A teoria do furinho na blusa e a autocompaixão

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

            

Foto de Ismael Sanchez no Pexels

Há alguns anos, quando eu ainda tinha um consultório na cidade de Vitória, uma das minhas funcionárias – diga-se de passagem uma das pessoas mais amáveis que já conheci – tinha um comportamento que despertava minha atenção. Ao receber um elogio, seja de um profissional da clínica ou de um cliente, ela não menosprezava o que havia acabado de ouvir e sempre tinha uma resposta que reforçava a veracidade de suas qualidades.

Um dia, ouvi alguém comentar que sua blusa era muito bonita, e ela prontamente respondeu: “Muito obrigada. Eu também acho essa blusa linda”.

Aquilo me fez refletir sobre como lidamos diante da forma como as pessoas pensam e agem sobre nós mesmos.

Semelhante a outras aprendizagens, muito precocemente descobrimos que diante de elogios devemos evidenciar para os outros as nossas falhas, fraquezas ou erros, como uma demonstração de humildade. 

A partir disso, nos tornamos severos conosco. Buscamos modelos de perfeição em tudo que somos e fazemos e, diante de alguns tropeços, temos uma tendência a sermos muito autocríticos, intolerantes com os nossos sentimentos, culpados pelas nossas ações.

Esse exemplo da minha funcionária me fez criar a “teoria” do furinho na blusa. Explico: imagine que alguém diz para você que sua blusa é linda e você prontamente reage alegando coisas como: “mas ela não custou quase nada, ela é tão velha e você não viu esse furinho que tem aqui!”.

Quantas vezes somos admirados, reconhecidos e valorizados por quem somos, mesmo que um pouco desbotados ou com furinhos que marcam nossa trajetória, e não nos apropriamos desse reconhecimento. Pelo contrário, invalidamos o elogio, invalidamos a nós mesmos, com desculpas de não sermos perfeitos.

Queremos saber todas as respostas para o curso que acabamos de iniciar. Queremos bater as metas do mês em seus primeiros dias… Se não somos absolutamente a melhor versão de nós mesmos, automaticamente reconhecemo-nos como uma fraude, um fracasso.

Essa busca exagerada por modelos de perfeição é tão sabotara que em geral nos leva à procrastinação. Deixamos de agir, de concluir tarefas ou até mesmo de aceitar boas possibilidades porque julgamos não estarmos prontos ou não sermos bons o suficiente para as demandas da situação

O curioso é que muitas vezes, somos compreensivos com as demais pessoas, somos solidários com os seus sentimentos e com seus erros, mas elevamos o padrão de exigências conosco, aumentando os sentimentos de culpa. Usamos de dois pesos, duas medidas. Somos mais compassivos com os outros do que com nós mesmos, porque nos esquecemos que as pessoas passam por nossa vida, mas nós permaneceremos nela.

Carecemos de autocompaixão, ou seja, de sermos capazes de agir conosco da melhor forma, com a qual agiríamos com as outras pessoas. 

Seja gentil com você, se perdoe por seus erros, se apoie e seja amável. E quando receber um elogio ou reconhecimento, antes de verbalizar aquelas várias frases prontas capazes de diminuírem suas qualidades, lembre-se do exemplo da blusa, e ao invés de sair mostrando para o outro aquele defeitinho, saiba que ele pode até não ser o detalhe mais virtuoso, mas está longe de representar a totalidade do ser. 

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

De compaixão

 


Por Maria Lucia Solla

É preciso muita, muita compaixão, com os outros e com a gente também. Ouso dizer que principal e urgentemente, com a gente. No entanto, não se exerce compaixão dizendo: coitadinho, pobrezinho, que droga, que azar, que absurdo, nem para o outro e nem para gente mesmo. Compaixão vem atrelada à consciência e se não vier, não é compaixão; é pena pura. É compaixão pirata.

Pena implica ver o outro separado da gente. Quando o outro passa por um momento de dor, pensamos: essa dor é dele, e esconjuramos: vade retro, dor!

Compaixão não. Compaixão não afasta; aproxima, une, reune o que nunca esteve realmente desunido, e é por isso a sensação de êxtase que nasce da compaixão.

Nada é só do outro ou só meu. Dor, alegria, sucesso, derrota, paz ou violência. Não sou eu que digo; há Leis Universais, avalizadas pela ciência, que afirmam isso. Eu só me inquieto.

Quanta compaixão é preciso, neste mundo de meu Deus! Quanto aproximar, quanto perceber, quanto saber onde avançar e onde encolher. É preciso saber dançar, mas dançar tão bem que fique impossível pisar uns nos pés dos outros.

É preciso entender que ‘Somos Todos Um’ não é mantra religioso para arrebanhar adeptos dos ovos de ouro. Somos Todos Um é Lei da Natureza e Lei da Física: a Lei da Unicidade.

Na diversidade planetária, todos os átomos de todos os corpos são iguais; e mais: todos os átomos de todos os corpos vivos e de todos os corpos mortos também são iguais. Energia vibrando em frequência diferente. Na possibilidade infinita da diferença. E ainda nos surpreendemos com diferentes tipos, diferentes comportamentos, e sentimentos. No outro e em nós.

Outra Lei diz que essa energia, que compõe tudo, e da qual somos feitos, vibra; e vibrando se transforma. Cada um no seu ritmo, na sua cadência; corpo, mente e coração em batida frenética pela vida, desde a chegada, até a partida.

E tem mais. As Leis afirmam que tudo o que vibra precisa fluir, e para que flua, precisa estar em desequilíbrio. Assim como o copo que não pode verter o líquido se se mantiver rígido; em pé. É preciso que se curve para nos matar a sede. Resistência igual a dor. O oposto do amor

E ainda nos surpreendemos com o outro, com o comportamento do outro, e somos preconceituosos, e blablabla de manhã à noite sobre o outro, sobre a outra, Sobre a dor da gente, nossa sina, nosso isso, o dele aquilo.

Tenhamos compaixão; a dor de viver é igual em todos nós!

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.

De ilusão

Chove em São Paulo


Por Maria Lucia Solla

ilusão
quero esquecer por um tempo
quem acredito ser
quero não pensar
não ter que escolher
não ter que sofrer

quero me transformar agora
em todos em tudo
e deixar-me visitar
pela dor da perda da guerra do desamor
que revelam tanto horror

quero dar abrigo à solidão
que dividirá espaço com o amor
na mente e no coração

quero encarar tudo
com a mesma garra
todo dia
não quero mais
padecer por ninharia

quero que esse tempo de entrega
vá tomando cada vez
mais tempo do meu dia
para que um dia chegue
a tomar-me
todo o tempo

o dia em que eu contiver e for contida
por todos por tudo
adeus choramingar
à Vida
sem medo nem limite
vou me entregar

no dia em que eu vir claramente
o que hoje me horroriza quanto serpente
assumindo que tem morada em mim
desde sempre
de ontem de amanhã de agora
esse horror todo que vejo lá fora

então
a verdadeira compaixão
vai jorrar de mim
porque você
tão pecaminosamente quanto eu
tem travado contra a Vida
uma luta sem fim

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza cursos de comunicação e expressão. Escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung querendo ser tudo aquilo que já sabemos que é.

De compaixão e dó

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De compaixão e dó na voz da autora

Olá

É difícil aceitar o outro, se não aceitamos a nós mesmos.
É difícil entender a dificuldade do outro,
se não olhamos a vida de frente e não reconhecemos a nossa verdade.
É dificílimo sentir compaixão, quando só o que sabemos é sentir dó e paixão.

Levante a mão quem nunca deixou de aceitar, de entender ou de sentir compaixão.

Sofremos porque no cardápio da vida, entre amor e paixão, preferimos a apimentada, que apesar dos fogos de artifício nos faz sentir sós, mesmo com a casa lotada.

Paixão é íntima da solidão.
Compaixão não; a compaixão é íntima do amor;
Faz que entremos na arena para derrotarmos com o outro, a dor.

Ouvir dizer a torto e a direito, que alguém está apaixonado, enlouquecido,
é corriqueiro,
mas você já ouviu dizer que alguém esteja compadecido?
E olha que a palavra não pertence a idioma estrangeiro.

Na compaixão é impossível se sentir sozinho. Ela traz o “com”, com ela.
É como o sonho do Raul, que se sonha junto.

Compaixão contém paixão, e tem, sim, uma pitada de dó, mas seu ingrediente principal é simpatia.
E simpatia leva você a entrar na realidade do outro, sem armas, sem julgamento, mesmo que de sair não tenha nenhuma garantia.

Dó humilha, vem de cima e te deixa envergonhado
Compaixão não; fica ali, aconchegante, do teu lado.

Dó afasta, mantém distância para não se contaminar.
Compaixão traz a certeza de que o outro não vai te abandonar.

Compaixão é aquele estar ali do amigo, que quando te vê chorando não diz:

“Não chora; para com isso. Isso é jeito ser?”

Ah, então me diz como sofrer e aproveita o embalo, e me ensina a viver.

Eu, estou aprendendo a desistir de explicar os motivos que me fazem chorar, e aqueles que me fazem celebrar.

Não quero convencer ninguém de como dói a minha dor.
E sabe o que mais? Não sou aluno, mas também não quero ser professor.
Assim que eu entender melhor a vida, me despir do ego e deixar minha alma gritar no meio da praça, cada dia meu terá mais motivos de celebração,
e cada dia meu será menos povoado de aflição.

E você, o que me diz disso tudo?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de lingua estrangeira e escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung sempre com paixão.