Fora da Área: com sofrimento, emoção e lágrimas ganhamos os que torcem pelo Brasil

 

 

Falei com o pai por telefone pouco antes de a partida começar. Assim como na minha, na casa dele também tem quem não torça pela seleção do Brasil. Sentimento que, confesso, não consigo entender especialmente em Copas do Mundo. Não que as pessoas tenham o dever de vibrar com as coisas do futebol, mas bem que poderiam ser solidárias aos milhões de brasileiros que buscam na bola o prazer do sorriso. Mas vamos deixar para lá tudo isso, afinal este texto é para comemorar a passagem do Brasil às quartas de final e o iniciei pela conversa que tive com meu pai porque ele havia me perguntado quem seria o maior torcedor da seleção aqui em casa. Respondi de bate-pronto que era eu, pois os meninos nunca tiveram esta ligação que tenho com o futebol e muitas vezes assistem às partidas de canto de olho, pois o grosso do olho está voltado para as acirradas disputas no League of Legend, jogo eletrônico com maior número de adeptos no mundo, no qual ambos são craques. Verdade que, nesta Copa, o interesse deles aumentou de forma considerável, provavelmente resultado do barulho que o Mundial provoca na internet e entre colegas na sala de aula. Saiba, porém, caro e raro leitor deste blog, que após ter visto o que vi durante a disputa de vaga contra o Chile vou ter de voltar a ligar para meu pai e corrigir a resposta.

 

Diante da televisão, a medida que o Brasil revelava-se incapaz de apresentar um desempenho a altura da nossa expectativa, meus dois guris, sentados, um no sofá e o outro no piso, sofriam como somente os torcedores de futebol sabem sofrer. Um esfregava as mãos no rosto insistentemente, enquanto o outro se agarrava nas almofada como tentando se proteger dos riscos de gols que surgiam a cada falha do nosso sistema defensivo. Um se calava, querendo entender por que o Brasil não era capaz de ficar com a bola em seus pés, enquanto o outro praguejava para se desfazer do nervosismo. Compartilhavam comentários sobre o sumiço de Neymar e a tentativa de drible de Neymar; o erro de Hulk e a tentativa de chute de Hulk; a ineficiência de Fred e a de Jô, também; o toque de bola do Chile, a velocidade do Chile. Pô, o Chile de novo!Que susto! Juntos reclamamos o gol anulado, a falta não marcada e o impedimento assinalado, mesmo sabendo que o juiz tinha razão. Torcemos pelo fim do jogo, pois temíamos o gol adversário. Ficamos satisfeito com o Brasil da prorrogação e com medo da decisão nos pênaltis. Que isso! Gritamos antes do silêncio que tomou conta da sala na bola que explodiu no travessão de Julio César no último minuto de jogo.

 

A vaga decidida nos pênaltis era novidade para eles em Copa do Mundo. Assisti de mãos dadas com o que estava mais próximo. Mãos que suavam frio. Que tapavam os olhos. Que se contraíam na cobrança chilena. Que se contorciam na cobrança brasileira. Que socavam o ar na comemoração de cada gol marcado e voltavam a se juntar por Júlio César. Angústia transformada em alegria na bola final que bateu no poste, e em pura emoção ao vermos as lágrimas do nosso goleiro que chorou copiosamente diante das câmeras, diante do Mundo – cena que me dá a certeza de que raras atividades permitem a dor e a redenção em praça pública como o futebol. E por isso sou um torcedor de futebol e fico ainda mais feliz em descobrir que meus filhos, também.

Fora da Área: empate do Brasil é resultado do lugar comum

 

 

É jogo de Copa do Mundo.
São onze para cada lado.
Contra o México é sempre difícil.
Todo mundo quer jogar contra o Brasil.
Temos que respeitar o adversário.

 

Jogadores de futebol costumam ser bem mais criativos com a bola no pé do que com as palavras, por isso não me surpreende o desfile de lugar-comum nas declarações ao fim do jogo, como nesta terça-feira, em Fortaleza. Em raras oportunidades encontramos afirmações relevantes ou explicativas, quando muito tiramos algumas “aspas” para escrever a reportagem ou destacar em manchete (tirar aspas, no jornalismo, é reproduzir a frase ou expressão usada pelo entrevistado). Portanto, não me surpreenderam as entrevistas que assisti na televisão com jogadores brasileiros ainda ofegantes e suados, minutos após o empate em zero a zero com o México.

 

Esperava mais deles dentro de campo. Lá, sim, me parece, faltou criatividade para driblar o forte bloqueio mexicano e encontrar espaços que nos permitissem chegar ao gol da vitória. Às vezes, havia dois, três e até quatro jogadores marcando nossos principais talentos, em especial Neymar. Mesmo assim, o camisa 10, com seu topete esbranquiçado, foi responsável por dois dos principais lances de gol que tivemos nos 90 minutos. Na primeiro deles, surpreendeu-nos com um salto que o agigantou diante dos zagueiros mexicanos. A cabeçada foi bonita, a bola – apenas para usar um lugar comum dos locutores de futebol – tinha endereço certo, mas aí apareceu aquele camisa 13 deles para impedir o gol. Ochoa com sua cara de guri novo se esticou todo e conseguiu espalmar para fora. Fez naquele momento, fez depois com Paulinho, fez ainda com Tiago Silva, quando já havia feito, pouco antes e outra vez, com Neymar. Foram quatro defesas incríveis. Nem dava pra reclamar, afinal se os goleiros tem alguma função no futebol esta é a de estraga-prazer. E Ochoa a exerceu muito bem. Roubou o prazer de milhares de torcedores no Estádio do Castelão, em Fortaleza, e de milhões de brasileiros que esperávamos por mais uma vitória na Copa.

 

Há quem tenha ficado muito incomodado com o empate e a falta de solução para superar o adversário, contra quem, aliás, não temos tido muita sorte nas últimas décadas. A sensação se justifica pois estamos muito mal acostumados. Para nós é mais comum assistir ao Brasil vencer. Desde a Espanha’82, por exemplo, vínhamos ganhado as duas primeiras partidas do Mundial. Lá se vão 32 anos. Além disso, Luis Felipe Scolari havia vencido todos os jogos em que comandou a seleção em Copas da Confederação e do Mundo (a propósito, ainda não perdeu nenhum.) Seja com for, eu considerei o resultado de hoje a coisa mais comum do mundo, já que estávamos diante de uma seleção complicada de se passar, o empate nos deixa na liderança do grupo e muito próximo da classificação à próxima etapa. Além disso, prefiro identificar fragilidades agora, quando podemos nos dar ao luxo de sair de campo sem vitória, do que sermos surpreendidos nas etapas eliminatórias quando nos restará apenas chorar em caso de derrota.

Fora da Área: Brasil com amendoim, pipoca e sofrimento

 

Brasil 3 x 1 Croácia
Copa do Mundo – Arena Corinthians(SP)

 

 

Jogo do Brasil aqui em casa tem amendoim, pipoca, bolo doce e salgado. Tem vinho e guaraná, também. Tem família reunida, cunhado na poltrona, cunhada e sobrinha atiradas no sofá, filhos ao pé da TV e mulher para cá e para lá. Como parte da família é italiana, a torcida tem sotaques diferentes e divertidos. Menos mal que as vozes fazem coro. Só silenciaram para ouvir o hino nacional e compartilhar a emoção que estava no rosto dos jogadores brasileiros desde que se preparavam para entrar na Arena Corinthians. Desconfio até que os olhos mareados atrapalharam nossos craques naquele início de partida, impediram de ver a escapada do Croata pela esquerda, a bola que cruzou toda a área até bater nas pernas de Marcelo e o gol adversário. O primeiro gol da Copa do Brasil. Apesar de marcado por um brasileiro, contra.

 

Se jogo do Brasil tem amendoim, pipoca, bolo doce e salgado aqui em casa, tem de ter sofrimento, também. Foi sofrido sair perdendo, tanto quanto ver que a bola brasileira não rolava com precisão. Rolava truncada, mascada, às vezes desrespeitada. Ao menos estava rolando mais nos nossos pés do que no dos croatas, mas quando eles a dominavam o medo de mais um lance fortuito se transformar em gol soava à tragédia. O cunhado italiano parecia me consolar ao prever o empate, a virada e a vitória, o que não me impediu de ouvir perguntas difíceis de responder: por que o Brasil não joga bem? Por que não chuta a gol? Por que Fred não aparece? E o Paulinho, cadê? Por quê? Nem posso reclamar, pois teve gente graúda que ouviu coisa bem pior da torcida. Mas isto é outro assunto. O meu é o futebol. E a resposta veio depois do jogo, na voz do cabeludo David Luiz: temos de saber sofrer. Nisso somos especialistas, David. Em campo e fora dele.

 

Se jogo do Brasil tem de ter sofrimento, desta vez tinha Oscar jogando muito e Neymar decidindo, também. Nem que para isso tivesse de se aproveitar de uma daquelas bolas mascadas, que eu tanto reclamava, ou de um juiz ludibriado. Aliás, pobre Senhor Yuichi Nishimura, assim como aquela outra autoridade, ouviu coisas que eu não me atrevo a escrever por aqui. Os croatas até tinham razão de reclamar, no lugar deles eu não faria diferente. Mas ninguém havia contado para eles que a preferência de Fred é jogar deitado no gramado?

 

Bola para o alto porque semana que vem tem o México pela frente. E aqui em casa terá mais um punhado de amendoim, pipoca, bolo doce e salgado. Sofrimento, Oscar e Neymar, também.

Por que eu torço para o Brasil

 

 

Em sessão para testar a capacidade do cérebro, fui provocado a pensar em cenas positivas e emocionantes, enquanto eletrodos captavam sinais que eram registrados na tela de televisão à minha frente. Lembrei de situações familiares, reencontros, casamento e filhos recém-nascidos mas a maior parte das imagens recuperadas pela memória estava relacionada ao esporte, a experiências que vivi em quadra, nos anos em que joguei basquete, e nas arquibancadas (ou no sofá) como torcedor. É curiosa a capacidade que o esporte tem de me emocionar; sensação que, imagino, não seja privilégio apenas meu. Lembro de choros históricos como o de 1987 quando o basquete brasileiro venceu os Estados Unidos na final do Campeonato Pan-Americano, em Indianápolis (EUA). As meninas também me levaram às lágrimas, em 1996, quando, ao vencer a Ucrânia, garantiram a medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta (EUA). Em 2007, o mais dramático dos sofrimentos, assistindo ao jogo que ganhou o apelido de Batalha dos Aflitos e trouxe o meu Grêmio de volta à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro.

 

A seleção brasileira de futebol também me proporcionou momentos de muita emoção nas Copas do Mundo em que venceu, especialmente a partir de 1994, pois das anteriores quase nada ficou na memória devido minha idade. Como gosto de torcer pelos amigos, vibrei muito ao ver o sucesso de Taffarel, no Mundial dos Estados Unidos, goleiro com quem compartilhei os primeiros anos de carreira no Internacional, clube do qual eu era repórter setorista, nos tempos da rádio Guaíba, em Porto Alegre. Coloquei a amizade acima da pátria, também, em 2002, no Japão e na Coreia, diante da seleção comanda por Luis Felipe Scolari, a quem sempre admirarei pela sinceridade de suas relações e conquistas alcançadas com o Grêmio. Curiosamente lembro pouco das frustrações de 1982 e 1986, edições em que o Brasil foi treinado por Telê Santana que terá meu eterno apreço.

 

A dois dias do início da Copa do Mundo no Brasil não tenho qualquer dúvida sobre minha torcida, vou vibrar como nunca a cada gol da nossa seleção e suarei as mãos enquanto o adversário estiver prestes a marcar. Vou reclamar passes errados e pedir precisão no desarme; pronunciarei palavras impronunciáveis nos chutes desperdiçados e nas defesas “indefensáveis”; sofrerei no sofá ou na arquibancada tanto quanto Felipão na beira do gramado. Diga o que quiser, me acuse do que bem entender, mas diante do espetáculo do futebol não consigo ficar impassível ou disfarçar sentimentos. Nenhum gestor nem a falta de gestão; nenhuma política nem mesmo os maus políticos; nenhuma obra inacabada ou dinheiro desviado vão me tirar o direito de ser feliz e me emocionar com o esporte.

 

Perdão se você não concorda comigo, mas quero ver este País explodir com a alegria do drible e a glória de um gol. O brasileiro que acorda cedo, madruga no ponto de ônibus, se esmaga na estação do metrô, carece de saúde e educação, se esforça como poucos para garantir-se no emprego ou construir seu próprio negócio, não precisa ser privado do prazer de ver seu capitão erguer a Copa. Ao contrário do que muitos dizem e pensam, somos muito mais avançados do que querem crer: sabemos separar Governo de Nação, governantes de seleção. Se dúvida, lembre-se de nossa história recente na qual o eleitor jamais votou como torcedor: se é verdade que, em 1994, fomos campeões e elegemos a situação (FHC), também o é que a reelegemos, em 1998, mesmo depois da frustração do vice contra a França; em 2002, o Penta não impediu que fossemos com a oposição (Lula), e mantivemos quem era Governo, em 2006 (Lula) e 2010 (Dilma), independentemente das derrotas em campo. A não ser que você seja adepto do quanto pior melhor, tire este franzido da testa, distorça o nariz, despache o mau humor para escanteio e entre comigo nesta torcida.

Avalanche Tricolor: Grêmio, até a volta!

 

Grêmio 0 x 0 Palmeiras
Brasileiro – Alfredo Jaconi/Caxias (RS)

 

 

Como você deve saber, caro e raro leitor deste Blog, esta nona rodada marca a interrupção do Campeonato Brasileiro para que todas as atenções se voltem à Copa do Mundo. Apesar do mau humor que se percebe em relação à competição que será sediada pelo Brasil, devido ao desperdício de dinheiro público e obras inacabadas, sabe-se que a medida que o Mundial se aproxima aumenta a expectativa dos torcedores da mesma forma que a programação de rádio e TV é tomada por programas especiais. Jornais e revistas também entram nesta onda, de olho no retorno publicitário que o evento pode trazer. Assistimos todos os dias à uma espécie de esquenta para o Mundial com documentários e reportagens destacando momentos marcantes, relembrando vitórias e derrotas, entrevistando jogadores do passado, técnicos que deixam saudades e torcedores que revelam suas loucuras em verde e amarelo. Não escapamos das tradicionais matérias com representantes das colônias dos países que disputarão a Copa por aqui, a maioria das quais o máximo que se aproveita é uma boa receita da culinária exótica. Como minhas habilidades na cozinha não vão além de um café no bule e do omelete pela manhã, me atento mais as histórias que destacam os valores humanos de personagens da bola. A série com os jogadores da seleção brasileira, que está no ar no Jornal Nacional, é especial. Tino Marcos tem contado curiosidades dos atletas que estão distante dos nossos olhos quando os vemos em campo, e que têm me oferecido cada vez mais subsídios para torcer pela equipe de Luis Felipe Scolari.

 

Hoje, no início da tarde, antes de a partida do Grêmio se iniciar, assisti na HBO Latin America ao documentário “Seleção Brasileira – Paixão De Um Povo”, que no episódio reproduzido neste domingo se dedicou a nossa derrota na final de 1998 para a França, após a polêmica sobre o mal-estar de Ronaldo. Em meio a depoimentos dos protagonistas daquele acontecimento, havia declarações de jornalistas, escritores e artistas sobre o Mundial no Brasil. Um dos produtores, o cineasta Luis Carlos Barreto, entrevistou o cantor Gilberto Gil que, a partir de uma retórica complexa, tentou mostrar os motivos de o Brasil ter aceitado receber a Copa do Mundo. Confesso que até entendi a lógica dele, mas não seria capaz de repeti-la nesse espaço, mesmo porque o que mais me interessou foi o trecho final de seu depoimento quando relacionou os times pelos quais torce no Brasil, lista da qual faz parte o nosso Grêmio. O curioso foi saber que o cantor baiano esteve no estádio Olímpico para assistir à final do Campeonato Gaúcho de 1977, quando encerramos uma série de sete anos sem conquistas. Ele lembrou que ao ser perguntado por jornalistas por que torcia para o Grêmio, olhou para o céu que ainda estava azul, viu a lua que já dava suas caras naquele início de noite e justificou: “o céu é azul, a luz é branca e eu sou preto, portanto sou tricolor do Grêmio”.

 

Neste domingo sem gols, no qual voltamos a desperdiçar as poucas oportunidades e os raros lances de criatividade, tivemos de agradecer ao árbitro por nos livrar de uma derrota, e encerramos esta etapa inicial fora da zona de classificação para a Libertadores, o prazer de ouvir Gilberto Gil descrevendo sua admiração pelo Grêmio foi, sem dúvida, o momento mais marcante para este gremista.

 

Grêmio, até a volta (e aproveite bem esta parada) !

1964 nos ensinou a repudiar as ditaduras

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Cinquenta anos após o dia 31 de março de 1964 constatamos a ocupação dos principais espaços na mídia com notícia e comentários sobre o movimento civil e militar que desencadeou a destituição de Jango. Sinal que a lição que não foi apreendida em 1964 com os fatos de 1961, 1954 e 1937 finalmente foi entendida. Se a ditadura de Getúlio Vargas no período do Estado Novo de 1937 a 1945, o suicídio de Vargas 19 dias após o atentado a Carlos Lacerda em 1954, e a renúncia de Jânio Quadros em 1961, não capacitaram a nação, em 1964, a repudiar ditaduras, desta vez a memória está preservada. Inclusive sobre os episódios mais extremos, não escapando atos e autores dos piores crimes cometidos. E não foram poucos.

 

Nesta imensa massa de informações, opiniões e versões compraz-me a tarefa de externar meu ponto de vista como testemunha no papel de estudante universitário na época. Ao menos sobre dois aspectos: a origem e a data.

 

Antes de 1964, já tinha bagagem política de assistente e ouvinte assíduo de comícios e debates eleitorais, pois o discurso político e partidário era intenso no país. Fato que me possibilitou a identificar claramente uma pressão civil para chamar os militares a agir, dada a agressividade dos partidários de Jango às “reformas de base”, cujo ápice ocorreu no discurso da Central do Brasil. Um punhado significativo de empresários, assustados com a quebra de hierarquia nas forças armadas e sintomas de anarquia geral, reagiu, e junto a políticos conservadores como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Adhemar de Barros pressionaram os militares a agir. Como hoje está claro o desastre social, político, moral e econômico do período ditatorial, é importante ressaltar que na origem não era essa a expectativa. Mesmo porque o que se solicitou foi uma intervenção temporária o suficiente para novas eleições, onde estaria concorrendo além de Lacerda, Magalhães, Adhemar, o ex-presidente JK.

 

De outro lado, é comum ver jornalistas e historiadores se referindo ao golpe de 1º de abril, tentando identificá-lo como algo mentiroso. Acho um erro, pois é perigoso considerá-lo uma mentira, tal os danos causados. Além de não ser verdade, pois Olímpio Mourão Filho começou a movimentar suas tropas em 31 de março, assim como nesta mesma data o Senador Auro de Moura Andrade notificou no Congresso a vacância de Jango pela ausência do país, nomeando Ranieri Mazzilli como sucessor. Esta sim uma grande mentira.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras, excepcionalmente publicado nesta segunda-feira devido a propriedade da data.

Avalanche Tricolor: pelo direito de ser aquele garoto mais uma vez

 

Grêmio 2 x 1 Brasil-Pelotas
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

Havia um menino, desses que entram em campo de mãos dadas com os jogadores, que me chamou atenção no momento em que o Grêmio ainda cumprimentava sua torcida. Estava com a camisa tricolor, calções pretos, meias brancas, vestido de jogador. O cabelo tinha o mesmo corte (estranho) usado por Pará, e ficou ao lado dele boa parte do tempo, o que me faz crer que o lateral gremista seja um dos seus ídolos, assim como também é um dos meus. Não foi o estilo da cabeleira, porém, que fez o garotinho se destacar em meio a tantos mascotes que acompanharam o time na saudação inicial. Com o menino havia um sorriso sincero e emocionado, que brilhou ainda mais quando, com os braços erguidos, imitou o gesto dos jogadores. O olhar voltado para a arquibancada era de uma alegria contagiante. Deveria estar ali imaginando que todos os gritos e aplausos com que os torcedores recepcionaram o time fossem para ele. Deve ter por alguns segundos sonhado que assim que o árbitro soasse o apito, ele é quem estaria correndo atrás da bola, driblando os adversários, chutando a gol, livrando seu time dos perigos com cabeceios lá no alto e carrinhos rente à grama. Sei lá o que estava pensando aquele menino, mas me fez relembrar as vezes em que meu pai me ofereceu a oportunidade de ter as mesmas sensações ao entrar em campo de mãos dadas com Loivo, Anchieta e tantos outros craques que admirei.

 

De volta à arquibancada, o garotinho de cabelo estranho e rosto tomado pela alegria deve ter comemorado com seus pais ao ver Dudu, jogador com tamanho e apelido de menino, furar o mais complicado bloqueio defensivo que já enfrentamos nesta temporada e dar início a vitória que nos levou à final do Campeonato Gaúcho. Saltitou sem conter a emoção quando percebeu que o talento de Luan, outro dos nossos meninos, que já havia sido decisivo no primeiro gol, seria capaz de superar a mais violenta marcação que encarou na sua carreira com a camisa tricolor e, sem tituberar, roubar a bola, driblar dois zagueiros, o goleiro e fazer o gol que sacramentou nossa conquista. Aquele menino, o da torcida, com certeza sofreu nos minutos finais diante da possibilidade de um revés, fechou os olhos nas bolas alçadas para nossa área e vibrou com as bolas despachadas lá de dentro. E voltou a sorrir, se emocionar, quem sabe chorar, quando o jogo se encerrou e todos seus desejos (ou quase) se concretizaram nesta noite de futebol.

 

Eu, assim como ele, também me emocionei, vibrei, sofri e sonhei. Sonhei em ter o direito de ser aquele garotinho ao menos mais uma vez.

Motoristas argentinos não pagam multa no Brasil

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Em minha recente visita à Argentina tomei conhecimento de que as multas de trânsito tiveram o seu valor elevado para preços capazes de assustar até mesmo os motoristas financeiramente mais abonados. Lá,não só paga caro,além de sofrer outras penas,os que bebem antes de dirigir. Furar o sinal vermelho,estacionar em local proibido,enfim,cometer qualquer tipo de irregularidade custará os olhos da cara. Não me dei ao trabalho de converter o valor das penalidades em reais. Acreditem-me,porém,os argentinos terão de ter muito cuidado ao saírem às suas avenidas,ruas e rodovias para que não sejam multados.

 

Já sobre os nossos vizinhos, o jornal Zero Hora do dia em que escrevo o texto semanal para o blog do Mílton,ou seja,terça-feira,abriu esta manchete:

 

– De volta para o verão, hermanos devem R$20 milhões em multas

 

O número de penalidades não pagas é impressionante.Todos os anos as nossas autoridades tentam,sem sucesso,cobrar as infrações cometidas não só por argentinos,mas por outros estrangeiros. Em 2011 e 2012,o percentual de multas pagas por motoristas de outros países – os da Argentina,claro,são a maioria dos devedores – ficou em míseros 4%. Entre janeiro e dezembro de 2013,o índice é de 13%. O baixo número de infrações quitadas se explica pelas dificuldades que a Polícia Federal enfrenta para cobrá-las,seja nas estradas,seja nas fronteiras. Não é possível fiscalizar todos os veículos de turistas. Há os que se dão mal,são parados pela PRF e têm de pagar. Resta às autoridades brasileiras criarem maneiras de conscientizar os turistas afim de que não cometam infrações. Confesso que não acredito quase nada em campanhas com tal propósito. Seja lá como for,não custa colocá-las em prática e torcer para que deem certo…ou ajudem a diminuir o número de infratores dos países vizinhos.

 

Pemitam-me que mude radicalmente de assunto. Vivendo e ainda aprendendo. Do alto dos meus 78 anos,acabei de tomar conhecimento de uma palavra cuja existência e o seu significado nem de longe haviam passado por minha velha cabeça:selfie.Descobri tratar-se de importante estrangeirismo,mais um dos muitos com que temos de lidar. Afinal,li que o Oxford Dictionary,respeitadíssimo – como não ? – elegeu-a a palavra do ano. Fui ao Google – o salvador da pátria – e este me esclareceu sobre o significado de selfie:fotografia que a pessoa tira de si mesma,geralmente com um smartphone ou webcam e é carregada em um site de mídia social. Em resumo:selfie não passa de um autorretrato sofisticado graças ao uso,pelo autorretratista,de aparelhos modernos ou nem tanto,uma vez que experimentei me fotografar com um Nokia C3-00. Perdão,esqueci,também cheguei a utilizar para fazer uma foto minha,há tempo,com a webcam do PC,a fim de ilustrar (?)o meu perfil no Skype. Prometo que a ninguém assustarei com a minha selfie.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Educação é a prioridade certa

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Se uma das consequências das recentes movimentações de rua for a priorização da educação, como está se configurando, podemos comemorar desde já. A alocação dos recursos escassos, função precípua do governo, tem que ser feita de forma a otimizá-la. Priorizando a educação estaremos melhorando as condições para operar os demais serviços, como saúde, segurança, saneamento básico, habitação, etc. A ampliação do ensino de forma quantitativa e principalmente de forma qualitativa, com professores mais habilitados e com materiais adequados e atualizados, fará com que a população, mais preparada, passe a entender melhor o contexto brasileiro.

 

O caminho da educação é o único para tirar a política do ciclo vicioso atual para um ciclo virtuoso em que a população instruída estará blindada a manipulações. Prova desta hipótese podemos tirar das pesquisas de opinião, que demonstram diferença de avaliação entre os diversos graus de escolaridade. Pesquisa Datafolha, divulgada sábado, ao informar que a aprovação da COPA caiu de 79% para 65% registrou que 26% não aprovam, mas entre os de maior escolaridade este número é de 36%. Esta queda fica explicada ao verificar que 59% das pessoas pesquisadas não concordam com o dinheiro subsidiado emprestado para a construção dos estádios. Como sabemos em 2008 a promessa era de uma Copa com recursos privados, sem dinheiro público. O Datafolha fez perguntas também sobre a Olimpíada e obteve resposta negativa por 25% dos entrevistados. Entretanto, considerando apenas os de nível superior, os que são contra corresponde a 32%.

 

Curioso é que as manifestações que ora preconizam providenciais mudanças, embora originadas pelo passe livre, provavelmente evoluíram pela evidencia da Copa das Confederações. E surge daí um subproduto da COPA 14, digno de ser reverenciado, principalmente pelos mais escolarizados.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

O futebol e o orgulho de ser brasileiro

 

 

Lorenzo acordou cedo. Ainda está confuso pela diferença de cinco horas. Havia dormido tarde para assistir ao Brasil ser campeão pela primeira vez. Da última, em 2006, tinha apenas seis anos e quase nada lembra de Felipão e sua família em campo. Há muito não se mostra entusiasmado com as coisas do futebol, prefere os jogos de computador e seus ídolos sul-coreanos, capazes de vencer adversários em qualquer parte do mundo. Do meu Grêmio, curte mais ver o pai sofrendo e sorrindo do que propriamente, o time. Ontem à noite, aqui na Itália, se aboletou ao meu lado no sofá para ver na televisão a final da Copa das Confederações contra a Espanha, repetindo o que havia acontecido na semifinal, quando ainda estávamos em São Paulo.

 

Ele assiste ao jogo de uma forma diferente da minha, que me concentro apenas na TV. Está com um fone no ouvido, o Ipod nas mãos, os olhos na tela e curioso para cada acontecimento. Assim como eu, se assustou ao ver o gol em menos de três minutos em um jogo que eu havia dito a ele que seria muito difícil de vencermos. Lorenzo não tem as informações que eu tinha do adversário, além de saber que a Espanha era a campeã de quase tudo e tinha um goleador chamado Torres, mais famoso para ele por ser alvo das brincadeiras nas redes sociais. Talvez por isso não tivesse o mesmo medo que eu, e entrou para a partida confiante na conquista.

 

O futebol se transformou em uma tremenda diversão para nós. O gol deitado de Fred, a comemoração no meio da torcida (pai, posso ficar lá no próximo jogo?), a caça dos espanhóis a Neymar, a firmeza da nossa defesa. Esse era para matar, heim, pai? – disse ao ver Paulinho tentar um gol de cavadinha lá de fora da área. Comemorou ao meu lado quando David Luiz e sua cabeleira despacharam a bola para fora do gol brasileiro com um carrinho que deveria ter sido festejado na galera, se houvesse tempo. O velho Felipão, cara de avô e bigode de gente boa, foi motivo de muitos comentários entre nós. A bronca nos jogadores quando o domínio era nitidamente verde e amarelo e os espanhóis estavam batidos causou dúvidas nele. Responsabilidade, Lorenzo – explquei de bate-pronto. Já era madrugada por aqui quando eu e Lorenzo fomos para a cama, felizes por vermos que o futebol brasileiro voltava a ser campeão e era motivo de elogios dos comentaristas da TV italiana.

 

Agora cedo, cara de sono, café a ser servido, antes mesmo do bom dia, ouvi dele:

 

– E o orgulho de ser brasileiro, heim, pai?
– Foi uma baita vitória, mesmo, respondi.
– Não, tô falando do pessoal que está protestando, não vai parar, vai?

 

Pegou a bola, me deu um drible e se foi embora aproveitar as férias.