Conte Sua História de SP: a Paulista começava a mudar

 

Por Gustavo Neves da Rocha Filho
Ouvinte da rádio CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte Gustavo Neves da Rocha Filho, de 87 anos. Urbanista, arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, da 2a. turma do curso de Arquitetura, o professor Gustavo testemunha período de transformação da avenida Paulista:

 

1942
Comecinho do mês de abril.
Onze horas da noite.
Avenida Paulista.

 

Calçadas desertas, rua deserta, os trilhos do bonde refletindo a luz das luminárias penduradas bem no centro da via e lá no alto, em fios que a escuridão da noite escondia. De cada lado, sobre os passeios, a massa escura das árvores plantadas muito próximas umas das outras, talvez uns três ou quatro metros.

 

Naquela noite eu não era pedestre. Menino ainda, acabava de chegar de uma viagem de férias e estava ao lado do motorista, meu tio e padrinho. Quando o automóvel, subindo pela Rua Teodoro Sampaio e avançando pela Avenida Doutor Arnaldo, entrou na Avenida Paulista a imagem que eu vi ficou gravada para sempre na minha memória. Daí a instantes eu estaria em casa da avó, modesta casinha com seu jardim e quintal lá na rua Batatais. A Paulista, naquela noite, estava bem diferente daquela avenida que eu percorria durante o dia até a esquina da Rua Augusta, ou até um pouco mais adiante.

 

As férias terminaram e as aulas no Colégio São Luis, na esquina da Rua Augusta, recomeçaram. O mês de julho chegou e com ele o Dia do Sagrado Coração de Jesus. Fardados de branco, como todos os alunos das escolas católicas, desfilavam garbosamente pelas ruas da cidade. O palco do São Luis era a Avenida Paulista, sem nenhum carro, sem nenhum bonde. O guarda de trânsito, que apelidavam de “grilo”pelo seu apito estridente, cuidava do sossego da rua. Mas nem era preciso pois o bonde que vinha da cidade – era como chamavam o atual centro histórico – vinha pela Rua Brigadeiro Luiz Antônio, percorria um pequeno trecho da Avenida Paulista e descia pela Rua Pamplona até o Jardim Paulista. Automóveis, então, eram raros. Durante o desfile poucas pessoas, em geral os pais, ocupavam os espações entre as árvores junto ao meio fio.

 

Anos depois eu andaria pelas calçadas da Avenida Paulista até a Rua da Consolação, ou para pegar o bonde Pinheiros, ou para comprar pão ou doces na Padaria Primavera. Nesse tempo eu ainda não me interessava pela arquitetura e o que me chamava atenção eram as muretas baixas que cercavam os terenos das casas construídas longe do alinhamento, em meio a muitas árvores. Do outro lado da rua a Capela do Colégio São Luiz parecia ter uma altura descomunal, hoje bem pequena junto aos prédios seus vizinhos de mais de trinta andares. Certa vez causou-me surpresa uma enorme placa com os dizeres “Clínica Médica”pregada num daquelas casarões situados entre as ruas Bela Cintra e Haddock Lono. Certamente os médicos da Faculdade de Medicina, ali perto da Avenida Doutor Arnaldo, estavam abrindo seus consultórios e o uso residencial da Avenida Paulista começava a mudar.

 


Gustavo Neves da Rocha Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade, envie um texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: fiz uma música para as caras da cidade

 

Maricéa Martins Zwarg
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nasci na Maternidade São Paulo, e minha mãe contou-me a história de meu nascimento, e fui lá, eu mesma, conferir o fato há 20 anos, pois meu pai registrou-me falsamente como nascida em Itanhaém, onde moravam, e constatei a verdade: a entrada de minha mãe na maternidade, à Rua Frei Caneca, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, Capital, até a hora de meu nascimento e nossa saída. Mas a Maternidade São Paulo fechou as portas, o Banco Safra comprou seu prédio e os arquivos de milhares de nascimentos estão no Fórum da Barra Funda aguardando seu destino. Mas São Paulo, onde nasci, onde morei, trabalhei e vivi por mais tempo, 22 anos, e onde vivo atualmente, é muito mais que uma grande mãe acolhedora amorosa, muito mais que um grande pai provedor material de muitas almas e seres. São Paulo, ou Sampa, é “como o mundo todo”, como bem compôs e cantou Caetano, uma grande fraternidade que abriga uma enorme variedade de tipos humanos de todas as raças, cores, credos, tribos, culturas e expressões. O que Sampa dá-nos diariamente é isso: cultura, conhecimento, variedade de experiências e informação sob à luz da fraternidade, de sabermos que aqui todo mundo é bem-vindo, e o ser incomum, singular, “diferente”, aqui é só mais um, tantas as caras e tipos. Por isso, nessa grande fraternidade, sinto-me , mais que em qualquer lugar, em liberdade, necessidade básica de minha natureza, mais uma em meio a tantas “Caras urbanas”, título de uma letra que compus e que Moacyr Filho musicou, sem aqui perder a naturalidade jamais, e sim, frente à concretude, autenticá-la , e mais, transformá-la, minha natureza, em arte! À São Paulo, à Paulicéia Desvairada dos modernistas, à Sampa de Caetano, terra de todas e todos nós, caras urbanas, minha gratidão, carinho, afetividade, fraternidade devolvida em canção.

 

CARAS URBANAS
Letra de Marycéa
Música Moacyr Filho

 

Caras de São Paulo são todas as caras do mundo
São faces londrinas, nova iorquinas, são tão nordestinas,
mineiras, sulinas, caras do Japão
Caras tão urbanas, são todas as caras humanas
Tão várias as cores, tão densas as dores
Tão raras histórias, profundas memórias, seladas no chão
Cenas de São Paulo são tantas as raças, 
são traços e máscaras nuas nas ruas
Sedentas de espaços, famintas de abraços, carentes de pão
Caras paulistanas são caras sem nome
Das bocas caladas, cansadas, febris
Dos olhos ardentes de fé e de fome, caras de um país,
Caras de um país, caras do Brasil…

 

Maricéa Martins Zwarg é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista no Museu da Pessoa: contesuahistoria@museudapessoa.net. Mais histórias de São Paulo você encontra no meu Blog, o Blog do Milton Jung, que você acessa pelo site da rádio CBN.

Mundo Corporativo: Sandra Cabral fala dos desafios na escolha da sua carreira

 

 

O jovem tem a tendência de procurar no mercado a carreira que pretende seguir quando deveria olhar para si mesmo. O alerta é de Sandra Cabral, diretora de Desenvolvimento e Carreira do Grupo DMRH, entrevistada pelo jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Ela recomenda que para fazer a escolha do caminho a seguir é preciso perceber o que mobiliza esse jovem, o que é de seu interesse: “olhe para as coisas e as situações onde você acredita que faz a diferença, a escolha não está fora, está dentro”.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, e pode ser assistido pelo site da rádio CBN: http://www.cbn.com.br. Para participar, envie perguntas e mensagens para o e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. O programa é reproduzido aos sábados, a partir das 8 horas da manhã, no Jornal da CBN. Aproveite para debater o tema, no grupo de discussão Mundo Corporativo na CBN, no Linkedin.

 

Conte Sua História de SP 460: o bonde que levava à zona do meretrício

Por Antonio Favano Neto

 

 

Estudava no Liceu Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, e morava no Alto da Mooca. Para estudar, ia de de ônibus cujo ponto inicial era na rua do Oratório com Fernando Falcão e o ponto final, na praça Clóvis Bevilacqua. Caminhava até o Largo do Tesouro e tomava o bonde Júlio Conceição, próximo do Liceu, porém muito mais perto da zona do meretrício, que existia oficialmente em São Paulo: as famosas ruas Iaboca e Aimorés, hoje o maior centro comercial de confecções do Brasil. O mais curioso é que o bonde saía do Largo do Tesouro apinhado de homens nos estribos, completamente lotado, e ao chegar no segundo ponto de parada, na rua José Paulino, parecia que a tropa de choque da antiga Força Pública com seus meganhas prenderia a todos. Não ficava um passageiro nos estribos, desciam correndo como crianças para dentro da zona.

 

Quando o dinheiro dava, eu pegava o ônibus Estações que fazia o rodízio das estações do Norte, Sorocabana e Luz, fazendo um contorno por todo o centro expandido de São Paulo da época. Defronte a Caixa Econômica Federal, ao lado do relógio da Praça da Sé, saía o ônibus circular Linha 1, que passava pelo Largo São Bento, Paissandu, Viaduto do Chá, Largo São Francisco, Praça João Mendes e Sé. Eram ônibus americanos de última geração, Thin Coach, com breque a ar que fazia barulho ao ser acionado, que mais parecia um aviso aos pedestres: estou perto, cuidado.

 

Das coisas mais pitorescas, eram as mães que acordavam de madrugada para levar os filhos na rua do Gasômetro para as crianças respirarem a fumaça do gás que saía dos bueiros. Na rua Santa Rosa existia o trenzinho da Companhia de Gás de São Paulo com cinco vagões, que partia do Largo do Pari com destino à rua da Figueira para descarregar o carvão que chegava da Europa, via Porto de Santos. Isto tudo na contra-mão do trânsito.

 

Antonio Favano Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

 
 
 
 

Conte Sua História de SP 460: a sapataria do seu Otacílio

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira

 

 

Caro Sr. Otacílio

 

Dias destes fui surpreendida com o anúncio de “aluga-se” afixado na porta da sapataria, na avenida dos Jamaris, 442, em Moema. Confesso que fiquei atônita, sem chão. Como assim, aluga-se? E o “seu Tacílio” – maneira carinhosa como todos o tratavam? Suspendi a respiração e um pensamento funesto atravessou-me como um raio. Tentava entender aquele vazio quando passa por mim uma amiga:

 

– Você sabe o que aconteceu com seu Tacílio? pergunto um tanto temerosa.
– Ele parou de trabalhar, responde sem titubear.

 

Trocamos algumas poucas palavras, pois o tempo na cidade grande não nos permite aprofundar e estreitar os laços, infelizmente. Prossegui meu caminho num misto de sentimentos, enquanto segurava a sacolinha com meus sapatos avariados. E agora?Quem cuidará deles? Murmurava e andava a esmo. Tentava me convencer de que Moema tem comércio farto, que não seria difícil reparar meus sapatos. Mas não era apenas o profissional que conserta sapatos que perdíamos. Perdíamos, perdemos, o nosso querido Tacílio… Pessoa ímpar, artesão no ofício de consertar calçados. Pessoa doce, meiga, serena, de sorriso fácil com os lábios e com os olhos.

 

Estabeleceu-se há 50 anos em Moema e desde sempre cuidou com extrema competência de sua clientela – traduzida nas orientações de como cuidar dos sapatos, no cumprimento da data de entrega, na habilidade em coser, engraxar, lustrar, colar, reformar e reparar tudo que fosse necessário para que saíssemos com os velhos “novos sapatos” reluzentes.
Cuidou também de seu espaço, pintava a pequena sapataria com esmero e organizava as prateleiras que o acompanhavam há cinco décadas, no mínimo. Cuidou como poucos da natureza, plantou as duas frondosas árvores que mais pareciam colunas de um templo, que adornavam a entrada de seu singelo negócio.

 

Diariamente, exceto às segundas, lá estava ele detrás do balcão, sentado em seu banquinho, a martelar e polir. Por volta de 11 horas era possível sentir o aroma de tempero caseiro. Ele abria a marmita e fazia a refeição ali mesmo, altar em que celebrava a vida com seu ofício.

 

Às cinco da tarde, outro aroma. Perfume agradável misturado às graxas e tintas. Era “seu Tácilio” a se preparar para ir embora. Perfumava-se, aprumava-se e baixava a pesada porta. Foi assim desde que aqui cheguei, menina ainda. Lá se vão 46 anos.
Esse ilustre vizinho acompanhou de seu banquinho toda a transformação do bairro. Lugar pacato e rico em brejos, que atraía cavalos em busca de saciar a sede; lugar da algazarra e do pouso de pássaros, nos primórdios. Anos depois, lugar dos grandes “pássaros de aço” com sua algazarra ensurdecedora noite adentro, em pousos, vez ou outra, catastróficos. Acompanhou a pavimentação das ruas, a chegada do Shopping, o ”boom’ imobiliário, o ”point” das chopperias e, recentemente, do metrô, nos subterrâneos da mesma avenida Ibirapuera, em que outrora correra o bonde. Sempre de seu banquinho.

 

Nos últimos tempos “seu Tacílio“ sofreu alguns duros golpes, eu imagino. Ao menos um ele confidenciou. Por ocasião das grandes chuvas do início do ano, uma das árvores plantadas por ele, desabou. Quem testemunhava seu zelo e amor por elas solidarizou-se. Ele, num misto de tristeza profunda e de impotência, frente às forças da natureza e do descaso público, disse: “elas estavam com cupim, mas a prefeitura nada fez .. Se ela tivesse caído para o lado de cá e não o de lá, teria me matado na hora. Meu telhadinho não teria agüentado.

 

Sim, sim. Agora compreendo o senhor ter baixado a porta e devolvido o espaço ao senhoril. Foi descansar, saborear as refeições ao lado das pessoas queridas, perfumar-se para elas, sorrir para elas e ser cuidado por elas. Teria sido muito triste se a “árvore–coluna” tivesse caído para o lado de cá. Muito triste. Cuidemos, então, para que a outra não desabe sobre nós todos, que sequer a olhamos muitas das vezes, na correria e no sem-tempo do cotidiano. Que permaneça como um símbolo. Símbolo da passagem de alguém como o Seu Tacílio para nos inspirar e nos lembrar de que a beleza e a simplicidade caminham juntas (com sapatos lustrados), quando desejamos encontrar a felicidade.

 

O senhor fechou a velha porta e abriu novos caminhos, fique com a certeza de ter feito o seu melhor sempre. Sábia decisão. Parabéns! O senhor saiu de nosso convívio, sem aviso, mansa e delicadamente. Saiu tão silenciosamente como quando chegou. Só quem passava por ali, viu o caminhão retirando seus pertences e o último baixar da porta. Privilegiados, que puderam abraçá-lo e despedir-se.

 

Desejo que, continue a ser muito feliz e que a vida nos promova um reencontro. Sua ausência o tornará mais presente em nosso bairro, em nossa memória e em nosso coração.

 

Um abraço carinhoso, senhor Otacílio

 

Marina Zarvos Ramos de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Seu Otacílio, também. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP_460: com os olhares do pombo e do urubu

 

Por Suely Schraner
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Consta que Deus, cansado de ouvir reclamações sobre a Terra, mandou que o urubu sobrevoasse tudo e retornasse dizendo o que viu. Ele voltou contando das guerras, carniças (delícias), poluição, violência, catástrofes e vícios, um inferno enfim. 

Desolado, Deus quis ouvir uma segunda opinião. Pediu então que a pomba fizesse o mesmo. Aí ela retornou dizendo do sol clareando a terra e o orvalho das plantas. Dos passarinhos arrulhando nas árvores após um dia de chuva. Das flores com seus diversos matizes sob o céu de azul diáfano. Das cachoeiras que inundavam a atmosfera com sua música maviosa. De crianças a brincar e a sonhar. De velhos nas praças a ver a vida passar com graça a dar milho aos pombos. 

Deus então deu um logo suspiro e declarou: é preciso olhar o mundo com os olhos da pomba.

 


Esse é o desafio do paulistano: olhar esta cidade com os olhos da pomba. Ver a beleza que existe na diversidade, na concentração de talentos, nas oportunidades de desenvolvimento e mudança. Beleza no seu centro cultural, nas atividades criativas. Na poesia concreta das suas esquinas, como na canção.

 



Cai, levanta, cai levanta. Vocês sabem do que estou falando. Como na teoria do evolucionismo, os mais aptos sobreviverão. Uns chegam de longe para se tratar e vão ficando. Outros chegam munidos de muita vontade de trabalhar, transformar o pouco em muito. Tenacidade de aço e nervos de concreto faz do cidadão paulistano um ser singular. Caçadores de beleza na cidade dos migrantes e imigrantes. Diz-se que quem vive aqui, está apto a viver em qualquer lugar. Uma metrópole que contempla tanto o olhar do urubu como o olhar da pomba. A escolha é sua.

 

SP é um pólo de atração. Atrai os que ousam sair da zona de conforto e mudar, transformar, garimpar ouro em merda. Cidade em constante mutação a provocar mudanças em seus atores. Quantos desses 11 milhões de habitantes, sem contar os 10 milhões no entorno, aqui chegaram apenas com a roupa do corpo, coração acelerado e, um sonho na cabeça povoada de ilusões.  Educaram seus filhos, trabalharam e conquistaram seu espaço. Quem não se envolve não desenvolve.



 

Amar sua cidade. Apropriar-se dos seus espaços. Nossos parques, nossas praças. Sonhar juntos. Saber que num dia, policiais estão brandindo seus cassetetes e spray de pimenta. E que, no outro, acontece um desfile de moda de uma grife famosa, em plena região da Luz, mais conhecida como “cracolândia”. Que hoje, fazemos muito mais que antigamente.  Que para levantar é preciso antes, cair. Que egoístas os temos mas, também, solidariedade. A tragédia e o espetáculo. Choro e riso. Corruptos. Honestos, a maioria.  Ainda bem. 



 

Cair do pedestal da ilha do egocentrismo. Sair da inércia e elevar-se em sabedoria.

 

Suely Schraner personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: Maradona e Zico estavam na Portuguesa

 

Por Daniel Lescano
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Sempre fui apaixonado por futebol. Ainda criança, em Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul,  adorava ir ao  cinema para assistir ao Canal 100 e acompanhar a atuação dos craques na telona, com a linda canção na Cadência do Samba, que tocava enquanto rolavam os melhores momentos da partida. Era a maior alegria ver craques como Zico, Pelé, Dinamite, Leão, Falcão, Clodoaldo entre tantos outros atletas. E, principalmente, assistir às jogadas do time de coração: Santos Futebol Clube.

 

Entre assistir ao Canal 100 no cinema e a minha vida para São Paulo muita coisa rolou. Mas um fato que nunca vou esquecer ocorreu em 1979, no Ginásio da Portuguesa de Desportos, no bairro do Canindé, quando tinha apenas 13 anos.  Nunca vou esquecer por dois motivos: primeiro, foi a felicidade por meu irmão ter conseguido ingressos para que pudéssemos entrar no Ginásio da Portuguesa e participar da entrega do Troféu Gândula, criado pelo jornalista, cantor e compositor Wilson Brasil. Eram premiados jogadores do Brasil e do Mundo. Havia também troféus para profissionais do rádio e TV que trabalhavam com esporte. A ansiedade era grande. Logo na entrada do ginásio para minha surpresa já comecei a ver vários atletas tirando fotos com os fãs. De repente olho para o lado … e Zico, bem ali do meu lado. Não acreditei. Parecia um sonho. Aí não parou mais de chegar atletas de todo canto. Só pelo fato de conhecer Zico pessoalmente a noite já valeria.

 

O segundo motivo pelo qual nunca vou esquecer esse momento é que lá havia um atleta argentino com cara de garoto, muito tímido, bem discreto. Um ou outro repórter o entrevistava. Cheguei perto e fiquei olhando aquele jogador baixinho. Meu irmão perguntou: vai tirar uma foto com o cara? Como na máquina só tinha um filme de 24 poses não quis gastar, afinal, muitos atletas de nomes consagrados ainda estavam por vir para receber o prêmio. Saí dali certo de que havia sido uma noite perfeita … não fosse meu vacilo, só descoberto na Copa de 1986.

 

O argentino baixinho, com que não quis desperdiçar meu rolo de filme Kodak, desde aquele encontro no Ginásio da Portuguesa, ganhou fama, se destacou na Copa de 1982 mas arrebentou mesmo na Copa de 86. E foi nesta que lembrei dele, quando a Argentina ganhou da Inglaterra por 2 a 1, em jogo marcado por um gol que ganhou nome e sobrenome: “La Mano de Dios”.

 

Ah, se eu pudesse voltar naquele 1979, não teria dúvida de registrar o momento em que Zico e Diego Armando Maradona, juntos, estiveram no Ginásio da Portuguesa

 

Daniel Lescano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460 anos: meu sapato de camurça

 

Por Sérgio Gigli
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Meu pai, Josias Gigli, era paulistano, mas depois de casar mudou-se para Guararema, no interior. Mesmo assim conhecia muito bem a região Central, onde trabalhou em algumas empresas, e nos arredores. Eu frequento São Paulo desde meu nascimento, 1961. O movimento, o trânsito, o aglomerado de pessoas nunca me assustaram. Religiosamente, todo início de dezembro, com o 13º e abonos recebidos, meu pai levava a família para a Capital. Por volta de 1970, não sei precisar o ano, fomos eu, meus pais e minha irmã para o passeio onde sempre fazíamos compras, almoçávamos em lugares diferentes, víamos gente diferente e no fim do dia uma visita ou outra na casa de parentes. Viajávamos de ônibus entre Guararema e Mogi, pegávamos o trem para São Paulo e rodávamos pela cidade de ônibus, também. Saíamos cedo para antes do almoço já estarmos passeando na Capital.

 

Lembro-me que logo que chegamos, entramos em uma loja de calçados na região da São Bento e vi um sapato de camurça branco e azul. Em poucos minutos, já havia calçado o par de sapatos novos e estava me achando o máximo. Só que não demorou nada e veio a chuva. E nosso passeio acabou cedo. Chuva pesada. Ficamos protegidos em uma loja. Mas a chuva era mais que pesada. A água começou a entrar na loja e logo meu sapato novo estava molhado. Meus pais resolveram então que não deveríamos esperar mais e tomar o rumo de casa.

 

Todos os ônibus lotados, pontos de ônibus idem. Muita chuva. Os bueiros não suportavam mais toda aquela água. E nós continuávamos procurando algum transporte que nos levasse ao Brás onde havia o trem de volta para casa. Não conseguimos nada, nem ônibus nem táxis. Fomos caminhando completamente molhados. A tarde toda. Quando a noite chegou, meus pais perceberam que não chegaríamos em tempo na estação. Decidimos mudar a direção para a zona Norte, Santana, onde ainda vivem parentes de meu pai.

 

Quando o ônibus para o novo destino apareceu, subimos os quatro, e meu pai deu a seguinte instrução: “todos para a frente, vamos descer no ponto final”. Eu mais na frente, minha mãe um pouco atrás, seguida pela minha irmã e meu pai. Algum tempo depois do início da viagem pergunto ao motorista se era o ponto final. Entendi que era … desci. Olho de um lado não vejo ninguém da minha família. Olho do outro, também não. Atrás tampouco. Olhei para o ônibus indo embora com as luzes internas acesas e enxerguei meu pai.

 

Saí correndo seguindo o ônibus de perto, atrapalhado pelo trânsito. Nos primeiros passos ainda cuidei de preservar o sapato novo. Mas logo esqueci os sapatos e me concentrei em não perder o ônibus de vista. Corri até a parada seguinte, quando minha família desceu.

 

– O que você está fazendo aí?, perguntou meu pai.

 

Contei para eles que, a princípio, não acreditaram. Nem eu estava acreditando. Graças a Deus tudo acabou bem. Chegamos na casa da família já perto da meia noite, e retornamos para Guararema no dia seguinte. Quanto ao sapato de camurça colorido, acredite ou não, me acompanhou por um bom tempo. Não se fazem mais sapatos como antigamente.

 

Sérgio Gigli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460: Itaquerão, no olho d’água da Pontinha Preta

 


Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


 

 

Ao passar por áreas reurbanizadas da nossa São Paulo, por edifícios importantes e marcantes de nossa cidade, sempre me pergunto: como deveriam ser esses lugares antes? Quem morava nessa região? Como era a topografia, a vegetação…? Enfim, o que existia por aqui?
 

 

Tendo o privilégio de nascer em Itaquera, na zona Leste, e ter vivenciado toda a transformação do local onde hoje está sendo construído o Itaquerão, julguei por bem deixar registradas aqui respostas às perguntas acima, para que um dia algum curioso ou pesquisador possa usá-las.
 

 

Vamos lá… Na década de 50, havia uma grande área que se estendia da Vila Corberi, em Itaquera, até as proximidades da estação da Central do Brasil, em Artur Alvim. Do lado direito, fazia fronteira com a linha do trem, e do esquerdo, com o bairro Cidade Líder. Uma área de aproximadamente 25 mil metros quadrados, que pertencia ao IAPTEC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Estivadores e Transporte de Carga). Toda a sua extensão era plantada com eucaliptos, e por isto ficou popularmente conhecida como “Calipal”.
 

 

Calipal… quanta saudade guardo desse espaço… Para nós, crianças, parecia tão imenso que seria impossível atravessá-lo de um lado a outro sem se perder, ou sem correr o risco de ser vitimado por uma onça, um leão, que os pais garantiam existir ali, só para que não nos aventurássemos em suas profundezas.
 

 

O Calipal sempre foi o campo de batalhas das turmas de garotos de diferentes vilas, pois nenhum moleque ousava entrar lá sozinho – de modo que as peregrinações eram feitas em bando. Quando as turmas se encontravam, a maior tratava logo de fazer correr a menor, e ali eram ocorriam grandes disputas de estilingue entre os garotos do Falcão do Morro, do Serrana e da AE Carvalho.
 

 

Dois córregos cortavam nossa floresta: o Areião e o Pequeno. Areião tinha esse nome porque sua formação era muito diferente dos demais córregos. Ele tinha pouca profundidade, algo em torno de 15 centímetros, mas uma largura de mais de 5 metros. Seu fundo era formado por uma espessa camada de areia amarela. Alguns moradores retiravam, diariamente, dezenas de caminhões de areia apenas na base da pá. Entre eles, destacava-se o Dodô. Negro forte, corpo de halterofilista, corintiano roxo e o melhor tocador de contra-surdo da Escola de Samba do Falcão do Morro.

 

Embora menor, o Córrego Pequeno é mais importante para esta narrativa, principalmente sua nascente: a Pontinha Preta, um local mágico, que marcaria a vida de todos os garotos de Itaquera e região. Tratava-se de um pequeno lago de águas cristalinas, e foi nosso clube privado, onde todos nós aprendemos a mergulhar e a nadar, exatamente nesta ordem. O nome Pontinha Preta foi dado em função do fundo do lago ser formado por argila negra – ao primeiro mergulho, suas águas cristalinas tornavam-se turvas, da cor do carvão. Era uma delícia nadar por ali e, após alguns mergulhos, deitar no gramado que a margeava, curtir o sol batendo papo, contando vantagem entre os garotos.
 

 

Em certa oportunidade, fomos até ali numa turma de uns cinco garotos. Lembro que lá estavam o Giba, o Clóvis, o Alemão, eu e mais alguém, de quem agora não me recordo. Era fim de semana, provavelmente domingo. Todos nós tomávamos banho pelados, pois não poderíamos chegar em casa com roupa molhada ou suja, para não denunciar nossa façanha. Meu pai sorrateiramente nos descobriu lá e tratou de apanhar todas as nossas roupas, levando-as embora. Os garotos imploraram para o seu Antônio devolver, não teve jeito. Já que havíamos sido descobertos e estávamos sem roupa, só nos restava continuar nadando até o fim do dia.

 

Mas chegou a hora de ir para casa. Como passar pelado por toda a Vila Corberi? Logo iria escurecer, e não tínhamos coragem de atravessar o Calipal no escuro, pois os leões e onças atacavam durante à noite. A salvação foram as bananeiras do brejo e suas belas e grandes folhas espalmadas. Cada moleque arrancou duas ou três folhas de banana e com elas tapando a frente e a traseira, fomos embora sendo alvo de gozação por onde passávamos.
 

 

Ali pesquei o meu primeiro lambari, com uma vara de galho de eucalipto, linha de costura e anzol feito de alfinete de cabeça. Muitas cobras habitavam a região para se alimentarem das rãs que lá viviam. Num fim de tarde, muitos anos depois, fui lá com meu sobrinho Rafael, caçar borboletas para a coleção que ele estava preparando, para a feira de ciências do Liceu Camilo Castelo Branco. Distraídos e olhando apenas para o alto à procura das borboletas, fomos surpreendidos pelo guizo de uma enorme cascavel, que estava de espreita no trilho, no meio do sapezal. Foi um baita susto, quase pisamos na cobra. Quando ela ergueu a cabeça para dar o bote no Rafael, sem pestanejar enfiei o cabo do coador de borboleta no meio da víbora. Rafael não levou borboleta para a feira de ciências, e sim a cobra exposta em um grande vidro com formol. Foi o maior sucesso daquela exposição.
 

 

No início da década de 70, teve início a construção da primeira Cohab em Itaquera, e nossa floresta encantada foi derrubada para a construção dos apartamentos populares entre Artur Alvim e Itaquera. Toda a área foi alvo de terraplanagem, sem a preservação dos pequenos córregos e da Pontinha Preta.
 

 

Para atender ao crescimento da população de Itaquera com transporte de qualidade, surgiu a Radial Leste, e foi construída a Estação Corinthians do Metrô. Em seguida, Itaquera ganharia seu grande shopping, que também foi edificado ali. A pedreira de Itaquera, que deu nome ao bairro (pedra dura em tupi-guarani) e que forneceu as pedras para a construção da Catedral da Sé, foi desativada e soterrada na mesma época.
 

 

Nos dias atuais, tenho passado pelo local rodando sobre as pistas da Radial Leste. Fica claro para mim que a área não era tão grande assim. Que seus limites não eram tão distantes e inalcançáveis. Pude perceber como é florida a imaginação das crianças. Como foi bom ser criança ali e desfrutar daquele lugar.
 

 

Na semana passada, parei bem em frente à obra do Itaquerão e me permiti meditar sobre como era o lugar antes. Olhei o entorno, a linha do trem, o Morro do Falcão, consultei o meu “Google Maps” imaginário e tive certeza absoluta: o centro do gramado do Itaquerão é exatamente no olho d’água da Pontinha Preta.
 

 

Agora por ali irão desfilar muitas cobras, peixes, gaviões, vindos de todas as partes do mundo, para brincar com o que mais gostamos: jogar futebol nos gramados da Pontinha Preta… quero dizer, do Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O texto completo você lê no meu blog, o Blog do Mílton Jung. Conte mais um capítulo da nossa cidade: mande seu texto para milton@cbn.com.br. Ou marque uma entrevista em áudio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.
 

Conte Sua História de SP/460: lembre-se de onde você nasceu

 

Por João Victor Correa de Almeida Salles

 

 

São Paulo, como eu desejei e desejo te ver transformada.
Eu te conheço São Paulo.
Já peguei metrô às seis, conheço seu vai e vem.
Já fiquei te observando, conheço seus meandros.
Conheço seu coração São Paulo, tenho visto seu agir, sua transformação não virá da mão de homens que só buscam te iludir.

 

São Paulo olhe pra si mesma, busque refletir, por mais que esteja errada, não deixe de assumir.
São Paulo, eu te conheço, eu vejo catadores de lata,
Ó relógio egoísta, essa cultura é que te mata.

 

São Paulo, São Paulo,
tem cultura da garoa,
do “primeiro eu”,
Terra onde as motos cantam como passarinhos, onde as motos não tem freios,
Terra onde existem “vagas reservadas para os mais espertos”,
Onde é melhor trocar de faixa sem dar seta,
Terra onde admitimos o “rouba mas faz”,
Até ouvi, “pior que tá não fica”,
E eu sei, essa é a cultura da terra, cultura de um povo cansado, cultura deste reino.

 

Por isso sou Paulistano Peregrino.

 

Lembre-se São Paulo de onde você nasceu,
Lá no Pátio do Colégio sobre o Reino aprendeu,
Lembra, lá no Reino não é assim, na cidade Celestial a cultura é outra,
Lá praticamos o amor ao próximo como a si mesmo,
Lá praticamos o confiar que o Senhor fará justiça,
Lá o homem que deseja ser o primeiro, este sirva a todos,
Lá o respeito é sincero e genuíno, não acontece apenas por convenção social,
Lá o que tem menos honra, a este damos honra, pois entendemos que somos um só.

 

São Paulo, São Paulo, pare um pouco, pense no que diz, que mudança você quer, a real ou só verniz?
Se São Paulo é você, vou perguntar de novo, que cultura você quer, a do Reino ou a do Povo?

 

João Victor Correa de Almeida Salles é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung