Fora da Área: com sofrimento, emoção e lágrimas ganhamos os que torcem pelo Brasil

 

 

Falei com o pai por telefone pouco antes de a partida começar. Assim como na minha, na casa dele também tem quem não torça pela seleção do Brasil. Sentimento que, confesso, não consigo entender especialmente em Copas do Mundo. Não que as pessoas tenham o dever de vibrar com as coisas do futebol, mas bem que poderiam ser solidárias aos milhões de brasileiros que buscam na bola o prazer do sorriso. Mas vamos deixar para lá tudo isso, afinal este texto é para comemorar a passagem do Brasil às quartas de final e o iniciei pela conversa que tive com meu pai porque ele havia me perguntado quem seria o maior torcedor da seleção aqui em casa. Respondi de bate-pronto que era eu, pois os meninos nunca tiveram esta ligação que tenho com o futebol e muitas vezes assistem às partidas de canto de olho, pois o grosso do olho está voltado para as acirradas disputas no League of Legend, jogo eletrônico com maior número de adeptos no mundo, no qual ambos são craques. Verdade que, nesta Copa, o interesse deles aumentou de forma considerável, provavelmente resultado do barulho que o Mundial provoca na internet e entre colegas na sala de aula. Saiba, porém, caro e raro leitor deste blog, que após ter visto o que vi durante a disputa de vaga contra o Chile vou ter de voltar a ligar para meu pai e corrigir a resposta.

 

Diante da televisão, a medida que o Brasil revelava-se incapaz de apresentar um desempenho a altura da nossa expectativa, meus dois guris, sentados, um no sofá e o outro no piso, sofriam como somente os torcedores de futebol sabem sofrer. Um esfregava as mãos no rosto insistentemente, enquanto o outro se agarrava nas almofada como tentando se proteger dos riscos de gols que surgiam a cada falha do nosso sistema defensivo. Um se calava, querendo entender por que o Brasil não era capaz de ficar com a bola em seus pés, enquanto o outro praguejava para se desfazer do nervosismo. Compartilhavam comentários sobre o sumiço de Neymar e a tentativa de drible de Neymar; o erro de Hulk e a tentativa de chute de Hulk; a ineficiência de Fred e a de Jô, também; o toque de bola do Chile, a velocidade do Chile. Pô, o Chile de novo!Que susto! Juntos reclamamos o gol anulado, a falta não marcada e o impedimento assinalado, mesmo sabendo que o juiz tinha razão. Torcemos pelo fim do jogo, pois temíamos o gol adversário. Ficamos satisfeito com o Brasil da prorrogação e com medo da decisão nos pênaltis. Que isso! Gritamos antes do silêncio que tomou conta da sala na bola que explodiu no travessão de Julio César no último minuto de jogo.

 

A vaga decidida nos pênaltis era novidade para eles em Copa do Mundo. Assisti de mãos dadas com o que estava mais próximo. Mãos que suavam frio. Que tapavam os olhos. Que se contraíam na cobrança chilena. Que se contorciam na cobrança brasileira. Que socavam o ar na comemoração de cada gol marcado e voltavam a se juntar por Júlio César. Angústia transformada em alegria na bola final que bateu no poste, e em pura emoção ao vermos as lágrimas do nosso goleiro que chorou copiosamente diante das câmeras, diante do Mundo – cena que me dá a certeza de que raras atividades permitem a dor e a redenção em praça pública como o futebol. E por isso sou um torcedor de futebol e fico ainda mais feliz em descobrir que meus filhos, também.

17 comentários sobre “Fora da Área: com sofrimento, emoção e lágrimas ganhamos os que torcem pelo Brasil

  1. É isso aí Milton. Apenas um comentário sobre a sina do Mauro Betting. Está pagando caro o infeliz comentário de que o Fred joga melhor que o Luiz Fabiano até sentado. Nem no Mineirão e nem joga melhor que ninguém.Ou melhor, só melhor do que o Jô.
    Quanto ao gol do Hulk, que o redimiria da falha no gol do Chile, assisti dezenas de vezes o lance, e tenho opinião que o bandeira estava atrás, no pior ângulo e foi pressionado pelos chilenos. Hulk não usou braço, só o peito.
    Mérito mesmo foi do Júlio César. Que virada sensacional.

    • Carlos,

      Fred é um atacante de altos e baixos como a maioria dos nossos atacantes disponíveis, inclusive Luis Fabiano. A verdade é que o Brasil não tem jogadores definitivos para esta posição. Quanto ao erro do árbitro considero justificável pois diante de vários ângulos que assistimos muitos ainda ficaram dúvida, imagine o árbitro na velocidade da jogada (e sobre a pressão de que a Copo está comprada). Aliás, Carlos, o que devem estar planejando os que espalharam textos nas redes sociais de que a Copa estava comprada pelo Brasil? Será que esqueceram de avisar os chilenos? Ou será que a bola no travessão no minuto final da prorrogação fazia parte desta encenação. Haja criatividade e precisão.

  2. Pois Milton, torço para um futebol bonito e isso está longe de acontecer com nossa seleção. Portanto, que caia fora o quanto antes, pois seria o cumulo divinizar novamente jogadores que não merecem (como aconteceu em 1994 nos EUA com jogos ruins e mesmo assim sendo campeão). O futebol não merece.
    Sou mais um dos que torcem contra, portanto.
    Futebol feio, ruim, gols em impedimento, com a ajuda do juiz etc e tal, só valem para o nosso tricolor….

    • Gunar,

      Permita-me discordar de você. O Brasil não marcou um só gol em impedimento, e o único erro do juiz a nosso favor ocorreu em lance facilmente “errável” na primeira partida. Lance que se assemelhou aos de ontem contra o Chile quando o árbitro não deu um pênalti para o Brasil e anulou o gol de Hulk. Apesar de as imagens mostrarem que ele estava errado, foram lances difíceis de serem percebidos e portanto o erro é justificável. Ou seja, até aqui houve erros humanos no meu entender que tanto ajudaram como atrapalharam o Brasil. Quanto ao futebol feio, lamento discordar de sua opinião novamente: também quero ver o Brasil dando show em campo, assim como o nosso Grêmio, mas se isto não for possível que nos deem a alegria do título. Eu mereço esta alegria.

  3. Como é bom estar rodeado por torcedores da Seleção Brasileira em um jogo de Copa do Mundo,ainda mais se quem vibra ou mesmo se assusta com o que vê são os nossos filhos. Tive ótimos exemplos disso quando Jacque,Milton,Christian e a mãe deles torciam comigo,por exemplo,vendo o Grêmio conquistar suas grandes vitórias. Foram noites inesquecíveis. Nossa Seleção,mais do que satisfações, nos fez passar maus momentos na frente de televisores que mostram com clareza aquilo que juiz não enxerga,assistente faz de conta que não vê e torcedor fecha os olhos para que não mirem aquilo que o desgoste. Nessa partida com o Chile,apesar dos pesares,teve algo que,ao mesmo tempo,me emocionou e confortou porque fez justiça à vítima maior do fracasso na África: Júlio César. Lágrimas rolando dos seus olhos ao ser entrevistado no fim do jogo,devem ter lavado sua alma,pelo menos um pouco,do que precisou ouvir des bocas maledicentes nos último quatro anos. Ele foi,para mim,o melhor jogador da Seleção Brasileira,coroando a sua atuação com as defesas nos tiros diretos da marca do pênalti e fazendo as pazes com a sorte,da qual todos os goleiros precisam,ao tirar com os olhos a bola que bateu no travessão.

    • Pai,

      Ao ler sua mensagem fiquei tentando lembrar de alguma Copa do Mundo que assistimos juntos, mas não consigo lembrar. Talvez porque no nosso tempo não tínhamos os jogos à disposição na TV que reúne a família em um mesmo ambiente. Ou porque minha memória é ruim mesmo. Lembro das Copas que você participou profissionalmente, a começar pela Alemanha. E da que trabalhamos juntos, em 1990, você na Guaíba e eu na Gaúcha, você na Itália e eu na redação em Porto Alegre. Em relação aos jogos do Grêmio, lembro muito mais da gente no estádio do que em casa, até porque não saímos do Olímpico, onde assistimos a belas vitórias e “esquecíveis” derrotas.

  4. Caríssimo Mílton Jung, parabéns por mais um texto muito bem escrito, dividindo conosco momentos indeléveis com a sua família. Você é demais.

  5. Oi Milton. Que jogo! Dos meus dois garotos o mais novo, de onze anos sabe tudo de futebol, completou o álbum só no bafo e assiste VT de jogos de times que eu nem sei o nome, pra saber se fulano está justificando o que custou. Mas não joga nada. O outro, não liga pra nenhuma dessas informações, acha tudo bobagem, mas bate um bolão de encher os olhos. O fato é que eles jamais haviam experimentado a adrenalina de ontem no futebol. Estão meio eletrizados até agora. “Então foi assim com Paolo Rossi, mamãe?” Ah meu amor, ‘sabe nada inocente’ isso não chega nem perto!!! Não dá nem pra comparar. O melhor está por vir. Espero. Abraço Milton.

    • Elizabeth,

      Torcedores, assim como cidadãos, são forjados no sofrimento. E a lição que temos a aprender é transformar a pedra no caminho em degrau.

  6. Eu confesso que tenho fases em que me desanimo um pouco com o futebol, mas passa rapidinho quando vejo a minha torcida corinthiana na TV. Em relação à Copa do Mundo, fiquei muito chateada vendo tanta torcida contra e críticas que encheram os jornais e redes sociais durante os preparativos. Mas tudo isso foi embora no dia da abertura do mundial, quando eu estava voltando da casa de uma amiga e vi o clima maravilhoso das torcidas no metrô, indo o Itaquerão. E assim está sendo. Onde eu vou tem essa alegria, essa confraternização, pessoas que se permitem esquecer um pouco os problemas do dia a dia e se unem numa mesma vibração. Estou acompanhando os jogos de todas as formas possíveis. Já assisti em casa, em botecos, nos arredores do Itaquerão, na Vila Madalena e na Fan Fest, no Anhangabaú. Gosto de ir onde há muvuca mesmo, onde tem povo que vibra e que sofre, como eu ontem que chorei com Julio Cesar. A Copa do Mundo está no meu país, e este é um momento único.

    • Maria Cláudia,

      A chegada dos turistas é mágica pois traz o clima da Copa e isto ajuda a transformar. A organização da Fifa, instituição justamente criticada por suas mazelas, impõe respeito e ordem (o que aconteceu com os chilenos, no Maracanã, foi ponto fora da curva). E o privilégio que o poder público dá ao evento, canalizando seus esforços, pessoal, dinheiro e estratégia tendem amenizar as falhas potenciais. É o caso, por exemplo, da mobilidade crítica no país, mas que funcionou na Copa. Tudo isso, porém, não nega a apreensão e pressão que ouve antes do evento. Dinheiro foi desperdiçado, obras essenciais foram canceladas ou não foram entregues. E quanto a isto precisamos ser críticos, o que não invalida nosso direito de aproveitar a satisfação que a Copa e o futebol nos oferecem.

  7. Milton, penso exatamente como você. A pisada na bola foi do Mauro Betting. Quanto ao gol do Hulk, a orientação mais correta é na dúvida dar o gol, assim como nos impedimentos. Entretanto os árbitros e bandeirinhas fazem exatamente ao contrário.
    A solução virá quando optarem pelos recursos eletrônicos. Blatter já sinalizou em dar o poder do desafio aos técnicos.
    A turma do futebol precisa deixar argumentos antiquados de lado, como a questão de interromper o jogo. Parece até que esquecem quantos minutos reais de futebol são jogados.

    • Carlos,

      Na jogada do gol do Hulk, o curioso é que talvez nem o recurso eletrônico salvasse. Os comentaristas assistiram de vários ângulos e até agora discutem se foi ombro, braço, peito ou seja lá onde foi.

  8. Não sou daqueles que torcem contra, mas a favor também não – kkkk

    A primeira defesa do nosso goleiro nas cobranças me lembrou o Rogério Ceni, tão adiantado quanto. Estão até dizendo que o R.C já está treinando para o Catar de tão adiantado que é… Agora o que me chamou a atenção foi o choro de alguns atletas. Fiquei pensando se era de vergonha pois não conseguiram eliminar a “potencia” chilena no tempo normal…

  9. Milton, na Copa de 1970 eu estava na barriga da minha mãe…em 1982, estava no alto dos meus 11 anos, e me lembro bem daquela seleção que nos enchia de um orgulho absurdo porque era um time dos sonhos(Zico, Sócrates, Falcão, Careca, etc)….nem lembro direito onde foi a Copa daquele ano….fiquei tão revoltada com o resultado e a arbitragem no jogo que a Itália eliminou o Brasil (lembro até hoje) que joguei a camiseta no telhado, e prometi a mim mesma que nunca mais iria torcer pelo Brasil, de tanto que sofri ao assistir aquela partida. Lógico que esqueci da promessa nos anos seguintes, mas lembro que foi traumático aquele jogo e não torcia mais com a mesma vontade. Nem em 1994.Até o Brasil ganhar…aí sim….chorei com todo mundo a conquista do tetra.Em 1998, fiquei revoltada como todo mundo ficou….e prometi nunca mais me envolver com a Copa assim…mas é impossível, todo brasileiro pára seu cotidiano para ver e crer na seleção, independente do time escalado….é uma paranóia sem explicação…parece que a gente tem que desengasgar este grito de vitória a cada quatro anos, e, diga-se de passagem, que a torcida não é a mesma do time do coração…….enfim, tudo isso pra dizer, que eu chorei depois da bola na trave, junto com todos os jogadores da seleção., pq. não consigo ficar sem essa emoção, e que não vou ficar sem torcer, mesmo reconhecendo que isso não vai mudar vida.

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