Conte Sua História de São Paulo: o dia em que os nossos cientistas foram recebidos como heróis na cidade

 

Mayana Zatz
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte Mayana Zatz:

 

Sou geneticista e dirijo o Centro de Pesquisas em Genoma Humano e células-tronco na Universidade de São Paulo. A história sobre São Paulo que vou relatar não é tão antiga mas acho que vale a pena ser contada.

 

Ela teve início há cerca de 20 anos, quando a FAPESP — Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de S. Paulo reuniu vários líderes de pesquisas para discutir um assunto muito preocupante. Enquanto os países do primeiro mundo avançavam rapidamente no domínio da tecnologia do sequenciamento do DNA — isto é, como analisar as informações contidas no DNA — no Brasil poucos laboratórios dominavam essa tecnologia. Como reverter essa situação, como capacitar mais laboratórios e cientistas na tecnologia de sequenciamento de DNA? .

 

Depois de muitas discussões, decidiu-se formar uma rede de 30 laboratórios, que iriam ser treinados nessa tecnologia de ponta. Era um projeto totalmente inovador. Nosso laboratório, no Centro de Pesquisas do Genoma Humano iria ser um dos 30. Decidiu-se sequenciar um organismo com um DNA pequeno, que não levasse anos para ser sequenciado. Lembrando que hoje você consegue sequenciar um genoma humano em algumas horas mas naquela época ainda estava em curso o projeto genoma humano que levou 13 anos para sequenciar o primeiro genoma de um ser humano — a um custo de 3 bilhões de dólare). Também teria que ser um organismo que tivesse algum interesse comercial. Depois de muitas discussões, decidiu-se pela bactéria Xylella que é um patógeno que ataca os laranjais causando grandes prejuízos à citricultura.

 

Cada laboratório recebeu da FAPESP um sequenciador — um equipamento para sequenciar — e os reagentes necessários para sequenciar um trecho do  DNA da bactéria. A ideia era que depois iriam se juntar os pedaços sequenciados por cada laboratório como se fosse um quebra-cabeças. O objetivo era terminar em dois anos. E aí começou a corrida, com trocas de informações pela internet entre os 30 laboratórios.

 

Em 2.000, conseguiu-se terminar o sequenciamento da Xyllela e foi um sucesso acima de qualquer expectativa. O que pretendia ser principalmente um treinamento de tecnologia gerou uma publicação científica que foi capa da revista Nature, uma das revistas científicas mais prestigiosas que existe. O Brasil não era mais notícia por causa do futebol e do carnaval mas também pelos seus feitos científicos. Era a primeira vez que se sequenciava no mundo o DNA de uma bactéria que era um patógeno de uma planta.

 

O governador de São Paulo na época era o Mário Covas e ele decidiu fazer uma homenagem na sala São Paulo para todos os cientistas que tinham participado do projeto. Mas foi muito mais do que uma homenagem. No caminho inteiro havia faixas dizendo: São Paulo tem orgulho dos seus cientistas. Foi uma emoção indescritível. Inesquecível. Uma homenagem aos cientistas? Isso nunca havia acontecido antes.

 

Cheguei a Sala São Paulo com os olhos marejados de lágrimas. Brinco sempre que eu me senti como um jogador de futebol voltando de uma copa internacional vitoriosa.

 

Será que teremos investimentos que permitam que a ciência brasileira volte a ter esse prestígio e reconhecimento?

 

Dra Mayana Zatz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da sua cidade, na CBN. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Se quiser conhecer outras histórias, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Mundo Corporativo: mude você antes que a sua empresa mude, sugere Wanderlei Passarella

 

 

 

 

 

“Não espere sua empresa mudar para você mudar. É uma das coisas que eu coloco para os executivos que ajudo a repensar a carreira. Você tem de começar agora pensando que daqui cinco ou dez anos a empresa que você está hoje, tão sólida, pode estar mudando” — Wanderlei Passarella, mentor de executivo

 

 

As mudanças na forma de encarar o mundo e a nós mesmos exigem forte poder de adaptação das empresas e dos seus profissionais. Para entender como é possível enfrentar essa transformação sem estresse e de maneira planejada, o jornalista Mílton Jung, apresentador do programa Mundo Corporativo da CBN, entrevistou Wanderlei Passarella que é conselheiro de empresas, mentor de executivos e coautor do livro “A reinvenção da empresa — projeto Omega”, escrito com Paulo Monteiro e publicado pela editora Évora.

 

 

Para que essa reinvenção ocorra, Passarella recomenda que os profissionais prestem atenção em três aspectos:

 

 

1. Incorporar a tecnologia —- as novidades tecnológicas estão aí para facilitar a sua vida, use-as com equilíbrio sem se transformar em escravo delas.
2. Amplie a base de conhecimento —— saiba que para aprofundar o conhecimento em uma determinada área é preciso expandir a base de conhecimento; os especialistas hoje precisam fazer sinapses, buscar uma relação multidisciplinar.
3. Desenvolva o autoconhecimento —- você vê o mundo lá fora se transformando, mas você pode mudar também e só vai conseguir se trabalhar mais centrado e olhando para si mesmo, em como você encara as coisas e quais são os seus valores.

 

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site da CBN, na página da CBN no Facebook e no perfil @CBNOficial do Instagram. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 22h30, em horário alternativo.

Conte Sua História de São Paulo: chama o Tonico! Ele faz

 


Por Hélio Borgoni
Ouvinte da CBN

 

 

— “Chama o Tonico”

 

Era assim. Sempre foi assim. Tonico era conhecido como o “faz tudo”. No jargão popular: Tonico é pau pra qualquer obra. Eu o conheci no ano de 1944. Foi numa festa regada com a bebida preferida dele “fogo Paulista”. Essa bebida era sempre servida nos aniversários, nascimento de filhos, batizados, crismas ou até mesmo quando ele participava de um telhado terminado. Os batismos de crianças eram frequentes. Todo mundo tinha um monte de filhos.  As famílias sempre numerosas. Tinham tantos irmãos e primos, e primos de primos, e amigos de primos, e amigos de amigos… todos eram, de alguma forma, compadres.

 

Os pais do Tonico eram imigrantes italianos. Foram trabalhar em fazendas de café, no sul de Minas, mais precisamente na cidade de São Sebastião do Paraíso. Tonico era o terceiro filho. Pela ordem dos mais velhos vinha Evaristo, Iolanda, ele, Laudelina, conhecida como Fiona, Alzira e Olímpio, o caçula. 

 

Como a historia é sobre o personagem Tonico vou me abster de falar dos outros, por enquanto. Tonico, tinha como tarefa trabalhar como “carreador de boi”, andava ao lado da carroça, descalço. Por que sei? Um dia, ele comentou que o frio era tanto que nem sentia os  espinhos nos pés; a mãe dele fazia um escalda pés e tirava os espinhos com agulha de costura. Ele contou que veio a usar sapato com 18 anos de idade,quando mudou-se para São Paulo e seu irmão Evaristo o presenteou com uma bota.

 

Analfabeto, mas muito esperto, começou trabalhando como ajudante de pedreiros e ia observando e perguntando como se lidava com prumos, ajudava tirar níveis dos alicerces, e, assim, foi aprendendo uma profissão. Mas nunca parou nisso. Aprendeu a pintar, fazer telhados, encanamentos de água esgoto, etc… até a parte elétrica ele acabou dominando. Chegando a ser capataz de obras e autorizado a recrutar trabalhadores, São Paulo vivia uma febre de obras. Todo o centro, periferias e até Mooca, Ipiranga, Perdizes … Era escolher o melhor salário. Então, ele começou a escrever cartas pros primos em Minas Gerais: “venham pra São Paulo, eu arrumo onde te encaixar”. Cada parceiro que chegava era festa. Em pouco tempo, cada qual mandava buscar a família: eram pais, irmãos, avôs, sogros, … e, assim, as Famílias Borgoni e Zambelli foram se estabelecendo na Capital, e também em São Caetano, São Bernardo e Santo André.

 

—- Chama o Tonico! Ele faz.

 

Tonico nunca deixou de ajudar os amigos. Mesmo que fosse só nos domingos, ele pegava as ferramentas, tomava o ônibus e ia. O  sonho dele era estudar para ser “guarda livros” — não sei o que seria hoje, mas já foi descrito como  “contador”. Autodidata, mal conseguia escrever um orçamento, às vezes errava e tomava prejuízo, mas sempre cumpriu os tratos. Dizia que a palavra dada tem que ser respeitada. Sonhava em criar galinhas poedeiras, comprou livros e os nomes Plymouth Rock Barrado e,Rhod Islan Red faziam parte das suas conversas.

 

Teve tantos tombos na vida que foi ficando sem energia. Mas até então nunca deixou de trabalhar um dia sequer. Nas décadas de 1940, 1950 e meados de 1960 , tinha muita energia e vontade de vencer na vida.

 

Agora, já não mais tomava “fogo paulista” nas festas. Parava em vários bares a caminho de casa, tomava vinho, rabo de galo, conhaque, cachaça; e, assim, foi se apagando o brilho no olhar. Festas para ele só nos domingos quando um dos irmãos passava para papear. Ele ficava contente. As visitas foram ficando escassas. Quem mais vinha, eram os irmãos Evaristo, Olímpio, Laudelina, Fiona, o marido dela, o Atíllio, e alguns netos.

 

Ele faleceu em outubro de 1989.

 

Tonico, era meu pai

 


Hélio Borgoni é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: o RH tem de se reportar ao CEO, diz Fernando de Mello

 

 

“Sempre deve ter um humano fazendo o julgamento do outro humano. A gente tenta logicamente transformar o desempenho de algumas áreas em métricas. Mas a gente nunca deixa só a métrica reinar” — Francisco Homem de Mello, CEO Qulture.Rocks

 

A área de recursos humanos está em plena transformação —- novos negócios, novos desafios e muita tecnologia. O uso de ferramentas digitais têm colaborado para um desempenho melhor do setor e conseguido resultados efetivos, mas Francisco Homem de Mello, da Qulture Rocks, alerta que o fundamental é que o RH seja visto como estratégico dentro da empresa, sob o risco de se desperdiçar todo o investimento tecnológico. Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, Mello apresentou resultados de pesquisa que ouviu cerca de 1.800 líderes empresariais — vice-presidentes, diretores e gestores — e ajuda a entender o cenário atual deste setor.

 

Para 61% dos entrevistados o RH participa efetivamente das decisões estratégicas da empresa enquanto e para 64% deles, o RH se reporta diretamente ao CEO:

 

“É otima a posição do RH se reportando ao CEO. Acho que cultura, gestão de desempenho, gente é prioridade número 1 de CEO e, portanto, a área do RH tem de se reportar ao CEO”

 

Para ter acesso aos resultados completos da pesquisa “Panorama de RH no Brasil 2018”, acesse esse link.

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site da CBN, na página da emissora no Facebook e no perfil do instagram @CBNoficial. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 22h30, em horário alternativo. Participaram deste programa o Guilherme Dogo, Ricardo Correia e Débora Gonçalves.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a turminha do córrego do Sapateiro

 


Por João Batista de Paula
Ouvinte da CBN

 

 

No Itaim Bibi nos tempos da zagaia.
 

 

O tempo de todos nós, meninos e meninas do bairro do Itaim Bibi, dos anos 1940 a 1950. Era a nossa infância e parte de nossa juventude — saudades desse tempo que ainda não tínhamos saudades. Não sei nada, mas sei que quando o encanto é para ser, será; e não há quem possa separar.
 

 

Nos tempo das ruas de terra batida — quando chovia o barro com o sol virava  torrão, o torrão virava pó, o pó virava lama, com as águas, o córrego do Sapateiro se agigantava, a ponte balançava, as árvores tremiam e se batiam com os ventos fortes; a molecada corria e brincava de guerra de barro. As casas eram conhecidas, os portões abertos sem chaves e sem grades, os cães ladravam e vigiavam tudo,
 

 

As brincadeiras mudavam quando chovia e fazia frio: agora era de pega-pega, a vareta foi Boca de Forno; com o frio as meninas quase não apareciam na rua; os meninos tinham seus cavalos de cabo de vassoura, trotavam aos gritos em alta velocidade brandindo suas espadas contra inimigos imaginários. Quando o tempo melhorava as meninas brincavam de passa anel ou de barra manteiga e pular corda. Outras se imaginavam donas de casa, montavam suas casinhas nas calçadas de terra e ali sonhavam e formavam suas famílias. Os mais pequenos eram os filhos, o marido era sempre os mais calmos ou imaginário, o diálogo e os afazeres elas aprendiam com as mães.

 

As ruas não eram iluminadas nas noites mais escuras e os meninos tinham lanternas a lenha: era uma lata de óleo com uma abertura na parte baixa em forma de pirâmide e uma alça de arame de meio metro, pouco mais ou pouco menos. Colocávamos lenha e fogo e girávamos com a alça, era bacana quando cinco ou seis lanternas estavam em ação na rua escura, nas noites escuras.
 

 

Nossa turminha vivia em torno do córrego do Sapateiro. Entre a Rua Mário de Castro, hoje Fernandes de Abreu, rua 17, atual Ramos Batista, Rua Piqueta, Rua Heloísa — a mesma onde os caminhões que carregavam areia das descobertas subiam e encalhavam nos buracos, e derrapavam no tijuco preto, para a alegria da molecada que tinham um refrão, que era repetido sempre. Era assim: “galinha preta, galinha preta”ou “catiça-catiça-catiça” — isso repetido continuadamente era a fúria dos choferes e barqueiros que vinham em socorro dos caminhões encalhados. Hoje, ali é a famosa e fabulosa Av. Juscelino Kubistchek de Oliveira. 
 

 

Nesse pequeno apanhado, contei mentalmente mais de 40 meninos e meninas. Não sei por onde andam todos, fomos crescendo mudando de bairro, casando e nos distanciando um dos outros. Da minha parte posso afirmar que todos vocês estão em minha mente, no mesmo lugar de sempre, na rua brincando de tudo. Se notarem algum erro fica por conta dos meus 85 anos.

 

João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: “trabalhadores serão contratados pela inovação”, diz Adriano Lima

 

 

 

“O emprego será demitido pela automação mas trabalhadores serão contratados pela inovação, porém não os mesmos trabalhadores ou os trabalhadores com as mesmas competências” — Adriano Lima, gestão de pessoas

 

A chegada da tecnologia no seu ambiente de trabalho tem sido cada vez mais veloz e transformadora. E nós precisamos estar preparados para essas mudanças. Por isso, o Mundo Corporativo conversou com Adriano Lima, da LM+ e da PeopleTech e especialista em gestão de pessoas, que tem se dedicado a entender quais as competências que os novos empregos esperam de você:

 

“Essas outras habilidades de relacionamento, de empatia, de criatividade, elas terão de ser mais trabalhadas e a gente sabe que isso não se ensina em curso, não se ensina em faculdade, é um processo de desenvolvimento nosso, da pessoa, do ser humano, através do seu autoconhecimento, do seu autodesenvolvimento que é o que a gente tem buscado investir cada vez mais nas empresas”

 

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10h30 da noite, em horário alternativo. O programa também está disponível na lista de podcast da CBN. Colaboraram com o programa o Guilherme Dogo, o Rafael Furugen, a Debora Gonçalves e a Natália Mota.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: o dia em que andei de ônibus com o criador da estátua de Borba Gato

 

Por Durval Pedroso da Silva Jr
Ouvinte da CBN

 

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A estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, em foto do site da ALESP

 

 

Nasci no Bairro do Bexiga, próximo da Avenida Paulista, em janeiro de 1951. Morei nela por quase 40 anos, o que por si só daria para contar  muitas histórias. Resolvi, porém, relatar uma que reputo interessante.

 

Estava eu em companhia de meu pai, no inicio de fevereiro de 1963 — eu com apenas 12 anos — abordo de um ônibus da Viação Bola Branca, que saiu do Largo de Pinheiros com destino a Santo Amaro, onde morava a maioria de nossos parentes.

 

Quando entramos pela Avenida Santo Amaro, perto da Vila Nova Conceição, subiu ao ônibus, que estava bem lotado, um velho amigo do meu pai: o escultor Julio Guerra. Meu pai apresentou o seu amigo a mim, com toda a pompa e circunstância, explicando suas habilidades como pintor e escultor. Em contra partida, o Julio falou maravilhas das habilidades esportivas de meu pai, mas como estas eu já conhecia sobejamente, tratei de fazer o maior número de perguntas, ao primeiro pintor e escultor que conheci na minha vida — ao ponto de meu pai me dar um beliscão bem dado, para eu parar de metralhar seu amigo com perguntas.

 

Quando estávamos passando no Alto da Boa Vista, demos de cara com a enorme estátua do Bandeirante Borba Gato, que tinha sido inaugurada há alguns dias. Eu maravilhado com aquela grandeza toda, ouvi bem baixinho no meu ouvido: — “esta é uma das minhas obras”, disse Julio. Mas a esta altura já tínhamos ouvido muitos comentários dos passageiros. Uns, inclusive, não muito elogiosos com relação à obra. Antes que eu abrisse a boca para falar em alto e bom som que estávamos com o autor daquele monumento dentro do nosso ônibus, meu pai que conhecia a tagarelice do filho, tampou levemente a minha boca. Mas o grande momento veio a seguir. O Julio vira-se para mim, num tom bem baixo, e diz: — “esta é a razão maior de uma obra de arte, provocar sensações e comentários”.

 

Mais um ensinamento que aprendi nesta nossa maravilhosa cidade.

 

Durval Pedroso da Silva Jr. é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: muito frio, pouca roupa e uma tremenda vontade de ser alguém na vida

 


Por Edileide Koller
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho um orgulho danado de ser umbuzeirense. Nasci em uma casa bem grande, onde da metade para trás pertencia a Pernambuco e da metade para frente, a Paraíba. De Umbuzeiro, minha família e eu, com 4 anos, fomos morar em Orobó, cidade mais próxima e totalmente pernambucana, para que meus irmãos mais velhos pudessem estudar no ginásio. Quando eu tinha 9 anos, fomos morar em Recife — novamente por conta dos estudos dos meus irmãos que deveriam fazer faculdade para “ser alguém na vida”.

 

A partir daí, segue essa história que sempre me faz derramar um líquido salgado pelo rosto. Um típico exemplo de desigualdade no Brasil, pelo tanto de força e determinação que eu tinha para “vencer na vida”. Na época não entendia bem isso. Como é bom às vezes não entender bem o que se passa a nossa volta. Eu só tinha a certeza de que tudo dependia de mim, que se eu me esforçasse bastante, muito mesmo, eu conseguiria. Infelizmente, não é bem assim. Precisamos de oportunidade também. Faltou! Chorei agora. Literalmente chorei muito.

 

Pois bem, foi no Recife que comecei faculdade de Economia na UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco e, no 3º ano, decidi morar em São Paulo a convite do meu querido irmão Walmir, que lá morava. Cheguei em 1987, com 22 anos.

 

São Paulo do frio, da garoa, do consolo. Cidade grande, linda, cheia de cinemas, teatros e parques. Cada dia mais a cidade me encantava e me seduzia. São Paulo sempre foi palco de grandes movimentos, sede de multinacionais e renomadas universidades. Me empolguei.

 

Sabe aquela guerreira nordestina, que sabia o que queria? Vencer na vida! Consegui uma transferência da faculdade para a PUC, de manhã. Não tinha como pagar. Consegui uma transferência para a FMU, à noite.

 

Comecei a trabalhar na primeira chance de emprego. Recepção.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam estar…

 

Um dia, em plena Avenida Paulista, voltando da faculdade para casa, o termômetro marcava 10 graus. Muito frio, pouca roupa. Muita fome, pouco dinheiro. E eu me perguntei se não era melhor estar no calor da casinha da minha mãe, tomando sopa de feijão e com a barriga cheia, lá no Recife. Realmente um dilema, porque só vivendo isso para saber.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam…

 

Somente em São Paulo, percebi o quanto era limitada, o quanto não sabia das coisas, o quanto tinha que correr contra o tempo para conquistar meus objetivos. O quanto tinha que ler, estudar, acordar cedo, dormir tarde e me privar de fazer lanches no meio da manhã e no meio da tarde. Mas as oportunidades eram maiores. Mesmo relativizando porque os salários em São Paulo são maiores, mas o custo de vida também. Tem mais empregos, mas a demanda por emprego é maior.

 

E eis que, no meio disso tudo conheci Celso. 1989.

 

Ufa!!! Um namorado. Pelas nossas diferenças, não sei como ficamos juntos. Devo ter conquistado aquele coração alemão pelo tanto de amor que tinha para dar e faltava a quem. E enchi o homem de amor. Até hoje, quase 30 anos.

 

E em São Paulo posso dizer que vivi os melhores momentos da minha vida. Me formei, trabalhei, casei, construí uma família linda, ganhei minhas duas meninas, Beatriz e Letícia. Conquistei coisas importantes da vida.

 

Pois bem, essa é a resumidíssima história sobre minha chegada a São Paulo. O tempo muda nossas perspectivas, nossos pensamentos e hoje não somos o que éramos há um ano, quanto mais há 30 anos. Mas mantive um pensamento que tenho desde pequena, desde sempre. O conhecimento é a principal riqueza. Através dele você faz conquistas e as mantêm. Durante todo esse percurso que acabei de contar, tentei aprender o máximo que pude, dentro das minhas possibilidades. E aprendi que nunca é tarde para isso. Eu não paro.

 

Ah, São Paulo! Quantos queriam…

 

Edileide Koeller é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial de aniversário: envie seu texto agora par contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a catarina que adora ser paulistana

 

Por Brigitte Ramos
Ouvinte da CBN

 

 

Taió, Santa Catarina, 29 de janeiro de 1957. Nasce a filha do padeiro da cidade, e recebe o nome de Brigitte, mesmo nome da filha do pastor recém-chegado da Alemanha. Naquela época muitos pais escolhiam esse nome devido à Brigitte Bardot. Essa pequena, típica alemãzinha, sempre de tranças, contra a vontade, lógico, desde que se conhece por gente adorava cidade grande, praças, igrejas, muitas ruas iluminadas e andar em ruas de paralelepípedo. A maior cidade que tinha acesso até os sete anos era Rio do Sul.

 

Alguns anos depois, mudamos para Blumenau, e de lá um dia na minha adolescência tive a oportunidade de vir para São Paulo, com minha mãe, de ônibus, para o casamento de um tio. Foi apaixonante conhecer a cidade. Disseram que era terra da garoa e era, não tivemos nenhum dia de sol. Me levaram ao Museu do Ipiranga. O casamento foi numa igreja na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, e a festa num grande buffet.

 

Até a sinalização das obras com luzes dentro de baldes vermelhos e a iluminação dos carros parados no trânsito eram belas. Pequenos detalhes me deixavam muito felizes, como andar de elevador e admirar a Avenida Paulista do oitavo andar de um prédio, próximo ao MASP. Lá morava uma tia e de lá eu podia ver pessoas trabalhando nos outros prédios e ficava imaginando, como seria bom trabalhar num lugar destes. Nessa viagem plantei uma semente de esperança para realizar meu sonho.

 

Quando tinha entre 18 e 19 anos, o sonho se realizou. No inicio morei com meus tios, aqueles para cujo casamento eu vim na adolescência. Era no Itaim. Mas eu  queria independência e fui morar numa casa em que se alugavam quartos, na Rua Conselheiro Ramalho. A dona da pensão sempre pedia para o filho me acompanhar de manhã quando saía para o trabalho e à noite quando eu voltava da escola de ônibus. Eram só três quarteirões da Brigadeiro Luis Antonio. Só mais tarde fiquei sabendo o quanto não era seguro morar ali, próximo a uma tal de Madame Satã.

 

Por pressão de meus parentes fui morar num apartamento com outras moças do interior de São Paulo e uma de Minas, um pouco mais próximo da Avenida Paulista, saindo assim da zona de perigo. Foi em uma discoteca na Faria Lima, a Papagaios, que conheci meu marido. Era a balada da época com luz negra e um decoração bem diferente dos bailinhos da minha cidade.

 

Conheci a cidade andando de ônibus e, às vezes, até de trem, atrás de um emprego, escolhido em algum anúncio de jornal ou por indicação de uma agência da Rua Barão de Itapetininga, próximo ao Mappin —- que era a loja de departamentos onde todo paulista fazia compras. Trabalhei em algumas empresas alemãs. Atualmente trabalho numa em São Bernardo do Campo.

 

Uma sensação gostosa é pousar em Congonhas, ver a cidade lá de cima  e saber que tem um cantinho lá em baixo que é meu. Outro prazer é fazer ginástica e caminhadas no Parque do Povo — sinto-me no Central Park de Nova York. No entorno do sossego do parque, aviões no céu de minuto em minuto, luzes na Marginal, bicicletas nas ciclovias, pessoas caminhando, trens passando ao lado do Rio Pinheiros e os arranha-céus antigos e novos, cercando o parque, iluminados. De vez em quando você pode até acompanhar o pouso de um helicóptero no topo de um deles.

 

Apesar de ser uma grande cidade estamos muito próximos uns dos outros graças aos avanços da tecnologia e da comunicação. Lá nos meus sonhos de criança e adolescência, nunca pensei que um dia estaria ao volante de um carro indo trabalhar e ouvindo uma amiga de colégio da minha filha narrando o trânsito da cidade de São Paulo do alto de um helicóptero.

 

Brigitte Ramos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: lembranças de uma cidade que o Alzheimer insiste em tirar de mim

 

Por Mário Curcio
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo as lembranças de Sidnea Rodrigues Curcio, escritas por Mário Curcio:

 

Já contei minha história antes, mas como tenho o Mal de Alzheimer, dei-me o direito de esquecer para poder contar outra vez, agora sob o ponto de vista de quem convive comigo no dia a dia.

 

Cheguei a São Paulo na metade dos anos 1950, recém-casada, para trabalhar numa escola aqui na zona sul. Logo surgiu a possibilidade de pegar uma classe e comecei a trabalhar. Pouco depois disso apareceu uma oportunidade no ensino municipal. Fui das primeiras professoras da rede municipal.

 

Sempre morei aqui em Santo Amaro, na zona siul. Não só andei de bonde, mas também fiz a última viagem de bonde da cidade, ao lado do então prefeito Faria Lima. Também acompanhei, aqui em Santo Amaro, a grande migração dos nordestinos. Num primeiro momento, eles se concentravam numa travessa da Avenida João Dias, perto da atual Catedral da Fé, aquela grande igreja Universal, próximo da da ponte João Dias. Eles eram determinados a trabalhar e ajudaram a erguer nossa cidade.

 

Já contei aqui também que vi o artista Julio Guerra erguendo a estátua do Borba Gato no quintal de sua casa, pertinho da 11ª Delegacia de Polícia, que continua ali na rua Anchieta. Hoje passo pela estátua mas minha doença não me deixa reconhecer o Bandeirante — virou apenas um homenzarrão de botinas e com uma baita espingarda na mão.  O Teatro Paulo Eiró também não diz muita coisa para mim.

 

O mais triste dessa doença é quando olho para a escola municipal Linneu Prestes. Ali eu dei aula por mais de 10 anos e por tantos outros fui assistente da diretora Dorothi, já falecida. Foram tantos alunos, tantas colegas de ensino, mas mal consigo recordar o nome da escola. Atualmente, eu caminho ali dentro em dia de eleição, mas não reconheço mais o corredor onde ficava minha sala, a horta, a secretaria, apesar de tudo estar muito parecido como era 35 anos atrás.

 

Para entender o que acontece com quem tem essa doença, imagine que seu cérebro é uma memória de computador cheia de pastas, cada uma com recordações de diferentes épocas de sua vida, mas todas interconectadas. E de uma hora para outra essas conexões entre uma e outra começam a falhar e, pior que isso, as pastas começam a se apagar também. É isso o que acontece com a gente.

 

Vim de Rio Claro, no interior, há muito tempo, mas vivi a maior parte de minha vida em São Paulo, sempre ao lado de meu marido, o João. Moramos aqui no Jardim Hípico, um pequeno condomínio ao lado da Granja Julieta. Vi vários vizinhos partindo daqui para sempre. Eu continuo aqui, já não tão firme. Duro mesmo é ter vivido tanta coisa boa e não ter mais esses fatos vivos na memória para poder contar. 

 

Sidnea Rodrigues Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar desta série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.