Avalanche Tricolor: tem de ter paciência

Grêmio 1×1 Juventude

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Nicolas comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Paciência foi a palavra usada, ao fim da partida, pelo novo lateral direito do Grêmio, Nicolas, emprestado pelo Atlético Paranaense, depois de jogar no Goianense, ano passado. Foi o pedido dele ao torcedor que desde sempre sabe que algumas soluções que Vagner Mancini insiste em manter deram errado, em 2021, a começar pela posição que Nicolas ocupará como titular. E disso ninguém tem dúvida, sequer o técnico que, registre-se, foi quem indiciou o jogador que está com 24 anos. 

Claramente, Mancini decidiu-se por apostar na paciência com algumas alternativas e iniciar mudanças a medida que os fatos falem mais alto e a necessidade seja premente. Com os resultados alcançados até aqui no campeonato, a liderança isolada e conquistada de forma invicta, o treinador ganhou tempo para fazer as transformações, que os impacientes querem de imediato. 

Na lateral direita já percebeu que apostar em Rodriguez pode ser um caminho mais produtivo – apesar de esta não ser uma mudança que deva ocorrer imediatamente. Vai depender muito de Orejuela, que ainda deve o futebol qualificado que promete. Na esquerda, depois de ver sua indicação dar duas assistências para gol, no jogo anterior, e marcar o gol de empate desta noite de domingo, parece que a troca é inevitável – a não ser que a paciência do técnico seja muito maior do que eu imagino.

No meio de campo, Mancini entende que precisará ter jogadores mais leves, sem a necessidade de manter a estrutura pesada tanto quanto indispensável em meio a crise de 2021. As substituições vão ocorrer a medida que os momentos decisivos exigirem. Mas o torcedor ainda terá de aguardar um pouco mais antes de ver o time jogar sem dois volantes fortes como Thiago Santos e Lucas Silva. O medo do ano passado ainda é presente.

No ataque não tem muito o que fazer, mesmo que Elias seja sempre uma pressão sobre Diego Souza, que, gostem ou não, seguirá sendo o centroavante preferido porque não desiste de perseguir e marcar gols. Janderson à direita e Ferreira à esquerda são as garantias de que o time vai seguir arriscando dribles para cima do adversário. 

A propósito, vaiar a troca de Ferreirinha por imaginar que o treinador o fazia por questões técnicas é bem o sinal da falta de confiança do torcedor com Mancini. Precisou o jogador sinalizar lesão ou dor na virilha para que os impacientes entendessem a substituição que, aliás, foi bem escolhida: Gabriel Silva é um excelente investimento da base . Não vejo hora de comemorar um gol do guri. Em todas as partidas, ele ameaça marcar. Chegará a sua hora. É só ter paciência.

Sim, futebol também é um jogo de paciência! Do jogador, do treinador e de nós, torcedores. Haja paciência, em 2022!

Avalanche Tricolor: a dança do Tonhão na terra de Padre Reus

Aimoré 1×2 Grêmio

Gaúcho – estádio Cristo Rei, São Leopoldo-RS

Rodrigues comemora o gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

São Leopoldo fica logo ali. Coisa de meia hora, ou um pouco mais, de Porto Alegre. Cidade de Padre Reus, o quase santo de quem somos devoto por parte de pai. Todo ano, visitávamos em família o santuário onde o corpo de João Batista Reus está enterrado. Forma de agradecer pelas graças alcançadas.

Foi lá a partida desta noite pelo Campeonato Gaúcho. Não no santuário, é claro. No Cristo Rei, estádio do time da cidade, em que cabem cerca de 14 mil torcedores. Local acanhado como costumam ser os estádios em que são disputados os jogos no Rio Grande do Sul. De gramado descuidado e esburacado, incapaz de aceitar que a bola role de forma natural. 

Para este cenário, o Grêmio levou tive misto. Para não dizer reserva. Deixou alguns titulares no banco, que poderiam ser chamados em situação de emergência. A emergência se fez depois de tomar o primeiro gol. Bastou colocá-los em campo e o talento superou a marcação pesada e o gramado impróprio para jogo.

O primeiro gol foi de uma perfeição rara. Benitez, com qualidade no passe e visão de jogo, colocou a bola entre os marcadores e ao alcance de Nicolas, o lateral esquerdo, que foi à linha de fundo e cruzou na cabeça de Villasanti. Nosso volante paraguaio estava dentro da área. Teve o trabalho precioso de cumprimentar e fazer o gol.

O segundo gol veio novamente pela esquerda. Mais uma vez pelos pés de Nicolas, que cruzou para aproveitar a presença de Diego Souza. Nosso goleador não tocou na bola, mas foi fundamental ao levar com ele a marcação de dois adversários, abrindo caminho para Rodrigues dominar e marcar. 

Sim, Rodrigues, o zagueiro temido por muitos e acreditado por Vagner Mancini, que decidiu aproveitá-lo pela lateral direita, posição em que pode impor seus prazer de chegar ao ataque. Cá entre nós, nunca vi um zagueiro que gosta tanto de atacar como ele. Vamos lembrar que foi de Rodrigues, o gol que nos classificou na fase de grupos da Libertadores de 2020. 

Contra o Aimoré, é o segundo jogo em que Rodrigues é escalado nessa posição. Hoje, saiu jogando como zagueiro e portando a braçadeira de capitão. Não é pouca coisa. No segundo tempo, Mancini o deslocou para a direita e Tonhão, ops, Rodrigues não decepcionou. Já havia aparecido dentro da área outras vezes. Aos 41 minutos, quando Nicolas cruzou e Diego Souza arrastou os marcadores, foi ele quem surgiu para fazer o gol da vitória  e convidou o torcedor a dançar a dança do Tonhão.

Avalanche Tricolor: gracias, Benítez!

Grêmio 2×0 Guarany 

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Benitez é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O lançamento de Thiago Santos, que provocou a trapalhada da defesa adversária e o gol de Janderson, aos três minutos, foi primoroso e merecia mais destaque da crítica esportiva – e me refiro apenas aqueles que tive oportunidade de ouvir falando da partida do Grêmio, neste domingo à noite. Talvez haja os que souberam apreciar o passe de longa distância assim como eu, apenas não os ouvi. Temo que alguns torcedores que torcem o nariz para Thiago também não tenham percebido a qualidade da jogada. Foi o caminho para desconsertar o sistema defensivo que já se desenhava fechado e aguerrido. 

A velocidade de Janderson e o esforço para alcançar a bola até confirmar que ela estaria dentro do gol também foram importantes para facilitar os trabalhos e nos confirmar na liderança do Campeonato Gaúcho. O guri de 22 anos, emprestado do Corinthians e que estava no Atlético Goianense, aposta de Vagner Mancini, já havia se destacado na partida anterior, na estreia do time principal na temporada. Com físico e tatuagem que lembram Everton Cebolinha, Janderson, além do gol, aproveitou bem as bolas esticadas pela ponta direita. Havia pensando em dedicar a ele, os parcos parágrafos desta Avalanche. Mas aí apareceu Benitez.

Com a lesão de Campaz, ainda no primeiro tempo, o argentino de 27 anos que esteve no São Paulo, ano passado, entrou em campo e logo mostrou seu cartão de visita para a torcida, especialmente àqueles que desconfiavam de sua consistência física: dividiu uma bola na intermediária, sem dó nem perdão de quem colocasse o pé do outro lado. Era só o início de sua participação no Grêmio. O que veio na sequência foi um repertório de passes rápidos e precisos. Com o lado de fora do pé, de calcanhar, de cavadinha e de primeira, colocou seus companheiros em condições de dar sequência para a jogada e no caminho do gol.

Foi por ele que a bola passou, no segundo e decisivo gol. Após receber um chute rasteiro que veio da defesa, com apenas um toque deslocou o marcador e encontrou Fernando Henrique livre na intermediária. O guri de 20 anos, que recém-havia entrado,  ajeitou a bola e o corpo, e meteu no pé de Diego Souza quase na entrada da área. Bem, aí Diego fez o que lhe cabe fazer. Carregou a bola, deixou o zagueiro de lado e estufou a rede, mais uma vez. A segunda em dois jogos dele na temporada.

O jogo em si não foi grande coisa. Ao Grêmio ainda serão necessárias algumas partidas para se saber o que teremos neste  2022. De qualquer forma, é bom sentir o sabor da liderança isolada nesta competição que vencemos nos últimos três anos. 

Avalanche Tricolor: caras e carecas novas, e um goleador sobrevivente!

Grêmio 2×1 São José

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Diego comemora o primeiro da temporada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É feriado em Porto Alegre, nesta quarta-feira. Dia de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da cidade. Tradição que vem dos Açores, de onde partiram os casais portugueses que aportaram mais ao sul do Brasil. Vieram de terras distantes e paupérrimas, de solo infértil, atendendo a demanda da Coroa Portuguesa, que buscava povoar regiões consideradas estratégicas. Tiveram o desafio de atravessar os mares, enfrentar as tempestades e se protegerem das pestes que atacavam os passageiros que se atreviam em viagens longas de navio. Sobreviventes!

Por coincidência e apenas por isso, 2 de fevereiro foi a data escolhida pelo Grêmio para levar a campo, pela primeira vez, o grupo de jogadores que acredita ser o ideal, até o momento, para encarar a travessia tempestuosa que nos aguarda, nesta temporada de 2022.

Faltam nomes ainda; tem gente lesionada e sem fôlego; é preciso ajustar o pé, os passes e as peças em campo. A partida dessa tarde, foi apenas o início da longa viagem que jamais quisemos navegar, mas para a qual fomos levados devido a improdutividade nos gramados por onde passamos no último ano.

Havia caras novas: Bruno Alves, Janderson, Nicolas e Orejuela – esse último uma cara meio nova, pois já esteve entre nós. Havia carecas novos, também (todos vítimas de trotes dos veteranos): Rildo, destaque no time de transição, e Gabriel Silva, guri de 19 anos, no qual se aposta alto – pelos dribles e chute no travessão que deu logo após entrar no time, no segundo tempo, uma aposta que pode dar ótimo resultado. Aguardemos!

Os outros eram velhos conhecidos. Alguns nem tão velhos assim, como Gabriel Gandro, que até agora não se sabe se será titular. Campaz, que fez um golaço de falta, abrindo os trabalhos na temporada, além de ter dado boa dinâmica ao ataque.  E Ferreirinha, o camisa 10 que esbanja talento pelo lado esquerdo e inicia o ano mais maduro, após tantos percalços dentro e fora de campo. 

Geromel, um ponto de exclamação para 2022; Thiago Santos e Lucas Silva, que tendem ser a dupla para enfrentar a dureza dos gramados e adversários que encontraremos pelo caminho; e Diogo Barbosa.

Deixei por último nesta lista Diego Souza. Não por acaso. Merece um parágrafo à parte (ou dois). Esteve fora dos planos no fim do ano. E de tanto procurar e não achar, a diretoria entendeu que ele ainda era a melhor solução para o comando do ataque. Foi o goleador do Brasil, em 2020. Foi goleador do Grêmio nas duas últimas temporadas. Foi goleador do Campeonato Gaúcho, nos dois últimos anos. E começou com o pé direito 2022, literalmente. Com a precisão e o aproveitamento de sempre, fez o gol que deu a vitória na estreia do time principal na competição estadual. 

Mesmo que não pareça, Diego demonstra ter fôlego para mais essa travessia no nosso barco. Após o gol, a televisão flagrou Vagner Mancini perguntando se ele queria ser substituído, como se já tivesse cumprido o papel para o qual foi mantido no grupo: marcar os gols da vitória. O goleador pediu para ficar em campo. Diego Souza é um sobrevivente!

Avalanche Tricolor: a Elias o que é de Elias

Brasil 1×1 Grêmio

Gaúcho – Estádio Bento Freitas, Pelotas/RS

Elias cobrando pênalti. Foto de Victor Lanner | Grêmio FBPA

Coube a Elias mais uma vez marcar o gol do Grêmio na segunda rodada do Campeonato Gaúcho. Havia feito os dois, na estreia, um deles de pênalti. Da mesma forma que no primeiro jogo, sofreu o pênalti ao receber a bola em velocidade dentro da área e provocar a falta do adversário. Também cobrou com segurança e colocou a bola no fundo do poço. Fez mais: demonstrou ter repertório variado na cobrança. No meio da semana bateu forte, no alto e do lado direito do goleiro; desta vez usou a força, chutou rasteiro e do lado esquerdo. 

Elias é destaque da base há algumas temporadas. Chegou a Porto Alegre em 2018, depois de surgir no Guarani de Campinas, cidade em que nasceu. Começou jogando pela ponta, aproveitando-se da força e velocidade. Passou a ser usado no meio da área. Foi goleador e campeão brasileiro de aspirantes, em 2021. A fama chegou aos olhos do torcedor que passou a pedir a presença dele na equipe principal. Teve poucas chances. Jogou nove partidas no ano passado e marcou dois gols. 

Internamente, a avaliação era que o atacante oscilava na qualidade de suas apresentações. Nos dois jogos, em que marcou os três gols gremistas, demonstrou que ainda precisa aprimorar o passe. É melhor recebendo a bola do que devolvendo-a aos colegas. Revela boa visão dos companheiros mas tem de melhorar na execução. A despeito disso, tem o faro do gol, como se dizia em um tempo em que Elias sequer havia nascido. O guri acabou de fazer 20 anos. É de novembro de 2001.

Está pedindo passagem. E, certamente, será mais bem aproveitado por Vagner Mancini. Talvez não saia como titular, mas tem tudo para ser esta a temporada da consagração de seu futebol. 

Avalanche Tricolor: a alegria de volta

Grêmio 2×1 Caxias

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Elias comemora o gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O drible de Rildo com a bola migrando de um pé para o outro e deixando os marcadores para trás foi de uma felicidade que só vendo. Tanto quanto o passe que encontrou Elias na cara do gol para fazer aquilo para o qual nasceu. Foram eles os protagonistas do lance que ofereceu ao torcedor gremista nossa primeira alegria do ano. 

O mesmo Elias foi responsável por arrancar nosso segundo sorriso na noite de estreia do Campeonato Gaúcho. Com força e talento, cavou e converteu o pênalti que garantiu a primeira vitória na competição, conquistada com uma equipe totalmente formada de guris bons de bola. 

Na comemoração de cada um dos gols, o entusiasmo da garotada foi contagiante. 

Começo por uma cena que me marcou ainda no primeiro gol. Guilherme Guedes – o lateral esquerdo para o qual se tem depositado confiança há algum tempo, mesmo que ainda jovem, com apenas 22 anos – foi flagrado pela câmera, de joelhos, com os olhos fechados, punhos cerrados, socando o gramado, em uma explosão de alegria; revelando a satisfação de ver seu time mais uma vez no caminho da vitória.

No segundo, Elias, após estufar a rede, correu em direção a linha de fundo, socou o ar e foi encoberto por todos os jogadores do elenco. A turma do banco não se conteve. Correu serelepe em direção ao atacante expressando o contentamento que o futebol é capaz de nos oferecer. Um amontoado de guris se divertindo com o ‘trabalho’ que se propuseram fazer: dar alegria ao torcedor. 

Será uma temporada difícil essa que se inicia. O desafio é conhecido por todos nós. Os riscos são enormes. A cobrança maior ainda. Sabe-se lá o que vai acontecer na próxima rodada, ao fim dessa competição ou nos demais campeonatos que farão parte desta jornada. Seja o que for, serão coisas do futebol, este esporte que escolhi para sofrer e sorrir. 

Nesta quarta-feira, quando o futebol voltou, a mim foi reservado o direito de sorrir. 

Avalanche Tricolor: o Tetra é nosso, os guris do Grêmio!

Grêmio 1×1 Inter

Gaúcho — Arena Grêmio

Ferreirinha comemora o gol do título em foto de Lucas Uebel/Grêmio GBPA

Havia um guri no gol, de sorriso largo e braços ainda maiores, que conhece o Gre-Nal como a palma de sua luva —- Brenno fez sua estreia no Grêmio em um clássico, e até hoje não perdeu nenhum. Havia um guri na zaga em lugar de Kannemann: Ruan, que segue a passos largos o futebol maduro de seu companheiro de área, Geromel. Outro guri ocupou a lateral para substituir Rafinha, expulso ainda no primeiro tempo. E Vanderson cumpriu sua função com a seriedade de um veterano e a velocidade de guri que é.

No meio de campo, havia um guri, Matheus Henrique, que sustentado por um craque, Maicon, e um leão de volante, Thiago Santos, pode soltar seu talento com a bola no pé, distribuir o jogo e aparecer dentro da área para impor perigo ao adversário. Foi ele quem soube escapar da marcação na intermediária gremista, deixar seu adversário estatelado no chão e avançar à fronteira inimiga no início da jogada  do gol do título, ainda no primeiro tempo da partida.

No ataque não faltavam guris. Havia Léo Pereira, desde o início, e Ricardinho e Pepê (sim, não esqueça que o nosso atacante que ruma agora à Europa tem apenas 24 anos), que entraram no segundo tempo para dar desespero nos marcadores. 

Havia o maior de todos os guris: o gigante de 1,71 metro de altura, Aldemir dos Santos Ferreira, o Ferreirinha. Com 23 anos, nosso ponta esquerda encanta o torcedor e enlouquece o sofredor.

Foi ele quem recebeu a bola final daquela jogada iniciada por Matheus e distribuída por Diego Souza —- o goleador que aos 35 anos bota a bola na rede e dança como se fosse um menino. Foram dele, Ferreirinha, os dribles que o deixaram na cara da goleira, as gingas que desnortearam seus marcadores, a bola roubada na defesa e a vibração pelo desarme para a lateral, que tiraram o adversário do sério.

Já disse e repito, Ferreirinha é o futebol jogado com prazer:

“Raro atacante que dribla sem vergonha. Que irrita o marcador com seu talento. Que joga pra frente, em direção ao gol. E invariavelmente consegue chegar ao seu destino”. 

Havia guri no gol, na defesa, no meio de campo e no ataque. Havia guri se desdobrando para salvar nossos vacilos, endiabrando o zagueiro, desarmando o atacante e dominando o jogo com talento e muita garra. Havia Brenno, Vanderson, Ruan, Matheus Henrique, Léo Pereira, Ricardinho, Pepê e Ferreirinha. 

E em cada um desses guris, havia um pouco de mim. Do meu prazer de ser gremista. Das lágrimas que derramei no vestiário do Olímpico no passado. Do choro de alegria naquela vitória de 1977. Da felicidade de uma conquista comemorada. Do quadragésimo título estadual, do tetra Gaúcho, de sete anos sem perder um clássico em casa e de um domínio que —- guris que hoje vestem a camisa do Grêmio não têm ideia — eu nunca havia assistido na época em que eu era realmente um guri lá no Sul.

Obrigado, Grêmio e sua gurizada por me darem a alegria de comemorar mais um título ao lado dos meus guris, aqui em São Paulo.

Avalanche Tricolor: de futebol, de Bruno Covas e da alegria de viver

Inter 1×2 Grêmio

Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Ricardinho comemora gol da virada em homenagem ao pai morto por Covid-19 Foto Lucas Uebel GrêmioFBPA

Deve achar estranho o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche que depois de mais uma vitória em clássico, de virada, na casa do adversário e em final de campeonato, eu tenha demorado tanto para me apresentar neste espaço. Em outros tempos, a publicação viria ainda com o suor encardido do jogo sofrido e a emoção aflorando do coração à mente e da mente aos dedos que digitam cada palavra deste espaço. Estranho não é meu comportamento. São os tempos em que vivemos.

Estranhos e complexos. Difíceis de serem digeridos. Tomados de absurda desconsideração com o outro. Com a vida. Com a gente querida. Noticiamos mortes e a elas —- sim, com direito a pronome pessoal de tão familiares que se tornaram — somamos outras tantas. E de tanto que noticiamos, passamos a traduzir a tragédia sanitária vivida apenas em números: um + um + mil + uma centena de milhares …

Quando os corpos ganham nomes e histórias, a realidade se apresenta. Foi o que aconteceu comigo neste domingo ao acordar com a informação da morte de Eva Wilma, aos 87 anos, por câncer no ovário. Ela fazia parte da família, não fazia? Se não pelo teatro —- onde tinha talento impressionante, quase sempre ao lado do amado Carlos Zara —, certamente pela televisão que transformou seu rosto e sorriso populares. Familiares.

O almoço de domingo ainda não estava servido, quando chegou a notícia da morte esperada de Bruno Covas, aos 41 anos, também vítima de câncer. A doença do prefeito acompanhamos mais de perto. Desde que a descobriu, em outubro de 2019, tornou-a pública e a tratou com transparência —- apenas uma das muitas lições que aprendeu com seu avô e guia Mário Covas. Com seu exemplo, deve ter fortalecido muitas outras pessoas que sofrem do mesmo mal. Revelou resiliência e desejo de estar vivo — e isso é um mérito diante de atos que colocam dúvidas sobre a sanidade mental de algumas pessoas que parecem prezar a morte (a dos outros, lógico).

O domingo não havia terminado quando soubemos da morte de MC Kevin, aos 23 anos, vítima aparentemente de sua própria vontade, em situação ainda estranha ao nosso conhecimento. Confesso que do músico do funk sabia pouco. Mas era mais uma cara a ilustrar a morte. E isso tudo me impacta sobremaneira. 

A amenizar a dureza da realidade, havia o futebol na televisão, assistido ao lado do filho mais velho, que há algum tempo tem-se revelado tão ou mais gremista que o pai. Conhece cada jogador. Sabe quem deve entrar. Quem deve sair. Qual o caminho do gol a fazer e o do gol tomado. O futebol em família é outro dos fenômenos que fazem este jogo ultrapassar as fronteiras do esporte — e não vou me atrever a destrinchar essa teoria porque já foi feita por gente de alta qualidade como Gilberto Freyre, Eduardo Galeano e Franklin Foer. Dê um Google neles. Valem a pena!

Nos dois gols que marcamos, depois da decepção de sair atrás no placar, comemoramos juntos em pé no sofá da sala. Batemos as palmas das mãos. Nos abraçamos. Beijamo-nos. Fomos cúmplices no sofrer diante da tela quando aquela bola, quase no fim da partida, relou o travessão — se entrasse resultaria em um empate até aceitável, mas amargo para quem estaria próximo da vitória.

Mesmo naquela alegria fugaz do futebol e talvez até por isso, uma imagem não me saía da cabeça: a do dia em que o prefeito Bruno Covas apareceu ao lado de seu filho Tomás, de 15 anos, na arquibancada do Maracanã, semi-fechado devido a pandemia.

Apenas alguns poucos tiveram aquele privilégio. E a crítica sobre o prefeito foi intensa, pois enquanto ele estava por lá, deixava para trás a ordem de todos ficarmos em casa, aqui em São Paulo. Parecia uma contradição. Um desrespeito. Devia solidariedade ao povo paulistano, dizia-se. 

Covas explicou que seria uma oportunidade única torcer pelo Santos ao lado do filho, em uma final de Libertadores. Nunca disse, mas deixava explícito que lá estava não porque seria a única, mas porque seria a última. Ele tinha consciência do avanço da doença. Do drama pessoal que passava. Da dor de perder os momentos mais intensos de nossas vidas. Que em breve, não sabia quando, mas em breve, teria de abrir mão tão cedo de tudo aquilo que só nós que estamos vivos podemos usufruir, mesmo que não saibamos valorizar. 

Estar na arquibancada ao lado do filho era um prazer do qual Covas não queria abrir mão, a despeito das críticas que ouviria. Fui cúmplice dele ao não criticá-lo. Ele tinha esse direito. E o exerceu. Quem já se deu a oportunidade de pular na arquibancada e abraçar seu pai pelo gol assinalado ou o título conquistado, vai me entender. Já o fiz como pai e como filho. Tomás levará para a vida o gesto e o exemplo do pai, que nos deixa muitas lições — a começar a de termos consciência do que realmente é importante no nosso cotidiano, a quem devemos prezar e dedicar o nosso amor.

Espero um dia aprender essa lição por completo. Que não seja tarde.

PS: Ricardinho, que ilustra foto deste post, perdeu o pai e o avô recentemente e segue compartilhando com eles a alegria de cada gol.

Avalanche Tricolor: futebol e vitória no Dia das Mães

Grêmio 2×0 Caxias

Gaúcho — Arena Grêmio

Gol de Matheus, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Mesmo tonto depois do golpe na cabeça, na sequência do gol que marcou, Matheus Henrique ainda teve noção de procurar a microcâmera presa na parte alta da rede, olhar com carinho e mandar mensagem para a mãe: ‘eu te amo!’, teria dito ele —- foi o que entendi a partir de leitura labial. A mãe deve ter ficado orgulhosa tanto quanto preocupada pelo lance que levou o guri ao chão e o impediu de comemorar o gol que selou a presença do Grêmio em mais uma final de Campeonato Gaúcho.

Hoje, ao sair na frente no placar, aos 29 minutos do primeiro tempo, praticamente nocauteou o adversário, que já havia vencido na primeira semifinal, por 2 a 1, fora de casa. Tendo diante de si um time que não fazia resistência, o Grêmio limitou-se a levar o jogo até o fim, ainda que Ferreirinha insistisse em impor velocidade, driblar os adversários e tentar o gol. De tanto insistir, aos 37 do segundo tempo, deixou seus marcadores para trás com uma cruzada de pernas e marcou no canto esquerdo do goleiro. Fez por merecer. 

No primeiro gol tinha sido o responsável pela assistência ao fazer o lateral dançar e cair dentro da área. No segundo, foi protagonista desde o início da jogada. Deve ter deixado orgulhosa a mãe, a quem ajudava no trabalho da feira quando ainda era um guri de calça curta lá no Mato Grosso do Sul.

Geromel completou 300 jogos, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Outra mãe — e essa tive o prazer de conhecer —- que deve ter ficado bem feliz neste domingo é a do Geromel, ao ver o filho entrar em campo pela 300ª vez, vestindo a camisa do Grêmio. Nosso zagueiro e capitão cumpriu bem o seu papel, afastou os poucos riscos que o adversário ofereceu e demonstrou enorme esforço para posicionar a defesa que ainda se ajusta ao comando do novo técnico. 

Verdade que mãe é uma figura curiosa. Nem precisa que o filho faça gol, jogue bem, tenha talento e persistência para estar feliz com o pimpolho. A despeito do que o menino faça ou desfaça, ela sempre estará por perto para ajudar, acolher, disciplinar se necessário e justificar o que encontrar no caminho dele. 

Lembro muito da minha, que perdi cedo, quando estava começando a vida adulta. Era quem colocava ordem na família, puxava a orelha na bagunça e arremessava o chinelo para nos aquietar. Assim como era a primeira a partir em nossa defesa, abraçar e desculpar. 

Foi minha protetora sempre que precisei. Me safou de constrangimentos quando meu Grêmio aprontava das suas nas rodadas do fim de semana pelo Campeonato Gaúcho, especialmente nos clássicos regionais. No dia seguinte às derrotas clamorosas, era minha cúmplice. Percebendo minha dificuldade de encarar os colegas que torciam para o adversário, me perguntava antes de sair de casa se eu estava me sentindo bem: era a senha para eu fazer uma cara de dor e pedir para voltar para cama.

Naquele tempo, as segundas-feiras pós-decisão costumavam ser duras. Mas a Dona Ruth era forte. E não me deixava só. Atualmente, as segundas-feira até que têm sido muito generosas comigo —- até porque, convenhamos, o Campeonato Gaúcho perdeu boa parte da sua importância no calendário. Mas trocaria todos esses dias de vitória por tê-la ao meu lado neste domingo e poder, assim como fez Matheusinho, mandar um beijo para ela e dizer: “eu te amo, mãe!”

Avalanche Tricolor: meu WhatsApp com o Diego Souza tá bombando!

Caxias 1×2 Grêmio

Gaúcho — Centenário, Caxias/RS

Diego Souza comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Devo ser figura rara entre usuários do WhatsApp. O número de grupos no meu mensageiro é restrito. Aquele famoso da família, jamais foi construído. De amigos, nunca tive — refiro-me ao grupo, lógico, porque amigos consegui manter alguns na minha lista. Bem poucos para ser sincero. Mas isso resolvo no divã. O grupo do Jornal da CBN só se formou há um ano e por causa da pandemia. O outro que tenho são das duas turmas de aula que frequento. Têm data para expirar. O da Igreja preservo porque é apenas para receber recados. Ninguém pode escrever nele, além do administrador. 

Quem entra no meu WhatsApp, vê de cara a mensagem: “vale a pena?”. Pode parecer antipático, mas tem o objetivo de alertar as pessoas para que reflitam antes de escrever. Hoje, desperdiçamos muito tempo gerenciando a quantidade gigantesca de mensagens que navegam pelas mais diversas ferramentas de comunicação. Assim, sugiro: vamos escrever o estritamente necessário e ajudarmos a combater um fenômeno que tem causado sérios problemas de saúde mental: a infoxicação —- resultado do volume de informação que intoxica nosso cérebro, dificulta o entendimento dos fatos, e causa estresse e ansiedade.

Falo desses fatos em uma coluna destinada a comemorar (ou lamentar) resultados em campo porque graças a uma missão que assumi desde que Diego Souza foi contratado — por indicação de Renato, lembra?!? — meu WhatsApp está movimentado.

contei em Avalanches passadas que, ao saber que o filho querido do meu amigo Luiz Gustavo Medina é fã do atacante gremista —- vista qual camiseta estiver vestindo —-, decidi enviar uma foto de Diego comemorando cada gol marcado pelo Grêmio. Confesso que começou como uma tentativa, sem sucesso, de cooptar o menino, são paulino por influência do pai, para o nosso Imortal e hoje virou um ritual. 

Diego marca, saco o celular, registro a comemoração na tela da TV e envio para o WhatsApp do Teco. Pra ter ideia, só neste domingo, foram duas imagens transmitidas. Uma ainda no primeiro tempo, quando nosso goleador aproveitou uma bola desviada pelo zagueiro adversário e em um chute cruzado colocou o Grêmio à frente no placar. A outra foi na cobrança de pênalti no segundo tempo, quando parecia que não encontraríamos mais espaço na defesa que se postava diante da área para segurar o empate alcançado ainda antes do intervalo — a propósito, uma curiosidade: sabia que o Grêmio não desperdiçou nenhum pênalti neste ano?

Com os dois gols que deixaram o Grêmio em vantagem na semifinal e — se confirmarmos a classificação — levarão a decisão do Campeonato Gaúcho para a Arena, Diego Souza chegou a melhor marca dele em um início de temporada —- e duvido que outros tenham conseguido algo semelhante, neste ano: em nove partidas disputadas marcou 11 gols. Sim, mais de um gol por partida. Aos 36 anos, o artilheiro combina força, precisão e experiência para estar bem colocado, saber vencer a disputa pesada dentro da área e encontrar o momento certo para o chute. 

Graças a Diego Souza, meu WhatsApp tá bombando!