Avalanche Tricolor: Deus me livre!

Inter 2×1 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

A bola está no alto e a frente de Ferreirinha, do Grêmio, enquanto Nonato, do Inter, empurra o gremista pelas costas dentro da área
Será que o VAR viu esta foto do LUCAS UEBEL ?

 

Nem omelete comi neste domingo para não arriscar que o ovo caísse fora do prato, o que —- como o caro e raro leitor desta Avalanche sabe —- é determinante no resultado do futebol dominical. Já falamos disso aqui. Caso seja necessário posso me estender no assunto … ok, deixemos para outra oportunidade. O que interessa é que o meu cuidado neste domingo era não permitir que nenhum fator externo interferisse no resultado do jogo. Preferi até ir à missa mais cedo em vez de deixar para o fim da tarde quando a partida já tivesse se encerrado. Não me perdoaria. Não que ao me ajoelhar, eu reze pela vitória gremista, porque —- também já disse a você — é melhor não preocupar Deus com essas coisas comezinhas. Mas sabe como é que é … vai que o Homem resolvesse me puxar a orelha. 

Pode parecer exagero, mas cresci sabendo que Domingo de Gre-Nal não é um dia qualquer na vida dos gaúchos. Lá nas bandas da Saldanha, onde morei, em Porto Alegre, no meio do caminho do Olímpico Monumental e do Beira Rio, fosse onde fosse a partida, era dia de torcedor desfilar camisa nova do seu clube e bandeira ainda com vinco de tanto tempo dobrada. Pais passavam em direção aos estádios levando seus filhos pela mão, com peito em riste e contando histórias experimentadas em clássicos passados —- sempre daqueles em que saímos vitoriosos, é claro. Reveses? Deixemos que os outros contem. 

Ao longo da minha carreira de vida tricolor assisti a todo tipo de clássico e nas mais diversas situações. Posso até colocar nesta lista um que joguei: foi quando fazia parte do elenco do time de basquete do Grêmio e fomos ao Gigantinho fazer a espera do show dos Globetrotters, aqueles malabaristas americanos que encantavam crianças e adultos fazendo estripolias nas quadras pelo mundo. Ganhei (e ai de quem me desminta).

Fui a Gre-Nal no Olímpico, no Beira-Rio e em estádio pelo interior gaúcho. Fui com o pai, com amigos, sozinho, com cartolas e com a delegação de futebol. Fui torcer nas cadeiras, nas sociais, nos vestiários e nas arquibancadas. Acompanhei jogos das cabines de rádio, como repórter dentro de campo e até como gandula.  

Hoje mesmo, no início da tarde, por obra e arte do Edu Cesar, que mantém canal no Youtube, no qual preserva a memória do rádio esportivo, deparei com uma transmissão que há muito vinha procurando sem sucesso. A do único Gre-Nal em que trabalhei com meu pai, na rádio Guaíba de Porto Alegre. Era final do Campeonato Gaúcho de 1986, no Olímpico. Ele narrava e eu era um dos repórteres de campo, em uma época em que eu ainda atendia por Mílton Júnior. 

Assim que Osvaldo marcou o gol, no início do segundo tempo, ele correu em direção ao pavilhão da social do Grêmio, diante do qual eu estava com o microfone da rádio. Com os dois braços erguidos para o céu, o meio-campista gritava: “obrigado, meu Deus!”. Ao registrar seus gritos e ser chamado pelo pai para descrever o lance do gol, iniciei minha participação repetindo o agradecimento do jogador. Até hoje, há quem jure que Osvaldo nunca disse aquilo. Eu teria sido flagrado comemorando com o céu o gol que nos daria o bicampeonato gaúcho. Pura maldade (como você pode conferir no vídeo que reproduzo a seguir). Mesmo que seja justo imaginar que por dentro era o que fazia com meu coração tricolor saltando pela boca. 

Se já vivenciei todo tipo de Gre-Nal, evidentemente também sofri muito, chorei mais um tanto e sorri como nunca. Vencer o clássico é muito especial. Por isso, neste domingo em que mesmo com todos os cuidados que eu tomei aqui em casa e o time no campo, mesmo que estivéssemos melhor quando sofremos a virada e mesmo que o VAR estivesse de folga, assim que o árbitro deu o apito final —- sem direito a acréscimos depois de toda a parada do pênalti —, pensei cá com minhas camisas tricolores: não deve ter sido fácil a vida dos colorados que ficaram tantos anos e jogos sem vencer uma só vez o Grêmio. Deus me livre ter de passar por isso um dia (ops, desculpe, sei que o Senhor não tem nada a vera com isso: é só força de expressão)

Avalanche Tricolor: que voltem as vitórias

Grêmio 1×1 Atlético MG

Brasileiro — Arena Grêmio

Maicon, o Criador em campo, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

“Vamos para mais um empate”, foi o que disse quando sentei ao lado de meu filho-torcedor, para assistir ao segundo tempo da partida desta noite. O primeiro, vi de revesgueio, porque tinha de atender ao compromisso assumido com meu amigo Luiz Gustavo Medina, o Teco. Havíamos marcado para hoje uma conversa, ao vivo, no Instagram, sobre cuidados financeiros que devemos tomar em busca de um equilíbrio na vida. Por descuidar o calendário de jogos e não prestar atenção na agenda, enquanto o Grêmio estava em campo, eu me divertia no bate-papo. Mesmo assim pude ver pela tela do computador o pênalti convertido contra nós e a falta de criação no ataque.

O segundo tempo —- contou-me o companheiro de torcida —- começou da mesma forma que o primeiro: sem troca de passe, sem profundidade e sem chutes a gol. Até que os criadores entraram em campo. Não foram necessárias muitas tentativas —- se não me engano a que entrou foi a única bola que havia sido chutada em direção ao gol até aquele momento, quando já havíamos jogado 85 minutos.

A bola rodou de pé em pé, e passou pelo de Maicon, o Criador; Ferreirinha usou de seu talento para driblar; Diego Souza dividiu dentro da área; e na sobra Everton, o Improvável, encontrou um chute capaz de passar em um espaço estreito entre os marcadores, o goleiro e a goleira. Era o empate que eu havia previsto, não porque sou adivinho ou tenho bola de cristal, apenas porque tem sido esta a lógica gremista no Campeonato Brasileiro. Foram 15 empates na competição e uma sequência de 16 partidas sem derrota. Uma série invicta que nos fez subir em direção ao topo da tabela, mas que não nos aproxima da liderança da competição. 

Se a derrota está fora de opção e o empate se torna a saída para jogos nem sempre bem jogados, que a vitória volte quando for realmente necessária. Domingo será.

Avalanche Tricolor: um empate que vale bem mais do que um ponto

Palmeiras 1×1 Grêmio

Brasileiro — Allianz Parque, SP/SP

Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Ninguém empatou tanto quanto o Grêmio. Ninguém perdeu tão pouco quanto o Grêmio. Assim como ninguém está tanto tempo invicto no Brasileiro —- são 15 jogos marcando pontos. Nada disso ainda foi suficiente para nos colocar na liderança ou próximo dela, assim como não nos garantiu aquela vaga que nos devolverá a Libertadores —  a despeito do fato de que vamos dormir nesta sexta-feira no G4 e se quiserem nos tirar de lá, os adversários que façam a sua parte.

O empate de hoje —- o décimo quarto na competição —- valeu muito mais pontos do que outros tantos. Bem mais do que o ponto somado na tabela e que nos deixou a seis do topo do campeonato. Foi um teste de resiliência contra aquele que será o adversário na final da Copa do Brasil, em fevereiro ou março — a data ainda está aberta. A derrota, da forma como estava sendo construída no primeiro tempo, seria acachapante no ânimo e no moral do time. Daria a impressão de incapacidade, o que nos derrotaria antes mesmo de disputarmos as decisões da Copa.

Ter resistido ao atropelo inicial e conseguido chegar ao intervalo com uma desvantagem pequena, permitiu que Renato reposicionasse o time, colocasse cada jogador no seu devido lugar e os fizesse entender que no gramado sintético a bola rola em velocidade diferente e oferece vantagem a quem está acostumado ao piso. 

Assim que voltamos do vestiário, era evidente que o Grêmio seria outro time. Os riscos diminuíram apesar de Vanderlei, gigante no primeiro tempo, ter voltado a brilhar quando exigido no segundo. Passamos a ter mais a bola e a nos movimentarmos com mais velocidade. Arriscávamos no ataque enquanto nossos zagueiros tinham de imprimir um esforço redobrado lá atrás —- o que Kannemann sabe fazer muito bem.

A entrada de Maicon, diante da lesão de Matheus Henrique, mudou o toque de bola. Se um prefere carregá-la próximo do pé, o outro privilegia o passe rápido e consegue enxergar com precisão companheiros mais bem posicionados. Foi em um desses lances que Maicon pisou dentro da área adversária e encontrou Luis Fernando correndo por trás da marcação na linha de fundo. O cruzamento foi na medida para Diego Souza cabecear e decretar o empate —- os gols de Diego deveriam valer dobrado na tabela de goleadores, porque é incrível como todo gol que ele marca é aquele que decide ou ajuda a decidir a partida; dificilmente faz gol em jogos já resolvidos.

Por pouco, muito pouco mesmo —- como diria José Geraldo de Almeida, antigo locutor esportivo —-, não levamos a vitória em um último lance da partida, no qual Diego Souza, sempre Diego, cobrou falta por cima da barreira e buscou o ângulo; e a bola só não chegou ao seu destino porque foi a hora de o goleiro adversário brilhar. 

Na maratona decisiva de Janeiro, evitamos a derrota contra um adversário forte e com pretensão de chegar ao título. Teremos ao menos mais três jogos que serão definitivos nas próximas rodadas. Por hoje, fizemos nossa parte, arrancamos um empate difícil e saímos de campo confiantes de que a Copa do Brasil está ao nosso alcance. Mérito de Renato que fez as substituições certas tanto quanto soube mudar o time no vestiário — como admitiram em entrevista Diego Souza e Victor Ferraz.

Avalanche Tricolor: a disputa do título é agora!

Fortaleza 0x0 Grêmio

Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza/CE

Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Sabe aquele jogo que começa e você já sabe qual vai ser o resultado? A gente fica torcendo para estar errado, mas a cada minuto que passa aumenta a certeza de sua previsão inicial. Foi assim neste sábado à noite. O empate —- o décimo terceiro no campeonato —- foi sendo desenhando no chute para fora, no cruzamento cortado pela defesa, na falta (quase) bem cobrada, no contra-ataque que se perdeu em um passe errado e no gol que por milímetros foi anulado. A previsão de que seria empate tem muito a ver com o time que vai a campo —- éramos na maioria reservas e, claro, paga-se um preço quando tomamos essa decisão. No caso, dois pontos desperdiçados na disputa pelo título do campeonato. 

Verdade que outras vezes entramos em campo sem escalar os principais titulares e conquistamos a vitória mesmo assim —- mas, sei lá o motivo, assim que começou a partida deste fim de noite, tive a impressão de que não sairíamos do zero a zero. Impressão confirmada ao fim deste que foi o vigésimo-oitavo jogo gremista no Campeonato Brasileiro. Não que tenhamos jogado pelo empate. Longe disso. Tentou-se de um lado e de outro. Muitas vezes pelo meio. Chutou-se 12 bolas no gol  — pelo que anotei — e forçamos o goleiro adversário a fazer defesas difíceis. Esforço fugaz. 

Apesar de não termos saído com a vitória, que é o que todos queríamos, o empate nos mantém na disputa do título e entre os cinco primeiros classificados. O mais importante é que, independentemente do que acontecer no domingo, a ideia de que o campeonato será decidido em janeiro permanece. A partir de agora —- e aí entendemos a escolha pelo time reserva —- todo jogo será uma decisão direta pelo título. Nas próximas quatro partidas, o Grêmio terá de ser gigante porque enfrentará quatro adversários que estão embolados e disputando a liderança da competição. 

Seja o que os deuses do futebol quiserem!

Avalanche Tricolor: vencer é o que importa

Grêmio 2×1 Bahia

Brasileiro — Arena Grêmio

Vanderson comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

A temporada 2020 está de volta. A mais atrapalhada das temporadas que já vivemos na era moderna, começou ano passado, parou em março com a pandemia, foi retomada em junho, intrometeu-se nas festas de fim de ano e só deu descanso para times e jogadores passarem o réveillon em casa. Apesar de estarmos, conforme calendário gregoriano, na primeira semana de 2021, ainda sofremos os percalços do ano passado. A impressão é que estamos vivendo a segunda temporada deste triste seriado que foi 2020 — e sequer estou fazendo menção ao que assistimos nesta quarta-feira, nos Estados Unidos; estou falando apenas de futebol.

Para o Grêmio, o mês de janeiro reserva algo raro nesta temporada: um mês inteiro dedicado a um só campeonato, o Brasileiro. A decisão da Copa do Brasil ficou para fevereiro, a persistirem os sintomas. Mês raro e importante, porque teremos jogos decisivos para as nossas pretensões na competição. Alguns dos adversários que enfrentaremos estão no meio do caminho do que pretendemos alcançar que é o título brasileiro, segundo Renato, naquela entrevista ao lado do campo a espera do apito inicial; ou o G4 que garante vaga direta na Libertadores do ano que vem … ops, deste ano. 

Na partida de hoje, o adversário não era direto nem por isso os três pontos deixavam de ser importantes — vencer é sempre importante. Uma vitória agora, além de manter o time com moral alto e motivar para os próximos desafios, também cria gordura para qualquer percalço nos próximos 11 e decisivos jogos. 

E o Grêmio venceu. 

Não foi tão simples quanto parecia nos primeiros minutos de partida, quando impusemos nosso jogo bonito e qualificado, o que culminou com o primeiro gol de Vanderson, que aos 19 anos fez sua segunda partida como titular. O guri —- mais um dos guris gremistas —- fez uma assistência importante no primeiro jogo e hoje foi presenteado com um cruzamento pelo alto que o fez cabecear de maneira consciente no gol adversário. Chorou na comemoração. E nós comemoramos com ele. 

Depois do primeiro gol, assistimos à uma sequência de atrapalhadas e espaços abertos que permitiram a proximidade do adversário na nossa goleira. Se o gol que marcaram no fim do primeiro tempo foi salvo pela linha de impedimento, no segundo tempo, fomos punidos logo no início com a bola desviando na cabeça de outro guri gremista, Rodriguez. 

Coube a um dos veteranos decidir a nosso favor, em meio a uma série de jogadas erradas, passes mal dados, cortes mal-feitos e uma marcação malemolente em alguns momentos. Foi Diego Souza. Sempre ele. Infalível. E foi em um cobrança de falta tão estranha quanto o próprio jogo. A bola desviou na barreira, desviou no braço do goleiro e quando parecia que havia desistido de entrar no gol, foi parar no fundo da rede. E o que vale é bola na rede. E com esta bola, Diego marcou mais um gol decisivo para o Grêmio. 

Somos o time que menos perdeu nesta competição, apenas três vezes; que mais empatou, 12 vezes; e estamos invictos há treze jogos no Brasileiro. Uma estatística suficiente para nos deixar na disputa do título. Cada vitória que vier a partir de agora nos colocará mais próximo dos nossos objetivos — se vier com uma bola do acaso, um desvio do goleiro ou em um gol contra, pouco me interessa. O que importa agora é a vitória.

Avalanche Tricolor: minhas impressões

Sport 1×1 Grêmio

Brasileiro — Ilha do Retiro, Recife/PE

Pepê comemora gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A bola no pé e a cabeça distante do gramado. Assim o Grêmio jogou nesta rodada do Brasileiro disputada entre a desclassificação da Libertadores e a semifinal da Copa do Brasil. Parte do time titular estava em campo, mas não no jogo. A impressão é de que o passe demorava mais do que o normal para chegar ao colega, o deslocamento era mais lento do que costumamos fazer e a marcação mais distante. Haja vista que mesmo com o domínio total da bola, os chutes a gol, especialmente no primeiro tempo, foram raros —- substituídos por uma sequência de cruzamentos na área, sem conclusão. Em um deles, deu-se o contra-ataque adversário que resultou no gol. 

Nada do que disse até aqui significa que o time não se esforçou. Ao contrário, conseguiu se superar quando perdeu Kannemann, expulso aos sete minutos do segundo tempo. Pareceu-me que o cartão vermelho serviu de despertador e fez o Grêmio se jogar para frente, a ponto de conseguir pênalti que foi bem convertido por Pepê. A propósito: depois daquela sequência ruim na retomada do Campeonato Brasileiro, tenho a impressão de que o nível das cobranças melhorou consideravelmente.

Uma vitória nesta rodada não seria redentora, mas tornaria o ambiente melhor — no mínimo faria com que alguns “torcedores” de rede social deixassem de encher o saco. O peso da desclassificação da Libertadores —- da forma como ocorreu —- está claramente sobre o ombro dos jogadores. Em alguns mais do que outros. Jean Pyerre está cabisbaixo. Sentiu o golpe. E Renato certamente está a aconselhá-lo porque sabe que o talento de nosso camisa 10 é fundamental para subirmos o nível do futebol e chegarmos a final da Copa do Brasil.

O empate, levando em consideração como foi construído, não é ruim —- longe do desastre que alguns tentaram impor. O Grêmio ainda está na disputa do G4 no Brasileiro e mostrou, após a expulsão, o poder de reação de um time ainda abalado. Um time que tem muito futebol para jogar e precisará fazê-lo já na próxima quarta-feira. Eu confio — e isso não é um impressão.

Avalanche Tricolor: prepare-se, Dezembro está só começando

Grêmio 4×0 Vasco

Brasileiro — Arena Grêmio

Diego comemora, ele marcou dois gols, foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Escrevo antes de a rodada se encerrar porque mais do que a posição na tabela do Campeonato Brasileiro é a disposição do Grêmio em vencer partida após partida que me interessa, nesta Avalanche. Independentemente de quem esteja no campo, vê-se uma movimentação intensa dos jogadores, com troca de posição, deslocamento pelos lados e velocidade com e sem a bola. A recomposição na defesa chama atenção, também. Apesar de os alas subirem muito e chegarem à linha de fundo, se o adversário não for muito rápido no contra-ataque, logo quatro, cinco, seis jogadores já diminuíram o espaço lá atrás, para em seguida todo o restante fechar-se no sistema defensivo. 

Com um time que foi se ajustando ao longo da temporada, depois de uma série de desfalques no elenco e jogadores recém-chegados e sem o entrosamento para a movimentação, o Grêmio alcançou a marca de 16 jogos invictos, ciclo completado neste domingo com uma goleada na Arena. Até alcançar essa performance, ensaiou-se coro contra Renato acusando-o mais uma vez — além de algumas barbaridades como preguiça e desconhecimento — de ter aberto mão do Campeonato Brasileiro, sem perceberem que o que lhe faltava eram pernas: jogadores com ritmo, bem fisicamente, lesões curadas, livres de Covid e opção no elenco. 

A disposição de Renato e do Grêmio sempre foi ganhar; e ganhar tudo que estivesse no seu caminho. Nem sempre isso é possível. Difícil até de saber se é sustentável, dadas as condições da temporada. O jogo de hoje foi o primeiro de uma maratona que enfrentaremos em Dezembro: quatro decisões em mata-mata, na Copa do Brasil e na Libertadores, e quatro pelo Brasileiro. 

Hoje, Diego Souza foi o destaque com dois gols de cabeça —- mérito dele por se colocar bem dentro da área e saltar alto; mérito, também, de quem tem cruzado com perfeição para ele completar em gol. Nosso atacante marcou 20 vezes na temporada. Já Pinares e Lucas Silva tiveram o prazer de comemorar o primeiro gol de suas carreiras com a camisa do Grêmio. O chileno chegou há pouco e fez o mais bonito dos quatro gols com um chute colocado de perna esquerda —— jogou no lugar de Jean Pyerre e demonstrou ser excelente opção para o time. Já o nosso volante está há mais tempo, costuma arriscar à distância e em cobranças de falta. Desde a última partida, no entanto, tem colocado os pés dentro da área, em mais um sucesso da movimentação gremista que dá este espaço aos volantes. Semana passada, o chute dele explodiu no peito do goleiro; hoje, depois de assistir à bola se chocar com o poste, na jogada seguinte recebeu um passe dentro da área, tentou o drible e sofreu a falta: pênalti, bem cobrado.

Se levarmos em consideração que competições de pontos corridos fazem de cada partida uma decisão, das oito que temos marcadas para dezembro, a primeira já foi vencida. Estamos mais próximos dos líderes do Brasileiro, nas quartas de final da Libertadores e nas semifinais da Copa do Brasil. Como escrevi, não sei se este ritmo de jogos e de vitórias é sustentável. Por enquanto, Renato tem nos deixado sonhar: ao infinito e … além!

Avalanche Tricolor: exclamação!

Grêmio 2×1 Goiás

Brasileiro — Arena Grêmio

Maicon comemora em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

Que baita jogador é esse Jean Pyerre! O que Pepê faz com a bola é uma barbaridade! Geromel é imbatível dentro da área! São tantas as exclamações neste começo de Avalanche que quase esqueço de reverenciar Renato que se consagrou como o técnico que mais vezes comandou o Grêmio: 384 vezes, superando o eterno Osvaldo Rolla. Suas marcas vão além: hoje, alcançou a vitória de número 200, apenas como treinador. Desde que estreiou na casamata, em 2010, contra o mesmo adversário desta noite de segunda-feira, conquistou sete título, de Campeonato Gaúcho a Libertadores. É a terceira passagem de Renato pelo time e, sem dúvida, a melhor.

Se Geromel é quem é, claro, tem muito a ver com ele próprio —- um cara com aquele caráter e semblante merece todo o mérito —, mas também porque Renato sabe montar um sistema defensivo e permite que nosso zagueiro se expresse com talento. Se Jean Pyerre e Pepê jogam o que jogam, Renato é um dos responsáveis. Se o time voltou a jogar o futebol qualificado que encantou o Brasil, tem a mão de Renato.

Se tudo isso não bastasse para começarmos a semana com a alegria que o futebol pode nos proporcionar, ainda tivemos o prazer de ver o sorriso estampado no rosto de Maicon. Nosso capitão vinha de uma sequência de lesões e estava incomodado com o seu desempenho e o do time. O olhar cerrado e o esbravejar com os colegas eram preocupantes. Ficou fora três semanas e, segundo o próprio, teve tempo de com a equipe de profissionais do Grêmio — médicos, preparadores físicos e fisioterapeutas — analisar os motivos de suas lesões e trabalhar especificamente para reforçar o que era fragilidade. Voltou bem e confiante. Comandou o meio de campo fechando um triângulo de ouro com Matheus Henrique e Jean Pyerre (que baita jogador é o …. ops, já escrevi sobre isso). E completou sua performance chegando forte na frente para fazer o gol da vitória. Maicon sorriu bonito após o gol. E nós sorrimos com ele.

Se o jogo teve momentos de risco, perdemos mais gols do que gostaríamos e desperdiçamos a oportunidade de dar tranquilidade mais cedo ao torcedor, também teve o domínio na maior parte do tempo e um esforço redobrado para recuperar a bola quando o adversário se atrevia na frente, que nos levaram a 14ª partida sem perder —- incluindo Brasileiro e Libertadores —- nas quais 11 com vitória. E, sim, Renato tem tudo a ver com isso. Exclamação!

Avalanche Tricolor: Comemora, Vanderlei!

Corinthians 0x0 Grêmio

Brasileiro — Arena Corinthians, SP/SP

Renato e o antirracismo em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

O segundo tempo já estava avançado quando em um contragolpe a defesa do Grêmio cortou mal a bola que caiu nos pés do adversário. Recuada, chegou livre para o chute a gol. Em situação normal de pressão e temperatura, era bater, estufar a rede e correr para o abraço. Havia, porém, uma pedra no meio do caminho. Uma rocha com a dimensão de Vanderlei, que saltou de braços abertos e com uma só mão despachou a bola para escanteio. A vibração com punhos cerrados do nosso goleiro dizia muito sobre o que acabávamos de assistir. 

Aos 36 anos, tendo chegado sob o olhar desconfiado do torcedor, depois de deixar seu clube anterior porque apresentava dificuldades técnicas para se adaptar a estratégia do técnico — diziam que não sabia jogar com a bola nos pés —, Vanderlei logo se tornou titular, no lugar do criticado Paulo Victor, que apesar de ter tido bons momentos com a camisa do Grêmio, revelou-se inseguro, especialmente na segunda parte da temporada passada.

Vanderlei, mesmo tendo ganhado o direito de vestir a camisa número 1, ainda não conquistou o coração do torcedor. Já fez uma sequência de bons jogos desde que chegou à Arena, mas sempre que tomamos um gol, aparece alguém disposto a puxar a lupa, chamar o VAR e fazer contorcionismo para encontrar a falha do novo goleiro. Até mesmo quando o gol é de pênalti há buchicho na arquibancada (que agora é apenas virtual).

Com 1,95 e cara sempre séria, ainda está longe de se igualar a alguns dos grandes nomes que passaram pelo gol gremista nestes anos — para a maioria de nós a imagem de Marcelo Grohe e seus milagres é muito presente. No memorial que mantenho na parede de casa, a camisa autografada por Danrlei está ao lado da de Geromel. Sem falar em Victor, Leão, Mazaropi e, sim, o lendário Eurico Lara — todos merecedores do nosso mais alto respeito. 

Nem se pode exigir essa paixão por Vanderlei. É muito cedo. Por enquanto, ganhou apenas o Campeonato Gaúcho e está sendo testado a cada partida do Brasileiro, da Copa do Brasil e da Libertadores. Uma defesa com a importância desta que fez, nesta noite em São Paulo, sinaliza que está na hora de começarmos a nos convencermos de que estamos nas mãos de um grande goleiro.

Foi ele quem garantiu mais um empate neste campeonato e mais um empate contra este adversário —- é o quarto em dois anos, sem gols. E se hoje não houve gols, Vanderlei tem total responsabilidade no resultado ao fazer aquela defesa magistral.

Tê-lo como destaque nesta partida atípica do Campeonato Brasileiro — na qual o adversário teve dois jogadores expulsos, um deles ainda no primeiro tempo —- também diz muito do que foi o Grêmio nesta noite. Haverá de ser melhor na quinta-feira, creio.

Em tempo: a camisa tricolor trouxe no peito a mensagem antirrascismo que o Grêmio tem propalado ao longo do tempo: somos azuis, pretos e brancos, em meio ao desenho do rosto de negros ilustres que vestiram nossas cores; enquanto Renato estampou uma camisa amarela com a frase “vidas negras importam”. Que o recado seja entendido por todos nós!

Avalanche Tricolor: Jean Pyerre é 10

Grêmio 4×2 Ceará

Brasileiro — Arena Grêmio

O 10 de Jean Pyerre na foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

“Temos camisa 10”, gritaram os torcedores nas redes sociais. Perdão, amigo! Sempre tivemos. Nosso 10 apenas não tinha condições de jogar por motivos mais do que conhecidos por todos — só os impacientes e descrentes faziam questão de não entender, preferindo atacar Renato e suas escolhas. E quando nosso camisa 10 voltou, estava vestindo a 21, mas isso, convenhamos, era apenas um detalhe na jornada de nosso craque. 

Aliás, como você, caro e raro leitor desta Avalanche haverá de lembrar, na edição passada desta coluna esportiva, eu escrevi: “nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial”. Quis a coincidência que no dia seguinte a minha Avalanche, Renato e o Grêmio decidiram premiar Jean Pyerre com o número que o futebol mundial costuma oferecer aos craques da bola — apesar de que no nosso time a camisa que consagra é a 7; não é mesmo Renato?

A maneira refinada com que Jean Pyerre toca na bola encanta a todos. Isso ficou evidente desde os primeiros movimentos do Grêmio em campo no início desta noite. Com o nosso camisa 10 buscando jogo no meio de campo e conduzindo o time para o ataque, o deslocamento dos jogadores que estão à sua frente ganha em produtividade. Luis Fernando, Diego Souza e Pepê, especialmente, sabem que podem partir em direção ao gol porque a bola será entregue a eles em condições de marcar. Os laterais e volantes que estão ao lado passam e correm porque sabem que vão receber um presente. Todos saímos ganhando quando o camisa 10 está em campo.

O toque não se restringe ao passe. Jean Pyerre enxerga o gol e lança a bola em direção as redes com a mesma facilidade com que deixa seus companheiros em condições de dar sequência à jogada. Hoje, assistimos a dois ou três chutes que obrigaram o goleiro adversário a se esforçar ao máximo para impedir que a bola entrasse. O chute não parece forte. É como se fosse em câmera lenta. Faz o futebol parecer fácil de ser jogado. 

Em campo, Jean Pyerre é leve, solto e preciso … como na cobrança de falta que abriu o placar, depois de um lance bem ensaiado com Diogo Barbosa (1×0). Como no passe que encontrou Luis Fernando livre pela direita para cruzar e Pepê completar (2×0). Como no momento de perspicácia que o fez pegar a bola que acabara de sair pela lateral e cobrar, sem esperar o jogador de ofício, o que deu velocidade na jogada, e, mais uma vez, permitiu que Luis Fernando desse assistência para o gol —- gol de Diego Souza (3×1). 

E não se satisfez …. 

Jean Pyerre mostrou também seu talento no cruzamento que deu a Diego Churín — o atacante sorriso — o prazer de marcar seu primeiro gol com a camisa gremista segundos após entrar em campo (4×1). 

Jean Pyerre é diferenciado. Tem talento. É craque. É o nosso camisa 10!