cima do Sport. Um ano depois, já morando em São Paulo, tive a felicidade de assistir a um 4 x 0 no Gre-Nal decisivo do campeonato. Não sabia porque pretendia voltar, mas aquele foi meu último título no Olímpico.

 

De lá para cá, como morador de São Paulo, voltei esporadicamente ao velho templo, com vitórias e derrota. A cada viagem à cidade natal, mesmo quando não havia jogo, o compromisso obrigatório era dar uma passada no Olímpico, visitar a loja e sentar nas arquibancadas, mirando o gramado. Queria aproveitar cada instante naquele velho concreto oval e rememorar as cenas mais marcantes dessas quatro décadas: as brigas e o “senta e levanta” dos Gre-Nais; a enorme buzina que ficava no meio da geral e nos ensurdecia cada vez que era acionada; ao lado do alarme sonoro, a tradicional faixa “Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”, sempre estendida e guarnecida por fiéis escudeiros; os corneteiros da social, sempre mais exigentes e pouco pacientes com o time; o pânico que se instalava na torcida quando o limitado Vilson ajeitava a bola na intermediária e todos gritavam “Não chuta, Vilson, não chuta!”; as imprecações contra o indefectível cotovelo do zagueiro Figueroa; o cheiro misturado de cigarro e cerveja; no verão, o picolé que já chegava líquido; no inverno, o café quente demais e o amendoim que era só casca e farelo; no final, os jornais queimados pela arquibancada e a volta a pé pela Azenha entupida de gente, rádio colado no ouvido e o passo apressado para não perder o último ônibus, lá na Avenida Ipiranga. No retorno à São Paulo, ficava sempre uma ponta de nostalgia até o próximo encontro com o Olímpico, que era sempre eletrônico. Numa volta à minha infância, antes do primeiro jogo, o Olímpico passou a ser uma imagem constante na minha TV.

 

Em outubro deste ano, resolvi me despedi do glorioso casarão. Convidei meus irmãos, residentes ainda em Porto Alegre, e alguns amigos daquelas jornadas, que hoje moram em Santa Catarina, para reviver parte da nossa adolescência e juventude. E lá fomos para a última aventura no templo azul. Como mascote da turma, um menino de 13 anos, filho de um amigo, com a camisa tricolor e a uma alegria incontida. Era seu segundo jogo no Olímpico e fiquei imaginando se sua empolgação era a mesma daquele menino no início da década de 70. Fomos para trás do gol do ginásio, à esquerda das cabines de rádio, ali exatamente onde estávamos há 35 anos, vendo André Catimba vencer Benitez e fazer história. Dali também vibramos com o gol do zagueiro Werley, no empate de 1 x 1 com o Santos. Não havia mais Pelé e Neymar não brilhou, até foi expulso. Mas tudo isso foi muito menos importante do que ver a emoção do menino, que, como outras gerações desde 1954, era renovada a cada quarta e domingo naquele verdadeiro santuário.

 

Tenho orgulho de ter vivido, no Olímpico, 20 de seus quase 60 anos de história memorável. Foi ali que o menino, adolescente e adulto forjou sua identidade de gremista, temperada nas vitórias e derrotas, como toda a grande paixão. É esse sentimento que levarei para a Arena e essa é a maior homenagem que posso prestar ao antigo estádio e legar às novas gerações que surgirão no moderno templo. Ainda que o antigo casarão não esteja mais lá, a alma e o coração de todos os gremistas das últimas seis décadas lá estarão. Imortal mesmo é a lembrança que não se apaga e o velho Olímpico de tantas cores, barulhos, frustrações e glórias continuará com sua chama acesa na memória de milhões de torcedores.