Desculpe-me pela insistência. Volto a falar de ClubHouse porque a rede que privilegia a fala está dando o que falar. Não bastasse ter sido convidado para uma das salas, com o tema Mentoria da Comunicação, voltarei a ocupar o espaço no próximo sábado, ao lado da minha amiga Leny Kyrillos. Comunicação será, mais uma vez, o tema da conversa. Desta vez, baseada no livro que escrevi com a Leny, Comunicar para Liderar. É de 2015. De antes, bem antes da pandemia, e, ao mesmo tempo, muito atual. Quem vai abrir a sala “Comunicar e liderar” para falarmos é Erika Baruco, especialista nas duas áreas: comunicação e liderança.
Da experiência de décadas no rádio — que tem o som como principal instrumento — à participação única no ClubHouse, reuni algum conhecimento que pode nos ajudar nesta nova rede social. No mínimo, evitar alguns tropeços. Para não pensar que o que escrevo a seguir é coisa de marinheiro de primeira viagem (ah, agora virou coaching de ClubHouse, né?!?), informo aos navegantes que conversei com algumas pessoas que entendem do assunto e, também, já participaram do clube.
Bons costumes no Clubhouse:
Ter um moderador(a)
Ter um tema definido
Identificar previamente os pontos de fala de cada integrante
Na abertura, cada integrante se apresentar com no máximo duas frases
Ao fazer uma pergunta, encaminhá-la para um dos integrantes
Enquanto um fala, os outros fecham o microfone
Falar sabendo que outros querem falar
Invista no conteúdo
Frases, palavras e citações importantes devem ser repetidas para que o ouvinte absorva a informação
Importante ilustrar com histórias
Incluir os ouvintes na conversa, sempre
Ao passar a palavra para um ouvinte, antecipar quem será o próximo
Ao responder o ouvinte, citar o nome dele ao fim da fala para que tenha a oportunidade de réplica
Anunciar o encerramento da sala, 15 minutos antes e selecionar quem fará as últimas perguntas
Confesso que nunca fui das maiores folionas de Carnaval, mas admirava aqueles dias de festa, as pessoas nas ruas, a explosão de sons e cores.
Esse ano nosso Carnaval está diferente, como todas as demais festas que foram canceladas por conta da pandemia. A maior manifestação cultural brasileira foi silenciada.
O Carnaval no Brasil teve início no período colonial, como uma brincadeira popular praticada pelos escravos, alguns dias antes da Quaresma, na qual as pessoas saiam às ruas e jogavam umas nas outras líquidos que poderiam ser desde água, café ou até mesmo urina.
No século XIX, houve uma campanha para reprimir essa brincadeira ao mesmo tempo em que surgiam os bailes em clubes e teatros criados pela elite do Império. Apesar disso, as camadas mais populares não desistiam das comemorações de Carnaval e criaram os cordões. Ainda no século XIX, surgiram as marchinhas de Carnaval. No século XX, o frevo, o maracatu, as escolas de samba, os trios elétricos… o Carnaval continuou fazendo história. Se tornou uma das peças da formação da identidade e símbolos do nosso povo.
Retratado em poesias e canções, o Carnaval serviu de inspiração para muitos artistas, com seus ideais de liberdade, de sonhos, de fantasias e do saudosismo trazido com a Quarta-Feira de Cinzas, anunciando o fim da festa.
Exatamente na Quarta-Feira de Cinzas, algumas religiões cristãs iniciam a Quaresma, momento dedicado ao recolhimento e à penitência.
Das inversões produzidas pela pandemia, temos um Carnaval com privações, distanciamento e silêncio.
Quiçá isso seja capaz de reduzir as contaminações e, com as vacinas em curso, possamos logo nos livrar desse mal que nos atinge.
Me sinto como aqueles foliões que na Quarta-Feira de Cinzas ficavam sonhando com o próximo Carnaval. Não porque eu esteja desejando tal data, mas porque vislumbro o momento no qual poderemos sair às ruas, cantar, dançar e nos abraçar como fazíamos em outros carnavais. Parafraseando Chico Buarque, a única epidemia que queremos agora é de uma alegria contagiante: “Vai passar!”.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
A pandemia de COVID-19 exigiu mudanças no padrão de hábitos e comportamentos apresentados em todas as esferas da vida cotidiana. Exemplos disso são as reuniões de trabalho que trocaram os escritórios pelas plataformas digitais; os shows que saíram das casas de espetáculo e foram para as redes sociais; e o consumo de bebidas alcoólicas, que aumentou significativamente e migrou dos espaços públicos para o ambiente doméstico.
Dados da indústria de bebidas alcoólicas indicam um aumento de 25,4% na venda de cervejas no terceiro trimestre de 2020. Esse aumento também foi identificado na comercialização de bebidas alcoólicas pela internet, cujos dados apontam um aumento de 195% nas vendas entre março e outubro de 2020 em relação ao mesmo período do ano anterior.
Um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) corrobora esses dados e indica que 18% dos participantes relataram um aumento no consumo de álcool durante a pandemia, relacionado especialmente às mudanças no estado de ânimo, como o aumento de sentimentos de tristeza.
Apesar desse padrão observado mais recentemente, relatos apontam que o consumo de bebida alcoólica está presente desde tempos remotos, tanto em sociedades primitivas como industrializadas.
As bebidas fermentadas se originaram na Índia, difundindo-se para o Oriente Médio, a Grécia e o Egito e, posteriormente, para a civilização mediterrânea, chegando ao Império Romano. Inicialmente a bebida limitava-se ao uso doméstico, porém, por exigências comerciais, passou a ser negociada em forma de troca.
Derivada da cultura de arroz na Índia e da cevada no Egito, a cerveja foi a primeira bebida alcoólica produzida em grande escala.
No Brasil, antes da colonização portuguesa, a bebida fermentada utilizada pelos indígenas era extraída da mandioca ou de suco de frutas, como caju ou milho, que eram mastigados, misturados, colocados para ferver em vasilhas cerâmicas e, em seguida, enterrados para fermentar por alguns dias.
Com a colonização, foram instalados os engenhos de cana-de-açúcar no Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo, que serviam também para a produção de aguardente, possibilitando que os trabalhadores dos latifúndios se embriagassem.
No cenário internacional, uma mudança significativa no consumo de bebidas alcoólicas ocorreu com a Revolução Industrial, uma vez que o aumento da produção reduziu os preços e aumentou a oferta, tornando-as mais acessíveis.
Se por um lado o consumo de bebidas alcoólicas não é um fato novo, o aumento nesse consumo tem se tornado um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade, com impactos econômicos e sociais, sendo responsável por 10 a 50% das admissões hospitalares, grande parcela de contribuição em acidentes automobilísticos, homicídios, agressão sexual, violência familiar, abuso infantil, problemas ocupacionais e educacionais.
Em baixas doses, o álcool pode promover relaxamento, porém, o uso durante a pandemia, como forma de reduzir a tensão e a tristeza, podem aumentar os sintomas de ansiedade e depressão, promovendo um círculo vicioso. Além disso, o uso frequente pode aumentar os riscos de desenvolvimento da dependência e de outros problemas de saúde, como o aumento da pressão arterial.
Outro fator que deve ser considerado em tempos de pandemia é o aumento do risco de contaminação, uma vez que a pessoa alcoolizada tende a diminuir as medidas de proteção recomendadas contra o vírus.
O álcool carrega em si essa característica paradoxal: por um lado traz relaxamento a curto prazo; por outro, está envolvido em situações de violência e agressão e em casos de doença, como o próprio alcoolismo e aumento do risco de contaminação pelo coronavírus.
Essa linha divisória entre o consumo moderado e os transtornos relacionados ao uso do álcool nem sempre é tão nítida.
Se o consumo da bebida alcoólica é percebido como uma válvula de escape e está associado a relaxar e esquecer os problemas, isso pode ser um enorme sinal de alerta. Nesse caso, o consumo exagerado deve ser avaliado não apenas pela quantidade e frequência, mas também pelos prejuízos que o álcool possa trazer para si e para quem está à sua volta.
Bebida alcoólica não é remédio. Bebida alcoólica não é terapia. Realizar atividades físicas e de lazer podem contribuir de maneira significativa para aliviar o estresse. Medidas de prevenção e tratamento em saúde mental são mais eficazes e duradouras aos efeitos psicológicos causados pela pandemia.
Além disso, passado o efeito do álcool os problemas ainda existirão e, mais do que isso, o álcool pode potencializá-los. E, vamos combinar, de problemas e pandemia já estamos fartos!
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Covidão Parlamentar, Covidfesta ou o Regabofe dos Desmascarados. Deem o nome que quiserem para o evento que comemorou, na madrugada de terça, em Brasília, a vitória de Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados —- deputado-réu por peculato e lavagem de dinheiro e investigado por sonegação fiscal —-, promovida na casa do empresário Marcelo Perboni, acusado de fraude tributária por ter se apropriado indevidamente de R$ 3,8 milhões. Com mais de 300 convidados, amigos e inimigos políticos rebolando no mesmo palco, ao som de forró (a música não tem culpa de nada), e desfilando sorrisos sem máscara, todos foram protagonista de uma festa que se transformou em metáfora do Brasil. Para onde você olhar, vamos enxergar um pouquinho do que é o país em que vivemos.
Com quase 227 mil mortos por Covid-19, parcela dessas pessoas vítima, direta ou indireta, do descaso com a doença; do desrespeito a regras sanitárias; de gente que nega a pandemia. Uma gente que não usa máscara e está pouco se lixando para as aglomerações —- lá estavam os 300, representando os brasileiros que assim agem.
Eram 300, coincidência, os picaretas que Lula, em 1993, acusou existirem no Congresso Nacional. O mesmo Lula que agora é defendido com unhas e dentes pelo líder do Governo Bolsonaro, Ricardo Barros —- como ouvimos, ontem, no Jornal da CBN. Sim, o líder de Bolsonaro fala como advogado de defesa de Lula. Vá entender !?! Eu entendo. Acho que você, também. Estão todos na mesma festa.
A festa ainda nos remete a ideia de que caiu a máscara do Governo Bolsonaro e seus defensores, que chafurdaram no lodo político — e comemoraram — ao negociar emendas parlamentares, abertamente, para comprar aquilo que o ex-governador Antonio Britto chamou de “seguro-mandato” — em entrevista também no Jornal da CBN. Diga-se: negociação que não é privilégio deste governo; é da “velha política” que pauta este governo.
A inexistência de máscaras também é simbólica quando se percebe que a turma Anti-Lavajista circula no parlamento e no noticiário falando descaradamente contra o combate à corrupção. Um pessoal que diante dos descalabros e falcatruas, cochicha nos gabinetes e planeja conchavos para se proteger. E fala grosso contra quem investiga —- ouça a entrevista de ontem. Registre-se, motivos não faltam para reclamações de abusos e erros cometidos durante os processos, mas nada que esteja a altura do roubo coletivo que o Brasil foi vítima nos últimos anos.
No balanço das cadeiras, com rebolados sem jeito nem constrangimento, a festa de Lira, por fim, teve cenas de hipocrisia explícita. O celebrado havia encerrado, horas antes, seu discurso da vitória no parlamento, de máscara — porque em público — e chamando a atenção do Brasil para o momento mais devastador da nossa história provocado pelo vírus da Covid-19 e alertando: “temos que vacinar, vacinar, vacinar o nosso povo”.
O momento é realmente devastador — na política, inclusive.
Na sociedade contemporânea, aprendemos a viver correndo com falta de tempo, estresse, agitação e quase nos vangloriamos ao dizer: “sou muito ansioso!”. Será que a ansiedade pode ser uma aliada para atingirmos nossos objetivos ou será que serve apenas para nos causar sofrimento? A ansiedade é uma resposta adaptativa que o nosso organismo apresenta diante de ameaças ou perigos reais, como forma de proteção.
Ao nos depararmos com situações que oferecem riscos, o sistema nervoso simpático entra em ação e produz reações para podermos, por exemplo, fugir e sobreviver. Imagine-se diante de um animal selvagem com potencial de ataque. Numa condição como essa, algumas substâncias são liberada — cortisol e adrenalina, por exemplo — aumentando os batimentos cardíacos, a contração muscular e a frequência respiratória.
A ansiedade, de certo modo, também nos permite criar estratégias para resolvermos problemas ou enfrentarmos situações desafiadoras. Isso acontece, apenas para ilustrar, quando estudamos para uma prova ou nos preparamos para uma entrevista de emprego. Nesses casos, percebemos os efeitos motivadores da ansiedade.
Entretanto, nem sempre a ansiedade é essa força que nos impulsiona ou nos auxilia a superar desafios. Em alguns casos, pode se tornar um problema, muitas vezes de saúde mental, como nos transtornos de ansiedade.
Os transtornos de ansiedade são os transtornos psiquiátricos mais prevalentes na população, atingindo aproximadamente 28% dos adultos ao longo da vida.
Esses transtornos são caracterizados por preocupação excessiva, persistente e incontrolável, inquietação, irritabilidade, tensão muscular e insônia; geram sofrimento intenso e grande impacto na funcionalidade, isto é, na capacidade de realizar as atividades cotidianas como estudar, trabalhar ou se relacionar socialmente.
A preocupação excessiva e os medos, especialmente para situações que não oferecem risco potencial, geram pensamentos catastróficos e desencadeiam as reações físicas que são extremamente desagradáveis, como taquicardia, sudorese e tontura.
Diante disso, é muito comum o comportamento que chamamos em psicologia de esquiva: o afastamento do que nos causa a ansiedade. Como num círculo vicioso, quanto mais nos afastamos, mais reforçamos a ideia de que, possivelmente, não somos aptos a lidar com aquela condição, e isso aumenta a percepção de ameaça, potencializando os sintomas da ansiedade.
Se por um lado a ansiedade nos protege, em excesso nos aprisiona pela preocupação excessiva, pelos pensamentos catastróficos e pela percepção de impotência diante das incertezas da vida. A dificuldade em tolerar o que não podemos controlar nos torna menos confiantes, e isso impacta diretamente a nossa capacidade de ser produtivo ou atingir objetivos.
Em decorrência da pandemia, diversos estudos têm apontado um aumento dos transtornos de ansiedade em todo o mundo. Dentre os principais fatores que contribuem para esse aumento estão o medo do adoecimento, as incertezas sociais e financeiras e o isolamento social.
Algumas medidas podem ser adotadas para reduzir os níveis de ansiedade: lidar com os pensamentos como hipóteses e não como fatos; realizar atividades prazerosas e relaxantes, como atividade física e meditação; praticar a atenção plena.
A atenção plena ou mindfulness é caracterizada pela manutenção da atenção na experiência presente. Significa sair do piloto automático e realizar as atividades mantendo o foco, a consciência no que se realiza aqui e agora.
Nossas preocupações em geral nos levam para o futuro. Perdemos muito tempo e energia elaborando estratégias e resolvendo problemas que ainda não existem. Talvez, inclusive, nunca venham a existir. E se existirem? Não tem preparo prévio para enfrentarmos as durezas da vida. Um dia por vez. Uma atividade por vez. A antecipação exagerada pelo futuro nos rouba o momento presente. É só por hoje.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Na terceira temporada da série The Crown, a mãe do príncipe Philip de Edimburgo, a princesa Alice de Battenberg, se muda para o Palácio de Buckingham e numa conversa com seu filho lhe faz a seguinte pergunta: “como está a sua fé?”. O príncipe responde que sua fé está dormente e, diante disso, a princesa diz que lhe dará um único conselho, como um presente que uma mãe dá para um filho e sugere: “encontre uma fé para você”.
Longe dos registros palacianos ou de cenas de ficção, o momento presente talvez reforce a necessidade de tal conselho. Encontre uma fé. Não falo da fé vinculada apenas com religiosidade. Falo da fé como sinônimo de esperança.
E não foi isso que experimentamos na última semana?
Depois de tantos meses de sofrimento imposto pela pandemia, um sentimento coletivo tomou conta de nós. O início da vacinação foi um alento. Um sopro de esperança de que num futuro próximo muitos leitos de hospitais serão desocupados, o número de mortes por COVID-19 será reduzida significativamente e a retomada da vida cotidiana com mais segurança, dentro de abraços apertados e de momentos festejados, se tornará novamente uma realidade possível.
Se por um lado esse sentimento de esperança foi coletivo, infelizmente algumas atitudes adotadas evidenciaram uma sobreposição de motivos individualistas para burlar as regras de vacinação. Com quantidade escassa de doses de vacina para a população brasileira, em diversas localidades do Brasil foram relatados casos de “fura-fila” — termo usado para pessoas que não estão no grupo prioritário do plano de imunização.
Quais os efeitos que uma pandemia pode ter sobre nós?
Fiz essa mesma pergunta em 19 de março de 2020. Naquele momento, diante das dúvidas que surgiam com o início da pandemia, havia uma certa tendência a comportamentos de estocagem de produtos de higiene e de alimentos, como recurso ilusório de que isso garantiria a sobrevivência, numa busca frenética por salvar a si mesmo. Se há algo que aprendemos durante a pandemia – ou deveríamos ter aprendido — é que atitudes individualistas, seja estocar papel higiênico, não usar a máscara ou furar a fila da vacinação, amparadas no coro do “eu mereço”, trazem consequências desastrosas ao coletivo.
Todos desejamos e temos direito à vacina, à vida. Todos.
A vacina nos renovou a esperança. Renovemos também a paciência. Paciência pela nossa vez. Esperança de que em breve alcançaremos o que tanto desejamos.
No início da pandemia descobrimos que a ação de cada um afeta a todos, descobrimos que precisamos uns dos outros. Ainda precisamos. Será no respeito mútuo, na espera confiante, no uso das máscaras, nas medidas de distanciamento, no apoio que damos uns aos outros que conseguiremos vencer.
Ainda em The Crown, o Príncipe Philip menciona a coragem da princesa Alice para superar as torturas sofridas em sua vida. Ela diz: “eu não superei sozinha. Não teria conseguido. Eu tive ajuda a cada passo do caminho”.
Não conseguiremos sozinhos. Como numa série, nessa temporada, a última coisa que precisamos é de manifestações egoístas. Falta pouco para o término… Mas, infelizmente, ainda temos alguns episódios pela frente. Com fé em um final feliz!
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Uma das coisas que eu mais admiro no meu cachorro, o Luke, é a sua disposição. Se na sua chegada em nossa casa isso causou um reboliço na dinâmica doméstica por conta da sua energia e poder de destruição – comia de rodapés a roupas –, hoje é algo que me causa certa inveja. Me explico: O Luke pode ter dormido pouco ou estar cansado, mas quando ouve o barulho das chaves anunciando que alguém chegou, se levanta e vem prontamente, abanando o rabo, feliz por estar conosco. Não existe cansaço que o impeça de se alegrar na nossa presença.
Todas as manhãs, ele vem animado, chega pertinho, pede um afago, como se não nos víssemos há tempos. Não existe mau humor, desânimo, indiferença. Busca um brinquedo para que a gente corra atrás dele. Chego a pensar que faz isso por nós… pega o brinquedo e nos distrai, nos diverte, acreditando que aguardamos por esse momento (e no fundo aguardamos).
Fontes históricas revelam que a interação entre os humanos e os animais acontece há milhares de anos.
Quando o homem assumiu o sedentarismo, começou a domesticar animais numa tentativa de ter uma fonte de alimento mais acessível, já que se alimentava basicamente de caça e de alguns frutos. Aos poucos essa relação foi se modificando, e alguns animais também assumiram a função de ajudar na preservação da espécie humana, protegendo mulheres e crianças.
Evidências arqueológicas registram a relação entre os humanos e os cachorros. No sul da França, foram encontradas pegadas de uma criança que caminhou ao lado de um cão, há aproximadamente 26 mil anos. No Egito, pinturas encontradas na tumba de Ramsés retrataram o Faraó com seus cães de caça. Os cães eram enterrados com seus donos para fazer companhia aos faraós após a morte. Na Grécia Antiga, os cães eram criados para companhia, proteção e caça. Na Roma Antiga, o cachorro não apenas protegia as pessoas de animais selvagens, mas era visto como capaz de afastar ameaças sobrenaturais.
A relação entre humanos e animais evoluiu para funções afetivas, capazes de promover, inclusive, benefícios terapêuticos.
Diversos estudos demonstram que a utilização terapêutica de animais promove ganhos em diversas condições clínicas, como transtornos mentais, com benefícios no bem-estar, na saúde física e mental, na socialização e nos aspectos cognitivos.
Um estudo realizado por pesquisadores do Espírito Santo mostrou que sessões semanais de Terapia Assistida por Animais (TAA) com idosos institucionalizados promoveu maior controle da pressão arterial, além de momentos de alegria e relaxamento naquele grupo.
Em dezembro de 2020, foi publicado um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Missouri, nos Estados Unidos, indicando que a adoção de gatos por famílias com crianças autistas promoveu uma melhora nas habilidades sociais, com aumento da empatia, e redução da ansiedade de separação nessas crianças. Esse estudo também chama a atenção para o fato de que crianças com autismo podem ter problemas sensoriais, sendo mais sensíveis a ruídos altos, sendo o gato um animal reconfortante, especialmente se tiver um temperamento mais calmo.
Muitas pessoas têm histórias incríveis para contar sobre seus animais. Permita-me revelar um pouco a minha: durante muitos anos eu senti um medo inexplicável por animais. Não conseguia me aproximar ou conviver com eles. Isso me rendeu situações de vergonha, especialmente quando eu visitava pessoas que tinham animais. Eu desejava conviver com os ´´pets“, mas não conseguia.
Um dia, ouvi da minha filha que era muito difícil, por mais que desejasse, modificar um comportamento, adotar uma nova postura e superar uma condição que lhe causava muito sofrimento. Eu estava pronta para dizer que sempre podemos mudar e superar uma condição, mas me vi ali, aprisionada pelos meus medos e com dificuldades em enfrentá-los. Imediatamente perguntei: você acha que seria possível eu superar o meu medo de cachorros?
Fiz-me essa mesma pergunta várias vezes.
Foram alguns meses elaborando a ideia, me aproximando dos animais – não sem sofrimento.
A chegada do Luke foi planejada, desejada e calculada. Não exatamente nessa ordem. Os primeiros dias foram difíceis. Não por ele, mas pelo meu medo que ainda insistia em se fazer presente. Mas eu não desisti. Insisti e não resisti ao amor que ele ia despertando em mim, numa proporção que eu não imaginava ser possível.
Luke foi terapêutico, não apenas para mim, mas para todos em casa. Ganhamos em conversas, em risadas, em momentos de recreação em família.
Não tenho mais medo de animais. Não apenas do Luke, mas dos outros também. Às vezes olho para ele e penso: sorte a minha, Luke! Sorte de todos aqueles que podem sentir um amor tão genuíno que um animal de estimação nos é capaz de oferecer.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
A cada nota ou notícia com fatos do assédio de um deputado paulista à colega em plenário aumenta um grau no meu termômetro de indignação. Falei do caso no Jornal de sexta. Após a reportagem, compartilhei com o ouvinte minha posição diante do assunto —- a qual voltarei a registrar aqui. Relutei em retomar o tema neste blog, por imaginar que pouco teria a dizer, aos caros e raros leitores, além do que está gravado e, principalmente, do que jornalistas mais bem preparados, mulheres bem posicionadas e analistas disseram desde a divulgação do vídeo. Engano meu. Sempre há o que dizer. Sempre temos o que dizer. Por que todos têm. E usam seu direito à palavra.
Na sexta-feira, assim que comentei a vergonha do ato do deputado Fernando Cury (afastado do Cidadania) contra a deputada Isa Penna (PSOL), o primeiro e-mail que recebi foi de um ouvinte me alertando que o jornalista deve ser imparcial diante da notícia —- mensagem que se repete toda vez que o jornalista noticia ou comenta um fato que vá no sentido contrário daquilo que pensa o mensageiro.
Hoje, em nota no painel da Folha, soube-se que 15 deputados estaduais de São Paulo —- entre homens e mulheres — também se sentiram no direito de se expressar e foram ao gabinete de Cury se solidarizar —- sim, eu disse no de Cury, o agressor; não no de Isa, a vítima. E foram abraçá-lo porque Cury “é um cara gente boa” e a Isa “é complicada” —- assim definiu um parlamentar ouvido pela Folha. A nota do jornal não deixa claro se o abraçaram por trás, passando as mãos em seus mamilos e escorrendo-as até a cintura como ele diz que costuma fazer “com diversas colegas, aqui, de abraçar e estar próximo”.
Nesta semana ainda, em outra situação, um juiz de São Paulo —- com o rosto e o nome escondidos porque o caso está em segredo de justiça —-, também disse o que pensa quando julgava o caso de uma mulher que acusa o ex-marido de violência doméstica: “Se tem lei Maria da Penha contra a mãe (sic), eu não tô nem aí. Uma coisa eu aprendi na vida de juiz: ninguém agride ninguém de graça”. O vídeo foi reproduzida pelo portal Papo de Mãe, das jornalistas Mariana Kotscho e Roberta Manreza.
A imagem registrada no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo é clara. O deputado Fernando Cury conversa com mais dois colegas, olha para a deputada e se dirige até ela. Antes de sair do pequeno grupo de amigos, ainda é puxado pela manga por um deles — não se sei para impedi-lo de algo que ele disse que faria, para incentivá-lo ou qualquer outra coisa que somente o próprio poderá esclarecer. A deputada está diante da mesa diretora da Assembleia e conversa com o presidente da casa no instante em que Cury chega, encosta seu corpo no dela, por trás, e toca um dos seios da deputada com a mão direita que, em seguida escorrega até a cintura dela. Isa o empurra e ele insiste em colocar a mão no ombro dela com cara de ingênuo, do tipo “o que é que eu fiz?”.
Que fique claro —- como reforcei na descrição que levei ao ar no Jornal da CBN —, o que ele conversou com seus colegas antes da importunação sexual, o que um dos parlamentares disse quando puxou o braço dele e o que se passou na cabeça de Cury no momento em que decidiu agir daquela maneira, não temos como saber, apenas supor.
Já a cena de importunação é explícita. E quanto a esse comportamento é preciso que o Conselho de Ética da assembleia paulista se pronuncie o mais breve possível. Soube-se ontem pela presidente do conselho, a deputada Maria Lucy Amary (PSDB), que em virtude do recesso parlamentar o caso somente será discutido no ano que vem. Lamentável. Espero que a deputada Amary tenha noção da relevância do papel dela diante do fato e impeça que o espírito de corpo fale mais alto.
O que Cury fez em plenário também acontece em outros ambientes, a medida que aumenta a presença feminina em espaços antes dominados por homens.
A pesquisa Percepções sobre a violência e o assédio contra mulheres no trabalho (Locomotiva / Instituto Patrícia Galvão, dezembro 2020) mostra que 36% das trabalhadoras dizem já haver sofrido preconceito ou abuso por serem mulheres, no Brasil; um índice que sobe para impressionantes 76% quando as trabalhadoras são apresentadas a diversas situações de abuso como gritos e xingamentos; discriminação em razão da aparência, raça, idade ou orientação sexual; controle excessivo e críticas constantes; agressão física; elogios constrangedores; assédio e estupro. Em apenas 28% dos casos relatados, a vítima soube que o agressor sofreu alguma consequência. A impunidade fortalece o agressor e fragiliza a mulher.
São Paulo e o Brasil têm o direito de saber as consequências do caso do deputado Fernando Cury. E a punição que receberá tem de estar a altura do ato que cometeu —- que por si só já é grave — e do local em que cometeu este ato. Porque o fez no plenário de uma casa legislativa, espaço destinado ao exercício da Democracia — e ele a desrespeitou, também. A atitude de Cury mostrou o que pensa sobre a presença das mulheres na política. Sinalizou em público como acredita que as mulheres devem ser tratadas no seu cotidiano. E por isso cabe punido, publicamente, como uma mensagem de que não toleramos mais esse tipo de comportamento.
Permita-me começar esse texto apresentando três situações: você está indo da sala para a cozinha e quando chega lá percebe que não se recorda o que foi fazer; está trabalhando online e quando se dá conta tem várias janelas abertas no computador e se vê entretido com um produto em promoção e esquece a tabela que estava fazendo para entregar para o seu chefe; se propõe a arrumar o seu armário, encontra umas fotos antigas, começa a vê-las… e o armário? Puxa! A hora passou depressa e você percebe que não dá mais tempo para arrumá-lo.
Alguma dessas situações lhe parece familiar?
Se essas experiências não ocorrem com frequência e não causam prejuízos significativos no dia a dia, como no trabalho ou nos estudos, na maioria das vezes não indicam uma falha no funcionamento cerebral, apenas uma dificuldade esporádica da memória de trabalho.
A memória de trabalho refere-se à capacidade de reter informações que serão usadas em ações que estão em curso ou que acontecerão num futuro próximo, mantendo essa informação enquanto ela é útil. Isso acontece, por exemplo, enquanto você lê esse texto. Você não memoriza cada uma das palavras na ordem que estão escritas, como uma lista de palavras que deva decorar, mas armazena cada uma delas até chegar ao fim da frase, de modo que consiga compreender o sentido do texto.
A memória de trabalho não se limita ao armazenamento temporário de informações; também envolve o controle atencional, como manter o foco numa tarefa e inibição do comportamento.
Para a maioria das pessoas, as falhas na memória de trabalho serão casuais, podendo ser decorrentes do aumento do estresse, ansiedade ou uso de bebidas alcóolicas, e não caracterizam um problema persistente. Entretanto, prejuízos na memória de trabalho podem estar associados a algumas condições clínicas, como esquizofrenia, síndromes demenciais e Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH).
O Transtorno de Déficit Atencional com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, com início na infância, caracterizado por níveis prejudiciais de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade.
A desatenção e desorganização envolvem, entre outras coisas, a dificuldade de prestar atenção a detalhes, cometer erros por descuido, iniciar tarefas e não concluir, dificuldades no manejo do tempo, relutância em atividades que exijam esforço mental prolongado e esquecimentos relacionados a atividades cotidianas.
A hiperatividade e impulsividade envolvem, por exemplo, dificuldades em permanecer sentado, remexer ou batucar mãos e pés, inquietude, responder antes que uma pergunta tenha sido concluída e dificuldades para aguardar sua vez, como numa fila.
Diversos estudos têm sido publicados mostrando os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre a saúde mental de crianças e adolescentes, indicando um aumento da irritabilidade, da desatenção e agitação, independentemente da faixa etária, exigindo desafios que podem ser mais acentuados para os que têm TDAH.
Crianças e adolescentes com TDAH parecem mais vulneráveis ao confinamento, possivelmente pelas dificuldades no estabelecimento de rotina, organização e conclusão das tarefas, com tendência à procrastinação.
Adolescentes mais ansiosos, entediados ou apáticos, podem apresentar alterações comportamentais, aumentando a probabilidade de conflitos familiares, como as brigas.
Quando olhamos para esse cenário, percebemos que mesmo adultos que não apresentam TDAH, em decorrência do isolamento social e das mudanças provocadas pela COVID-19, também têm experimentado sintomas semelhantes, seja na capacidade atencional, na memória de trabalho ou nos comportamentos, mais ansiosos ou com aumento da irritabilidade.
Se por um lado corremos o risco de patologizar todas as características cognitivas ou comportamentais apresentadas na pandemia, por outro lado, corremos o risco de negligenciar sintomas que podem sugerir condições clínicas que demandam tratamento especializado. Na dúvida, uma avaliação médica ou psicológica deve ser feita. Porém, se algumas falhas forem corriqueiras e não trouxerem maiores prejuízos, talvez seja o momento de aproveitar aquela liquidação — numa das muitas abas abertas no seu computador — ou resgatar boas memórias naquelas fotos que você encontrou!
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Um homem negro foi espancado até a morte, na garagem de uma das lojas do supermercado Carrefour, no bairro do Passo da Areia, zona norte de Porto Alegre. Logo na minha Porto Alegre, como gosto de me referir à cidade em que nasci, aprendi, amei e sofri. Logo lá! Foi o que pensei quando li a notícia na abertura do Jornal da CBN desta sexta-feira marcada pelo Dia da Consciência Negra. Logo tu, Porto Alegre, de onde saí em 1991 e trouxe um carinho especial pelas pessoas que me cercavam e o orgulho por ter entendido quão rica culturalmente e diversa é a capital gaúcha — após anos de passeios noturnos do Bom Fim à Cidade Baixa, dali para o Menino Deus, com paradas no Ocidente, no Opinião, no Bar do Pio e outros locais tão anônimos quanto eu que os frequentava muitas vezes sozinho, e acompanhado de uma bebida qualquer.
Sim, foi de Porto Alegre que o repórter da rádio Gaúcha Tiago Boff falou ao vivo no programa e relatou como João Alberto Silveira Freitas, o Beto, um homem negro, de 40 anos, aposentado por invalidez, após um suposto desentendimento com a fiscal de caixa, foi levado por cinco pessoas para fora do supermercado — eram três homens e duas mulheres —- e espancado por dois deles, e pisoteado, e sufocado até morrer. A mulher de Beto, que havia ficado para pagar a conta do supermercado, para o qual os assassinos de seu marido trabalham, encontrou-o no chão e em tempo de ouvir seu último desejo: “Emilia me ajuda”. Não deu tempo, ele morreu com os dois homens ainda prensando-o no chão com o uso dos pés.
Emília agora chora porque não pode ajudar o marido. Chora o pai de Beto, Joao Batista Rodrigues, de 65 anos, que teve de reconhecer o corpo do filho no DLM, lá na avenida Ipiranga — contramão para quem mora no Passo da Areia como a família de Beto. Eles moram —- Beto não mora mais — pertinho do supermercado, são clientes e o pai diz que até fez o cartão de compras por sugestão do filho. Programa de fidelidade que será “recompensado” com as custas do funeral, o “suporte necessário” e um lamento impresso em nota assinada pelo Carrefour.
Saber que Porto Alegre estará na boca do mundo por essa lamentável e irreparável ocorrência me entristeceu nesta manhã —- o que foi percebido pelo sempre observador Dan Stulbach, na conversa do Hora de Expediente. Minha tristeza, lógico, não se constrói apenas por um sentimento paroquial. É muito maior pelo crime cometido. E acrescida por perceber que vivemos em um país onde muita gente ainda é capaz de relativizar a violência imensurável sofrida por negros, seja lá na minha Porto Alegre, seja aqui na minha São Paulo, seja onde for.
Por mais que houvesse pessoas solidárias ao drama da família e indignadas com o ato que expressa o racismo estrutural da nossa sociedade —- transformando-se em dose de bom senso e esperança —-, confesso que doeu no coração saber que há aqueles que são tão incapazes de se sensibilizar com esse comportamento quanto rápidos em criticar quem o denuncia. Poucos minutos após o relato jornalístico das barbaridades cometidas contra Beto, um homem negro, na minha Porto Alegre, alertas de mensagens piscaram na tela do computador.
Por que destacar que a vítima é negra? Se fosse branco, você diria? Se fosse branco, não teria a mesma importância? Quem disse que ele foi morto porque é negro? Racismo é isso que vocês fazem! Cadê a ética jornalística? Todas as vidas importam. Vocês tem de ser isentos!
Exclamações e interrogações de mãos dadas com a fatídica conjunção coordenativa de adversidade: …. não se deve matar, mas quem disse que …; eles erraram, mas o cara …; o mas —- que lá na minha Porto Alegre é pronunciado com o som do a fechado — sempre surge distorcendo o fato e querendo por dúvidas onde só temos uma certeza: o racismo existe e é praticado diariamente no Brasil.
O negacionista surge travestido de defensor da moral e dos bons costumes. Pede isenção quando o que quer é ser isento de punição. Só lembra de soletrar a palavra igualdade quando tenta impedir a implantação de políticas afirmativas. Fala em discriminação invertida onde o que existe —- e se exige — é discriminação positiva, aquela que estabelece equilíbrios e garantias para pessoas que historicamente foram excluídas pela sociedade. Surrupia o nome do crime que comete ao questionar o discriminado.
Beto foi morto porque é negro. Porque se branco fosse, seria oferecido a ele a abordagem do gerente do supermercado e não a intervenção violenta dos seguranças. Morreu porque é negro e morreu lá na minha Porto Alegre! Que triste!