Calçadas, armadilhas urbanas no caminho do cidadão

 

 

É a cara da dor dos pedestres brasileiros. Uma foto constrangedora que incomoda. Os hematomas nos olhos da atriz Beatriz Segall estampados nas páginas de jornais e sites, desde quarta-feira, simbolizam a realidade de milhares de vítimas de acidentes nas calçadas mal conservadas das cidades brasileiras. Um buraco no caminho do teatro onde assistiria a um espetáculo, no bairro carioca da Gávea, a fez despencar no chão, como ocorre diariamente com quantidade incrível de pessoas. Estudo do ombudsman da CET – Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo, Philip Gold, divulgado ano passado, estima que 171 mil pessoas sofrem quedas nas calçadas apenas na Região Metropolitana e o custo social destes acidentes é de R$ 2,9 bilhões a cada ano – 45% a mais do que o custo causado por acidentes com veículos. No Hospital das Clínicas de São Paulo as quedas são o segundo principal motivo de busca de atendimento na instituição e em 40% dos casos havia um buraco no meio do caminho.

 

Não pense que os problemas apenas incomodam os moradores de São Paulo, onde aliás mora Beatriz Segall, ou Rio de Janeiro, onde ela caiu. De acordo com enquete realizada pelo Instituto Mobilize – Mobilidade Urbana Sustentável, as calçadas de 39 cidades receberam nota 3,55 em média, muito abaixo do que se considera o mínimo aceitável para uma calçada de qualidade, que é a nota 8. Apenas 6,57% dos 228 locais avaliados obtiveram nota acima desse indicador mínimo. E 70,18% das localidades analisadas tiveram médias abaixo de 5 (veja os dados completos aqui).

 

Para resolver esse problema não é possível deixar a solução apenas para os proprietários das casas e prédios que, na maioria das cidades, são os responsáveis diretos pelas calçadas que estão diante de suas unidades habitacionais. As prefeituras têm obrigação de desenvolver ações com intervenção nos passeios com maior fluxo de pedestres e criar programas que incentivem os cidadãos a cuidar das calçadas. São Paulo, por exemplo, tem 32 mil quilômetros de calçadas , se investir em 10% das principais vias solucionaria 80% dos problemas de acessibilidade dos pedestres.

 

É necessário, também, mudar o nosso comportamento, pois tendemos a reclamar mais pelo buraco no asfalto que “machuca” a roda e a suspensão do carro do que pela calçada quebrada, sem perceber que, por mais que adoremos os automóveis, antes de motoristas somos pedestres.

Conte Sua História de SP: minha cidade caleidoscópica

 

Por Carolina de Medeiros Cecatto

 

A São Paulo em que nasci é a cidade onde vou trabalhar desde os meus vinte anos. Não que eu tenha longeva idade, mas desde pequena já dava meus passinhos por ela. Aos 7, fazia exames na Vila Mariana, bairro em que nasci por sinal, porque logo precisei usar óculos e tampão. E minha nossa! Ia com minha mãe de metrô, e como eu adorava aquilo! Nunca achei em minha vida que entenderia os entremeios das linhas daquela lombriga de ferro – assim como nunca imaginei que essas linhas cresceriam tanto como agora, tanto como eu cresci.

 

Hoje, domino e escolho as plataformas, guiada às vezes pelo instinto das grandes massas, costurando entre elas, vislumbrando pessoas, paisagens e concretos: são os violinistas das estações de metrô, é aquela avenida de uma vida inteira chamada Paulista, são os adolescentes de cabelos coloridos e fãs de mangá nas escadarias da Liberdade, é o verde imperial do Parque da Independência, é o corre-corre, o compra-compra da 25 de Março, é a miscelânea abençoada de coisas que vejo e reparo e que me fazem sentir mais deslumbrada.

 

O lugar mais cosmopolita, de gente mais desconfiada, é a cidade mais acolhedora, acredite! Nos dias de chuva fica mais poética, mais indiferente e triste, mas é esse o seu charme. É de se ver o colorido da noite nas baladas, corpos e sinestesia e fluidos, é nelas que vinga um pouco de Sampa. Bate também o coração dessa cidade com o tráfego diário de carros, buzinas e xingamentos, e aquela palavrinha que todo paulistano detesta já é praxe: congestionamento.

 

Vibra a cidade com seus vários times valentes e pioneiros, além de tudo tradicionais, que jogam bola e dão brilho e paixão nos olhos da gente. Permeiam seus muros os grafites psicodélicos, sem contar as calçadas e as ruas com várias pernas malabares sobre seus skates e patins, a correria para pegar o ônibus – o lindo caos diário que tudo isso encerra!

 

É a cidade cheia de registros, de mistura fina, de seriedade, de inegável disposição, de comércio, da pizza mais gostosa, dos edifícios mais audazes e cinzas, da gente mais diversa e colorida. É a cidade que não desliga, nem pisca. É a minha São Paulo caleidoscópica.

 

Pequenas cidades e grandes problemas

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Imagino que inúmeras pessoas residentes em cidades grandes, uma vez na vida,pelo menos,cogitaram trocá-las por uma de menor porte ao atingir a idade madura e desde que tenham amealhado pé-de-meia capaz de sustentá-las. Por que fariam tal escolha? Viver em metrópoles,é inegável,tem lá as suas vantagens. Quem pesar os prós e os contras,no entanto,talvez entenda que, nessas, os congestionamentos, a poluição e,em especial,a insegurança, que é cada vez maior,conspiram e contra a sua permanência.

 

Nasci em Caxias do Sul,na casa dos meus avós maternos. Meus pais me trouxeram para Porto Alegre quando completei uma semana. Durante toda a minha infância e mesmo ao me tornar adulto,visitei com frequência minha cidade natal,seja para visitar os inúmeros parentes que lá moravam,seja por razões profissionais. Narrei,para a Rádio Guaíba, muitos jogos da dupla Gre-Nal contra os dois times de Caxias:o Juventude e a Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias. Fui,com isso,acompanhando o crescimento do município.

 

Meus avós moravam na Avenida Júlio de Castilhos,em um sobrado de quatro pisos,se esses fossem contados do porão ao sótão. A Júlio se estendia,em linha reta,do bairro de São Pelegrino até a saída da cidade e, então,ainda não possuía calçamento. Quando chovia, virava um lamaçal,dando muito trabalho para ser vencida pelos enormes caminhões carregados de toras de madeira. Com o passar dos anos,Caxias do Sul foi ficando cada vez mais povoada. Os italianos,que a colonizaram,se viram obrigados a conviver com oriundos de municípios menores ou até de outros estados. Aos poucos,Caxias passou a ser notícia nas páginas policiais. Crimes de toda espécie eram e são cometidos. Recordo-me que,durante bom tempo,era fácil estacionar o carro no centro,na praça, em frente à Catedral. Hoje,a cidadezinha na qual nasci,transformou-se em metrópole,com todos os defeitos que foram crescendo com ela.

 

Lembrei-me de Caxias do Sul porque a vida lá somente ficou complicada com o seu rápido crescimento. Muitas das cidades do interior gaúcho não vão chegar nem perto do tamanho dela. Não serão,todavia,pacatos pequenos municípios,em condições de receberem quem pensa fugir,por exemplo,do caos porto-alegrense,piorado com a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Esses sofrem por não contarem com hospitais,com policiamento capaz de impedir a invasão frequente de quadrilhas de assaltantes de bancos,como a que espalhou o terror em Pedras Altas,nesta semana. Quase todos os dias,aqui no Rio Grande do Sul,ocorrências iguais a de Pedra Altas são registradas pela mídia gaúcha. Será que alguma família idosa e ou de aposentados,diante das circunstâncias,ainda sonha em viver no nosso interior?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Interlagos fora da pista?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

São Paulo é a cidade brasileira com mais tradição em automóvel e em competições automobilísticas. Creio eu, fluminense de Paraty, sem dúvida e sem bairrismos. O pioneirismo da indústria automobilística e, antes disso, o vanguardismo do autódromo de Interlagos, são provas reais desta vocação da cidade, efetivando uma cultura paulistana ligada à velocidade. Provavelmente por isto, a direção da F1 tem tido tanta paciência com os prefeitos paulistanos.

 

Se a cidade de São Paulo vier a perder a Fórmula 1 não será por falta de aviso, mas por falha de gestão. É preciso visão e determinação para trazer e manter eventos globais cobiçados pelas grandes cidades do mundo. Qualidades que foram demonstradas por Luiza Erundina em 1990, quando resgatou para o Brasil e para Interlagos o Grande Prêmio Brasil de F1. A Prefeita, mulher e nordestina, como se orgulhava de apresentar, teve que enfrentar inúmeros obstáculos. As duras investidas do PT, seu partido, e da oposição, redundaram em acusação de favorecimento à Shell, que tinha lhe dado um “cheque em branco” para iniciar o empreendimento. Erundina defendeu-se:
“Não favoreci ninguém, a não ser a cidade de São Paulo. Por contraditório que pareça, um Grande Prêmio de Fórmula – 1 favorece a periferia, o trabalhador pobre. Vou ter mais imposto com a F1 – milhões de dólares de ISS. Vou dinamizar o turismo, projetar a cidade para o mundo. Vou estimular os investimentos no setor. Vou ter um serviço médico em Interlagos que continuará funcionando o ano todo – para a população pobre da região. Vou ter uma oficina mecânica para ensinar uma profissão aos jovens das favelas. Como achava que a F1 era de absoluto interesse para a cidade, negociei com a Shell, assim como negociaria com qualquer outra empresa.”

 

Os cinco anos do contrato de Erundina seguiram e até hoje Interlagos teve o privilégio de sediar a F1, embora a Prefeitura venha sendo cobrada para efetivar uma reforma na estrutura do autódromo, que segundo os dirigentes da competição tem um dos mais perfeitos traçados de pista, se não o melhor.

 

Erundina investiu US$ 18 milhões e embora fosse pressionada pelo PT a utilizar a área de Interlagos para habitação popular, jamais cogitou em transferir o autódromo. As contas atuais estimam investimento em torno de US$ 120 milhões para as reformas necessárias de novos boxes, e sistema de esgoto para a região, dentre outras melhorias necessárias. Valor que agregado ao hábito em voga de inflacionar obras cogita-se em erguer um novo autódromo que de inicio custaria o dobro. Mas como já temos experiência, este valor deverá ser dobrado mais uma vez, ou até mesmo quadruplicado.

 

Será que São Paulo, que se curvou diante da FIFA, e atendeu a tudo, vai deixar de atender a FIA, que deseja manter Interlagos, preservando traçado e pista? Sem falar nos feitos de Emerson Fittipaldi, Antonio Carlos Pace, Nelson Piquet, Ayrton Senna, e Felipe Massa, gravados na memória de Interlagos?

 

Esperamos que Haddad não abandone Interlagos e o mantenha com a pista da F1.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

São Paulo, uma das cinco cidades do tênis mundial

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

São Paulo recebe esta semana o Brasil Open de tênis. Hoje, o maior torneio em nosso território. Alguns destaques como Nadal, Almagro, Monaco e Wawrinka, 5º, 11º, 12º e 17º do mundo, deverão apresentar um espetáculo condizente com a expectativa. O público certamente corresponderá e estará provando que o único ingrediente em descompasso é a estrutura local.

 

O Ginásio do Ibirapuera é a arena. Sem climatização, com dificuldade de estacionamento e sem a tecnologia requerida a um grande evento de tênis. Há pouco mais de um mês, neste mesmo ginásio, tivemos a Gillette Federer Cup. Com a presença de tenistas do topo do ranking da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais). Federer, Tsonga, Serena Williams, Sharapova e Wozniacki trouxeram a imensa simpatia e alegria que os caracteriza e levaram a memória da “sauna” paulistana do Ibirapuera com mais de trinta graus.

 

Roger Federer, apreciador de nosso país de longa data, talvez até pelo futebol, aconselha a melhorarmos as condições para efetivarmos um antigo sonho dos brasileiros fãs do tênis profissional. Apresentar instalações que atendam as exigências da ATP para abrigarmos o ATP World Tour Finals. Este disputadíssimo evento, atualmente em Londres, foi oferecido à cidade de São Paulo em 1999, quando Celso Pitta era prefeito. Por falta de instalações adequadas, a cidade não o sediou. Perdermos a oportunidade de estarmos entre as maiores cidades do tênis mundial que ficam na Austrália, França, Inglaterra e Estados Unidos.

 

O ATP Wolrd Tour Finals, por sua característica, é o ultimo torneio do ano e reúne os oito primeiros tenistas da temporada, é considerado por alguns como o mais importante de todos. A cidade de São Paulo pela Fórmula 1 já sabe contabilizar o retorno deste tipo de evento. É hora de Haddad rever Erundina e apresentar uma arena condigna para o tênis. Como foi feito com Interlagos. Ou Alckmin completar de vez a reforma do Ginásio do Ibirapuera.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras

As novas bancas de jornal

 

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

 

As bancas de jornais de São Paulo chamam minha atenção desde que desembarquei por aqui, em 1991. Morava no bairro de Pinheiros, na zona oeste, e tinha prazer em visitar as que ficavam ao meu redor, especialmente nos domingos, quando fazia questão de comprar a Folha, apesar da insistência de amigos para assinar o jornal e recebê-lo em casa. Não tinham ideia do prazer que era caminhar até uma das bancas próximas e seguir o passeio com o jornal sendo lido aos pedaços. Nem tanto pelo jornal, muito mais pela caminhada, durante a qual saboreava um doce qualquer comprado na própria banca. Aliás, a variedade de produtos tanto quando de títulos à disposição eram atrativos para este programa dominical. Gostava também do espaço para caminhar nos estandes e da organização do jornaleiro para distribuir os jornais e revistas. Se a memória não me falha, e esta costuma falhar, não conhecia bancas com este formato em Porto Alegre. A mais famosa na época era a da Cidade Jardim, me parece pelo sucesso como ponto de encontro nas madrugadas paulistanas. Não sei se mantém a fama, mas mesmo naqueles tempos visitava pouco o local, devido à distância de casa. Em algumas conseguia ler jornais gaúchos, principalmente a Zero Hora (desculpe-me pelo artigo feminino, mas é assim que chamamos lá no Rio Grande o jornal dos Sirostsky).

 

Soube pelo amigo Marcos Paulo Dias, de família ligada às bancas, que, nesta semana, foi divulgado o resultado de concurso que incentivava a apresentação de projetos inovadores como parte de um programa de revitalização do Largo da Batata, em Pinheiros, promovido pela Editora Abril. O desenho vencedor foi feito pelo arquiteto João Paulo Guedes (acima) com material de aparência natural (aço corten) que oferece um visual limpo e moderno, além de ser reciclável. Dos 15 finalistas, gostei da proposta de Cláudia Strutz (abaixo) com teto verde e coletores de energia solar, apesar de todos terem algum ponto de interesse.

 

 

Hoje, vou menos às bancas, pois o tablet me oferece boa parte dos jornais que me interessam e as revistas encontro nas livrarias, mesmo assim sigo sendo atraído para estes locais. E o que me leva a eles, independentemente do formato da banca, segue sendo o bom atendimento do jornaleiro e a variedade de revistas e jornais.

Apesar de tudo… (parte 2)

 

Por Julio Tannus

 

… adoro a cidade de São Paulo. Passado um tempo morando na Rua São Lázaro logo após nossa chegada de Paraty, mudamos para a Av. Leôncio de Magalhães, 1.509, no Jardim São Paulo, no início dos anos 50.

 

O primeiro encontro: tínhamos em casa uma geladeira americana da marca Gibson. Era a única casa da vizinhança que possuía geladeira. Em um dia de muito calor, logo pela manhã, toca a campainha de casa. Ao atender a porta vemos, eu e meu irmão, duas menininhas loiras com forte sotaque alemão, que nos faz o seguinte pedido: “vocês podem dar um pouco de gelo?”. A partir daí ficaram nossas amiguinhas e passei a contar em alemão e a aprender algumas palavras dessa língua, e outras coisas mais. E também saber que várias famílias alemãs haviam fugido da guerra e vindo morar em São Paulo.

 

O primeiro susto: em frente a nossa casa, do outro lado da rua, ficava a Casa das Mangueiras. Uma enorme casa com várias mangueiras no jardim da frente. Éramos, eu e meu irmão, assíduos dessas árvores na época em que ficavam carregadas de deliciosas mangas. Até que um dia, ao chegar da feira com minha mãe, nos demos conta que algo de anormal se passava em casa. Meu irmão havia sido mordido por um dos ferocíssimos cachorros buldogues da Casa das Mangueiras. Se não fosse o caseiro acudir imediatamente, certamente ele teria sucumbido à ferocidade dos cães. Pouco tempo depois, um dos cachorros se soltou e entrou em nossa casa, onde finalmente teve seu fim.

 

As primeiras brincadeiras: Andávamos de carrinho de rolimã pela avenida, e também de bicicleta. Nas festas juninas fazíamos fogueira, fogão de tijolo onde assávamos batata doce, soltávamos fogos de artifício, balão e muita diversão, todas no espaço público. Na calçada de terra batida tínhamos nosso campo para jogar bola de gude. E também espaço para empinar pipa como diziam os paulistanos, que nós de Paraty chamávamos de “papagaio”. Os amigos eram de vários perfis: um deles se tornou comandante da Polícia Militar, outro que só andava de gravata e cujo apelido era “gravata” não sei que fim levou. Quando juntos, além das brincadeiras da época, gostávamos de chamar de “frangueiro” o goleiro Poy, que morava na vizinhança, e era do time do São Paulo e da Seleção Brasileira de Futebol.

 

A primeira mudança: Em meados dos anos 50 fomos morar no bairro dos Campos Elíseos, perto do antigo Palácio do Governo do Estado de SP, na Avenida Rio Branco no edifício Cícero Prado. Um prédio de 100 apartamentos onde a grande maioria era habitada por judeus, muitos deles fugidos da perseguição na Alemanha nazista. É com eles que me aproximei de Sigmund Freud. E também aprendi sobre a cultura judaica: aos sábados ia aos apartamentos onde moravam judias religiosas para acender o fogão de suas casas. Em frente ao prédio, fizemos um campo de futebol em plena Avenida Rio Branco, pois nesse trecho a avenida era apenas uma rua estreita.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Coisas de Paraty…

 

Por Julio Tannus

 

Paraty RJ

 

Comecei a viver estudando e acabei estudando para viver.
Dois olhos, duas orelhas, duas narinas. Quer dizer que é mais prudente ver e ouvir do que falar.
Bons conselhos sem bons exemplos é costurar sem linha.
Quem busca um amigo sem defeito, fica sem amigo.
Se a ferradura fosse sorte, o burro não puxaria carroça.
Se o corpo nada no prazer, a consciência morre afogada.
Não há medicina que cure a dor de uma saudade.
Agir sem pensar é como atirar sem fazer pontaria.
Quem bate para ensinar, está ensinando a bater.
Se você sacode uma árvore, fique por perto para colher os frutos.
Na árvore, se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente.
Quando a sonhar me vejo na cidade. E bebo a tarde e sinto a madrugada. E a noite de janeiro é só luar. É sol e mar, praia e serenata. São pedras ladrilhando a rua. O mar passa solitário na calçada, espelhando a lua cheia nas beiras e nas calçadas. Como é bom amar aqui, na praça, no caís, nas praias. Tudo isso é Paraty!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, esrceve no Blog do Mílton Jung

"Falta uma visão global da cidade", diz Lerner

 

Protesto no M'Boi Mirim

 

“Falta uma visão global da cidade” disse o urbanista e arquiteto Jaime Lerner em entrevista nesta segunda-feira ao Jornal da CBN. Com a experiência de quem ofereceu soluções para Curitiba e se transformou em referência internacional Lerner ensina que a cidade é uma estrutura de vida, trabalho e lazer e para se enfrentar os desafios impostos aos governantes é preciso soluções conjuntas. Ele entende que além das questões básicas como educação, saúde e segurança, é preciso estar preparado para encarar três pontos fundamentais, hoje em dia: mobilidade, sustentabilidade e tolerância.

 

Uma das coisas que o incomoda é o fato de a maioria das pessoas insistir na manipulação da tragédia, sempre apresentando os dados negativos da cidade, reclamando do seu tamanho e da falta de dinheiro no Orçamento. Defende que se resolva os problemas com o que se tem e se use a nossa energia para mudar tendências: “se você projeta a tragédia, aumenta a tragédia”.

 

Jaime Lerner diz que é um falso dilema que se coloca à população quando se discute investimento em carro ou em metrô. Alargar ruas e avenidas para melhorar a fluidez é transferir o congestionamento de um ponto para outro, e as cidades não têm dinheiro suficiente para ampliar as linhas de metrô. O que fazer então? Como mais de 80% das pessoas andam na superfície deve-se “metronizar o ônibus” colocando-os a circular em corredores inteligentes que aumentem a velocidade do transporte. Usa como exemplo o projeto de mobilidade do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo e Olimpíadas, onde se estende apenas uma linha de metrô e se coloca o restante do dinheiro na modernização do sistema de ônibus.

 

“A cidade tem de ser como uma tartaruga, exemplo de habitação, trabalho e movimento, tudo junto”, compara Lerner que enxerga o casco da tartaruga como uma tecitura urbana que se for dividida mata o animal. “Está se separando a cidade por funções, separando as pessoas por guetos de gente rica e guetos de gente pobre.” Para Lerner é preciso resolver melhor a convivência das pessoas, aproximando o trabalho da casa e a casa do trabalho, o que reduziria a necessidade de investimento em transporte.

 

O que será que o seu candidato a prefeito e a vereador pensam sobre isto? Pergunte a ele e cobre soluções para os problemas que fazem parte do nosso cotidiano, antes de definir o seu voto.

 

<a href="”>Ouça a entrevista completa de Jaime Lerner ao Jornal da CBN

"Um lugar para todos"

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Há muitas coisas sem as quais, hoje em dia,não conseguiria viver. Claro que não me criei usufruindo as satisfações e os benefícios que elas me trouxeram ao longo da minha vida. Já escrevi neste blog, por exemplo, que considero indispensável o telefone celular. Para mim, as facilidades oferecidas aos seus usuários por este aparelho, cada vez mais sofisticado, são infinitamente superiores aos incômodos que provoca. Antes que a telefonia móvel estivesse à nossa disposição, tudo era mais difícil. Como, porém, nem só de criações tecnológicas se sobrevive no dia-a-dia, existe um invento bem mais antigo que preenche as minhas horas de lazer e têm ainda muitas outras utilidades. Refiro-me aos livros. Minha vida não seria a mesma sem eles.

 

Comecei a ler muito cedo. No quarto da minha avó paterna, onde eu dormia na minha infância, meu pai mantinha um armário cujo conteúdo me atraía.Entre os que li com tenra idade,lembro-me até hoje, estavam alguns que papai jamais imaginara que pudessem chamar a minha atenção: O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós; |Zadig,novela escrita pelo filósofo Voltaire…e Minha Vida Sexual. Agora, entretanto, prefiro ler livros policiais e, não se espantem, de terror. Sou fã, entre outros autores, de Frederick Forsyth, Stephen King, Scott Turow, Ken Follett, Thomas Harris, James Patterson, Tom Clancy. Essa gente me acompanha no almoço, na janta e em diversos outros momentos.

 

A biblioteca que Maria Helena e eu montamos em nossa casa está recheada de livros. Não foi uma nem duas vezes que compramos obras que já possuíamos. Agora, enquanto aguardo a chegada de uma encomenda, resolvi ler um livro de uma escritora sobre a qual nunca ouvira falar: Thrity Umrigar. Ela é indiana, cresceu em Bombaim, mas mora atualmente nos Estados Unidos. O título original do livro que recém comecei a ler é Um Lugar para Todos ou, no original inglês, Bombay Time. Como está claro, a história tem Bombaim por ambiente. O primeiro personagem a surgir é um empresário que vai ao um casamento com sua mulher “A bem da verdade – escreveu Thrity Umrigar – ele nem queria ir ao casamento. Os mesmos convidados de sempre, as mulheres cravando seus olhos penetrantes nos dois…” Mais adiante, lê-se o que pensava o empresário sobre a sua cidade: “Quanto mais velho ficava, menos lhe agradava sair de casa, a não ser para ir à própria fábrica. A Bombaim da sua juventude – ao menos aquela que ele guarda na lembrança – dera lugar a uma cidade fétida, apinhada e sufocante, que lhe insultava os sentidos. Pôr os pés na rua equivalia a enfiar uma meia suja, malcheirosa, suarenta e pútrida. Quase em sequência, o homem continua pensando: “E, cada ves mais, a cidade – o barulho, a violência, a poluição, a sujeira – invadia sua casa. Diariamente o jornal aterrissava como um míssil na sua porta. Professora idosa morta em assalto. Ministro envolvido em escândalo financeiro. Ladrões Armados fogem depois de assaltar banco.”

 

Bombaim – lembro eu – em 2011 abrigava 12.478.447 habitantes. Esse número, hoje, deve ter crescido muito. O que Thrity Umrigar usou no seu romance “Um Lugar para Todos” vale para São Paulo, para o Rio de Janeiro, para a minha Porto Alegre e todas as grandes cidades do mundo. Se não forem buscadas soluções visando, pelo menos, a diminuir os nossos problemas, não sei aonde isso nos levará.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o pai dele)