Parece, mas não é

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Parece, mas não é

A comida parece gostosa, mas não é. A bolsa parece da marca X, mas não é. O casamento parece muito feliz, mas não é.

Parecer é o verbo do momento. Parecer é a moeda de troca do mundo contemporâneo.

Parecer bem sucedido, bonito, bom, legal, interessante… já basta. Aliás, é o que importa.

Se é real mesmo, se é verdadeiro mesmo… que diferença faz? Se parece, é. Aos olhos do julgamento atual, a imagem que você passa e a narrativa que você transmite serão seu valor na sociedade.

“Olha, ela parece tão feliz!”; “Olha, ele mostrando o sucesso dele!”. Pronto, o rótulo já existe, o posto foi conquistado.

Castelo de cartas. Um sopro e tudo cai. Difícil viver criando e sustentando uma vida que não existe no mundo real. Preocupação com cada foto, roupa, imagem, atitude… Hipervigilância, tensão constante, necessidade de se provar e se reafirmar.

Receber elogios é mesmo muito prazeroso. A reflexão aqui é: qual o preço estamos dispostos a pagar para sermos reconhecidos, aplaudidos, “valorizados”?

Aguentamos viver uma vida falsa, trabalhosa de ser construída e mantida? Aguentamos viver em constante ansiedade e apreensão?

O vazio de parecer sem ser… Nem todos os elogios do universo preenchem.

Não ser verdadeiro consigo mesmo e sustentar máscaras custa caro, muito caro. Vamos nos deixar sequestrar ou vamos nos resgatar desse caos?

Parece inimaginável, mas não é. Basta ter coragem de ser. Sem vazios, cheio de si mesmo.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Celulares fora da sala de aula. E da mesa do jantar?

O psicólogo e escritor Jonathan Haidt, autor do best-seller A Geração Ansiosa, não poupa palavras: estamos diante de uma crise de saúde mental provocada pelo uso precoce e excessivo de celulares e redes sociais. Em visita ao Brasil, ele alertou que até mesmo alunos das melhores universidades já não conseguem mais ler. Isso mesmo: não conseguem manter a atenção em um único texto. “Abrem um livro, leem uma frase, fecham e vão para o TikTok”, descreve. A leitura profunda, a reflexão e a concentração foram corroídas por estímulos curtos, constantes e viciantes.

A constatação é mais do que acadêmica — é política. Haidt tem atuado diretamente com congressistas nos Estados Unidos e, agora, no Brasil, para defender duas medidas urgentes: a proibição do uso de celulares nas escolas e a restrição do acesso de menores de 16 anos às redes sociais. A seu ver, estamos pagando um preço alto por ter deixado que a infância fosse sequestrada pela lógica da monetização da atenção promovida pelas Big Techs.

Os dados o apoiam. Desde 2015, ano que ele chama de “ruptura da humanidade”, houve uma explosão nos índices de ansiedade, depressão e automutilação entre adolescentes. As curvas crescem em sincronia com a chegada dos smartphones e da cultura das redes. Os ambientes digitais passaram a ser o lugar onde meninos e meninas buscam validação, enfrentam comparações e, muitas vezes, sofrem em silêncio.

Haidt elogiou o Brasil por debater leis que banem celulares nas escolas e defendeu que o país pode se tornar referência mundial nessa agenda. Mas foi além. Propôs que os governos invistam em playgrounds e espaços de convivência real, onde o corpo volte a ocupar o espaço que a tela roubou. “Precisamos dar às crianças oportunidades para serem humanas novamente”, disse.

É nesse ponto que a conversa sai das salas de aula e entra nas salas de jantar.

Se o poder público pode e deve legislar sobre o uso de celulares nas escolas, quem vai estabelecer regras no ambiente doméstico? Quem vai dizer “basta” à presença de smartphones durante as refeições? Que autoridade terá coragem de afirmar aos filhos que a mesa do jantar é lugar de escuta e de presença, não de rolagem infinita?

A provocação é inevitável: estaremos caminhando para um ponto em que o Estado precisará legislar também sobre o uso de telas dentro de casa? Parece absurdo, mas não mais do que ver pais e filhos em silêncio, lado a lado no sofá, cada um imerso em seu próprio universo digital. A dificuldade de desconectar já não é mais só dos jovens — é dos adultos também.

Haidt nos alerta para uma geração que perdeu habilidades sociais, não sabe iniciar uma conversa, fazer um amigo, ouvir um não. Mas como desenvolver essas competências se o exemplo dentro de casa é o do silêncio digital consentido?

A escola, claro, tem papel fundamental. Mas a formação emocional e os vínculos sociais não se resolvem apenas com leis. Começam no cotidiano, no olhar trocado, no tempo partilhado, na conversa sem tela. Se quisermos reverter a curva da ansiedade, talvez tenhamos que começar pela mais simples — e mais difícil — das mudanças: guardar o celular na gaveta durante o jantar.

Não por imposição legal. Mas por amor.

Quando tudo não cabe no mesmo dia

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Dá tempo?

Tem que caber – dizem.

Em uma vida adulta “saudável”, tem que caber trabalho, atualização profissional, controle do orçamento, organização da rotina da casa, convivência – com qualidade – com a família, alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos, momentos de lazer e… sono, de 7 a 8 horas por noite.

Tem que caber em um dia. Em vários dias. Em todas as semanas, ao longo do mês. Como fazer? Dá tempo?

Vamos começar do fim desse caminho. Reflita comigo: onde você quer chegar? Nessa fase da sua vida, o que tem bastante valor para você? Algumas opções para te ajudar a pensar: destacar-se no trabalho para melhorar o cargo e o salário; organizar a vida financeira para juntar dinheiro para um projeto específico; cuidar mais da saúde física, com exercícios e alimentação; estar mais tempo com a família – envolvendo-se em atividades que conectem vocês…

Precisamos escolher. A vida – de todos, mas especialmente dos adultos – é feita de perdas. Precisamos saber perder, porque será necessário perder. E, se aprendermos a soltar, sobrarão espaço e tempo para o que de fato importa. Para o que mais tem valor no momento.

Desistamos da ilusão do “tem que caber”, “preciso achar tempo pra tudo isso”. Não dá tempo para tudo. Mas dá tempo para o essencial. Para o que é o grande destino dessa fase da sua vida!

Então, antes de sair, anote: onde você quer chegar? Escolha seu grande destino de agora. Organize seus dias, suas semanas, suas prioridades e suas decisões com o olhar nessa direção.

Saboreie o ato de concretizar seus desejos. Não se prenda à fantasia da super produtividade. À armadilha de que tudo caberá.

Liberte-se ao focar naquilo que importa. Para isso, sim, dá tempo!

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: Cris Kerr, da CKZ, diz que líderes que ignoram abusos promovem assédio

Reprodução da gravação do Mundo Corporativo com Cris Kerr



“O silêncio não é neutro.”

Cris Kerr

A omissão diante de um comportamento tóxico dentro das empresas é mais do que um erro: é um sinal de cumplicidade. Quando líderes ignoram atitudes abusivas, reforçam a percepção de que certas pessoas estão acima das regras – e alimentam um ambiente que afasta talentos e adoece profissionais. Essa foi a mensagem central da entrevista com Cris Kerr, CEO da consultoria CKZ Diversidade, ao Mundo Corporativo.

Para Cris, é preciso agir de forma rápida e justa diante de qualquer conduta inadequada. “Se a gente está vendo e não faz nada, estamos dizendo: pode continuar fazendo, porque você é gerente, diretor, e nada vai acontecer com você”, afirmou. A especialista alertou que a responsabilidade recai especialmente sobre a liderança: “O comportamento da liderança dita a cultura da organização.”

Transformação cultural: urgência e ação

O caminho para ambientes corporativos saudáveis exige mudança de cultura e não apenas manuais com boas intenções. “Cultura não é o que está escrito na parede. É o que se vê nas atitudes”, disse Cris. E essas atitudes, segundo ela, começam no topo: “Muitos ainda confundem piada com agressão. E é comum ouvirmos de quem está no comando que ‘é só o jeito dele ou dela’. Não é aceitável.”

A transformação requer treinamento, canais externos de denúncia e ações concretas que demonstrem coerência entre discurso e prática. “Não adianta falar em ética se, na prática, os comportamentos são ignorados. É preciso que a liderança pare de brincar com o que não é brincadeira”, reforçou.

Cris citou o caso de um executivo que fazia comentários inadequados em reuniões, achando que criava um ambiente mais descontraído. “Ele já tinha sido citado duas vezes em canais de denúncia. Quando percebeu que sua imagem e carreira estavam em risco, entendeu a gravidade. Mas muitas vezes é tarde demais.”

Outro alerta importante foi sobre a saúde emocional das equipes. Um ambiente de assédio constante leva à exaustão física e mental. “Frequência de adrenalina e cortisol afeta o organismo. Estamos falando de burnout, depressão e até câncer. É um tema de saúde pública dentro das empresas.”

A pressão da nova geração

Segundo Cris, as empresas que não se transformarem correm o risco de se tornarem inviáveis para as novas gerações. “A geração Z, que em breve representará 30% da força de trabalho, não aceita ambientes tóxicos. Eles pesquisam a cultura da empresa antes de entrar. E se não encontram coerência, vão embora.”

Políticas de diversidade, por si só, não são suficientes. “Assinar um código de conduta no primeiro dia não muda nada. É preciso falar sobre o tema, preparar lideranças e treinar pessoas para serem agentes de transformação.”

Ao ser questionada sobre o futuro, Cris foi direta: “O dia mais feliz da minha vida será aquele em que eu não precise mais ter uma consultoria para falar sobre assédio e discriminação. Quando o respeito for, de fato, um valor vivido e não apenas declarado.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Dona Olívia e a flauta de Hohle Fels

Dr Renan Domingues

@renandominguesneurologia

@o_cerebro_musical

“Sem a música, a vida seria um erro.”
— Friedrich Nietzsche

Em uma caverna chamada Hohle Fels (tradução: “rocha oca”), no sul da Alemanha, arqueólogos descobriram os mais antigos instrumentos musicais conhecidos até hoje: flautas esculpidas em ossos de pássaros e em presas de mamute, datadas de cerca de 35 mil a 40 mil anos atrás. Esses instrumentos são uma evidência concreta de que os seres humanos já elaboravam música muito antes do surgimento da escrita ou da agricultura. A descoberta sugere que a música já ocupava um papel importante na vida social e cultural dos primeiros Homo sapiens na Europa, possivelmente ligada a rituais e vínculos comunitários. Postula-se que tais vínculos tenham representado uma vantagem evolutiva em relação a outras populações humanas, como os neandertais, que eram mais conservadores e demograficamente mais isolados em suas comunidades.

Apesar disso, a pergunta “por que os humanos fazem e ouvem música?” ainda não tem uma resposta definitiva ou consensual. No livro Como a Mente Funciona (How the Mind Works, 1997), o psicólogo cognitivo Steven Pinker propõe que a música não teria um valor adaptativo direto para a sobrevivência ou reprodução — como têm, por exemplo, a linguagem ou a visão, e a define como uma espécie de “sobremesa auditiva” (auditory cheesecake). Segundo Pinker, a música se aproveita de circuitos cerebrais que evoluíram para outras funções, como a percepção da linguagem, a detecção de padrões e a sensibilidade a ritmos motores, mas não teria surgido por pressão seletiva própria.

Ele compara o fenômeno à sobremesa: nossos cérebros não evoluíram especificamente para desejar cheesecakes, mas esses alimentos ativam intensamente os sistemas de recompensa por combinarem gordura e açúcar, elementos valorizados pela evolução. Da mesma forma, a música seria apenas um subproduto prazeroso — e não uma adaptação evolutiva em si.

Em contraste, outros cientistas destacam evidências de vantagens concretas associadas aos vínculos promovidos pela música. Experimentos mostram que cantar e tocar em grupo aumenta a cooperação e o desempenho coletivo. As interações musicais entre mães e bebês auxiliam na regulação da excitação, induzem o sono e fortalecem os vínculos emocionais, favorecendo o cuidado parental, essencial para a preservação da espécie.

Dona Olívia tem 87 anos e é portadora de Doença de Alzheimer. Ela quase não se comunica mais verbalmente, nem mesmo com a filha. No entanto, ao ouvir as músicas de Cartola, consegue cantar as letras na íntegra, lembrando-se delas com nitidez. A filha frequentemente se une a ela nesse repertório, que a Dona Alzira se lembra melhor do que ela, criando momentos de rara conexão. Neurologicamente, isso é possível porque as áreas cerebrais responsáveis pela memória musical são distintas daquelas ligadas à memória verbal e visual, e estão entre as últimas a serem afetadas pela doença. Isso explica a preservação da memória musical de longo prazo.

Além do evidente benefício para o humor da Dona Olívia, esses momentos são resgates emocionais profundos, como ecos do vínculo musical que a mãe estabelece com o bebê, desde a gestação.

Dona Olívia seria uma evidência de que Steven Pinker está enganado? Talvez. Ela é uma prova viva de que o cérebro reserva um espaço específico da sua memória para a música, e dificilmente esse espaço seria preservado para algo irrelevante. Pinker talvez alegasse que, embora significativa para o indivíduo, a música não seria determinante para a sobrevivência da espécie. Ainda assim, o exemplo da Dona Olívia desmonta ao menos a comparação que ele escolheu: por mais saboroso que seja, o cheesecake não dá sentido à vida e pode ser substituído por outros alimentos doces.

Há 40 mil anos, os humanos buscavam esse estímulo gustativo nas frutas que colhiam da natureza. Mas a música, essa nós inventamos e dela extraímos um pouco do sentido que nossa espécie encontra na existência. Afinal, como Dona Olívia nos mostra, sem a música, a vida seria um erro.

Renan Domingues é neurologista e Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. É músico e estudioso da neurociência da música. Escreve a convite do blog do Mílton Jung

Amor e fé caminham juntos?


Diego Felix Miguel

Foto de Hakan Erenler

Hoje à tarde, enquanto caminhava de volta para casa após o trabalho, decidi, diferentemente dos dias comuns, deixar os fones de ouvido guardados. Também deixei de lado os pensamentos voltados ao planejamento das próximas atividades. Quis, naquele momento, apenas me conectar com o que havia ao meu redor — com as pessoas, os movimentos, os pequenos detalhes do trajeto.

Foi assim que notei duas senhoras idosas caminhando à minha frente. Uma delas carregava uma sacola florida e colorida, que parecia guardar um guarda-chuva e uma blusa de frio. A outra usava uma bengala e exibia um sorriso acolhedor, desses que se oferecem sem pressa a quem cruza seu olhar. Conversavam sobre a Semana Santa e faziam planos para participar dos ritos da igreja que frequentavam.

Ao ouvir essa conversa, fui transportado de imediato à minha adolescência. Lembrei de como essa época do ano me era especialmente difícil. As atividades religiosas eram impostas por minha família, sem qualquer possibilidade de escolha ou negociação. Recusá-las era um desafio à fé — para mim, motivo de angústia. Não havia espaço para questionamentos, tampouco para que eu expressasse o que não sentia ou não acreditava. A ameaça implícita era sempre a de uma retaliação divina.

De volta ao presente e ainda tocado por essa lembrança um tanto dolorosa, recordei que, por coincidência — ou talvez por força desse tempo simbólico da Semana Santa — um amigo médico havia me perguntado, dias antes, se eu era adepto da religiosidade, da espiritualidade ou de ambas. A pergunta, feita de forma casual, mexeu comigo. Percebi que aquele acaso precisava ser mais bem elaborado internamente.

É importante lembrar que há muitas pesquisas que apontam a relevância tanto da religiosidade quanto da espiritualidade ao longo da vida, especialmente na velhice. Elas aparecem como fontes de conforto e resiliência diante dos desafios existenciais — como a doença, a finitude e o luto.

Mas é essencial distinguir os dois conceitos. A religiosidade diz respeito à vivência institucional da fé: práticas, rituais, doutrinas. Já a espiritualidade refere-se à conexão com algo maior — com a essência, a transcendência, o divino — e pode surgir a partir de experiências subjetivas, da natureza, da arte, dos afetos. Ambas podem coexistir, mas também podem ser vividas de maneira independente.

Chegando em casa, preparei-me para um cochilo, como de costume. No entanto, antes que o sono viesse, comecei a reorganizar em pensamento essas ideias que agora compartilho neste texto.

Falo, aqui, a partir da minha experiência, sem qualquer pretensão de generalizar: a igreja sempre foi, para mim, um “não-lugar”. Um espaço de não pertencimento. Sempre me pareceu distante — e, em muitos momentos, hostil — às realidades dissidentes, como a minha, de um homem gay.

Ao longo do meu processo de envelhecimento, essa sensação não desapareceu. A maioria dos espaços religiosos ainda me parece insegura. Sinto que, a qualquer momento, posso ser “carinhosamente discriminado” com frases como: “Deus abomina o pecado, mas ama o pecador”. Uma tentativa de acolhimento que, na prática, anula aspectos fundamentais da minha existência — como a sexualidade — e estabelece uma hierarquia moral de afetos e de valor humano. Isso está muito distante do amor que tantas religiões afirmam disseminar.

Acredito que muitas pessoas também se identificam com esse “não-lugar”. E não apenas por conta da sexualidade, mas por diversos aspectos sociais que atravessam nossas vidas: classe, cor, etnia, gênero, origem. Sei, também, que há quem busque enxergar e opinar apenas a partir de suas experiências individuais — e, assim, negar realidades que certos grupos vivem cotidianamente. Ainda assim, é importante nomear o que sentimos. É preciso trazer visibilidade para essas vivências.

A provocação está justamente aí: será que o amor e a fé caminham sempre juntos? Será que há um amor capaz de ultrapassar barreiras culturais e sociais, e envolver indistintamente todas as pessoas em afetos sinceros, livres de julgamentos e condições?

Talvez por isso a espiritualidade me pareça tão essencial. Ela nos permite construir, a partir de nossas vivências e subjetividades, um espaço íntimo e seguro de conexão com o universo. Um lugar onde somos aceitos integralmente, onde podemos ser quem somos, com verdade e liberdade — muito além de cultos, normas ou lideranças religiosas.

Na velhice, essa dimensão torna-se ainda mais significativa. Independentemente de se viver a religiosidade, a espiritualidade ou ambas, o mais importante é sentir-se confortável e seguro nesse encontro com o divino — um encontro único, íntimo e profundo. Um espaço onde todas as pessoas sejam acolhidas em sua plenitude. Porque só assim o amor e a fé poderão, enfim, caminhar juntos.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: Carolina Junqueira, do Grupo Globo, ensina que compliance começa com o diagnóstico dos riscos da empresa

Gravação da entrevista de Carolina Junqueira. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Não se apaixone pelo seu programa de compliance.”

Carolina Junqueira, Grupo Globo

A reputação de uma empresa pode ser abalada por uma única falha ética. E manter o comportamento institucional alinhado com a lei e os princípios morais não depende apenas de cartilhas formais, mas da atuação consistente de lideranças e da criação de um sistema de governança que vá além do discurso. Esse é o foco da entrevista com Carolina Junqueira, diretora de riscos e compliance do Grupo Globo, no programa Mundo Corporativo.

“Entender qual o perfil de risco da empresa e concentrar os seus recursos no enfrentamento daquelas questões é a melhor forma de criar um programa de compliance eficiente”, afirma Carolina. Segundo ela, o compliance não deve ser visto como uma área distante, e muito menos como um “repositório” de problemas que ninguém sabe resolver. “Compliance não pode ser um instrumento de resolução de conflitos, se não existem outros mecanismos na empresa para isso.”

Liderança, confiança e regras claras

A diretora do Grupo Globo destaca que o papel das lideranças é “fundamental para pautar o tom das relações, identificar questões nas equipes e criar um ambiente em que a resolução de conflitos seja possível antes que vire uma questão ética”. Essa perspectiva reforça a ideia de que o compliance não pode ser isolado num departamento, mas deve permear toda a cultura organizacional.

Na prática, isso se traduz em três pilares: clareza das regras, canais seguros de denúncia e atuação independente do compliance. “Quando você tem uma regra clara, fica mais fácil cobrar o cumprimento dessa regra”, afirma. Na Globo, esse conjunto está formalizado no código de ética e conduta, que é conhecido por funcionários, parceiros e prestadores de serviço.

Outro ponto sensível é o sigilo no tratamento das denúncias. “Essa confidencialidade é uma forma de proteger o sistema como um todo”, explica Carolina, ao lembrar que o cuidado com os envolvidos garante a confiança no processo. “As pessoas se sentem mais estimuladas a nos procurar quando sabem que o relato será tratado com respeito e discrição.”

Compliance é para todos

Ainda que muitas vezes seja visto como algo restrito às grandes empresas, o compliance é igualmente relevante para pequenos negócios. “Primeiro, olha o risco que você corre”, alerta Carolina. Até mesmo um pequeno comércio pode ter interações com agentes públicos, estar sujeito a legislações trabalhistas ou correr o risco de falhas éticas no ambiente interno. “Compliance é conformidade com as leis e regulamentos que se aplicam ao seu negócio.”

A recomendação é que, independentemente do porte, o empreendedor identifique os principais riscos do seu setor e adote mecanismos simples para prevenir desvios. Isso pode começar com um código de conduta, um canal seguro de escuta e um comitê ético com autonomia para analisar relatos. “Mesmo em empresas menores, a estrutura pode existir de forma proporcional à realidade”, reforça.

Carolina também aponta que a diversidade nas equipes de compliance é uma vantagem estratégica. “Esse conhecimento do dia a dia, da realidade das pessoas, ajuda muito na avaliação dos casos e gera acolhimento para quem nos procura.”

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast.

Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: seis erros que sua empresa não pode cometer

Identidade indefinida, comunicação incoerente, promessas quebradas e descaso com o consumidor são alguns dos erros capazes de afundar uma marca. Esse alerta foi o tema do comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo no Jornal da CBN.

“Quando a marca não sabe o que ela quer significar realmente, temos um grande problema, porque ela pode ser qualquer coisa”, destacou Cecília Russo ao apontar a falta de uma identidade clara como um dos principais erros. Ela ressaltou também que “mensagens desencontradas ou mudança constante de tom verbal ou identidade visual, ou até mesmo o silêncio” prejudicam profundamente uma marca, já que geram confusão e desconfiança nos consumidores. Por fim, Cecília acrescentou que ignorar ou desconhecer o consumidor “é fatal”, porque as pessoas desejam ser tratadas de maneira única e valorizada.

Jaime Troiano chamou atenção para os perigos das “promessas não cumpridas”. Segundo ele, “marcas que prometem algo e entregam outra causam experiências desagradáveis e perda de credibilidade”. Outro erro destacado foi o descaso com o atendimento ao consumidor: “ignorar feedbacks, demorar para responder ou tratar mal os clientes é sempre imperdoável”, principalmente em tempos de avaliações instantâneas na internet. Além disso, Troiano alertou que “não acompanhar tendências e inovações” pode condenar uma empresa à obsolescência, embora mudanças devam ser feitas com cautela, respeitando a essência da marca.

A marca do Sua Marca

A principal marca deste comentário é o aprendizado com os erros, um guia prático para evitar que as empresas se sabotem e coloquem em risco sua credibilidade e relevância no mercado.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Como acordar?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de cottonbro studio

Abrir os olhos pela manhã, sair da cama, tomar café, escovar os dentes… Pronto: muito simples acordar!

Mas quem nos garante que acordamos?

Acordar, para a medicina, é estar vigil, em estado de alerta. Acordar é estar consciente, conectado aos seus pensamentos e sentimentos e ao mundo fora. Parece bastante complexo, não?

Então, será que, todas as manhãs e ao longo dos dias, estamos mesmo acordados?

Vivemos tempos em que tudo nos distrai: redes sociais, site de notícias, troca de mensagens, memórias negativas, preocupações catastróficas, medo, insegurança…

É, estamos, de alguma forma, alertas. A questão é: para onde estamos olhando?

Toda essa distração tem nos sequestrado das nossas próprias vidas. Comemos sem perceber – “Nossa, já acabou o prato?”; falamos sem pensar – “Por que fui falar isso?”; gastamos dinheiro no impulso – “Só porque estava em promoção…”. Não estamos acordados, vamos nos permitindo ser arrastados.

Quando piscamos, o tempo passou. Quando piscamos, já perdemos momentos especiais, pessoas importantes – já perdemos vida. Lutamos tanto para termos coisas e para sermos reconhecidos e amados… e nem mesmo conseguimos ficar acordados e escolher como viver.

Olha para sua última semana e pensa aqui comigo: você esteve consciente do que sentiu, pensou, fez? Você realmente fez escolhas e executou seus planos com clareza de consciência? Você esteve acordado?

Ainda é tempo. A cada dia, ao abrirmos os olhos, podemos escolher acordar.

Desperte. Sinta a vida acontecer aí dentro de você e venha para o mundo aqui fora, atento – conectado àquilo que realmente importa.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O susto e a raiva

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Pixabay

Existe algo que tem um poder enorme sobre nós, seres humanos: o erro. Vindo de nós mesmos, nos assusta: “Como pude fazer isso?” e nos gera raiva: “Que ódio de mim!” Quando o erro vem dos outros, a intensidade pode modificar – pra cima ou pra baixo – mas eles brotam e incomodam.

Por que o erro nos bagunça tanto?

Um ponto a considerar: o erro nos deixa vulneráveis. Ele mostra que a vida é imprevisível, que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. Verdade dura, realista, mas que insistimos em fingir que não está ali – tanto que temos a ilusão do controle: “Se eu fizer tudo certo, ficará tudo bem”.

Outro ponto: o erro, quando é nosso, nos envergonha, mostra nossos defeitos. Errar é evidência clara e inquestionável da nossa imperfeição. E querer ser perfeito é um desejo que nunca acaba, em nenhum de nós – porque o perfeito é prazeroso, agradável, admirado e amado – quem não quer isso pra si? Então, lutamos pra não errar porque lutamos pra atingir esse lugar ideal – pensa só: um esforço enorme, uma vergonha profunda… pra chegar em um lugar que nem existe. Será que vale a pena?

E quando o erro é do outro? “Provocação, só pode. Como a pessoa ousa fazer isso?” Ah… a autorreferência. Esse nosso hábito de achar que é tudo sobre nós, para nos atingir ou incomodar… Então, parece uma afronta quando alguém erra e nos prejudica. Às vezes, pode até ser. E, muitas vezes, é só a pessoa existindo mesmo. Vamos pensar: já que todo mundo, mais cedo ou mais tarde, vai errar, será que não é mais libertador abandonar essa ideia de que é “contra a gente”? Porque essa tal autorreferência faz as consequências do erro serem ainda maiores – porque transbordam em mágoa.

Fantasia pensar que o susto e a raiva nos deixarão em paz sempre que erros ocorrerem. Em algum nível, eles estarão ali. O convite é: perceber e soltar. Fazer o erro ficar mais leve, para a gente mesmo e para os outros… isso sim está ao nosso alcance.

O susto e a raiva podem se transformar em aprendizado e recomeço. Bem mais agradável, não é?! Escolhamos o caminho da leveza!

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia.