Conte Sua História de São Paulo: em busca da minha tribo

Lourdes Gutierres

Ouvinte da CBN

Centro Cultural Vergueiro
Centro Cultural de São Paulo Foto: MAURO CATEB/ Flickr


Qual a tribo? Foi o que pensei ao ver um agrupamento de jovens dançando no vão livre do Centro Cultural São Paulo, naquele final de tarde. E se algum deles dirigisse esta pergunta para mim, teria resposta? Adentrar em si mesmo, pode significar abertura de portal inglório, preferi tentar compreender o meu entorno. 

Lembrei do sociólogo francês Michel Maffesoli, que ao analisar o novo tipo de organização social na pós-modernidade, trouxe o conceito de mundo tribal; onde pertencer a uma tribo torna-se condição de existência. A aproximação entre indivíduos se dá entre aqueles que pensam e sentem de forma semelhante. Os que estão dentro decidem quem pode entrar e os que devem ser excluídos. Senti necessidade de refletir: com tantos retalhos sociais, como estabelecer a tecelagem da convivência? Quais os princípios de conexão? 

Voltando ao Centro Cultural, por certo grau de ousadia que imponho a mim mesma, me vi tentada a um desafio: adentrar a um desses espaços de jovens. Gostaria de saber qual a recepção. Seria considerada a tia mais velha, que poderia trazer algum lance de sabedoria? Ou ouviria algo do tipo “Aqui é nóis, senhora, cai fora!”. Minha escolha dependia da minha habilidade em decifrar os códigos que estavam à minha frente, ou seja, outro desafio, distinguir as diferenças entre os presentes. 

Embora não houvesse nenhuma marca no espaço físico, percebi que cada grupo estava em seu quadrado, movimentando-se em espaço delimitado, ao som de uma caixinha instalada no piso. 

Em uma roda, o rapaz de bermuda e camiseta larga, mexia os braços e as mãos de maneira rápida, em descompasso com quadris e pernas, enquanto outros do grupo assistiam ou esperavam a vez. Os movimentos amplos e exagerados eram sincronizados com a música. 

No espaço ao lado, em outro ritmo, jovens faziam pareciam imitar robôs, com músculos em contração e expansão. Em outro canto, a dança de um dos participantes era acompanhada pelos demais. 

Seus pés pareciam riscar o chão, em seguida as pernas se abriam como se estivesse cortando algo no ar, imitando uma tesoura. Seguiam a coreografia do street dance, identifiquei depois. Próximo a este grupo, estava o casal dançando tango, a moça de salto alto, vestido vermelho ajustado ao corpo insinuava-se na dança de sedução ao parceiro, um rapaz forte, de roupa preta. Perto da coluna, quatro moças ensaiavam uma performance diante da divisória de vidro que servia de espelho. Atrás do vidro, a roda de capoeira, com a ginga de dois rapazes no centro, traçando movimentos de defesa e ataque. Configurava-se o jogo da zebra, no qual a imitação do animal produzia marradas e coices, segundo a história que contava mestre Pastinha, o capoeirista. 

Onde eu estava mesmo? 

Os ponteiros giraram no sentido anti-horário e me vi onde nunca mais gostaria de estar. Minha juventude, passei em tempos sombrios, no qual uma simples palavra podia ser crime; um gesto mal interpretado, levaria à morte. Espiões se infiltravam nas escolas, agremiações, andavam por toda parte, até mesmo em festas. Acontecia de militares cercarem grupo de estudantes em festa, a música era interrompida, todos revistados como criminosos, alguns presos. Um tempo como dizia Chico Buarque, “minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão…” Com a mesma idade daqueles rapazes, um estudante de geologia foi torturado até a morte em março de 1973. Sabe-se que pouco antes de morrer, teve tempo de gritar: “Meu nome é Alexandre Vannucchi Leme, estudo na USP, e só disse meu nome”. A missa em sua memória foi celebrada  na Catedral da Sé pelo cardeal Paulo de Evaristo Arns, e ouviu-se lá o canto de Sérgio Ricardo: “Cala boca moço, cala a boca moço…” 

Onde eu estava mesmo? 

Reconheci naquele centro de cultura uma oca urbana. Cada tribo compartilhava o mesmo espaço, com um interesse comum: a expressão artística. Fora do círculo, o caos da cidade grande, pessoas apressadas, trânsito engarrafado, condução lotada e, o temporal que alagava tudo. Lá fora, violência, desemprego, miséria. Ali dentro, temporariamente, o medo estava suspenso. 

Sem conseguir reconhecer minha identidade, nem distinguir o papel de cada grupo, mesmo assim resolvi adentrar na oca – assistir ao show do grupo Bexiga 70. A energia vibrante dos instrumentos musicais de sopro, percussão e corda fez o público se levantar; acompanhava o ritmo com batidas dos pés, remexo dos quadris, sacolejo de corpo. Como ficar imóvel? Entrei no cordão que percorria o palco em trenzinho, o dedo indicador em movimento apontava para o vasto vão da vida, enquanto cantávamos: ôô—ô,ôô—ô. 

Entrei em que tribo mesmo? 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Lourdes Gutierres é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para ler a crônica completa visite o meu blog miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, conheça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Adote um Vereador: na mesa do bar, um pouco de nossa história e lembranças

 

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Neste sábado, Adote de encontrou no Pateo

 

O sábado era de encontro do Adote um Vereador, em São Paulo. Desta vez, compromissos familiares me impediram de estar com a turma que se prontificou a aparecer no Pateo do Collegio, centro de São Paulo, mesmo com o frio de uma tarde de outono —- que costuma ser mais intenso lá no alto onde os jesuítas ergueram a primeira construção da cidade para abrigar os missionários. Foram para lá sabendo que havia muita conversa para colocar em dia. Claro que me refiro aos voluntários do Adote e não aos jesuítas — esses tinham outra missão quando chegaram por essas bandas, em 1554.

 

Apesar de não faltar assunto,  pouco soube do que foi discutido entre eles. Só recebi uma foto em que mostrava parte da turma brindando com copos servidos pela cerveja artesanal criada pela Bier & Wein, que homenageia a cidade e sua história. No rótulo da Paulistânia, nem poderia ser diferente, o Pateo do Collegio era o destaque. Da mesma marca, encontram-se lembranças do Ipiranga, Marco zero, Trem das Onze, Viaduto do Chá, Largo Do Café, entre outras. Longe de mim reservar esse espaço para falar de cerveja, mas foi o que eu vi na mesa, além das já tradicionais xícaras de cafés que nos acompanham todo segundo sábado do mês.

 

Aliás, se tem coisa que é tradicional são esses encontros. Creio que já contei a você, caro e raro leitor deste Blog, que eles começaram no primeiro ano do Adote, em 2008. Se você já sabia disso, perdão por repetir a história. Se a repito é porque acredito ser pertinente para a sequência do texto.

 

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Em 2010, no Centro Cultura, fomos visitados pelo agora deputado Marcelo Ramos (de camisa listrada)

 

Antes de escolhermos o Pateo, costumávamos nos ver no bar do Centro Cultural São Paulo, na avenida Vergueiro. Local sempre cheio, com centenas de pessoas que se encontravam para as mais diversas atividades. Era tanta gente que para o pessoal saber onde estava o Adote, havia quem levasse uma placa indicativa. Isso não impediu que recebêssemos todo tipo de visita, mesmo porque naquela época ainda havia muita curiosidade sobre o trabalho que realizávamos.

 

Acho que sequer nós tínhamos ideia sobre o que seríamos a partir daquele momento. Por isso, nos surpreendíamos com a presença de alguns visitantes. Uns chegavam até lá para ver se emplacavam suas ideias. Outros queriam ajudar. Muitos ficaram pelo caminho. Poucos resistiram até agora.

 

Por curiosidade e lembrança de Alecir Macedo, soldado desde nossas primeiras batalhas, vale registrar a presença de uma figura que atualmente é personagem de importante debate nacional. Em 20 de novembro de 2010, fomos encontrados em meio as mesas lotadas do Centro Cultural por um vereador de Manaus, que estava de passagem pela cidade. Ele queria entender o que pensávamos e qual a ideia que tínhamos do trabalho de um vereador.

 

Hoje não sou capaz de lembrar quais dicas que passamos e quais mensagens que ele nos deixou, mas a foto não deixa dúvidas: o papo foi bom. Quem estava conosco era o atual presidente da Comissão Especial da Reforma da Previdência, deputado federal Marcelo Ramos, do PR. Na época era vereador e acabara de ser eleito deputado estadual e estava de transição do PCdoB para o PSB. Ramos hoje tem em mãos a difícil tarefa de coordenar as discussões na comissão que receberá, nesta semana, o relatório da reforma que é considerada essencial para o futuro do Brasil.

 

Tenho dúvidas se nosso trabalho atualmente teria o reconhecimento de outras figuras políticas. Talvez seja um tema para discutirmos nos próximos encontros que espero ter condições de participar. Nem que seja para brindar com uma cerveja que presta homenagem à nossa cidade.

Neste sábado tem Adote um Vereador no Centro Cultural

 

adoteNo segundo sábado do mês, voluntários do Adote um Vereador se reúnem para conversar sobre a ação cidadã que desenvolvem no acompanhamento do trabalho dos parlamentares, na Câmara Municipal de São Paulo. Amanhã, dia 13, o encontro está marcado para a lanchonete do Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro, 1000, das duas às quatro da tarde. A expectativa é pela presença de participantes da ONG Voto Consciente, das mais antigas entidades a fiscalizar o poder legislativo no Brasil. Além disso, há a possibilidade de uma conversa, via internet, com o pessoal que discute webcidadania no Seminário Internacional de Redes Sociais, que se realiza em Curitiba (PR).

Caso você queira conhecer como funciona o Adote um Vereador e esteja disposto a participar de uma reunião informal, neste sábado, vá até lá, e procure um grupo de amigos em torno de um computador e entusiasmado com uma ideia.