Buenos Aires: apesar da crise, a cidade ainda encanta

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

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A crise na Argentina parece piorar a cada dia. O mercado do luxo no país é um dos que mais se abalaram com a situação do país presidido por Christina Kirchner. Como já falamos anteriormente, aqui no Blog do Mílton Jung, diversas lojas de marcas internacionais fecharam suas portas, em Buenos Aires, por conta da intensificação das medidas adotadas pelo governo argentino para restringir importações e operações em moeda americana.

 

Ralph Lauren, Louis Vuitton, Nina Ricci são algumas das que já deixaram o país por conta dessa situação. As poucas que restaram estão saindo, o que mostra uma situação com tendência a piorar. Ermenegildo Zegna, que ainda mantinha sua linda loja na Avenida Alvear, no bairro da Recoleta, também fechou, há alguns meses. Tiffany&Co é uma das poucas grifes internacionais que ainda não deixaram o país e segue no Shopping Patio Bullrich, também na Recoleta. A falta de produtos nas lojas dessas marcas foi um dos principais problemas decorrentes da limitação às importações que as impediam de abastecer com artigos do exterior.

 

Em minha recente visita a Buenos Aires, foi triste notar que, a cada ano, a cidade está mais descuidada e suja e a Argentina, com inflação assustadora. Em relação a junho de 2014, quando estive ali pela última vez, notei que de lá para cá muitos produtos, inclusive os menus em restaurantes tradicionais, tiveram um aumento de 50%. Apesar da moeda argentina estar desvalorizada perante o real brasileiro (1 peso = 3,10 reais), a capital portenha hoje está longe de ser um destino barato para os brasileiros ou ao menos barato como há alguns anos esteve em relação a São Paulo.

 

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Apesar da crise e suas conseqüências, os segmentos de hotelaria, gastronomia e arte ainda garantem à capital portenha seu charme e sofisticação. Hotéis de luxo como Palacio Duhau-Park Hyatt, Four Seasons, Alvear Palace e Faena investem cada vez mais na excelência em serviços prestados e em sua gastronomia. Chás da tarde, brunch aos domingos além do ambiente dos hotéis. O Faena, por exemplo, projetado por ninguém menos que Philippe Starck, é um ícone do luxo contemporâneo e o favorito dos mais antenados que valorizam design, luxo e gastronomia. O ambiente do hotel é moderno e incrível, bem como de seus restaurantes e sua famosa piscina, que tem uma imponente coroa.

 

Buenos Aires, bem como toda a Argentina, vive uma situação como nunca. Um país que não tinha pobreza, hoje tem na capital federal inúmeros moradores de rua. É triste e inaceitável, como em nosso lindo Brasil, ver um povo chegar a tamanha pobreza e miserabilidade. Como tudo depende do olhar de quem vê, apesar desse cenário, eu ainda olho a capital portenha com brilho nos olhos. O seu luxo intrínseco e seu charme estão vivos em suas construções, em sua história e em seu ar de cidade sofisticada, de que sempre teve fama. A arte, a cultura, a arquitetura e as experiências gastronômicas felizmente parecem ser imortais na capital da Argentina.

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Sim! Buenos Aires ainda é um luxo

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

 

Que a Argentina enfrenta forte crise é fato e o mercado do luxo vem sendo afetado consideravelmente. Desde quatro anos para cá, muitas marcas internacionais deixaram o país por causa da intensificação das medidas adotadas pelo governo de Cristina Kirchner com o intuito de restringir importações e operações com dólar.

 

O charmoso e tradicional bairro da Recoleta, que antes reunia lojas de grifes como Louis Vuitton, Emporio Armani, Ralph Lauren e Nina Ricci – estas na tradicional Avenida Alvear – agora mostra nova realidade. Algumas lojas internacionais deram lugar a marcas locais, como a argentina Cardon, hoje ocupando o prédio onde era a Empório Armani, e outras estão fechadas e sem funcionamento. Por outro lado, na esquina da Avenida Alvear com a Calle Montevideo, a joalheira Simonetta Orsini anuncia a abertura de uma nova loja. Afinal, o consumidor do luxo efetivo não deixa de existir, mesmo com a crise no país.

 

 

Se o varejo de luxo enfrenta situação difícil, a gastronomia e a hotelaria impedem Buenos Aires de perder seu charme e sofisticação. Hotéis de luxo como Alvear Palace, Palacio Duhau-Park Hyatt, Four Seasons e Faena investem cada vez mais na excelência em serviços prestados e na excelente comida. Chás da tarde, brunch aos domingos e programas especiais com tema gastronômico são algumas das experiências que se pode vivenciar nesses hotéis prestigiosos da capital portenha.

 

Buenos Aires pode não estar vivendo seu melhor momento para o consumo de produtos de luxo, porém a cidade não perdeu seu luxo intrínseco, sua sofisticação, seu charme. Esse é o luxo de verdade. A sua história, sua tradição. Vivenciar o que a cidade tem para oferecer. Afinal, luxo não é comprar. É viver e experimentar. É sensorial. O luxo em Buenos Aires continua vivo: na arte, na cultura, na arquitetura incrível da cidade, nas experiências gastronômicas… que merece ser apreciado!

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

A elegância das argentinas que não existe mais

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Faz alguns anos que,na Rádio Guaíba,me permitem gozar férias em duas etapas. Tirei a segunda parte,desta vez,para passar dez dias em Buenos Aires. Maria Helena,minha mulher,ensinou-me a gostar de visitar a capital da Argentina. Bem antes de nos conhecermos,acostumou-se,com os seus pais, a fazer isso com certa frequência.Os Frantz,nos anos 70,fizeram de ônibus as suas primeiras viagens para o país vizinho. Depois,entretanto,iam de avião. Em geral,escolhiam, para visitar BsAs, nas épocas em que,como está ocorrendo agora,o nosso dinheiro valia mais que o argentino. Já eu estive em Buenos Aires,se não me falha a memória,no mínimo duas vezes,mas a serviço. Deveria ter permanecido,um mês por lá na Copa do Mundo de 1978. Como não quis ficar todo esse tempo longe da minha família,narrei apenas um jogo daquela competição:Áustria 1 x 0 Suécia,no Estádio Monumental de Nuñez. Assisti,também,a um jogo de basquete entre o Obras Sanitárias (argentino) e o Sírio Libanês (brasileiro).

 

Maria Helena foi a Buenos Aires com o filho dela,o André,a Márcia,mulher dele e a neta Luciana,em novembro de 2011. André e Márcia nos acompanharam agora. Como de hábito,já na primeira noite elegemos o show de tangos que,de antemão,sabíamos ser o melhor: Señor Tango. O chefão da magnífica casa de espetáculos é Fernando Soler,nome que,pelo menos para os amantes do tango,é sobejamente conhecido até aqui em Porto Alegre. O cenário é fantástico,posso garantir. Na nossa segunda noite,experimentamos assistir à exibição dos bailarinos e bailarinas da Madero Tango,cujo nome se deve à zona na qual está situado:o Puerto Madero. Na orla do Rio de La Plata,o bairro assim denominado está repleto de restaurantes famosos pelas iguarias que oferecem. Na noite do show do Madero Tango chovia a cântaros. As vans que conduziram hóspedes de vários hotéis,inclusive o nosso,em atitude que provocou protestos generalizados,deixou-nos longe do prédio no qual jantaríamos e assistiríamos ao show. O resultado foi mulheres com penteados desfeitos pela água e todo o mundo com as roupas molhadas. A apresentação dos bailarinos,entretanto,de certa maneira,salvou a noite.E a janta também.

 

O nosso terceiro programa foi um passeio turístico. Maria Helena imaginou ter combinado um aquático, pela beira do Rio de La Plata. Estranhamos o roteiro do ônibus que nos levava,eis que era muito parecido com um nosso velho conhecido. Não estaríamos indo visitar novamente o Delta do Rio Tigre,em que se permanece durante mais de uma hora dentro de um catamarã,olhando nas margens,antigas mansões abandonadas e algumas ainda em bom estado de conservação,essas,com píeres em que os proprietários ancoram os seus barcos? Imagino que,no auge da região,agora decadente,a vista dos prédios deveria ser bem interessante. Fizemos – com perdão pela expressão que talvez seja politicamente incorreta – um legítimo “passeio de índio”.

 

Quem nunca foi a Buenos Aires ou faz muito que não põe os pés nessa grande e bela metrópole,informo que vale a pena comprar artigos de vestuário,tanto masculinos quanto femininos,porque são bem mais baratos do que no Brasil. Não se gasta muito,igualmente,para tomar o café da manhã com maravilhosas “medias lunas”. Além disso,duas coisas chamaram a minha atenção,uma positiva e outra que eu diria ser negativas,ou muito me engano. Não vi congestionamentos no trânsito do tipo a que estamos acostumados a enfrentas nas grande cidades brasileiras. Buenos Aires criou corredores de ônibus em uma das principais vias da cidade: a Nueve de Julio.E esses funcionam muito bem. Claro,os pedestres têm de ter uma certa paciência porque essa avenida é larga e os semáforos demoram quando fecham para quem anda a pé. BsAs era famosa – e aí vai o fato negativo – porque,a cada passo,antigamente,deparávamo-nos com belas e bem vestidas mulheres. Não pensem que guardei só para mim tal percepção:Maria Helena concordou comigo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O luxo na Argentina morre aos poucos

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

A crise no Mercado do Luxo na Argentina não é novidade. Desde o ano passado, diversas lojas de marcas internacionais fecharam suas portas em Buenos Aires, capital do país, por conta da intensificação das medidas adotadas pelo governo argentino para restringir importações e operações com dólar. Marcas prestigiosas como Empório Armani, Escada, Cartier e Louis Vuitton são algumas das que já deixaram o país por conta dessa situação. Ao que parece, o cenário tende a piorar.

 

Com o objetivo de desencorajar o consumo extravagante, a presidenta Christina Kirchner anunciou novos impostos sobre produtos de luxo. A medida é a última de uma série de movimentos governamentais destinados a conter a inflação. A Argentina sofre com a queda mensal de US$ 1 bilhão nas reservas do Banco Central e com a alta dos preços varejistas que as consultorias privadas apontam em quase 30% ao ano. No segmento automotivo, um dos que mais serão afetados, argentinos de alto poder aquisitivo compram veículos importados cotados em pesos à taxa de câmbio oficial, mas com dinheiro que trocam no mercado paralelo a 10 pesos por dólar americano. Assim, quem possui um carro de luxo consegue pagar a metade do valor em dólares ou euros. As reservas do Banco Central caíram de US$ 42 a US$ 31 bilhões este ano, na pior sangria desde 2001.

 

A falta de produtos nas lojas de luxo da capital portenha foi um dos principais problemas para as marcas. A limitação às importações afetou as marcas de luxo que, impedidas de abastecer suas lojas com artigos que chegam do exterior, começaram a fechar as portas. Sem produtos em suas prateleiras, consumidores, muitos deles brasileiros e com sede de consumo, frustravam-se por não poder comprar. A loja da Louis Vuitton, localizada na prestigiosa Avenida Alvear, no bairro nobre da Recoleta, até então vizinha de outras grifes como Hermès e Ralph Lauren, foi a primeira loja da grife francesa na América do Sul.

 

Se no varejo de luxo a crise está assustadora, para os hotéis de luxo a situação é menos drástica. Buenos Aires ainda é uma cidade atrativa para os amantes de gastronomia, arte e cultura. Os hotéis de luxo tem investido em programas com temáticas ligadas a temas como gastronomia, caso do hotel Palacio Duhau Park Hyatt Buenos Aires, que além de seus pratos de alta gastronomia em seus restaurantes, é criador do Masters of Food & Wine, programa especial que reúne eventos gastronômicos no hotel.

 

É triste ver um país que, no passado, foi um dos principais alvos do segmento de luxo na América do Sul. Em um movimento contrário, países vizinhos como Brasil e Chile estão avançando sua participação nesse segmento e com perspectivas de crescer ainda mais.

 

Ricardo Ojeda Marins é Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Atualmente cursa MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

A culpa é da Cristina

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os pais de Maria Helena, minha mulher, fizeram inúmeras viagens de turismo à Argentina. A primeira visita do casal Edvino e Wanda ocorreu em 1948. Na ocasião, Juan Domingo Perón governava há dois anos o país vizinho. Seu mandato, que terminaria em 1952, como Perón foi reeleito, se estenderia até 1958, mas não chegou a esse ano por força do golpe militar que o retirou do poder. Após 18 anos de exílio,Juan Domingo Perón voltou ao poder. Faleceu, porém, sem completar o seu terceiro mandato.

 

Fiz esse introito para lembrar a quem não se liga a fatos históricos quando não se trata do nosso país que, décadas atrás, o turismo de brasileiros na Argentina não chegou a ser muito prejudicado por questões políticas, envolvendo os seus governantes e governados, o que está acontecendo agora sob o governo de Cristina Fernández de Kirchner. Aliás, os prejudicados pelas absurdas exigências presidenciais não são apenas os brasileiros que gostam de visitar “los hermanos”, mas, o que é pior, os argentinos que viajam ao exterior.

 

Maria Helena e o seu filho André foram várias vezes à Argentina antes que eu e ela, ano após ano, passássemos parte das minhas férias em Buenos Aires. Nesta década, além dos passeios, da abundância de ótimos restaurantes, cafés e imperdíveis shows de tangos, a moeda argentina sempre perdeu para a nossa. Assim, reforçar o guarda-roupa com artigos oferecidos por lojas tradicionais e shoppings, era obrigatório.

 

Escrevi a frase anterior colocando o verbo no passado, pois neste ano que dá os seus derradeiros suspiros, não estivemos em Buenos Aires. Quebramos, com isso, o que tinha se transformado para nós em agradável rotina. E a culpa é de Cristina. Ficamos com medo de manifestações realizadas pelos que são contrários a Presidente. Essa, além de certas medidas estapafúrdias que machucaram impiedosamente o bolso dos patrícios dela, investe contra o Grupo Clarín, com a Lei da Mídia, fingindo que está democratizando a mídia e restringindo monopólios. “Dueña” Kirchner imita, de certa forma, Chávez, Evo Morales e outros que tais sul-americanos. Convém não perder Cristina de vista. Ditadores e seus aprendizes adoram cercear a liberdade de expressão.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Escreve, às quintas-feiras, no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Os caminhos de Buenos Aires

 

Ciclofaixa em Buenos Aires

Por Milton Ferretti Jung

Minha mulher e eu estivemos, desde domingo, dia 3 de abril, visitando Buenos Aires, para onde temos ido quase todos anos. Graças ao fato de estarmos no vigésimo-sétimo andar do hotel em que nos hospedamos, com vista, a partir da Avenida Corrientes, para boa parte da cidade, constatei que, apesar das queixas dos portenhos, lá o trânsito apenas tende a ficar congestionado quando piqueteiros de todos os credos realizam suas manifestações.

Aliás, a Presidenta da República Cristina Fernandez de Kirchner costuma incentivar algumas dessas manifestações. Faço um parênteses a fim de esclarecer que, para os argentinos, há presidentes e presidentas, enquanto para nós,brasileiros, o certo é chamar o primeiro mandatário da nação de presidente, seja qual for o seu sexo. Lembro que Isabelita Perón foi a primeira presidenta deles. Então, neste particular, se nos fixarmos somente em números.os “hermanos” estão a nossa frente.

Volto ao meu assunto: trânsito. É claro, em horários de pico, o fluxo de veículos se torna mais denso, o que é absolutamente normal. O desenho de Buenos Aires é muito melhor que o de São Paulo, uma das razões para que os problemas sejam menores que os vividos pelos paulistanos.

Nas outras visitas que fiz a Buenos Aires não notei que as autoridades se preocupassem (posso estar iludido) com a criação de “bicisendas”, o equivalente as nossas ciclovias. Agora, entretanto, fiquei surpreendido com a existência de “bicisenda” numa das transversais da Corrientes, a Suipacha. Plantaram na rua árvores que estão ainda em fase de crescimento. Esta via é estreita. Há ônibus que descem pela Esmeralda e subiam pela Suipacha. Estes são obrigados, agora, a fazer uma volta bem maior para que cheguem ao seu destino.

Outro problema que constatei é que os ciclistas, em sua maioria, aproveitam a ciclovia para rodar em alta velocidade quando descem a rua, sem respeitar os pedestres que correm risco de atropelamento se, por distração, tentam atravessar a via de costas para as bicicletas. Entre as duas ciclovias – a que sobe e a que desce – há uma faixa exclusiva para pedestres: uma “peatonal”.

Seja lá como for, creio que a intenção dos idealizadores da inovação foi das melhores. Seria interessante, todavia, que procurassem encontrar jeito de corrigir os problemas por mim citados.

Antes de encerrar o texto, sugiro a quem puder, que faça uma visita a Buenos Aires A diferença entre o valor do cruzeiro e do peso, favorável a “nosotros, permitem que os brasileiros façam o mesmo que os argentinos, décadas atrás: “dame dos” – diziam ao comprar em nossas lojas ou ao visitar nossos restaurantes.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Minhas férias (lá se foram)

 

Volta às aulas era sempre assim. A professora pedia uma redação na qual teríamos de contar como foram as férias escolares. Nem sempre tínhamos coisas interessantes para escrever, mas o número de linhas era pré-estabelecido. Aí, era aquele enorme esforço para preenchê-las com algo legal e sem muitos erros de gramática. Lembrei disso ao pensar neste post que marca meu retorno ao trabalho depois de 15 dias de férias e uma semana inteira de folga devido ao Natal. Vamos à lição de casa:

 

Dique em Porto Madero

Buenos Aires, na Argentina, e Colonia del Sacramento, no Uruguai, foram meus portos seguros nestas férias de dezembro. As duas cidades que estão em margens opostas e próximas do Rio da Prata se completam. Um barco, cerca de R$ 150, alguma burocracia de fronteira e uma hora separam a capital argentina fundada em 1536 da mais antiga cidade uruguaia, que surgiu no século seguinte, em 1679.

A primeira, uma metrópole caótica com comércio de qualidade e tradição preservada em alguns de seus bairros. A segunda se contrapõe oferecendo tranquilidade excessiva e ruas e prédios históricos a vista de todos. Interessante casar o passeio pela riqueza de elementos e preços bastante atrativos, seja para comprar, se alimentar ou se hospedar. Cruzar o extenso Rio da Prata deveria ser programa obrigatório para quem vai a Buenos Aires, tanto quanto visitar a Ricoleta, o Boca e o Porto Madero.

Os portugueses, sob o comando de Manuel Lobo, tinham mesmo a pretensão de criar no pedaço de terra mais próximo da Argentina uma base que lhes permitissem chegar ao território dominado pelos espanhóis. Estes logo entenderam as más intenções lusitanas e botaram seus navios do outro lado, expulsaram os recém-chegados e tomaram o território, só o devolvendo muitos tratados depois.

Centro de Colonia del Sacramento

Aliás, esta mistura portuguesa e espanhola é possível de se perceber em Colonia del Sacramento com casas de tijolo e pedra que se avizinham, todas ao longo de ruas calçadas como antigamente, sem um só pingo de asfalto. Por ali passam poucos carros e a preferência é para lambretas e carrinhos de golfe, alugados com facilidade para quem não quer caminhar.

A cidade não tem mais de 21 mil moradores, dos quais apenas dois são brasileiros – outro contraste com Buenos Aires que, sozinha, tem quase a mesma população que o Uruguai inteiro. Há quem a compare com Parati, no litoral fluminense. A mim lembrou Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo (sem o rio, é lógico).

Não vá até lá esperando luxo e requinte nem mesmo uma farmácia com produtos básicos para a higiene pessoal. Nas lojas, a aposta é pelo artesanato. Esteja preparado para a conversão, pois eles aceitam dinheiro de qualquer nacionalidade e origem – não deve ser uma coincidência que o Uruguai é visto como uma espécie de paraíso fiscal sulamericano.

Carros da metade do século passado desfilam pelas ruas mais “modernas” ou fazem pose estacionados no centro antigo. Novos apenas os da frota de táxi que ajuda no deslocamento dos hotéis para os pontos turísticos.

Aproveite para relaxar, refletir e fotografar.

Patins em Buenos Aires

Se em Colonia há poucos brasileiros, em Buenos Aires nós estamos saindo pelo ladrão (sem trocadilho, por favor). As lojas estão tomadas pelos conterrâneos com carteira recheada de real forte. Os restaurantes, também. Em ambos, produtos de qualidade enchem os olhos e o estômago. Tive de me conter em um caso e em outro, pois vinha de um dieta programada para o fim do ano.

Confesso que sinto inveja do que os argentinos foram capazes de fazer em Porto Madero, principalmente após ter visitado, logo no início das férias, o cais de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – grande desperdício. Fiquei hospedado ali perto e da sacada do apartamento enxerguei coisas muito agradáveis. Saudáveis, em especial.

Ciclofaixas se estendiam por boa parte do trajeto que fiz em Buenos Aires e muita gente de patins brincava em grupo. Passear na cidade me faz pensar como seria agradável São Paulo com este espaço para pedalar e patinar.

O que não dá saudade é o trânsito, mesmo porque estamos falando da segunda maior área metropolitana depois de São Paulo. Principalmente durante a semana, dirigir por lá me pareceu uma ação tresloucada.

Na região próxima do Aeroparque (o Congonhas portenho), os carros se misturam aos enormes caminhões que transportam carga no porto e ônibus coloridos que levam passageiros para os bairros da cidade. Os “marronzinhos” que vestem jalecos amarelos dão a impressão de que são apenas figuras decorativas tamanho o desrespeito às leis.

Ainda bem que bares, restaurantes e boas vistas não faltam para amenizar este estresse que, diga-se, é dos motoristas, apenas, não deste turista. Afinal, férias é para se divertir, conhecer e viver. E isto fiz muito durante estes dias todos.


Veja mais imagens de Buenos Aires e Colonia del Sacramento feitas por este fotógrafo amador

Biquíni está proibido no parque Buenos Aires

 

Com biquíni não pode, sunga também

O calção de cós alto e bainha raspando o joelho com estampas coloridas acompanham os passeios diários do professor Heródoto Barbeiro pelas alamedas de Higienópolis e combinam com o sandalião de couro que cobre os dedos marcados pelo tempo. Morador antigo da região, não deve causar constrangimento aos vizinhos quando passa por dentro do parque Buenos Aires. Mas que ele não se atreva a vestir a sunga que costuma usar nos banhos de mar, lá no litoral sul. Correria o risco de ser assediado pelos vigilantes da moral e dos bons costumes que trabalham na praça.

É que neste recanto do bairro, forrado de verde, com espaço para passeio tranquilo, cercadinho para animais de estimação e gramado relaxante, existe uma regra. Está lá na Portaria 28/02, artigo 5º, inciso 17: é proibido “tomar sol de biquíni ou sunga”. Principalmente biquíni, dado que até hoje não se registrou nenhum caso de medida punitiva aos frequentadores adeptos da sunga (mas é bom não exagerar, Gabeira).

De acordo com notícia publicada em página cheia da Folha (leia aqui), uma mulher de 58 anos foi convidada a manter a compostura sob o risco de ter de deixar o ambiente. Ela cometeu deslize grave, segundo as normas aprovadas pelo conselho que representa, em última instância, os frequentadores: vestia um biquíni. O artigo não diz se fio dental, asa delta ou outro modelo qualquer, mas o vigilante que abordou a senhora se referiu a “roupa íntima”.

A culpa é da sociedade conservadora, explicou o administrador do parque Eduardo Panten em defesa da proibição que pode ser estendida a outros trajes (ou falta deles), pelo que percebi nas declarações dadas ao jornal. Consta que as babás que levam seus clientes ao parque têm reclamado, também, dos “idosos sem camisa”, especificou um dos oito vigilantes que circulam na Buenos Aires. Isto, sim, algo que pode atrapalhar o passeio do meu amigo Heródoto, apesar de que ele prefere mesmo a camisa do Corinthians que constrange apenas pelas marcas encardidas pelo centenário.

Pelas dúvidas, preferímos conversar com um advogado: ouça a entrevista do coordenador da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP Martim de Almeida Sampaio. E deixe sua opinião.