Grêmio 2×0 Inter
Brasileiro —- Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Pepê, Rômulo, Geromel e Matheus em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
O domingo estava apenas começando e o movimento no entorno da Igreja do Menino Deus era grande. Tinham fiéis a caminho da missa das 10 e uma gurizada acompanhada por pais, tios e avós que seguiam na direção da Escola São Francisco, que fica logo atrás e onde, pelo que percebi, haveria alguma competição esportiva. O guri mais à minha frente estava de mãos dadas com o pai e a mãe, com toda a parafernália de um promissor craque. Em seguida vinham os avós que ouviam o neto falando alto provavelmente do que pretendia fazer assim que a bola começasse a rolar. “Te mete com ele!”, ouvi a vó dizer para o vô, em tom de orgulho e com um sotaque típico da terra.
“Te mete com ele!” soa espanhol e quando dito no ritmo desgarrado da fala do gaúcho se revela um alerta para que os atrevidos fiquem à distância. É uma demonstração de confiança no outro. Mas pode ser entendido também como um desafio: pode vir que ele está pronto para encarar qualquer bronca.
Fui à missa, enquanto a família ficou no portão de ferro da escola. Mas a voz da vó ficou nos meus ouvidos. “Te mete com ele!” me acompanhou no churrasco com a família, na casa da Saldanha, e no caminho para o aeroporto, de onde partiria de volta a São Paulo. Permaneceu na minha cabeça mesmo diante da frustração provocada pela companhia aérea que levou para o Salgado Filho um avião com 50 lugares a menos do que o previsto e atrasou o vôo por mais de uma hora e 15, desacomodando alguns passageiros e incomodando a todos.
Frustrou-me porque havia programado o desembarque em São Paulo a tempo de chegar em casa e assistir ao Gre-Nal na televisão —— antes que você pergunte, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, meu compromisso na CBN me impediria de ir ao jogo na Arena no fim do domingo, mesmo estando em Porto Alegre. Com o atraso, passei a maior parte do jogo no ar e somente quando o avião tocou a pista de Congonhas pude conferir o gol de Geromel, marcado de cabeça ainda no primeiro tempo. Disseram, também, que ao lado de Kannemann, o nosso Mito colocou o ataque adversário no bolso e fez com que Paulo Victor assisti-se à partida de graça. Te mete com ele, logo pensei enquanto puxava a bagagem.
Não demorou muito para perceber pela narração esportiva que o Grêmio dominava o Gre-Nal a ponto de levar o goleiro deles a cometer o suicídio em campo.
Soube ainda pelos comentaristas que àquela altura Matheus Henrique já havia colocado a bola embaixo do braço e comandado a vitória, sem errar passe, se desvencilhando da marcação dura e deixando seus companheiros em condições de gol. Te mete com ele, balbuciei comigo mesmo, fazendo com que o passageiro que estava à minha frente olhasse para trás na tentativa de entender o que eu dizia.
O Grêmio ainda faria o segundo gol assim que Pepê, em sua primeira jogada, alucinava seus marcadores e encontrava Rômulo, que também entrara no segundo tempo, chegando para marcar um golaço em pleno Gre-Nal. Logo ele, tão criticado, tão sofrido nesses últimos tempos. Te mete com ele, agora! — falei sorrindo com a motorista de táxi que me levava para casa. E não entendeu coisa nenhuma.
Quando cheguei ao meu destino, o jogo já havia acabado. A alegria estava no meu rosto. E a imagem daquele guri acompanhado pelos pais e avós a caminho do futebol se mantinha na minha cabeça. Ele era Geromel, se preparando para bater bola nos campinhos da Vila Maria; era Matheus Henrique, desfilando talento aos sete anos na várzea, em Paradas de Taipas; era Rômulo, correndo descalço atrás da bola, em Picos; era cada um daqueles jogadores que um dia sonharam jogar futebol e vestiram a camisa do Grêmio neste domingo de Gre-Nal.
Te mete como eles!








